
O presente estudo tem como objetivo, por meio da cartografia – utilizada aqui como uma metodologia de mapeamento de produções acadêmicas –, delinear um panorama das pesquisas sobre argumentação realizadas no âmbito dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu de universidades sediadas no estado do Rio de Janeiro. Para tanto, foram coletados dados de dissertações e teses produzidas em seis universidades fluminenses: UFF, UFRJ, UFRRJ, UERJ, UENF e PUC-Rio. Trata-se de um recorte do projeto de cartografia da Região Sudeste desenvolvido pelo GT de Argumentação da ANPOLL. Os objetivos específicos consistiram em identificar as teorias da argumentação que fundamentam os trabalhos analisados, bem como mapear outras perspectivas teóricas, não especificamente voltadas à argumentação, que também servem de suporte a essas pesquisas. Os resultados são apresentados a partir de uma análise quantitativa das produções identificadas, complementada por uma análise qualitativa dos dados, a qual evidencia, entre outros aspectos, a presença recorrente da Semiolinguística do Discurso e da Linguística Textual como arcabouço teórico de apoio nas pesquisas realizadas no Rio de Janeiro, ainda que essas abordagens não sejam consideradas propriamente teorias canônicas da argumentação.
Este trabalho objetiva refletir sobre as potencialidades pedagógicas da literatura infantil a partir da análise de dois livros do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD 2023). Selecionaram-se duas obras, uma de cada categoria do Programa, do 1º ao 3º ano e dos 4º e 5º anos do Ensino Fundamental. A metodologia utiliza a semiótica discursiva como ferramenta para compreender como o entrelaçamento das linguagens verbal e visual constitui os textos e demanda ações cognitivas específicas. A análise fundamenta-se nos conceitos de letramento literário e visual, articulando as bases neurocientíficas da leitura à Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM) de Feuerstein. Aponta evidências de que os processos de letramento e o desenvolvimento cognitivo ocorrem a depender da complexidade do texto, demandando diferentes práticas de mediação. A dimensão visual das obras é evidenciada como um enunciado sincrético vigoroso, cujos planos imagéticos e figurativos fundamentam a produção de sentidos e a mobilização de funções cognitivas como a atenção e a percepção. A análise demonstra que a compreensão exige atenção ao entrelaçamento verbo-visual, havendo diferenças nas ações cognitivas de acordo com a forma como palavras e imagens se relacionam. Conclui-se que o livro literário ilustrado, produto artístico complexo, apoia a modificabilidade cognitiva nos anos iniciais, desde que a prática pedagógica considere a sinergia indissociável entre o ver e o ler para a formação de leitores proficientes.
Rita Lee (1947-2023) eternizou-se na história da música brasileira, sendo conhecida como a Rainha do Rock. Lutando pela conquista de seu espaço nesse meio que, até então, era predominantemente masculino, a cantora e compositora, que embora não se declarasse feminista, abriu caminhos para que outras mulheres também pudessem construir sua trajetória no rock nacional. Além de ser a autora de letras carregadas de ideais de libertação feminina, que questionam estereótipos de gênero e confrontam padrões morais, também manifestou sua resistência à subordinação da mulher em suas duas autobiografias, Rita Lee: uma autobiografia (2016) e Rita Lee: outra autobiografia (2023). A partir dessas duas autonarrativas, este trabalho tem como objetivo compreender como a cantora mostrou-se subversiva no exercício de diferentes papéis de gênero e de que forma isso reflete na sua escrita de si. Para tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, apoiada nas contribuições de autoras como Lígia Maria Leite Pereira (2000), Sandra Maia Farias Vasconcelos e Maria Neurielli Figueiredo Cardoso (2009), que abordam o gênero autobiografia; e no tangente às questões do feminino, tomamos como base as reflexões de Elaine Showalter (1994), Elódia Xavier (2021), Joan Scott (2016), Joan Tronto (1997), Simone de Beauvoir (1970) e Teresa de Lauretis (1994). O estudo mostrou que a escrita de Rita Lee não apenas desafia normas institucionais e sociais, mas também funciona como uma tecnologia de gênero, viabilizando reflexões sobre a emancipação feminina.
O presente trabalho está inserido em um projeto que alia pesquisa e extensão para o desenvolvimento de recursos digitais voltados à área da Agroecologia com base na descrição possibilitada pela Semântica de Frames. Neste artigo, o objetivo geral é analisar o frame Transações Econômicas no contexto da Agroecologia. Essa análise se justifica pelo fato de as diferentes relações econômicas estabelecidas na Agroecologia não serem descritas de forma satisfatória apenas com base no frame tradicional Transação Comercial. A partir da compilação de um corpus do frame Transações Econômicas específico à Agroecologia, foram identificadas unidades lexicais relacionadas aos participantes e às práticas econômicas. Na sequência, essas unidades foram classificadas em subframes e avaliadas a partir das particularidades das Transações Econômicas na Agroecologia. Nossos resultados apontam que apenas o frame tradicional Transação Comercial não dá conta das práticas econômicas no contexto da Agroecologia, tendo em vista arranjos de produção e comercialização específicos, a perspectivação dos e os papéis desempenhados pelos elementos de frame e as práticas econômicas mediadas por valores particulares à Agroecologia.
Este artigo apresenta um recorte do projeto Cartografia da Argumentação do Sudeste, focalizando pesquisas desenvolvidas entre 2011 e 2020 em Programas de Pós-Graduação stricto sensu que não pertencem às áreas de Letras e Linguística, mas que mobilizam teorias da argumentação em interface com outros campos do conhecimento. O objetivo é analisar de que modo os estudos argumentativos circulam e se institucionalizam em diferentes áreas, especialmente nos eixos da análise da argumentação e do ensino da argumentação. Metodologicamente, a pesquisa baseia-se em levantamento documental realizado no Banco de Teses e Dissertações da Capes, na Plataforma Sucupira e em repositórios institucionais de universidades da região Sudeste. Os dados foram sistematizados em planilhas colaborativas e submetidos a análises quantitativas e qualitativas. Os resultados indicam predominância de pesquisas voltadas à análise da argumentação, com forte concentração institucional na USP e, no eixo ensino da argumentação, a concentração das pesquisas acontece no IFES, em especial na área de Educação em Ciências e Matemática. Além disso, observou-se que determinadas teorias da argumentação tendem a aderir a campos específicos de investigação: a Nova Retórica aparece mais frequentemente em áreas sociais e aplicadas, enquanto perspectivas ligadas à argumentação científica predominam em pesquisas sobre ensino de Ciências. Conclui-se que os estudos argumentativos apresentam significativa transversalidade epistemológica, consolidando-se como espaço de diálogo interdisciplinar entre diferentes áreas do conhecimento.
Durante séculos, retórica e argumentação permaneceram separadas pela Filosofia e pelo senso comum. À retórica atribuiu-se a investigação da dimensão intersubjetiva da persuasão, e à argumentação, o estudo dos raciocínios e seu encadeamento, conforme a lógica e a dialética. Nos estudos contemporâneos da argumentação, porém, a Retórica clássica persevera associada aos desenvolvimentos da Nova Retórica perelmaniana, que resgata e atualiza seus conceitos no século XX, preservando o vínculo entre provas lógicas e subjetivas. No Brasil, essa associação, que une Retórica clássica à neorretórica de base aristotélica, é explorada por grupos de pesquisa sediados em importantes instituições de ensino superior do país. Neste artigo, discutimos as especificidades relacionadas aos campos da Retórica e Nova Retórica e seus pontos de contato, para situá-los como filiações teóricas privilegiadas na Cartografia da Argumentação no Sudeste (2011-2020) por meio das pesquisas produzidas por dois destacados grupos de pesquisa do campo no Estado de São Paulo, o Grupo ERA – Estudos Retóricos e Argumentativos, da PUC-SP, e o Grupo PARE – Pesquisa em Argumentação e Retórica, da Universidade de Franca. Pela observação dos dados coletados, verificamos, na década cartografada, um período de amadurecimento teórico-metodológico e de novos agenciamentos conceituais nos dois grupos, que produziram movimentos teóricos cujos resultados iniciais se encontram registrados e em condições de subsidiar desdobramentos em pesquisas futuras.
Con el paso del tiempo y a partir de diversas experiencias de trabajo colaborativo en comunidades de aprendizaje entre pares académicos, se ha evidenciado que las mediaciones de lectura exigen un mayor compromiso pedagógico por parte del profesorado en los contextos escolares. En este marco, desde el año 2015, Colombia ha impulsado procesos orientados a la recuperación de las narrativas del territorio con un horizonte decolonial, materializados en encuentros iniciales de formación con profesores, abordando una colección de literatura infantil y juvenil, que fortalece los ejes formativos del programa PTA-FI y busca contribuir a la renovación de la educación ciudadana. El presente artículo tiene como objetivo analizar experiencias de mediación lectora situada a partir de la colección Territorios Narrados, en distintos contextos educativos, mediante el desarrollo de laboratorios de literatura con profesores. Desde un enfoque cualitativo, se examinan las concepciones de promoción, animación y mediación de la lectura, así como sus implicaciones en la construcción de sentidos, el reconocimiento del territorio y la formación integral de los estudiantes. Los resultados evidencian que el acceso sistemático a obras literarias contextualizadas favorece la apropiación crítica del entorno, el diálogo sobre el fortalecimiento de vínculos comunitarios y el desarrollo de aprendizajes humanistas. Se concluye que la formación para una la mediación lectora, concebida desde una perspectiva situada y decolonial, constituye una estrategia relevante para la consolidación de prácticas pedagógicas más inclusivas y contextualizadas en el marco del programa PTA-FI.
O português falado em Angola é o resultado de um contato linguístico entre o português europeu e as línguas Bantu, mas essa língua é sistematicamente desqualificada pela colonialidade como um desvio de norma padrão e pejorativamente chamada de calão, um termo que se perpetuou após-independência criando uma internalização de inferioridade linguística entre os angolanos. Partindo disso, o trabalho tem como objetivo, a partir das lentes decoloniais (Quijano, 2005; Mignolo, 2017), desmarcar o português de Angola da visão colonial e defender o reconhecimento do termo Angolês como a designação representativa e legítima dessa língua. Além disso, analisar os mecanismos de opressão linguística e ressignificar o conceito de língua prestigiosa, de forma a valorizar a identidade cultural e linguística angolana. Conclui-se que a adoção da designação Angolês representa um ato de descolonização linguística e justiça cognitiva, essencial para a afirmação da identidade cultural angolana e para a superação das estruturas coloniais que persistem no campo linguístico.
No presente texto, temos por intuito avaliar a possibilidade de estar em formação um campo de estudos sobre a argumentação na academia brasileira contemporânea. Para tanto, em um primeiro momento, descrevemos a formação institucional desse campo, no mundo e no Brasil. Em um segundo, analisaremos a interdisciplinaridade nas pesquisas em argumentação no país, ancorando-nos, nesse intuito, nos dados produzidos pelos projetos de cartografia da argumentação nas regiões Nordeste e Sudeste. Por fim, na terceira, sugerimos um gráfico rizomático como proposta meta-analítica de compreensão da argumentação como campo acadêmico brasileiro emergente, demonstrando força institucional tanto na elaboração de políticas públicas de ensino, como pode-se notar pela presença da argumentação como competência específica na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), quanto pelo número crescente de pesquisas e de disciplinas acadêmicas.
A leitura literária como experiência estética é uma ação essencial na constituição humana e deveria integrar currículos de cursos de graduação. Tomamos neste artigo um módulo da disciplina de Estudos Literários, ministrada no Curso de Biblioteconomia, na Universidade de Caxias do Sul-RS, como material de investigação. O objetivo do artigo é refletir sobre os modos de ler e a construção do repertório literário de acadêmicas do Curso de Biblioteconomia. Trata-se de um estudo com inspiração ensaística que coloca em diálogo o conto “Uma voz entre os arbustos”, de Marina Colasanti, e registros publicados em fóruns, os quais fornecem percepções relacionadas à literatura infantil e juvenil e alguns gêneros que a constituem. A mediação na disciplina (Petit, 2009, 2024) foi realizada a partir do diálogo entre a literatura infantil e juvenil e outras proposições artísticas, como pinturas, fotografias, músicas, a fim de provocar as alunas a construírem experiências de leitura do literário. Aponta-se como resultados, por um lado, que a abordagem favoreceu a futuros bibliotecários e possíveis mediadores viverem a literatura como arte, por outro, a necessidade de investimento na criação de repertório às graduandas, como também a importância de disciplinas que tragam a leitura literária no Curso de Biblioteconomia.
Parte do projeto Cartografia da Argumentação: Sudeste, este artigo mapeia a produção de teses e dissertações na região Sudeste do Brasil, no período de 2011 a 2020, que utilizam a Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) como fundamento teórico primário para a investigação de práticas argumentativas. O estudo buscou identificar as teorias da argumentação mobilizadas, os sistemas da LSF que atuam como instrumentos heurísticos recorrentes, os gêneros e registros predominantes, bem como a orientação analítico-descritiva ou aplicada dos estudos. A análise de 27 produções revelou a predominância da metafunção interpessoal – com protagonismo absoluto do sistema de avaliatividade –, frequentemente articulada a noções provenientes da Retórica. Os objetos de estudo concentram-se majoritariamente nos domínios jornalístico e educacional, focalizando gêneros como editoriais, artigos de opinião e redações escolares. Os resultados sugerem um cenário equilibrado entre estudos analítico-descritivos e propostas aplicadas ao ensino. O artigo também discute as implicações desses achados para o fortalecimento das pesquisas na interface LSF–argumentação e propõe um balanço crítico sobre os rumos da pesquisa na área.
O artigo tem como objetivo descrever e avaliar os dados do projeto Cartografias da Argumentação do Sudeste, focalizando as pesquisas sobre argumentação desenvolvidas em Minas Gerais e, particularmente, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no período de 2011 a 2020. A pesquisa adota metodologia quantitativa e qualitativa, baseada no levantamento de registros de dissertações e teses em Programas de Pós-Graduação em Letras e Linguística, a partir de bases como o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, bibliotecas digitais e repositórios institucionais. Os dados foram coletados por meio de palavras-chave relacionadas à argumentação e organizados em planilhas que distinguem pesquisas de análise da argumentação (AA) e de ensino da argumentação (EA), possibilitando a descrição de tendências teóricas, campos discursivos e objetos de estudo. Os resultados revelam predominância expressiva de pesquisas voltadas à análise da argumentação em relação ao ensino, tendência observada no Sudeste (74%), em Minas Gerais (78%) e na UFMG (77%). Destaca-se também a centralidade da perspectiva da argumentação no discurso, além da recorrência de estudos sobre discurso jornalístico, jurídico e literário. Conclui-se que os estudos em argumentação no Sudeste, particularmente em Minas Gerais e na UFMG, apresentam concentração em abordagens analíticas e em determinados domínios discursivos, evidenciando a necessidade de ampliar investigações voltadas ao ensino da argumentação e diversificar os objetos de estudo, contribuindo para um panorama mais amplo e equilibrado das pesquisas na área.
Este artigo apresenta uma cartografia dos estudos da argumentação em São Paulo (2011-2020), a partir de dissertações e teses da área de Letras e Linguística. Inspirado em Deleuze e Guattari, o estudo mapeia territorialidades acadêmicas, filiações teóricas e interfaces disciplinares. A metodologia, replicável para outras regiões, baseou-se na coleta e análise de 211 trabalhos. Os resultados revelam: territorialidades acadêmicas concentradas na capital; hegemonia da tradição retórica, distribuída entre Nova Retórica e Retórica Clássica, ao lado da Teoria da Argumentação no Discurso, Sociorretórica e Teoria Substancial da Argumentação; interfaces predominantes com Linguística Textual e Análise do Discurso, configurando agenciamentos conceituais que desterritorializam e reterritorializam as teorias; zona de sombra com trabalhos sem filiação explícita, ancorados na Análise do Discurso, revelando linhas de força concorrentes; trabalhos com filiação sem interface declarada, configurando zonas de silêncio. Concluímos que a multidimensionalidade constitutiva dos fenômenos argumentativos favoreceu à natureza rizomática do campo da argumentação, com suas linhas de força, linhas de fuga, zonas de silêncio e agenciamentos conceituais.
Este estudo tem inspiração em uma vivência estética literária mediada a uma criança de sete anos de idade, em contexto familiar. A discussão coloca luz à função da imaginação no processo de vivência estética, a partir de Vigotski (1999, 2025), o qual a concebe de acordo com o modelo de reação que pressupõe a existência de três elementos: estímulo, reelaboração e resposta. Pela mediação da leitura literária, instrumento provocador da atividade criadora neste caso, a menina leitora realiza o complexo trabalho de rememoração do pensamento associativo para que pudesse compreender o que estava representado na obra e como ela poderia vincular suas diferentes partes com o seu mundo objetivo. A criança relaciona os personagens antagônicos do texto infantil Pode chorar, coração, mas fique inteiro (RINGTVED, 2020), Alegria e Sofrimento, Risada e Desconsolo, com frutas presentes no seu cotidiano e promove o entrelace entre o seu mundo real e o mundo simbólico. Esse entrelace é feito pela ação da atividade criadora, cuja base é a imaginação, ao recorrer a elementos de seu cotidiano para sublimar, reorganizar e elaborar seus sentimentos e o seu entendimento a respeito de determinadas emoções que lhe eram desconhecidas até o momento. A vivência da mediação da arte literária referida vai ao encontro da perspectiva histórico-dialética de desenvolvimento humano a qual Vigotski se insere, e acena à importância da imaginação e da atividade criadora para construção de novas imagens que não existem na consciência ou na experiência prévia do sujeito, uma vez que a atividade criadora tem o potencial de promover, por meio da catarse, uma profunda reorganização do sistema funcional psíquico. Eis aí o importante lugar da imaginação como uma condição da atividade criadora e para a vivência estética.
O artigo apresenta os resultados parciais da Cartografia dos Estudos sobre Argumentação na Região Sudeste (2011-2020), com recorte específico para o estado de Minas Gerais. Insere-se no contexto de crescimento expressivo dos estudos sobre argumentação no Brasil nas últimas duas décadas, movimento que retoma as tradições inauguradas por Perelman & Olbrechts-Tyteca (Nova Retórica), Toulmin (modelo argumentativo) e Anscombre & Ducrot (Argumentação na Língua). O objetivo central é mapear as perspectivas teóricas predominantes, as interfaces teóricas estabelecidas e as categorias analíticas mobilizadas nas teses e dissertações defendidas em Programas de Pós-Graduação em Letras e Linguística em Minas Gerais no período. O levantamento realizou buscas sistemáticas no Banco de Teses e Dissertações da Capes, na Plataforma Sucupira e em repositórios institucionais, resultando, após refinamento metodológico, em 119 trabalhos que adotam efetivamente uma teoria da argumentação como fundamentação central. A análise dos dados evidencia que o campo da argumentação em Minas Gerais configura-se como um “lugar de memória” (Nora, 1993), marcado pela consolidação de uma tradição discursivo-argumentativa, ancorada institucionalmente em grupos de pesquisa e redes de orientação acadêmica. A presença de outras perspectivas teóricas, ainda que minoritárias, aponta para a heterogeneidade do espaço discursivo e para possíveis linhas de fuga (Deleuze e Guattari, 1995). O gesto de exclusão de 43 trabalhos que mobilizavam a argumentação de forma assistemática revela, paradoxalmente, a força da noção como categoria analítica transversal nos estudos da linguagem. Conclui-se que a cartografia constitui um registro provisório e aberto da memória do campo, que pode subsidiar futuras pesquisas e intervenções curriculares.
A literatura modernista no Brasil, se observada pelo ponto de vista do movimento paulista, tem vínculos muito profundos com a cultura francesa. No entanto, outras vertentes, com outras línguas de origem, parecem ter sido importantes para a constituição da multiplicidade de correntes do modernismo brasileiro. Destaca-se com particular relevância o papel da Livraria do Globo, encabeçada por Henrique Bertaso e Erico Verissimo, como fomentadora de traduções, principalmente de textos em língua inglesa. O presente trabalho busca reconstituir o panorama em que as iniciativas voltadas às traduções de obras formalmente inovadoras foram encetadas pela editora gaúcha. A partir da análise da percepção da crítica no caso da obra da escritora inglesas Virginia Woolf, é possível vislumbrar a importância e a originalidade da Coleção Nobel para a formação de um novo corpo de escritores brasileiros.
Inserido no projeto de pesquisa VozCol, que busca mapear e tipificar vozes coletivas em discursos diversos, o presente artigo tem como objetivo identificar categorias relevantes para a construção de sentido por meio de vozes coletivas expressas em frases sentenciosas, a partir da análise de uma transmissão ao vivo realizada pela influenciadora digital Jordana Gleise de Jesus Menezes, a Jojo Todynho, em setembro de 2024. A metodologia adotada tem caráter qualitativo e exploratório. Os resultados evidenciam que a construção de sentido por meio de frases sentenciosas empregadas por Jojo Todynho pode ser classificada segundo três parâmetros: conceito em questão, tipo de julgamento e embreagem. No corpus, foram identificados os conceitos: respeito, caráter, educação e visibilidade/reconhecimento; os tipos de julgamento: deôntico e epistêmico; e as embreagens: ausente (frase sentenciosa não embreada) e presente (frase sentenciosa embreada). Notou-se que os casos de julgamento epistêmico e frase embreada (notadamente no locutor) estiveram mais relacionados ao conceito caráter, uma vez que a influenciadora constrói, em seu discurso, a imagem de “pessoa de caráter”, enquanto os casos de julgamento deôntico e frase não embreada estiveram mais relacionados ao conceito de respeito, tendo em vista que a fala de Jojo Todynho projeta uma norma segundo a qual todos devem ser respeitados.
Este trabalho vincula-se ao projeto Cartografia da Argumentação da região Sudeste, cuja finalidade é o mapeamento de dissertações e teses nas áreas, sobretudo, de Linguística e Letras, de 2010 a 2020. Neste artigo, identificamos e descrevemos as especificidades das pesquisas dedicadas à aplicação ao ensino, em que estão articulados os estudos da argumentação, dos letramentos e outros dedicados ao texto e ao discurso. Nossos objetivos específicos compreendem: identificação da natureza desses trabalhos, com a finalidade de descrever suas características mais gerais; descrição das interfaces estabelecidas, com vista ao modo como a região configura-se em termos das filiações teóricas mobilizadas. Utilizamos a discussão de Breton e Gauthier (2001) sobre os estudos da argumentação, a investigação de Kleiman, Vianna e Grande (2019) acerca das características das pesquisas aplicadas e o estudo de Piris et al. (2023) a respeito da presença da argumentação no contexto de ensino. Os resultados apontam para um quadro teórico diversificado e interdisciplinar, com o estabelecimento de diálogos com os estudos dos letramentos pelo viés social, da argumentação, do texto e do discurso, com forte influência de trabalhos europeu e russo, bem como das pesquisas da Linguística Textual e bakhtinianas desenvolvidas no Brasil.
Este artigo analisa os mecanismos discursivos que sustentam a naturalização da violência de gênero em ambientes digitais, tendo como objeto de estudo a repercussão do feminicídio de Eliza Samudio. O objetivo central é investigar os frames semânticos que emergem em comentários misóginos, os quais, em vez de repudiarem o delito, atuam na deslegitimação da vítima e na justificação simbólica do crime. Fundamentado na interface entre a Semântica de Frames, de Charles Fillmore, e as teorias sobre dominação e patriarcado de Pierre Bourdieu, Heleieth Saffioti e bell hooks, o estudo examina como a linguagem opera como locus de perpetuação da violência. Metodologicamente, adotou-se uma abordagem que articula a interpretação qualitativa assistida por ferramentas da Linguística de Corpus (via AntConc), aplicadas a um corpus piloto de 75 comentários extraídos de publicações no Facebook a partir de 2022. Os resultados demonstram que a misoginia se organiza hierarquicamente sob o superframe Violência_Justificada, desdobrando-se em categorias operacionais de culpabilização, estigmatização e desmoralização da vítima, além da minimização do crime e apoio ao agressor.
Este artigo apresenta uma cartografia das pesquisas sobre argumentação desenvolvidas em programas de pós-graduação da área de Letras e Linguística no estado de São Paulo, Brasil, no período de 2011 a 2020. A partir do levantamento e análise de teses e dissertações, o estudo busca identificar tendências teóricas, interfaces disciplinares e objetos discursivos privilegiados nas investigações realizadas nesse contexto. Os resultados evidenciam a predominância de abordagens vinculadas à tradição retórica, à linguística textual e à análise do discurso, bem como a recorrência de estudos centrados na análise de estratégias argumentativas em textos predominantemente verbais. Ao mesmo tempo, o mapeamento revela lacunas investigativas relacionadas à incorporação da multimodalidade, à análise de práticas colaborativas de argumentação e ao estudo de processos argumentativos em contextos educativos. Diante desse cenário, o artigo propõe a noção de argumentação multimodal colaborativa como possibilidade de ampliação teórico-metodológica no campo dos estudos da argumentação. Essa perspectiva compreende os processos argumentativos como práticas sociais coletivas nas quais diferentes sujeitos mobilizam múltiplos modos semióticos na construção de sentidos e na negociação de posicionamentos diante de problemas socialmente relevantes. Ao articular multimodalidade, colaboração e engajamento social, a proposta contribui para ampliar o horizonte analítico dos estudos da argumentação em contextos educativos e discursivos contemporâneos.