
O cancelamento virtual tem se consolidado como uma forma relevante de engajamento nas mídias sociais, envolvendo práticas de punição pública e retirada de apoio a alvos considerados moralmente reprováveis. Apesar do crescente interesse no fenômeno, ainda são escassos instrumentos com evidências psicométricas adequadas para mensurar o engajamento dos indivíduos nessas práticas. Este estudo teve como objetivo desenvolver e reunir evidências de validade para uma medida de engajamento comportamental em cancelamento virtual. Para tanto, foram conduzidos dois estudos. No Estudo 1 (N = 20), entrevistas semiestruturadas foram analisadas por meio de Classificação Hierárquica Descendente, permitindo a identificação de diferentes formas de engajamento no fenômeno e subsidiando a elaboração dos itens. No Estudo 2 (N = 212), análises dos componentes principais e análise paralela indicaram uma estrutura de dois componentes, composta por retaliação (ações ativas de exposição e punição) e boicote (estratégias de retirada de apoio), que apresentaram índices de consistência interna adequados. Os resultados sugerem que o cancelamento virtual pode ser compreendido como um conjunto de comportamentos distintos, organizados em formas ativas e passivas de engajamento, que buscam reforçar, por diferentes vias, uma norma social tida como violada pelo alvo do cancelamento. A escala desenvolvida apresenta evidências iniciais de validade e precisão, contribuindo para o avanço da investigação empírica sobre o fenômeno.
O movimento feminista promoveu transformações significativas, permitindo maior participação das mulheres na sociedade. No entanto, questões como o envelhecimento ainda são pouco exploradas nesse contexto. Este estudo investiga como mulheres ligadas ao movimento feminista percebem o envelhecimento e como essa percepção se relaciona com a educação. Utilizando o Questionário de Autopercepção do Envelhecimento (QAPE), foram entrevistadas 225 mulheres entre 18 e 75 anos, sendo 81,78% simpatizantes e 18,22% participantes ativas do feminismo. Os resultados revelam uma percepção majoritariamente positiva do envelhecimento, com altos escores nos domínios de consequências positivas e controle positivo. A maioria das participantes discordou de afirmações desfavoráveis sobre o envelhecimento, indicando uma visão otimista dessa fase da vida. A representação subjetiva do envelhecimento foi predominantemente cronológica e positiva, sugerindo que as participantes encaram o envelhecer como um processo natural. Esses resultados destacam a importância de incluir o envelhecimento como pauta central no feminismo, ampliando a discussão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres idosas, especialmente no âmbito educacional. O estudo contribui para a promoção de representações mais positivas da velhice e para a construção de políticas educacionais inclusivas que atendam às necessidades das mulheres em diferentes fases da vida.
Esta pesquisa teve como objetivo comparar as condições de trabalho e os níveis de depressão, ansiedade e estresse apresentados por professoras e professores no contexto da pandemia por COVID-19. Trata-se de um estudo quantitativo, com delineamento transversal e comparativo, que teve a participação de 2.421 docentes, sendo 1.776 mulheres e 645 homens, com idade média de 42,64 anos. Os participantes atuavam em diferentes níveis de ensino no Brasil. Os instrumentos utilizados foram um questionário semiestruturado acerca das condições de trabalho e a Depression Anxiety Stress Scale-21 para avaliação de indicadores de depressão, estresse e ansiedade. A coleta de dados foi realizada por meio da plataforma Google Forms, entre junho e outubro de 2021. Os resultados apontaram que as professoras apresentaram uma média superior àquela observada nos professores no que se refere ao estresse e à ansiedade. Além disso, os relatos de cansaço, tristeza e medo foram também significativamente mais frequentes entre as professoras. Concluiu-se que as condições de trabalho eram precárias para ambos os sexos, mas que os efeitos na saúde mental se mostraram mais graves para as mulheres.
Este estudo é uma revisão de escopo que objetiva investigar a interpretação da angústia (conceito-chave) na clínica psicológica de inspiração fenomenológica hermenêutica no Brasil (campo de pesquisa). Para tanto, foram levantados artigos, dissertações e teses nas bases de dados BVS, CAPES, BDTD e SciELO, sendo encontradas 210 produções. Após análise independente de três juízes, 11 foram selecionadas. A partir dos achados, criaram-se os eixos temáticos: 1) Heidegger em diálogo, que trata das aproximações encontradas de Heidegger com Kierkegaard e Boss; 2) afetividade, tematizando a angústia como afetividade fundamental e outras tonalidades, como solidão e medo; 3) saber-fazer clínico da psicologia, explorando as ressonâncias fenomenológicas hermenêuticas na ação clínica e na compreensão da depressão e da ansiedade. Com isso, mostrou-se importante o desvelamento de outras compreensões acerca da existência humana, das psicopatologias e do próprio sentido de angústia, de modo a romper com as perspectivas patologizantes; a ação clínica do psicólogo comprometida em acompanhar e manter-se na sustentação das mostrações da angústia, possibilitando o despertar da condição existencial radical de cura, liberdade e singularização; e a relevância de mais estudos voltados para compreender como a angústia tem se revelado no contexto ôntico da clínica psicológica.
A partir de uma pesquisa bibliográfica e um estudo de caso, exploramos uma unidade de análise específica do "Caso Schreber" com o objetivo de demonstrar uma das definições de inconsciente proposta por Jacques Lacan: o inconsciente como a política do Outro. Sustentado na ideia de que a família é uma instituição transmissora de crenças e mitos, e a partir de referências históricas sobre o nazismo, demonstramos que o delírio de Schreber contém valores racistas na forma de antissemitismo, cuja origem remonta a política de Bismarck. Nesse sentido, confirmamos a tese de Santner, de que a solução paranoica de Schreber não é somente uma mensagem para o próprio indivíduo, mas para sociedade alemã, cujas características reproduzem o Mito Ariano e as ideias porvindouras do Terceiro Reich. Os mecanismos de transmissão simbólica são explicados por duas teorias. A primeira é extraída do reducionismo biológico realizado por Freud da teoria da recapitulação de Haeckel. A segunda tem origem na absorção de conceitos da linguística realizada por Jacques Lacan, pelos quais descrevemos os mecanismos de transmissão simbólica.
A Avaliação Terapêutica com adolescentes (AT-A) é uma abordagem de avaliação psicológica colaborativa e semiestruturada, que busca promover o desenvolvimento positivo do adolescente e da família. Pensa-se aqui na realidade de adolescentes que vivem em situação de acolhimento institucional, compreendendo que podem apresentar fragilização ou rompimento dos vínculos e consequências psicossociais. Dessa forma, objetivou-se analisar as repercussões clínicas do processo de AT com uma adolescente em situação de acolhimento institucional, por meio de um estudo de caso, de natureza mista e com fins exploratórios. A adolescente tinha 14 anos e vivia há seis meses na instituição. A análise dos dados contou com materiais descritivos acerca dos atendimentos, somado à comparação pré e pós AT-A, utilizando o método Jacobson e Truax (método JT) e a análise do Índice de Mudança Confiável (IMC). Observou-se que afetos relacionados à institucionalização e às experiências de negligência vivenciadas perpassaram as demandas para avaliação da adolescente, e que adaptações específicas na semiestrutura da AT-A foram necessárias. A AT-A favoreceu mudanças positivas relativas às demandas apresentadas pela adolescente, destacando-se que o espaço seguro e colaborativo promovido na AT-A, assim como os valores subjacentes sustentados no processo, mostraram-se essenciais na promoção das mudanças observadas.
Evidências crescentes indicam um aumento na prevalência de problemas de saúde mental entre os estudantes de pós-graduação. Considerando que a pós-graduação pode afetar a saúde mental dos estudantes, surge a seguinte questão: o que as universidades têm implementado de ações para promover e melhorar a saúde mental dos alunos de pós-graduação? Para responder esta pergunta, realizou-se uma revisão sistemática de literatura. O objetivo principal foi identificar ações interventivas destinadas a melhorar a saúde mental dos alunos de pós-graduação oferecidas pelas instituições de nível superior. Vinte e três estudos preencheram os critérios de elegibilidade e oito tipos de intervenções foram encontradas: Psicoeducação sobre o autocuidado em saúde mental, Grupo de apoio, Musicoterapia, Mindfulness e yoga, Práticas espirituais, Atividades orientadas pela Psicologia Positiva, Intervenções assistidas por cães e Uso da tecnologia para a promoção do bem-estar psicológico. Todas as intervenções foram eficazes para ajudar os estudantes de pós-graduação a reduzir seus indicadores de adoecimento mental. Acredita-se que os resultados deste estudo justificam a implementação de políticas e programas voltados a intervenções focadas na saúde mental dos estudantes de pós-graduação.
A inserção da psicologia nas políticas públicas de saúde tem encorajado pesquisadores a buscar compreender a prática do psicólogo nos diversos contextos de atuação. Este estudo qualitativo objetivou analisar as concepções que 12 psicólogos de um hospital de urgência e emergência na Paraíba possuíam sobre a compatibilidade de determinadas intervenções com a prática em contexto hospitalar. Utilizou dois questionários para caracterizar a amostra, conhecer a prática realizada no hospital pesquisado e investigar as concepções acerca das intervenções em contexto hospitalar mais amplo. A análise do material foi feita por agrupação das respostas semelhantes e cálculo de suas respectivas frequências. Os resultados mostraram um avanço na compreensão das intervenções concernentes às práticas hospitalares, um afastamento das condutas clínicas tradicionais, um melhor manejo do paciente psiquiátrico. Apresentou como desafios, a atuação junto aos pacientes em Unidade de Terapia Intensiva e a formação dos psicólogos, a qual deve adotar uma ênfase na saúde geral, extrapolando o caráter clínico e eminentemente verbal do processo terapêutico.
A Psicologia Jurídica é uma especialidade em Psicologia, reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia desde 2000, atravessada por diferentes demandas e desafios. Tendo isso em vista, o objetivo do presente artigo é refletir sobre as percepções dos psicólogos jurídicos do Poder Judiciário do estado do Rio Grande do Sul em relação às suas práticas e seu cotidiano de trabalho. Para isso, foi realizada uma pesquisa de caráter qualitativo com onze psicólogos judiciários do Tribunal de Justiça do estado do Rio Grande do Sul. A pesquisa desenvolveu-se através de entrevistas semiestruturadas e a análise dos dados foi feita por meio da Análise Temática. Os resultados principais apontam para um cotidiano de trabalho permeado por demandas que se destacam por sua complexidade. Além disso, os profissionais entrevistados afirmam a percepção de um reconhecimento por parte dos operadores do Direito em relação ao seu trabalho, ao mesmo tempo em que relatam sobrecarga de demandas e um número reduzido de profissionais atuando no Tribunal de Justiça do estado, o que evidencia um ponto crítico a ser enfrentado. Dessa forma, salienta-se a relevância dos profissionais da Psicologia dentro do sistema judiciário, no sentido de auxiliar com compreensões subjetivas inerentes às demandas jurídicas.
O presente artigo parte de uma perspectiva histórica das marcações corporais, destacando nessas práticas a existência de um caráter comunicativo. Se, nas origens ancestrais, havia uma universalidade de significado nestas marcas, na contemporaneidade o corpo se apresenta como potencial emissor de mensagens individualizadas, relacionadas a um tempo anterior à aquisição da linguagem verbal. A finalidade deste texto é problematizar as marcações corporais contemporâneas como práticas que conservam um potencial de endereçamento ao outro, sob a forma de inscrições no corpo. Recorremos aos estudos psicanalíticos acerca dos primórdios do psiquismo e do eu-corporal, momento no qual a sensorialidade e o corpo se destacam como via privilegiada de comunicação. Com base nas contribuições acerca de uma narratividade não verbal do início da vida, que permanece ativa ao longo de nossa existência, refletimos acerca da presença de um potencial narrativo nas inscrições corporais atuais. Para que o caráter de comunicação seja efetivamente experienciado, será necessário um encontro intersubjetivo com um destinatário possível, disposto a escutar o corpo em sua dimensão não-verbal. Nesse sentido, as marcações corporais da contemporaneidade podem ser compreendidas como dotadas de grande potencial de comunicação, mas sua capacidade em se tornar mensagem vai depender da construção de um compartilhamento subjetivo.
A violência se apresenta no cotidiano de muitas crianças no Brasil, seja quando testemunham crimes, confrontos policiais, mortes violentas, seja quando a violência se presentifica em casa e se dirige a elas, ocasionando-lhes, como numa zona de guerra, todo tipo de sofrimento. O que fazem essas crianças, em sua grande maioria negras e oriundas das periferias das cidades, para lidarem com esta realidade cotidiana tão brutal? Diante disso, o presente artigo busca apresentar um estudo feito a partir das narrativas de algumas destas crianças, encontradas em diversos materiais escritos ou fílmicos, sobre o modo como lidam com o real da violência ao inventarem suas próprias respostas ao "troumatisme" das cenas violentas, uma vez que estas evocam a dimensão do real, provocando inúmeras instabilidades no sujeito. Tendo a psicanálise como fundamento teórico e método de investigação, analisamos as narrativas a partir da relação do sujeito com um Outro evocado pela violência, ocasionando respostas subjetivas - fantasia, medo, inibição, sintomas e, por vezes, violência. Essas respostas evidenciam tanto a capacidade inventiva do sujeito infantil quanto os efeitos profundos da violência estrutural sobre a infância, indicando a necessidade de escuta clínica, intervenção social e políticas públicas sensíveis a essa realidade.
Na Abordagem Centrada na Pessoa, o luto é um processo de autorregulação organísmica frente a um tensionamento organismo-ambiente gerado pela perda. Objetiva-se compreender a experiência de luto de pessoas que perderam entes queridos devido à Covid-19. Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utilizou entrevistas semiestruturadas para a obtenção do material empírico e Análise de Conteúdo. Participaram do estudo duas mulheres enlutadas. Os resultados evidenciaram quatro categorias: 1. Contexto da morte na pandemia da Covid-19; 2. Reações emocionais e experiências oníricas frente ao luto; 3. Self-em-relacionamento com o ente falecido; e 4. Mudanças existenciais e na dinâmica familiar após a morte do ente querido e estratégias de enfrentamento. Conclui-se que as expressões emocionais, os movimentos de autorregulação e de defesa frente à morte de uma pessoa significativa são singulares e circunscritos socioculturalmente, visto que se relacionam ao autoconceito das enlutadas, ao grau de (in)congruência que experimentam, aos valores pessoais, às crenças religiosas, ao vínculo estabelecido com o ente querido, ao nível de suporte familiar, bem como às condições de valor e ao grau de abertura experiencial para a reorganização da vida e das noções de si.
Segundo Laura Perls, terapia é mais arte do que ciência. A partir disso, o presente trabalho apresenta uma conexão entre peças, processo criativo e pensamento de Pina Bausch com a Gestalt-terapia. Os fundadores da Gestalt-terapia tinham vidas artísticas, sobretudo Paul Goodman, celebrado escritor, dramaturgo e poeta e Laura Perls, notável pianista e dançarina por toda a vida. Os elementos constitutivos do Tanztheater de Wuppertal - dança e teatro - são integrantes da Gestalt-terapia desde sua origem. A palavra "dança" é ubíqua em textos da Gestalt-terapia, ora como instrumento de awareness e contato com corpo, ora como analogia e metáfora do relacionar e viver humano. Conceitos da Gestalt-terapia como "método fenomenológico", "self" e "ajustamento criativo" serão investigados com um olhar composto, um casamento entre Gestalt-terapia e Pina Bausch. O elemento comum encontrado entre estas duas formas de produzir é a busca por autoconhecimento ou awareness, para além da linguagem falada, reconhecendo o limite do verbal para expressar o viver humano. Pina nos oferece uma maneira de materializar o inefável de forma que este possa ser absorvido pela clínica gestáltica.
Este estudo teve como objetivo investigar a sintomatologia depressiva e o uso de estratégias de enfrentamento em pessoas presas pela primeira vez no sistema prisional. Participaram do estudo 61 reclusos. Os dados foram coletados por meio de questionário sociodemográfico, de saúde e criminal, além da Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos(CESD-R) e o inventário Brief COPE. Em suma, viu-se nos resultados que 75,4% da amostra apresentaram diagnóstico positivo para sintomas depressivos. Os fatores associados a maiores chances de sintomatologia depressiva na primeira reclusão foram: possuir queixas recentes em saúde e as estratégias de enfrentamento Planejamento e Expressão de Sentimentos. Observou-se que os participantes que relataram queixas atuais de saúde exibiram cerca de cinco vezes mais chances de apresentarem sintomas de depressão na prisão. Os reclusos que utilizaram o Planejamento como estratégia de enfrentamento obtiveram quase que três vezes mais chances de estarem no grupo das pessoas com sintomas depressivos. Já os indivíduos que utilizaram a Expressão de Sentimentos como estratégia obtiveram quase duas vezes mais chances de desenvolverem sintomas positivos de depressão no primeiro aprisionamento.
O presente artigo versa sobre a construção de narrativas a partir do campo da Psicologia Social, buscando demarcar a onto-epistemologia desde onde estão situadas. Para tanto, faz-se uma problematização da ótica supostamente neutra da ciência ocidental e moderna, apontando a construção de uma política de posicionamentos como caminho a ser trilhado dentro do campo dos estudos de descolonização. Analisam-se ainda alguns debates produzidos na psicologia social em meio a esse campo, ressaltando os embates e paradoxos aí situados, sem a pretensão de encontrar uma forma certa de construir contranarrativas à colonialidade, mas uma tentativa de deslocar-se das armadilhas da lógica capitalística e da branquitude. Não se trata de escapar de tais armadilhas, uma vez que partimos destas enquanto constituintes de nossas posicionalidades, mas de nos debruçarmos sobre elas, tensionando as possibilidades críticas interseccionais ao problematizar nossas condições de possibilidade. Dessa forma, não se visa negar as tramas que nos articulam aos ecossistemas da branquitude capitalística na colonialidade, mas tensionar e deslocar tais linhas que marcam nossas onto-epistêmes em suas afirmações ético-estético-políticas.
O texto versa sobre o problema da contradição a partir do resgate de três pensadores: Piaget, Vigotski e Marx. Se em Piaget a contradição é sinônimo de oposição, inserindo-se no arcabouço de uma epistemologia genética, em Vigotski a contradição é uma categoria dialética e uma força motriz, que move o mundo e dinamiza o próprio indivíduo, o que conduz este autor a uma nova concepção de desenvolvimento. Ao contrário de Piaget, o desenvolvimento para Vigotski não é um processo linear e genético, mas um complexo processo dialético. Nesse sentido, Lucien Sève demonstra a presença de Marx na origem do pensamento vigotskiano, destacando a inflexão realizada pelo pensador alemão em relação à filosofia idealista. Identifica ainda os motivos pelos quais o pensamento marxiano não é uma espécie de universal sem contribuições em matéria psicológica, tampouco um sistema abstrato de verdades absolutas ao feitio tradicional, mas um estatuto teórico com determinações e nexos categoriais que partem da própria matéria tratada. A partir da análise dos textos desses três autores, Sève fornece contribuições bastante originais acerca das aproximações e distanciamentos entre eles, enfrentando um tema bastante atual e ainda pouco explorado.
O perfil dos estudantes da Educação Superior mudou a partir das políticas que ampliaram o acesso de pobres, pretos, quilombolas e com deficiência. Considerando a herança elitista deste nível de ensino e os desafios da sua democratização, temos como objetivo compreender os processos de discriminação vivenciados por docentes e estudantes da Educação Superior de um Instituto Federal do Nordeste brasileiro. Participaram da pesquisa 60 docentes, 211 estudantes e 5 gestores em uma metodologia mista. A fase quantitativa utilizou um questionário online, analisado pelo software Statistical Product and Service Solutions 21.0, e na fase qualitativa foram realizados grupos focais e diários de campo, analisados pela hermenêutica crítica, com o suporte do software Atlas.ti. Os resultados indicaram que 70% dos docentes e 88,6% dos estudantes passaram por discriminação, decorrente do nível econômico, da imagem corporal e do gênero, principalmente casos de assédio, marcados pelo silêncio e vergonha. A cor/raça como motivo de discriminação foi pouco referida, apesar do grande número de pardos entre os participantes, invisibilizando o seu impacto na subjetividade. Destacamos a necessidade de uma política de formação docente continuada para a Educação Superior que promova o letramento em Direitos Humanos, contribuindo para o enfrentamento das desigualdades e opressões.
A meia-idade é um período desenvolvimental no qual as mulheres enfrentam mudanças físicas e sociais, além da sobrecarga de papéis, que podem gerar risco de adoecimento psíquico. Porém, esse grupo ainda está sub-representado nas pesquisas em saúde mental. Objetivou-se verificar a prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC) em mulheres na meia-idade e avaliar as associações com as variáveis sociodemográficas e de saúde. Tratou-se de um estudo transversal web-based no qual foram analisados dados de 398 mulheres de 40 a 59 anos, coletados durante a pandemia de Covid-19. Os instrumentos utilizados foram um questionário sociodemográfico e de saúde e o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). Foram realizados os testes de qui-quadrado e correlação de Spearman (p≤0,05). Observou-se elevada prevalência de TMC nas mulheres da meia-idade. Considerar não ter dinheiro suficiente para as despesas cotidianas, morar somente com descendentes, a raça/cor da pele parda, menor idade, pior saúde percebida, menor escolaridade e renda, e a percepção de piora das condições de vida estiveram relacionados a maior morbidade psiquiátrica. As relações entre as circunstâncias socioeconômicas e de saúde com a saúde mental de mulheres na meia idade indicam demandas para o cuidado vinculadas a condicionantes de gênero, raça e classe social que devem ser reconhecidas e acolhidas.
Existe Psicanálise fora do divã? Se sim, de qual clínica psicanalítica estamos falando? Partindo de algumas perguntas que se impõem e se agitam diante de questões políticas contemporâneas, em referência ao racismo antinegro no Brasil, as teorizações realizadas neste trabalho realizam a proposta de pensar caminhos para uma clínica, norteada pela Psicanálise, que se efetiva no campo social a partir da obra Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon. Empreender o trabalho de retornar à Fanon é, em certa medida, um esforço para seguir o método lacaniano de retorno à Freud, buscando na proposta fanoniana instrumentos que auxiliem no compromisso de nos colocar à altura de nossa época. Os passos aqui são dados partindo da interrogação sobre os motivos para a utilização da teoria fanoniana nesse contexto. Na sequência, são pensados atravessamentos entre os campos da Psicanálise e da Política, chegando, por fim, às interrogações sobre o que fazer diante das reflexões suscitadas.