
Resumo: Os significados do ganho de peso e do peso corporal elevado são construídos por diferentes discursos ao longo da história. O objetivo foi compreender as formações discursivas que atravessam a autopercepção de adultos sobre o ganho de peso e o peso corporal elevado. Foram analisados os discursos sobre os temas em um grupo de 462 pessoas, com idades entre 18 e 59 anos, sendo 18,2% homens, 81,6% mulheres. Foram identificados cinco discursos construídos a partir dos enunciados: (a) Discurso da Batalha; (b) Discurso da doença; (c) Discurso Estético; (d) Discurso de sofrimento; (e) Discurso Moral. Foi realizada uma análise crítica e aprofundada sobre a questão do peso corporal. Conclui-se que esses discursos possuem raízes históricas que restam nos sentidos produzidos por discursos atualizados na contemporaneidade. A identificação desses discursos possibilita situar enunciados e, assim, elaborar formas de intervenções contextuais que mitiguem o sofrimento.
Resumo: Como cuidar da diversidade infantil se um ideal de verdade científica muitas vezes se alia a normatividades? Esta pesquisa parte do pressuposto de que a Psicologia Social se abre a ferramentas que permitem sonhar utopias e mundos possíveis em que a infância não é submetida à suspeita, ao diagnóstico ou à espera por coerência. A ficção científica, a fabulação especulativa e a historiografia crítica emergem aqui como tecnologias de pensamento e ação, dispositivos ético-políticos que desafiam o epistemicídio e ajudam a construir narrativas mais generosas e complexas para a experiência de crianças trans. Neste relato de pesquisa, compartilho cenas vividas entre 2023 e 2024 no Ambulatório de Identidade de Gênero (AMIG-GHC), em Porto Alegre (RS), inspirada por autoras como Donna Haraway, Saidiya Hartman e Sara Ahmed, para reimaginar vínculos emocionais, oportunizar aberturas estéticas e intervenções sensíveis de encantamento não pela previsão, mas pela invenção.
Resumo:: A adoção inter-racial no Brasil é um fenômeno recorrente, mas pouco explorado pela literatura da Psicologia. Esta pesquisa apoia-se na epistemologia construcionista social e teve como objetivo produzir sentidos com casais brancos que adotaram crianças negras sobre a adoção inter-racial no contexto brasileiro. Participaram de entrevistas semiestruturadas oito famílias brancas que adotaram crianças e adolescentes negros(as) há aproximadamente dois anos. As entrevistas foram analisadas discursivamente e os resultados sugerem que as famílias ainda apresentam dificuldades para conversar com suas crianças sobre racialidade. Discursos da igualdade, da naturalização das diferenças raciais e da “vitimização” indicaram uma compreensão do racismo como fenômeno isolado e individualizado. Foram discutidas a necessidade de compromisso com a formação crítica em relações raciais das famílias quanto ao racismo no cotidiano, especialmente ao compor agendas políticas sobre adoção.
Resumo: O artigo investiga como o pacto narcísico da branquitude opera na educação superior, a partir da análise da entrevista com Iza, jovem preta bolsista em uma instituição privada de elite. O objetivo é explicitar as barreiras simbólicas e materiais enfrentadas por uma estudante negra e, a partir de sua experiência, discutir manifestações do racismo estrutural na educação superior. Utilizando uma abordagem qualitativa e interpretativa, o estudo identifica episódios recorrentes de discriminação racial sofridos por Iza, deslegitimando sua identidade de estudante, e analisa os impactos subjetivos dessas vivências. Os resultados apontam que o pacto narcísico da branquitude sustenta a exclusão racial, naturalizando práticas discriminatórias e dificultando a responsabilização das pessoas brancas. As implicações do estudo reforçam a necessidade de ações antirracistas que vão além da inclusão formal, exigindo a ruptura consciente com estruturas de privilégio e a transformação efetiva das práticas institucionais na educação superior.
RESUMO: A pobreza ultrapassa questões monetárias, representando uma condição adversa de sobrevivência material e simbólica que influencia a construção subjetiva. Este estudo qualitativo, com design ex-post facto, investigou como indivíduos em vulnerabilidade social, residentes em uma ocupação urbana, constroem sua subjetividade diante de determinantes econômicos e sociais. Foram realizadas entrevistas com quatro participantes, analisando autoestima, senso de pertencimento, perspectivas de futuro, resiliência e qualidade de vida. Assim, emergiram quatro categorias de análise que indicam que a pobreza afeta a forma como os indivíduos se percebem, se relacionam com o mundo e projetam suas aspirações. Embora os entrevistados tenham demonstrado sentimentos hostis sobre si decorrentes dos estigmas e das vivências de humilhação, também revelaram estratégias de resistência e resiliência. Esse panorama destaca a necessidade da Psicologia reconhecer seu compromisso ético e político frente à desigualdade social, alcançando as camadas mais vulneráveis da sociedade, mas também promovendo ações que efetivem a transformação social.