
O estudo objetivou mapear a estrutura dos estados fenomenais emergentes durante atividade de rotação mental tendo-se o tato como fonte sensorial, em pessoas com deficiência visual. Foi composta uma amostra dividida em grupos de cegos congênitos (7 participantes), e indivíduos com cegueira adquirida (10 participantes), os quais foram submetidos à atividade de rotação mental como tarefa de autofocalização, em que foram apresentados estímulos geométricos para tateio e construção de imagem mental dos mesmos. Em seguida aplicou-se a ‘Entrevista Fenomenológico-Cognitiva dos Estados Autoconscientes’ (EFEA). Os resultados do estudo confirmaram que pessoas com deficiência visual, ao utilizar o tato como fonte sensorial, podem, através dessa estimulação, criar e vivenciar estados fenomenais complexos, que mediam o acesso à experiência interna em curso. Os resultados encontrados no estudo contribuem significativamente para o início da sistematização do conhecimento referente a esta importante questão que ainda configura uma lacuna na teoria cognitiva atual, principalmente em pessoas com deficiência visual. Os achados põem a necessidade de se pensar novos procedimentos metodológicos que acessem com fidedignidade os estados fenomenais vivenciados por deficientes visuais, alargando a compreensão atual da pesquisa cognitiva sobre a mente fenomenal, em pessoas com deficiência visual.
No curso, ‘Os Anormais’ (1974-1975) do Collège de France, Foucault destaca que a figura do Monstro – ao lado das figuras do indivíduo a ser corrigido e do sujeito onanista – é fundamental na constituição do sujeito anormal moderno e, diante de amplas fases do pensamento, elemento de exceção e transgressivo das leis naturais, civis e divinas. Esta pesquisa estuda a genealogia da figura do monstro nesse curso, e seus efeitos e desdobramentos nos âmbitos jurídicos, biológicos, morais e médicos, articulados às suas mutações em abrangentes períodos históricos, produtores do conhecimento, com destaque para a Idade Média, Classicismo e Modernidade. Verificou-se que o monstro é uma figura de exterioridade ao pensamento vigente, uma exceção desafiando os aspectos normativos de cada época e abrangendo um espectro de estigmatizações e de preconceitos, produtores de exclusão social, violência e mortificação singularmente produzidos a cada momento histórico, sendo elemento-chave, dentre outros, na constituição do exame médico-legal contemporâneo.
Este artigo reflete sobre as práticas artísticas em sua relação com o corpo a partir da obra Estruturação do self da artista plástica Lygia Clark. Neste sentido, problematiza a relação entre a estética e a política, pensando-as no contexto da proposição de formas de resistência à dominação biopolítica a partir de uma ontologia política dos corpos. A obra de Lygia Clark nos fornece instrumentos capazes de acessar a experiência por meio da experimentação dos corpos com os chamados ‘objetos relacionais’. Através deles opera-se uma desconstrução sensorial que nos possibilita ressignificar os signos do poder e os dispositivos de sujeição que regulam nossa experiência a partir dos enquadramentos normativos reificados pela cultura. Tal análise foi realizada no contexto de um projeto de pesquisa envolvendo alunos e professores do curso de psicologia da Universidade Federal de Jataí-GO. Os estudos realizados se constituíram como um posicionamento frente ao cenário totalitário e extremista no qual vivemos na atualidade.
Com base na Psicologia Histórico-Cultural, temos como objetivo apresentar uma discussão acerca da íntima relação entre as vivências no contexto familiar e a constituição de sentidos sobre a educação. Fundamentadas no método do materialismo histórico-dialético, destacamos que no processo de nossa pesquisa teórica-empírica, que envolveu quatro jovens egressos do ensino médio, as relações familiares foram trazidas de maneira muito intensa em suas narrativas sobre o processo de escolarização, fazendo com que reorganizássemos nosso estudo teórico, incluindo uma revisão sobre a construção histórica e social da família, e ampliássemos nossa investigação empírica, realizando não só entrevistas iniciais, mas também entrevistas recorrentes, com base em roteiro semiestruturado. Nossas análises se se pautaram tanto nas teorizações de Vigotski, como nos continuadores da Psicologia Histórico-Cultural. Os resultados indicam que as vivências no ambiente familiar e os significados sobre educação compartilhados na família norteiam o processo de formação de sentidos pessoais dos jovens sobre educação, o que se deu tanto do ponto das experiências concretas, por compartilharem determinadas circunstâncias de vida dentro do grupo familiar, como do ponto de vista simbólico resultante das apropriações dos significados familiares nas trocas interpessoais.
A teoria do desenvolvimento moral de Lawrence Kolberg foi acusada de androcentrismo e sexismo por Carol Gilligan, que argumentou que as mulheres partem de uma estrutura de raciocínio moral distinta dos homens: a ética do cuidado. Contudo, ao justificar o porquê das diferenças de gênero, Gilligan subsidiou-se na Psicanálise, a qual a levou ao determinismo psíquico e ao binarismo de gênero. Diante disso, por meio de revisão bibliográfica, este artigo propõe uma nova interpretação emancipatoriamente feminista sobre essas diferenças, com base na Psicologia Analítica pós-junguiana. Revisitou-se a justificativa de Gilligan, comparando-a às prerrogativas junguianas, em especial pós-junguianas, e essa última pode ser amparada por pesquisas que inferem não haver predominância de gênero nas estruturas morais. Este artigo, por um lado, critica o posicionamento inicial de Gilligan, que na época foi interpretado como essencialista, mas reconhecendo sua própria evolução teórica: em seus estudos posteriores, a autora refinou suas ideias, enfrentando e desfazendo a armadilha essencialista que se criou em torno de sua obra. Por outro lado, resgatando a contribuição da Psicologia pós-junguiana e oferecendo uma alternativa à fundamentação na Psicanálise por Gilligan, conclui que a Ética da Justiça e a Ética do Cuidado podem compor o patrimônio moral de homens e mulheres, sem distinção ou relação de predominância segundo o gênero, apontando assim para a necessidade de utilizar-se dessa abordagem no campo da Psicologia Moral.