
Este artigo apresenta resultados iniciais da pesquisa “Ações e interações de movimentos sociais contra a transfobia: uma análise discursiva crítica”, no marco do desenvolvimento de Estudos Críticos do Discurso em perspectivas decoloniais. De base metodológica documental-etnográfica, a pesquisa maior objetiva pesquisar as ações do movimento social de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Intersexuais, Queer e outras, (LGBTIQIA+) e da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), contemplando aspectos das formas de inter-ação, de interlocução, de produção e de distribuição discursiva como ações político-identitárias. Buscam-se analisar as ações na denúncia e combate à transfobia e na disseminação de conhecimento de gênero social, em materiais discursivos, tais como documentos, cartilhas, postagens, orientações, guias, como também em mobilizações como Marsha Trans, Acampamento Terra Livre, Parada LGBT Nacional, e em protestos eventuais a partir de 2020. Neste artigo específico, analisamos as formas, significados e processos discursivos das ações de comunicação da ANTRA, com foco no discurso como forma de ação e intervenção social na cartilha “Não existe cadeia humanizada! Estudo sobre a população LGBTQIA+ em privação de liberdade”. Tomados como eventos sociais e formas de inter-ação, a análise do material semiótico busca contemplar aspectos de toda a prática social onde as pessoas interagem contextualmente: atividade material (com seus objetos, meios, modos, tecnologias e tempos-espaços situados), propósitos da atividade, pessoas (e suas posições de poder em formas institucionais), planejamento, produção, distribuição, visibilização, interlocução, recursividade, intertextualidade, interdiscursividade. Tal materialidade das formas, processos e lutas pelo significado em resposta ao sistema trans-excludente hegemonizado, indicam que as cartilhas, como meios e formas de agência, denunciam os agentes sociais e as práticas que sustentam a transfobia institucionalizada, e a esfera executiva como agente que, a despeito da legislação vigente, atua na legitimação procedimentalizada transexcludente.
Este trabalho apresenta uma interpretação historiográfica da reflexão sobre o ensino de português promovida pela linguística brasileira, de sua institucionalização, na década de 1960, à sua consolidação e diversificação no contexto universitário, no final dos anos de 1990. Investiga-se de que modo esse debate se consolida como parte da agenda de uma linguística de orientação aplicada e como, e em que medida, essa discussão acompanha o desenvolvimento da ciência da linguagem praticada no Brasil no período delimitado. O estudo situa-se no campo da Historiografia da Linguística, a partir do qual se busca compreender a construção da história da linguística brasileira e da discussão sobre o ensino de português em seu contexto sócio-histórico e socioinstitucional. A análise demonstra que a institucionalização da linguística no Brasil cria condições socioinstitucionais favoráveis ao desenvolvimento e à divulgação de trabalhos de orientação aplicada, entre os quais se insere a discussão sobre o ensino de português, além de favorecer o estabelecimento de uma agenda de pesquisa voltada a essa problemática. Evidencia-se, ainda, que, a partir da segunda metade da década de 1970, parte significativa da discussão sobre ensino de leitura, produção textual e gramática produzida pela linguística brasileira passa a assumir uma concepção de linguagem como prática sociodiscursiva, que fundamenta teorias então recentemente introduzidas no país, como a sociolinguística, a linguística textual e a análise do discurso.
Comparisons between human and synthetic speech reveal that prosodic differences manifest primarily in how pitch develops over time rather than in static acoustic properties. This study investigates how human and synthetic intonation differ in Venezuelan Spanish by analyzing the temporal organization of fundamental frequency (F0) contours in declarative and interrogative sentences. The analysis is based on data from the HABLA corpus, which contains utterances produced by human speakers paired with multiple synthetic realizations derived from identical sentence materials, allowing controlled comparisons across voice types. Time-normalized F0 contours were extracted and analyzed using generalized additive mixed models in order to capture differences in contour shape and temporal organization. In addition, linear mixed-effects models were employed to examine complementary token-level acoustic measures, including pitch range, global variability, and slope-based metrics. Across both sentence modalities, the results show that synthetic speech reproduces general intonational configurations compatible with sentence modality. However, systematic differences emerge in the temporal implementation of these patterns. Human speech exhibits greater internal differentiation and localized modulation across the utterance, particularly in linguistically salient sentence-final regions. Synthetic speech, by contrast, displays smoother and more temporally regularized contours, with reduced local variability and attenuated slope changes. Global measures of pitch range and whole-utterance variability show considerable overlap between the two voice types, indicating that divergence is not driven by global pitch amplitude or aggregate dispersion. Instead, the results demonstrate that differences are localized in the temporal organization of F0 across the utterance. These findings highlight the importance of contour-based, time-sensitive approaches for assessing prosodic realism in synthetic speech.
This study aimed to analyze the effects of a speech-language intervention on speech expressiveness based on perceptual data of voice quality and vocal dynamics in teachers from a state public school in Paraíba, Brazil. The study was based on the phonetic model of voice quality description and used the Vocal Profile Analysis for Brazilian Portuguese (VPA-PB). This protocol allows a detailed analysis of vocal tract, laryngeal, and muscle tension settings, as well as prosodic elements, to describe the speaker’s voice quality and vocal dynamics. This interventional, qualitative-quantitative study was approved by the Human Research Ethics Committee of the Federal University of Paraíba (Certificate of Submission for Ethical Review – CAAE nº 65750222.1.0000.5188). Four teachers from a state military school in João Pessoa participated in the study, attending four weekly theoretical-practical workshops that addressed breathing, articulation, pitch and intensity modulation, resonance, and vocal warm-up. Speech samples (VPA-PB sentences and classroom context) were collected before and after the intervention and analyzed by three expert judges. Preliminary results showed a reduction in laryngeal and vocal tract hyperfunction, a decrease in raspy voice, increased pitch and loudness variability, and improved respiratory support, indicating improvements in voice quality and speech expressiveness. These findings suggest that the intervention effectively promoted more balanced vocal settings and greater expressive flexibility, resulting in more natural and efficient speech production with reduced phonatory effort.
Trata-se da apresentação do dossiê Mídias, tecnologias, inteligência artificial: análises de práticas político-discursivas, organizado pelas professoras Evandra Grigoletto (UFPE), Silmara Dela Silva (UFF) e Solange Maria Leda Gallo (UNISUL).
Este artigo analisa produções audiovisuais realizadas com Inteligências Artificiais (IAs) generativas, tomando como corpus a campanha “Taxação BBB” do Partido dos Trabalhadores e as peças satíricas do perfil “Brasil Sátira do Poder”, que circularam durante o debate sobre a derrubada de um decreto presidencial em 2025. Objetiva-se compreender como essas produções ressignificam a noção de efeito-rumor, metaforizando imagens do povo e do político pela imbricação entre discursos políticos e ordinários. Argumenta-se que a materialidade técnica do digital, ao permitir a simulação e a circulação de corpos (do povo, do político e do representante), não apenas desloca os sentidos estabilizados do discurso político midiático, mas também forja uma “ilusão enunciativa” na qual o povo parece falar e ocupar os mesmos lugares de seus representantes. A análise permitiu discutir, à luz da noção de efeito-rumor, o funcionamento do discurso político e ordinário em sua imbricação material. Nessas produções, o povo metaforiza o político e a política metaforiza o povo, um fazendo o outro falar de seu(s) outro(s) lugare(s).
Este artigo propõe compreender as literaturas de língua inglesa como práticas sociais que desestabilizam desigualdades históricas e educam a atenção para a diferença. A partir de leituras críticas de Recitatif (Toni Morrison), Dead Men’s Path (Chinua Achebe), Josee, the Tiger and the Fish (Seiko Tanabe), Every Day Is a Trans Day (H. Melt) e for colored girls who have considered suicide / when the rainbow is enuf (Ntozake Shange), examino como voz narrativa, corporeidade, temporalidade e forma performativa produzem encontros éticos entre literatura e justiça social. A discussão dialoga com Young (1990), Butler (1990), Muñoz (2009), Garland-Thomson (1997), Davis (1995) e Lugones (2008), articulando-os à Linguística Aplicada Crítica. Argumento que as escolhas estéticas — da ambiguidade ao choreopoem — constituem modos de crítica e não meros ornamentos formais. Cada seção propõe perguntas crítico-reflexivas, advindas das minhas praxiologias, que convidam o leitor a pensar a leitura como prática de escuta, convivência e responsabilidade. As considerações finais afirmam a potência inacabada da literatura: um espaço de atenção e imaginação ética, onde o mundo continua a se mover depois do ponto final.
Este artigo se volta à análise de discursos “de” e “sobre” a inteligência artificial, tendo como foco a proposta “IA para o bem de todos”, apresentada pelo governo federal brasileiro em julho de 2024, e dizeres sobre tal proposta com circulação no discurso jornalístico, nesse mesmo período. Ancoradas teórico e metodologicamente na Análise de Discurso pecheutiana, as reflexões teórico-analíticas aqui apresentadas: assumem como ponto de partida as condições de produção desses discursos de IA e sobre a IA que se inscrevem na atual conjuntura sociopolítica e econômica brasileira; analisam os discursos de sustentação à soberania nacional que atravessam a proposta governamental e o modo como ela é discursivizada ao ser tornada acontecimento jornalístico na mídia; e apontam para as contradições no funcionamento do discurso sobre as tecnologias e em seus processos constitutivos dos sentidos e dos sujeitos.
Este estudo investiga como a ideologia política influencia a interpretação de metonímias subespecificadas no discurso público. Fundamentada na Linguística Cognitiva e na Análise Crítica da Metáfora, a pesquisa focaliza os usos metonímicos da palavra “Brasil” em enunciados do programa televisivo brasileiro Brasil Urgente. Com base em achados anteriores de que o programa emprega usos metonímicos vagos e frequentemente críticos de “Brasil”, associados a um vetor ideológico conservador, testamos a hipótese de que indivíduos com diferentes orientações políticas atribuem diferentes referentes conceituais a essa metonímia. Foi empregado um delineamento experimental transversal de natureza quantitativo-qualitativa. Uma amostra de 194 adultos brasileiros respondeu a um questionário on-line. Os participantes assistiram a trechos de vídeo contendo usos metonímicos e não metonímicos de “Brasil” e identificaram seu referente em respostas abertas. Os resultados indicam que, embora “instituições políticas” tenha sido a interpretação mais frequente para os usos metonímicos em ambos os grupos, participantes de esquerda selecionaram esse referente com frequência estatisticamente significativamente maior em três dos cinco trechos metonímicos. Em contextos não metonímicos, participantes de esquerda também identificaram o referente literal de maneira mais consistente. Participantes de direita, por outro lado, apresentaram uma proporção mais elevada de respostas indeterminadas e de respostas imprevisíveis orientadas pelo contexto. Os achados apontam para a direção de que a ideologia política desempenha um papel na orientação da interpretação de metonímias subespecificadas.
Desde a invasão dos europeus à Abya Yala, ainda no final do século XV, a supremacia racial, ontoepistemológica e linguística do homem branco, cisheterossexual, patriarcal, europeu e cristão tem sido amplamente disseminada como representação única e necessária do sujeito moderno. Na contramão dessa lógica, em minha tese de doutorado, defendida em 2023, propus a reinserção de corpos não-brancos, antipatriarcais, antirracistas, anticapitalistas e anticisheteronormativos como elementos centrais na identificação, questionamento e interrupção dos mais diversos apagamentos provocados pela colonialidade, aquilo que chamei de corpovivências decoloniais. Neste texto, discuto de que maneiras o conceito de corpovivências vem se afirmando como estratégia de enfrentamento à colonialidade e às suas múltiplas dimensões, dentro e fora da sala de aula de língua inglesa. Para isso, analiso trabalhos de pesquisadoras/es inseridas/os na Linguística Aplicada Crítica que mobilizam o construto, selecionados a partir de buscas realizadas no Google Acadêmico. Mais do que fortalecer a língua como entidade neutra, apolítica e com fins meramente comunicativos, as corpovivências evidenciam possibilidades de criação de sentidos e reimaginação de mundos por meio da língua[gem]. As análises realizadas indicam que essas potencialidades atravessam os trabalhos que mobilizam o construto, evidenciando sua relevância para o enfrentamento da colonialidade e para o surgimento de praxiologias outras que articulam corpo, subjetividade, escrita, vivência, resistência e reexistência.
A “descrição do português” brasileiro é um campo profícuo de pesquisas, como nos mostra, de maneira empírica, a simples observação do tema em congressos, grupos de pesquisa e trabalho, como o da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística), e outros. Observar essas pesquisas é uma forma eficaz, portanto, de tentar identificar um panorama linguístico de nossa língua que possa servir como um retrato – seja diacrônico, seja sincrônico – do que se tem sido privilegiado nesse sentido. Nossa proposta é a de investigar a produção acadêmica realizada no Brasil acerca da descrição do português brasileiro; para isso, baseados no procedimento metodológico do mapeamento linguístico e do estado da arte, analisamos o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e verificamos as pesquisas realizadas no período 2000-2024 para a chave de pesquisa “descrição do português”. Nossas análises mostram que é possível dividir essas produções em sete macrogrupos que congregam as pesquisas realizadas. A partir disso, optamos por detalhar um desses grupos, o das pesquisas dedicadas a estudos em perspectiva historicista. Ao fim, foi possível recontar parte desse panorama da descrição do português brasileiro e perceber prioridades, lacunas, valorizações e silenciamentos nessas pesquisas.
O artigo examina acervos (meta/epi)linguísticos no cenário brasileiro contemporâneo, compreendendo-os sob o conceito ampliado de arquivo e discutindo suas implicações para a Historiografia Linguística (HL). Partindo das revisões epistemológicas que redefiniram o estatuto dos arquivos nas ciências humanas, sustenta-se que tais acervos não constituem repositórios passivos de fontes, mas construtos dinâmicos do conhecimento, vinculados a contextos históricos, institucionais e socioculturais específicos. Nesse quadro, analisam-se seis iniciativas: o Centro de Documentação em Historiografia Linguística, da Universidade de São Paulo; o Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa, desenvolvido pelo grupo de pesquisa Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas, da Universidade Federal da Paraíba; o Dossiê de Gramáticas e Dicionários do Português, da Fundação Biblioteca Nacional e da Fundação Casa de Rui Barbosa; o Web-Museu da Gramática, da Universidade Federal de Uberlândia; o Museu da Língua Portuguesa; e o Museu de Itinerários Linguísticos do Instituto Serendipe. Para cada caso, apresentam-se o histórico de constituição, os objetivos, os critérios de curadoria e catalogação, as formas de organização e os modos de acesso. A análise mobiliza instrumental metodológico da HL e da museologia contemporânea, com atenção às concepções de língua e aos modos de organização do saber metalinguístico. Argumenta-se que a relação entre arquivos e HL envolve uma tensão constitutiva entre retrospectiva historiográfica e projeção memorial, exigindo metaconsciência quanto aos processos de seleção, canonização e exclusão. Destaca-se, por fim, que a produção, manutenção e disponibilização desses acervos configuram não apenas práticas documentais, mas intervenções epistemológicas que impactam as condições heurísticas da pesquisa, a formação de pesquisadores e a circulação social do conhecimento linguístico, reafirmando o papel dos acervos como objetos historiográficos e como infraestruturas críticas para o desenvolvimento da área.
Este estudo investiga a produção brasileira de gramáticas destinadas ao ensino do português para estrangeiros (PLE), tomando como objeto central a obra pioneira A língua portuguesa para estrangeiros, de Hermine W. Topker, publicada em 1942. A escassez de pesquisas que visitam esse conjunto de obras sob uma perspectiva historiográfica constitui a principal motivação do trabalho, que busca compreender de que modo o pensamento linguístico neles mobilizado se distingue ou se articula aos modelos tradicionais de gramática. Os objetivos são: (i) descrever o processo de constituição, produção e circulação de gramáticas brasileiras de PLE e (ii) analisar a obra de Topker, situando-a no respectivo horizonte científico e pedagógico. O estudo fundamenta-se teórica e metodologicamente na gramaticografia, entendida como campo dedicado à investigação histórica do pensamento linguístico no interior das tradições gramaticais. Parte-se do pressuposto de que o fato historiográfico constitui um ato comunicativo complexo, passível de análise a partir do entrecruzamento de seus elementos constitutivos (emissor, destinatário, código, canal, contexto e mensagem). Metodologicamente, procede-se, em primeiro lugar, a uma contextualização da formalização do ensino de português como língua não materna no Brasil e de seus efeitos sobre a produção gramatical. Em seguida, desenvolve-se a análise da obra de Topker à luz desses parâmetros. Os resultados indicam que A língua portuguesa para estrangeiros inaugura a sistematização da gramatização brasileira de PLE, caracterizado por hibridismos entre modelos normativos consolidados e a incorporação pontual de traços do português brasileiro. Assim, a obra revela um descompasso com os avanços do pensamento linguístico do período científico e maior atenção às exigências pedagógicas que orientaram a produção gramatical voltada ao ensino.
Este artigo propõe compreender as literaturas em língua inglesa como práticas sociais que desestabilizam desigualdades históricas e educam a atenção à diferença. A partir de leituras críticas de Recitatif (Toni Morrison), Dead Men’s Path (Chinua Achebe), Josee, the Tiger and the Fish (Seiko Tanabe), Every Day Is a Trans Day (H. Melt) e for colored girls who have considered suicide / when the rainbow is enuf (Ntozake Shange), examino como voz narrativa, corporeidade, temporalidade, tradução e forma performativa produzem encontros éticos entre literatura e justiça social. O ensaio combina leitura cerrada, reflexão praxiológica e diálogo com a Linguística Aplicada Crítica, os estudos descoloniais, os estudos da deficiência e os estudos de gênero. Argumento que escolhas estéticas, da ambiguidade ao choreopoem, constituem modos de crítica, e não meros ornamentos formais. Cada seção propõe perguntas crítico-reflexivas derivadas de minhas praxiologias, indicando como a leitura literária pode ser trabalhada como um exercício de escuta, convivência e responsabilidade. As considerações finais afirmam a potência inacabada da literatura: um espaço de atenção e de imaginação ética, onde o mundo continua a se mover depois do ponto final.
Propõe-se, neste artigo, revisitar a noção de efeito-rumor a fim de discutir o funcionamento do discurso político e do discurso ordinário em sua imbricação material digital. Toma-se como objeto de análise produções audiovisuais que utilizam inteligências artificiais (IAs) para simular e satirizar o corpo do povo e de representantes políticos. Parte-se da hipótese de que a possibilidade técnica de simulação da voz e do corpo do povo intensifica e complexifica o efeito-rumor ao deslocar os regimes de evidência e de credibilidade que sustentam a circulação discursiva. Recorta-se como material de análise a campanha “Taxação BBB”, do Partido dos Trabalhadores, e as peças satíricas do perfil “Brasil Sátira do Poder”, que mobilizaram vídeos produzidos com IA no contexto de uma mesma disputa política. A partir da análise materialista do discurso, propõe-se uma ressignificação da noção de efeito-rumor, compreendendo-o como um funcionamento discursivo atravessado pela materialidade técnica do digital, na qual a simulação imagética participa da constituição dos efeitos de verdade. Nessas produções, o corpo do povo metaforiza o político, enquanto o corpo político metaforiza o povo, permitindo um deslocamento dos lugares enunciativos de um e de outro.