
Introdução – Ao longo dos anos, os organismos evoluíram biologicamente, desenvolvendo ritmos circadianos. Os profissionais de saúde operam frequentemente em turnos noturnos, estando expostos à luz artificial, trabalhando e alimentando-se no período circadiano noturno, o que aumenta o risco de desalinhamento circadiano. Objetivos – Esta revisão narrativa tem como objetivos aferir o impacto do trabalho por turnos na alimentação, qualidade do sono e atividade física e identificar estratégias alimentares para promover a adaptação circadiana. Métodos – A pesquisa bibliográfica de suporte foi realizada recorrendo às bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science. Resultados – Os trabalhadores por turnos têm padrões de sono de baixa qualidade, ingerem alimentos durante a noite e têm pouca disponibilidade para praticar exercício físico. A manipulação de fatores que favorecem a adaptação circadiana ao trabalho por turnos, como a alimentação, torna-se essencial. O jejum noturno, a ingestão de pequenas e múltiplas refeições durante o turno noturno e a inclusão de proteína nas refeições durante e pós-turno parecem ser potenciais estratégias com benefícios. No âmbito desta temática apresenta-se o protocolo do estudo CRO-NutS, financiado pelo Instituto Politécnico de Lisboa (IPL/IDI&CA2024/CRO-NutS_ESTeSL), que tem como objetivos relacionar o cronotipo e o padrão alimentar e de sono, o estado nutricional, o balanço energético e a atividade física em profissionais de saúde que trabalham por turnos, desenvolver estratégias nutricionais e para redução dos riscos da exposição à luz artificial e promoção de um padrão de sono mais reparador. Conclusão – As alterações do ritmo circadiano são potenciais causas do aumento de riscos para a saúde associado ao trabalho por turnos. Apesar de existirem várias recomendações nutricionais para estes trabalhadores, estas ainda não refletem a evidência científica mais recente, tornando-se imperativo aprofundar e consolidar a evidência atual para que seja incluída nas recomendações alimentares.
Introdução – A artroplastia do joelho é uma das cirurgias mais comuns em todo o mundo. Após a cirurgia, a fisioterapia é largamente recomendada. Num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam enormes constrangimentos financeiros – em Portugal, por exemplo, a despesa da saúde tem vindo a aumentar de forma constante, representando 11,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 –, é fundamental fazer estudos de avaliação económica para alocação de recursos. Objetivo – Comparar dois planos de reabilitação diferentes em indivíduos de idade ≥65 anos após artroplastia total do joelho. Métodos – Estudo unicêntrico, do tipo experimental clássico, com a avaliação antes e após intervenção, de uma amostra consecutiva de dois grupos aleatorizados: o Grupo 1 (n=15) recebeu fisioterapia presencial duas vezes por semana, complementada com um programa de exercícios em casa, e o Grupo 2 (n=9) recebeu fisioterapia presencial três vezes por semana, sem exercícios adicionais. Ambos os grupos receberam tratamento durante cinco semanas. A efetividade foi medida por subcomponente. Dor e funcionalidade foram avaliadas usando o Oxford Knee Score (escala de 12 a 60 pontos). As amplitudes de movimento do joelho em flexão e extensão, ativas, foram medidas em graus com goniómetro. A força muscular foi medida contando o número de levantes da cadeira conforme o 30s Chair Stand Test. A comparação da efetividade entre grupos foi feita através de testes paramétricos e não-paramétricos. O custo de cada plano de reabilitação foi calculado com recurso aos preços das tabelas de meios complementares de diagnóstico e terapêutica em vigor. A comparação económica foi feita pelo cálculo do rácio custo-efetividade incremental (RCEI). Resultados – Ambos os grupos apresentaram melhorias em todos os indicadores da efetividade, com o Grupo 1 a revelar melhores resultados (média Grupo 1=88% vs Grupo 2=44%). O resultado do RCEI de € -38,82/unidade de efetividade foi favorável ao Grupo 1. Conclusão – O plano de reabilitação do Grupo 1 foi custo-efetivo relativamente ao comparador, apontando um caminho potencial para otimização de recursos no hospital onde decorreu o estudo.
Introdução – As hemoglobinopatias constituem um dos grupos de doenças monogénicas mais prevalentes a nível mundial. Atualmente, um dos tratamentos disponíveis consiste na indução farmacológica da hemoglobina fetal (HbF) através de vários compostos químicos, sendo o mais comum a hidroxiureia (HU). Contudo, o seu custo elevado em países subdesenvolvidos e o seu perfil de segurança limitam a utilização deste composto. Assim, é essencial a descoberta de novos compostos indutores de HbF com menos efeitos secundários e de fácil acesso, como é o caso dos compostos naturais (e.g., extrato de folha de Carica papaya L.). Objetivo – Avaliar o efeito da exposição de células K562 (linha celular humana imortalizada de leucemia mieloide) ao extrato metanólico das folhas de Carica papaya L. (EMFCP) ao nível da expressão dos miRNAs envolvidos na regulação da HbF. Métodos – As células K562 foram expostas durante 24 horas ao EMFCP (0,5; 50 e 100μg/mL) e a HU (25μg/mL). A análise da expressão dos miRNAs envolvidos na regulação da HbF (miR-486-3p, miR-34a-5p, miR-210-5p, miR-32-5p e miR-96-5p) foi feita por RT-qPCR, tendo como referência endógena o miR-426-3p. Resultados – A análise de dados demonstrou que o EMFCP possui a capacidade de modular a expressão de miRNAs, estando esta associada à diminuição da expressão do miR-486-3p, miR-34a-5p, miR-210-5p, miR-32-5p e miR-96-5p, reguladores da HbF. Conclusão – O presente estudo sugere que o EMFCP possui potencial indutor da HbF através da modulação de miRNAs reguladores, constituindo assim uma potencial abordagem eficaz na terapêutica das β-hemoglobinopatias.
Introdução – A não comparência dos utentes às consultas externas é um problema prevalente e sistemático que impacta negativamente tanto na efetividade dos sistemas de saúde como na saúde dos utentes. Os sistemas de lembrete emergiram como uma solução promissora para mitigar esse problema. Objetivo – Sintetizar a evidência disponível sobre o impacto dos sistemas de lembrete na taxa de não comparência (Tx.NC) dos utentes às consultas externas. Métodos – Sustentada na metodologia do Joanna Briggs Institute, a pesquisa realizou-se nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science, utilizando palavras-chave como no-show patients, non-attendance e reminder systems, combinadas com operadores booleanos. O desenho do estudo seguiu os itens do PRISMA-ScR para Scoping Reviews, tendo sido incluídos apenas artigos de investigação original com foco nos sistemas de lembrete aplicados no âmbito de consultas externas. Resultados – Foram identificados 429 artigos, dos quais 15 foram incluídos na análise após aplicação dos critérios de elegibilidade. A implementação de sistemas de lembrete reduziu a Tx.NC dos utentes às consultas externas até 40-50%. Embora o SMS tenha sido a estratégia mais observada, foi a chamada telefónica, com confirmação de consulta, que revelou maior efetividade na redução da Tx.NC. Conclusão – Esta revisão evidencia a importância dos sistemas de lembrete na redução da Tx.NC às consultas externas, contribuindo ativamente para a efetividade dos sistemas de saúde.
A retinopatia diabética (RD) é uma complicação microvascular grave da diabetes mellitus e uma das principais causas de cegueira evitável em adultos. Este estudo analisa o impacto da Inteligência Artificial (IA) no rastreio automatizado da RD, destacando sua capacidade de melhorar a precisão e a eficiência das triagens. A IA permite a detecção precoce da doença, com a redução da dependência de especialistas e o aumento do acesso a cuidados em regiões com poucos recursos. As tecnologias discutidas incluem algoritmos avançados de aprendizagem profunda e técnicas de explicabilidade, que ajudam a interpretar os resultados clínicos. Apesar dos avanços, barreiras como a falta de padronização de dados, questões éticas e limitações na generalização das estruturas de IA precisam ser superadas. O estudo conclui que a IA representa uma ferramenta promissora no manejo da RD, com potencial para transformar a identificação da doença e prevenir complicações visuais graves em diferentes contextos socioeconômicos.
Introdução – A utilização de cremes contendo óleos essenciais de plantas aromáticas é uma área em crescente desenvolvimento em medicina veterinária. Os óleos essenciais apresentam propriedades biológicas, incluindo atividades antimicrobianas, antioxidantes e anti-inflamatórias que podem coadjuvar o tratamento de problemas de pele em gatos e cães. O controlo de qualidade de um creme com óleo essencial de Origanum vulgare L. inclui, entre outros ensaios, a quantificação de carvacrol (um monoterpeno fenólico maioritário). Objetivos – Pretende-se extrair, separar e quantificar o carvacrol presente num creme farmacêutico, validando este método de controlo de qualidade. Métodos – Foram realizadas três extrações sólido-líquido consecutivas de 100mg de creme, tendo-se obtido uma distribuição da quantidade de carvacrol extraída de 74,7%, 19,4% e 5,9%, respetivamente, correspondendo a 95% de recuperação do total de óleo essencial contido no creme. Os extratos foram analisados por HPLC-DAD numa coluna RP-C18 com uma fase móvel de metanol:água:acetonitrilo. Resultados – O método foi validado, tendo resultado em precisão intraensaio e interensaio inferiores a 2%RSD. Obteve-se limite de deteção de 0,65µg/mL e limite de quantificação de 1,95µg/mL. O carvacrol constituía cerca de 36% da massa do óleo essencial do quimiotipo principal. Conclusões – O método desenvolvido pode ser utilizado para controlo de qualidade de cremes contendo carvacrol, podendo ser aplicado a outros monoterpenos.
Introdução – A incontinência urinária (IU) ou perda involuntária de urina é uma condição de saúde frequente e preocupante, que pode ser subdividida em três tipos comuns: IU de esforço, de urgência ou mista. Objetivos – Identificar a prevalência de IU em mulheres no concelho de Seia e avaliar o impacto da IU na qualidade de vida (QdV) dessas mulheres. Métodos – Estudo do tipo observacional descritivo e de características analíticas, com uma amostra de conveniência de entre a população feminina do concelho de Seia (n=416), com uma subamostra das mulheres incontinentes (n=117). Foram utilizados um questionário de caracterização da amostra e o instrumento de medida Contilife®. A análise inferencial foi realizada pelo teste Qui-Quadrado, teste t de Student e medida de Likelihood Ratio (LR). A consistência interna foi avaliada pelo Alfa de Cronbach. Resultados – A prevalência de IU para a população de Seia foi de 28,1%, com uma associação significativa entre a paridade e a presença de IU tendo o valor de LR grande. A IU tem impacto na QdV das mulheres (59%), medida pelo Contilife® (média 7,59 na QdV global), sendo que a IU mista foi o tipo que causou mais impacto (73,3%). Conclusão – A IU feminina tem impacto na QdV com valores estatisticamente significativos em todas as dimensões do Contilife®, embora classificado como impacto baixo. Os fisioterapeutas podem ser profissionais de primeiro contacto, permitindo a quantificação das mulheres com IU e atuando na prevenção e tratamento desta condição, levando a que a fisioterapia seja um fio condutor para a melhoria da qualidade de vida.
Introdução – O desempenho dos profissionais de saúde refere-se às competências clínicas, conhecimentos e habilidades técnicas, enquanto o seu comprometimento está relacionado com o vínculo psicológico e emocional com o trabalho e a organização. A compreensão da interação entre estes conceitos é importante para otimizar os resultados em saúde. Objetivos – Explorar a extensão e a natureza da relação entre desempenho e comprometimento nos profissionais de saúde, identificando os fatores que influenciam esta relação e quais as metodologias utilizadas para o seu estudo. Métodos – Foi realizada uma revisão sistemática da literatura seguindo o protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (PRISMA). Resultados – Foram identificados 847 artigos, dos quais 14 foram incluídos para análise. Destaca-se a atualidade e universalidade do tema devido à profunda interação entre os constructos estudados. Alguns estudos apontam para correlações positivas diretas, enquanto outros evidenciam relações de influência mútua ou identificam o comprometimento como mediador em várias interações. Além disso, fatores como a satisfação no trabalho, o burnout, a liderança e a motivação também impactam a relação entre desempenho e comprometimento nos profissionais de saúde. Discussão – A relação entre desempenho e comprometimento nos profissionais de saúde é complexa e suscetível a diferentes influências. Conclusão – É pertinente a continuação de investigações para aprofundar o conhecimento nesta área, já que as organizações de saúde enfrentam o desafio contínuo de proporcionar uma assistência de qualidade aos pacientes, ao mesmo tempo que tentam gerir de forma eficiente recursos limitados.
Introdução – A visão é um importante meio de desenvolvimento físico/motor, comportamental e cognitivo nas crianças, tendo uma grande relevância no processo de aprendizagem. Objetivo – Caracterizar as anomalias de função visual que contribuem para as dificuldades da escrita em crianças do 3º e 4º anos de escolaridade e relacionar com os erros ortográficos identificados. Métodos – Estudo observacional, descritivo, transversal, de paradigma quantitativo do tipo correlacional. Amostra de 232 alunos, com idade entre sete e doze anos. Para aferir as dificuldades da escrita foi aplicado o Protocolo de Aferição de Dificuldades em Leitura e Escrita. Para o estudo da função visual foi aplicado o protocolo clínico de ortóptica. Resultados – Verificou-se que os alunos com alterações na acuidade visual para perto (3,45%), no ponto próximo de convergência (17,3%) e no ponto próximo de acomodação (32,4%) deram mais erros na cópia, por troca de letras. Os alunos com vergências alteradas, nomeadamente na convergência para perto (69,6%) e na convergência para longe (76,4%), cometeram, respetivamente, mais erros no ditado e na cópia também por troca de letras. Conclusões – As anomalias mais comuns em crianças em idade escolar são: erros refrativos, ambliopia, insuficiência de convergência, desequilíbrio oculomotor (estrabismos). Apesar dos alunos com alterações na acuidade visual para perto, ponto próximo de convergência, ponto próximo de acomodação, convergência para perto e para longe terem dado mais erros, as correlações não foram estatisticamente significativas.
Introdução – Os avanços em oftalmologia e a descoberta de fármacos antiangiogénicos administrados por injeção intravítrea revolucionaram o tratamento de diferentes doenças que afetam a retina. O aparecimento destes fármacos, em 2006, marcou a abordagem e curso da degenerescência macular da idade. Os fármacos anti-VEGF mais usados para injeção intravítrea são o ranibizumab, o bevacizumab e o aflibercept. Estes três fármacos estão disponíveis no mercado em frascos ampola, não precisam de ser diluídos ou reconstituídos. A solução disponibilizada comercialmente só precisa de ser transferida com recurso à técnica assética para seringas estéreis antes da administração. Este método permite que todo o conteúdo de um frasco comercial de uso único possa ser fracionado em várias seringas para armazenamento e posterior injeção a vários doentes, possibilitando uma melhor gestão. Objetivo – Pretende-se descrever um método usado para o fracionamento dos fármacos aflibercept e ranibizumab com recurso a técnica assética para administração intravítrea. Métodos – Realizou-se uma revisão narrativa da literatura e descrição do método utilizado, de acordo com a experiência e procedimentos realizados na farmácia hospitalar do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca EPE (HFF). Considerações finais – No âmbito dos inúmeros desafios colocados às instituições de saúde em Portugal e no mundo, com foco na sua sustentabilidade, é evidente a necessidade de criação de estratégias de gestão do uso dos medicamentos. Por este motivo, o fracionamento destes fármacos é realizado, reduzindo os custos e os desperdícios.
Introdução – A doença de Parkinson é um transtorno neurodegenerativo progressivo com sintomatologia motora, assim como não motora, ao nível oculo-visual. Apresenta uma taxa de incidência anual de 14 pacientes por 100.000 habitantes, aumentando com o avançar da idade. Estima-se que existam cerca de 10 milhões de pessoas na população afetadas pela doença. Objetivos – O objetivo desta revisão de âmbito consiste em identificar as alterações provocadas pela doença de Parkinson na visão, descritas na literatura com base em artigos científicos. Método – Os artigos selecionados para esta revisão de âmbito foram recolhidos entre novembro de 2020 e janeiro de 2021 nas bases de dados PubMed/MEDLINE e Web of Science. Foram pesquisados estudos sobre as alterações da visão na doença de Parkinson, incluindo artigos publicados nos últimos cinco anos. Resultados e Discussão – Obtiveram-se 104 artigos, sendo selecionados 22 artigos de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. As duas principais funções visuais mais afetadas na doença de Parkinson são a sensibilidade ao contraste – referida como alterada num maior número de artigos no estadio intermédio, fase 2 (escala de Hoehn e Yahr) e a partir do valor 22,4 (escala ETDRS III) – e a visão cromática. A alteração da acuidade visual, a redução da velocidade de leitura e, consequentemente, das alterações nos movimentos sacádicos e redução da Mobilidade – fase 3 (escala Hoehn e Yahr) e a partir do valor 37 (escala ETDRS III); a atenção visual e a estereopsia também foram relatadas. As alterações na visão funcional surgem, por norma, nas fases avançadas da doença, enquanto que na função visual surgem em fases mais precoces. Conclusões – A disfunção oculo-visual é cada vez mais reconhecida como uma manifestação não-motora da doença de Parkinson, provocando alterações tanto ao nível da função visual (acuidade visual, estereopsia, movimentos oculares, sensibilidade ao contraste e visão cromática) como ao nível da visão funcional (leitura e mobilidade). Seria importante a realização de mais estudos com o objetivo de analisar o impacto destas alterações na qualidade de vida destes doentes.
Introdução – Perante a situação pandémica da COVID-19, com início em 2020, as instituições de ensino superior necessitaram de se adaptar, transitando do ensino presencial para ensino de emergência a distância e, por isso, em formato online. Objetivos – Analisar a perceção dos estudantes de uma escola superior de saúde face à transição de ensino, focando-se principalmente na preferência e satisfação pelo tipo de ensino, nas dificuldades de adaptação, na motivação, nas alterações dos estados emocionais, no desempenho académico, nas competências adquiridas e nas alterações visuais, como a manifestação de sensação de ardor ocular e olho seco, cefaleias e peso ocular. Método – Realizou-se uma investigação descritiva através da aplicação de um questionário online à amostra em estudo. Os dados foram analisados através do SPSS. Resultados – Os resultados obtidos indicaram que, das 517 respostas, 40,4% (n=207) afirmaram preferir o ensino presencial, 43,9% (n=207) afirmaram sentir maiores dificuldades na adaptação ao ensino prático, sendo que 29,3% (n=143) afirmaram estar mais satisfeitos com as aulas teóricas contrariamente às aulas práticas. Conclusão – Os estudantes mostraram-se de uma forma geral insatisfeitos com o ensino à distância, em particular com as aulas práticas, uma vez que se verificou nesta tipologia de ensino uma manifestação negativa na adaptação, nos estados emocionais, na motivação e nas capacidades académicas dos estudantes, bem como uma manifestação positiva no que toca à preferência dos estudantes pelo ensino presencial.
A reabilitação visual após queratoplastia penetrante (PKP) é a principal indicação para aproximadamente 15% de todas as adaptações de lentes esclerais e um astigmatismo irregular significativo está presente em 62,9% dos doentes após esta técnica. As lentes de contacto (LC) podem melhorar a função visual nestes doentes, especialmente as lentes esclerais (SL), uma vez que a lente é muito estável e pode ultrapassar a interface enxerto-hospedeiro, minimizando a potencial irritação mecânica relacionada com o movimento ou suporte da lente, reduzindo o potencial de rejeição ou falha do enxerto e corrigindo o astigmatismo corneano irregular elevado. Outra indicação da lente de contacto é a correção monocular após a PKP devido à anisometropia e aneisoconia normalmente presentes após esta técnica. A combinação destes dois fatores leva ao sucesso e à indicação da adaptação deste tipo de lentes de contacto nestes casos complexos. Este é um estudo de caso de um paciente com queratocone, que sofria de astigmatismo irregular, anisometropia elevada e leucoma generalizado após uma infeção monocular após PKP, com os principais objetivos de melhorar a acuidade visual corrigida (BCVA) e reduzir a aniseiconia com SL.
Introdução – Sono e nutrição são pilares fundamentais para os atletas de culturismo. A sua inadequada recuperação, associada a uma má qualidade de sono e a um incorreto plano nutricional, prejudica a sua performance desportiva. Objetivos – Verificar se o treino e os hábitos alimentares num culturista afetam a qualidade de sono, assim como avaliar se esta se modifica ao longo da preparação da prova, na pré e pós-competição. Método – Avaliaram-se 10 atletas de culturismo (70% homens e 30% mulheres), entre 25 e 41 anos, sem presença de historial clínico relevante. A avaliação de sono foi realizada através do Índice de Qualidade de Pittsburgh do Sono e os hábitos alimentares através de um questionário para determinar o plano nutricional e de treino. Os atletas foram avaliados em quatro momentos: pré-competição (1.ª, 6.ª e 12.ª semanas) e na pós-competição. Resultados – Verificou-se significância estatística entre a intensidade dos treinos e a qualidade do sono (W=0,005), bem como entre esta e o número de calorias ingeridas (p<0,0001), sendo a sua média na 1.ª, 6.ª e 12.ª semanas e pós-competição, de 4320,00±1100,303; 3040,00±756,013; 1890,00±5914 quilocalorias (Kcal) e sem restrição calórica. Relativamente ao Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh verificou-se uma média de 7,90±2,846; 7,10±3,178; 9,60±4,326 e 6,00±3,300, respetivamente (valores superiores a seis sugerem má qualidade de sono), e à intensidade dos treinos de 10,40±2,459 com um valor máximo de 12 e um mínimo de seis (horas/semana). Discussão – Através desta amostra demonstrou-se uma predominância de atletas com má qualidade de sono. Observou-se uma relação estatisticamente significativa quando comparada a qualidade de sono com a intensidade dos treinos e o número de calorias ingeridas pelos atletas; demonstrou-se que, à medida que ocorre o aumento da intensidade do treino e a maior restrição calórica, o sono vai diminuindo na sua qualidade. A literatura refere inúmeros fatores que influenciam negativamente a qualidade do sono destes atletas que, por sua vez, interferem na sua recuperação física e psicológica. Conclusão – A maioria da amostra apresentou elevados valores do PSQI sugestivos de má qualidade e distúrbios do sono, principalmente na fase de pré-competição.
Introdução – A disseminação pandémica do SARS-CoV-2 levou a um surto de pneumonia viral sem precedentes. Apesar de a caracterização de sequelas pós-COVID-19 constituir o interesse atual da investigação mundial, um elevado grau de desconhecimento regista-se ao nível do impacto funcional que esta doença causa nos idosos que tenham apresentado manifestações moderadas, graves ou críticas. Objetivo – Identificar as principais sequelas na capacidade funcional e respiratória em idosos após o COVID-19. Método – Estudo transversal realizado na comunidade. Avaliou-se a capacidade aeróbia funcional (teste de step de 2 min), perceção da dispneia (modified Medical Research Council), força muscular respiratória e periférica (pressão inspiratória e expiratória máximas, força de preensão manual) e o Índice de Fragilidade (Escala de Fragilidade Clínica) em 25 indivíduos com idade ≥65 anos, residentes na comunidade, com diagnóstico de COVID-19 até seis meses, e em igual número de idosos com as mesmas características sem diagnóstico conhecido de COVID-19. Resultados – Os idosos com diagnóstico de COVID-19 até seis meses apresentaram uma diminuição nos valores de pressão inspiratória máxima (p<0,001), pressão expiratória máxima (p=0,015), na capacidade aeróbia (p<0,001), com presença significativa de dessaturação induzida pelo esforço (p<0,001), valores aumentados de perceção de dispneia (p<0,001) e níveis mais elevados de Índice de Fragilidade (p=0,026). Conclusão – Foram encontradas alterações significativas na capacidade respiratória e funcional em idosos com diagnóstico de COVID-19 até seis meses quando comparados com idosos com características idênticas sem diagnóstico prévio de COVID-19. Estes resultados podem ser um importante indicador na caracterização de sequelas após infeção pelo SARS-CoV-2.
Introdução – A miopia é um erro refrativo cujos raios paralelos provenientes do infinito focam antes do plano da retina. Globalmente a prevalência da miopia está a aumentar, sendo a sua progressão controlada através de diversos métodos, nomeadamente lentes de desfocagem periférica, como é o exemplo das lentes de contacto MiSight® 1 day. Objetivos – Avaliar a progressão da miopia em crianças que usaram lentes de contacto MiSight® 1 day. Métodos – Foi implementado um estudo observacional descritivo, retrospetivo e do tipo série de casos. Os dados foram recolhidos após consulta de registo clínico num estabelecimento comercial de ótica, local onde as lentes de contacto foram adaptadas. Foram incluídas crianças com miopia que iniciaram o tratamento com as lentes de contacto MiSight® 1 day para controlo da progressão da miopia. A eficácia do tratamento foi avaliada através da medição do erro refrativo (equivalente esférico) antes, durante e após o início do tratamento. Resultados – Foram incluídas cinco crianças, duas do género masculino e três do feminino, com idades entre os sete e quinze anos. A duração do tratamento variou entre 19 e 61 meses. A progressão da miopia durante o tratamento variou entre 0.00 e -1.75 D. Discussão – Todas as crianças que integraram o estudo demonstraram uma diminuição da progressão da miopia quando comparada com a progressão da miopia antes do tratamento (0.00 e -2.25 D), bem como com a progressão que seria expectável sem tratamento (-1.10 e -2.75 D). Conclusões – O uso da lente de contacto MiSight® 1 day proporcionou um maior controlo na progressão da miopia quando comparado com a progressão que seria expectável sem a utilização da mesma.
A resistência antimicrobiana de patógenos humanos, como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), é globalmente definida como uma grande preocupação de saúde pública. Atualmente, várias novas abordagens terapêuticas estão a ser desenvolvidas com o objetivo de encontrar uma alternativa para tratar essas infeções, incluindo o uso de compostos naturais com potencial de modulação epigenética, como as catequinas do chá verde. No chá verde, a Epigalocatequina-3 galato (EGCG) é a catequina mais abundante e clinicamente relevante, com propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, anticancerígenas e antimicrobianas, bem como efeitos sinérgicos relatados para vários antibióticos. A busca por novas alternativas terapêuticas tem levado ao desenvolvimento de estudos sobre o efeito do EGCG em fatores de virulência e modulação transcricional de S. aureus. Vários estudos, inclusive do nosso grupo de investigação, demonstraram que a exposição ao EGCG é capaz de afetar o padrão transcricional da bactéria em vários genes. Efeitos de transcrição foram relatados em genes implicados na produção de toxinas, como hly, que codifica para um precursor da alfa-hemolisina e hlgA, hlgB, as subunidades A e B da gama-hemolisina, respetivamente, no modulador epigenético orfx (um estafilococo metiltransferase) e em genes envolvidos em respostas de resistência (spdC e WalKR). Além disso, evidências crescentes demonstraram correlações potenciais entre a modulação epigenética e a expressão de fatores de virulência, incluindo hemolisinas. Assim, o EGCG deve ser considerado como um novo composto para tratamento antimicrobiano e/ou adjuvante terapêutico contra microrganismos resistentes a antibióticos, mesmo em estirpes com fenótipos de resistência divergentes.
Introdução e Objetivos – Aproximadamente 80% dos sobreviventes de acidente vascular cerebral (AVC) apresentam défices de equilíbrio e até 58% apresentam risco de queda no primeiro ano após AVC. Uma das intervenções que tem sido utilizada para o tratamento desta sequela é a fisioterapia aquática. O objetivo deste trabalho é identificar os efeitos de um plano de fisioterapia aquática em grupo no risco de queda, em doentes com AVC crónico. Métodos – Análise de série de casos de três sobreviventes de AVC crónico que apresentam risco de queda (tempo de instalação de 21 a 41 meses). Foram utilizados os instrumentos de avaliação: Escala de Equilíbrio de Berg (EEB), Timed Up and Go (TUG) e Escala de Confiança no Equilíbrio Específica para a Atividade (ECEEA). O programa teve a duração de oito semanas, frequência de duas vezes por semana e a duração de 45 minutos por sessão. Resultados – Os participantes obtiveram diminuições que variam entre 14 e 36 segundos no TUG. Contrariamente, observou-se um aumento na EEB (valores entre 10 a 16 pontos) e da ECEEA (3,13 e 6,88%). Discussão e Conclusão – Todos melhoraram o equilíbrio. Foram obtidos resultados clinicamente significativos no TUG e na EEB, revelando uma diminuição significativa deste risco. Os resultados obtidos pela ECEEA mostram--nos que os participantes mantêm o medo de cair. O pequeno tamanho da amostra não permite generalização dos resultados.
As manchas de sangue seco parecem ser uma opção válida para a recolha de amostras para extração de DNA, especialmente em comunidades mais pobres e com menos acesso a cuidados médicos. As manchas de sangue seco podem ser facilmente transportadas e garantem um método não invasivo de colheita rápida que pode ser acoplado a métodos de extração de DNA. No entanto, as condições de armazenamento e transporte (tempo e temperatura), bem como o tipo e volumes de amostra podem condicionar a eficiência da extração de DNA e tornar-se um desafio. Neste contexto avaliaram-se os efeitos na eficiência da extração de DNA de seis condições de armazenamento (24 horas a 4 °C, 24 horas à temperatura ambiente, 24 horas a 50 °C, sete dias a 4 °C, sete dias à temperatura ambiente temperatura e sete dias a 50 °C) para amostras de sangue seco com sangue venoso e amostras de sangue capilar. Para avaliar a proficiência na extração de DNA, em cada uma dessas condições, realizou-se a extração de DNA com o QIAamp® Blood Mini Kit e avaliaram-se as concentrações finais e taxas de pureza do DNA, por meio de espectrofotometria UV com auxílio do Nanodrop® OneC. A análise estatística foi realizada por meio do teste T no Microsoft® Excel. Os resultados obtidos demonstraram que é possível extrair uma quantidade maior de DNA de amostras de sangue capilar em amostras de sangue seco, embora com menor pureza do que amostras de sangue venoso. Além disso, os resultados mostram que a temperatura avaliada e o tempo de armazenamento (sete dias) não afetam os resultados da extração de DNA.
O OCT-A é um exame que permite a visualização da vascularização da retina e da coroide, assim como a visualização tridimensional dos plexos vasculares em diferentes profundidades, fornecendo informação funcional sobre o fluxo sanguíneo nos vasos, zonas de não perfusão ou neovascularização. A zona avascular da fóvea (FAZ) corresponde a uma zona desprovida de capilares na região foveolar e pode ser detetada e medida com recurso ao OCT-A. Ao realizar o exame é possível optar por dois métodos com diferente resolução e tempo de aquisição, pelo que é importante avaliar se as medições efetuadas são comparáveis entre os dois métodos. O objetivo do estudo foi verificar se existem diferenças na medição da área avascular da fóvea entre dois protocolos diferentes de aquisição de OCT-A. O estudo realizado foi um estudo caso-controlo transversal. A amostra foi composta por 26 participantes com diabetes mellitus. O instrumento utilizado foi o SD-OCT HRA+OCT SPECTRALIS Heidelberg Engineering. A avaliação dos participantes foi constituída pela recolha de mapas de OCT-A de 10º x 10º (HR) e 20º x 20º (HS). Os mapas foram medidos manualmente por dois observadores, sendo que cada um fez duas medições da zona avascular da fóvea de cada mapa (HS e HR) em cada plexo (superficial e profundo). Com recurso ao programa SPSS efetuou-se a análise estatística das amostras. Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre as diferentes medições, podendo-se assim afirmar que a avaliação com os dois protocolos é repetível e reprodutível, existindo uma boa concordância entre os métodos. No entanto, a utilização de ambos os plexos retinianos em conjunto para avaliação da área avascular da fóvea poderá ser mais adequada.