Este artigo remonta a reflexões iniciadas na comunicação intitulada Da Língua Brasílica à Língua Brasileira, uma língua românica em construção? Um debate sobre glotofobia e preconceito linguístico na perspectiva da Linguística Histórica, apresentada na sessão Literatura e Representações no evento Abralin em cena 18 – Linguagens, Raça, Gênero e interseccionalidade em luta por direitos, que ocorreu no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), em agosto de 2025, sob a organização da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). As reflexões aqui desenvolvidas vinculam-se, de modo geral, ao projeto Estudos anchietanos no século XXI e a Década Internacional das Línguas Indígenas (UNESCO, 2022-2032): interfaces entre a política e a historiografia linguística, desenvolvido no contexto do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal Fluminense, sob financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), através da bolsa Cientista Nosso Estado (CNE). Como objeto de discussões encetadas pelo evento supracitado, trazemos para o debate contemporâneo a questão da discriminação a pretexto linguístico, a glotofobia (Blanchet, 2016), sofrida pela comunidade de brasileiros em Portugal, atualmente, trazendo para esse debate um texto histórico sobre o tema, a obra do início do século XX: O Linguajar Carioca, de Antenor Nascentes (2023 [1922]). Empregamos como pressuposto teórico a Historiografia da Linguística na interpretação da obra de Nascentes, a fim de desenvolver um método de análise e interpretação do pensamento linguístico do autor sobre a questão da glotofobia em seu registro documental. Como resultado dessa releitura, apresentamos uma percepção historiográfica sobre o fenômeno da glotofobia no contexto luso-brasileiro da época de Nascentes, a década de 1920, o que pode nos permitir compreender, por contraste, a situação atual nas relações Brasil e Portugal em relação às variedades da língua portuguesa.
This article examines the concept of diction (dictio) as employed in four foundational grammars from thefifteenth and sixteenth centuries: Antonio de Nebrija’s Grammatica Castellana (1492), Fernão de Oliveira’s Grammatica da lingoagem portuguesa (1536), João de Barros’s Gramática da língua portuguesa (1540), and José de Anchieta’s Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (1595). Drawing on the theoretical framework of Linguistic Historiography, particularly the Koernerian model and the notion of ‘climate of opinion’, the study explores the metalinguistic role of dictio as the minimal meaningful unit and as a tool of humanist etymological practice.
O artigo tem como tema a corrente de pensamento do humanismo renascentista, que se desenvolveu nos séculos XV e XVI no contexto europeu, pautada nos studia humanitatis. Analisamos a recepção do humanismo renascentista no plano de estudos do Colégio de Guiena, na França do século XVI, uma importante instituição renascentista para a formação de humanistas, que teve como reitor o humanista português André de Gouveia (1497 – 1548), o fundador do Colégio das Artes de Coimbra, em que estudou José de Anchieta (1534 – 1597). Esse contexto de recepção do humanismo renascentista na França quinhentista está registrado no documento Docendi Ratio in Ludo Burdigalensi (Ordem do ensino no Colégio de Bordeaux), escrito pelo humanista francês Élie Vinet (1509 – 1587), e publicado em 1583. Analisaremos como o ensino de filosofia e de poesia era apresentado na época, e como constituía uma percepção estética humanística da Renascença pautada na Antiguidade clássica.
O artigo trata do conceito quinhentista de sílaba, que era o elemento fundamental da prosódia, na obra Gramática da língua portuguesa (Barros, 1540) de autoria do humanista João de Barros (c.1496-1570), considerada a primeira gramática humanística que descreveu a língua portuguesa. A obra de João de Barros teve uma possível recepção no pensamento linguístico de José de Anchieta (1534-1597), autor do primeiro texto gramatical escrito no território do Brasil. Nosso intuito é debater, em perspectiva historiográfica, como Barros definiu o conceito de sílaba, que foi derivado inicialmente da tradição de pensamento gramatical e filosófico greco-latino, e se tornou um metatermo gramatical importante na descrição dos sons da língua portuguesa desde o século XVI, quando iniciou o processo de gramatização das línguas naturais no contexto do Renascimento europeu. Barros empregou uma visão teórica dos acidentes da sílaba em sua descrição gramatical e esse é o tema central do estudo. O emprego do metatermo sílaba é contínuo até o advento da Linguística contemporânea, e é registrado ainda nos dias de hoje como um instrumento didático para a aquisição da escrita e para o letramento em língua portuguesa. Para a análise da descrição do conceito quinhentista de sílaba, utilizamos os pressupostos teórico-metodológicos da Historiografia da Linguística, ao propor uma análise historiográfica sobre o tema, que vincula a sílaba historicamente não só à gramática do século XVI, mas também ao canto e à poesia quinhentistas. Por fim, concluímos que Barros registrou em sua gramática a diferença da prosódia da língua portuguesa em relação ao latim, ao demonstrar por sua descrição gramatical como ocorria a acentuação em língua portuguesa especificamente.
This paper aims to reflect on how Jesuit missionaries practiced Latin language teaching, based on the Ratio Studiorum educational method, to shape Brazilian colonial identity. Latin in 16th-century Brazil was used for various purposes, but primarily as a tool for integrating European ecclesiastical and academic culture into Portuguese overseas colonization. In Jesuit colleges, the Divinae Litterae (Theology) and the Humanae Litterae (Classics) were studied, with Greek being taught instead of Tupi. After reflecting on the use of Latin in Renaissance Humanism in 16th-century Brazil, we hope to demonstrate that, although Latin was used in various discursive genres, didactic discourse in the teaching of various scientific disciplines is what characterizes the practice of Latin in 16th-century Brazil. Specifically, this study contextualizes Jos & eacute; de Anchieta's work in Jesuit education and highlights the complex linguistic and cultural dynamics of colonial Brazil, as it sheds light on the enduring legacy of Jesuit education, revealing the intricate interplay between language and culture in the formation of Portuguese-Brazilian society.
The theme of the article is the analysis of the introduction of metalanguage in Brazil in the be considered the cornerstone of grammaticography in Brazil. The fact that the grammar deals with an Indigenous Languages 2022 - 2032 and to the ecological and cultural reflections of the papal encyclical Laudato Si' on care for our common home. To establish an analysis of the metalanguage employed by concepts of noun and verb, which were adapted for the description of the Tupinamb & aacute; language. We present the theoretical debate on how the concepts of noun and verb were adapted by the sixteenth-century grammarian in the description of the indigenous language.
O tema do artigo é a análise da chegada da metalinguagem ao Brasil, na Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (Anchieta, 1990 [1595]), do missionário jesuíta e humanista do Renascimento S. José de Anchieta (1534 – 1597), cuja obra gramatical pode ser considerada a pedra angular da gramaticografia no Brasil. O fato de a gramática tratar de uma língua indígena pode ser objeto da política linguística da Década Internacional das Línguas Indígenas 2022 – 2032 da UNESCO e das reflexões ecológicas e culturais da encíclica papal Laudato Si’ sobre o cuidado da casa comum. Para estabelecer uma análise da metalinguagem empregada por Anchieta em sua gramática, selecionamos dois conceitos oriundos da tradição gramatical greco-latina, o conceito de nome e de verbo, que foram adaptados para a descrição da língua tupinambá. Apresentamos o debate teórico de como os conceitos de nome e de verbo foram adaptados pelo gramático quinhentista na descrição da língua indígena.
O artigo tem como objetivo debater questões interpretativas de exegese sobre o texto do auto Na Festa de São Lourenço, de 1587, escrito pelo missionário e humanista S. José de Anchieta (1534-1597), no contexto da América portuguesa quinhentista. A obra foi encenada na comunidade indígena de São Lourenço em Niterói, ainda no século XVI, e é um dos principais registros da produção intelectual do período colonial. Modernamente, o texto do autor foi reeditado por Maria de Lourdes de Paula Martins, em um extenso volume com as Poesias de Anchieta (ANCHIETA, 1989 [1954]), e por Armando Cardoso, na edição dos Monumenta Anchietana (ANCHIETA, 1977). Nossa interpretação crítica terá como escopo retomar a análise desenvolvida por Câmara Cascudo, na obra Antologia do Folclore Brasileiro (2002 [1944]), em que cita os textos de Anchieta e de cronistas do século XVI como fonte para os estudos de folclore no Brasil. Buscamos problematizar como a interpretação folclórica aproxima-se ao método da exegese da disciplina de Crítica Textual. Por fim, em perspectiva interdisciplinar com a disciplina de Historiografia da Linguística, buscaremos evidenciar como o “pensamento linguístico” (linguistic thought) (SWIGGERS, 2013; 2019) de Anchieta estava vinculado ao estudo de tradições populares indígenas na América portuguesa quinhentista, o que conceituamos como um Folclore brasílico colonial.
A Gramaticografia latina no Brasil é um dos temas de interesse da disciplina de Historiografia da Linguística (HL), em nosso contexto nacional. Em nosso texto, debateremos aspectos teórico-metodológicos, acerca da constituição de uma narrativa historiográfica sobre a história da gramática latina no Brasil, pelo modelo “koerniano”, desenvolvido por Konrad Koerner (2014) e Pierre Swiggers (2013; 2019). Como modelo exemplar, para uma narrativa (meta)historiográfica da história da gramática latina no Brasil, temos também a recente publicação de Ricardo Cavaliere (UFF/ABL), sobre a história da gramática no Brasil (CAVALIERE, 2022), que pode nos servir de modelo à aplicação da historiografia “koerniana”, para uma análise de nosso contexto específico. O tema da história da gramática latina no Brasil foi abordado de forma precursora pelo latinista e filólogo Ernesto Faria (1906-1962), em duas de suas principais obras: a Gramática Superior da Língua Latina (FARIA, 1958) e Introdução à didática do Latim (FARIA, 1959).
O filólogo-linguista e naturalista alemão Karl Julius Platzmann (1832-1902) foi um dos pesquisadores responsáveis por coligir, no século XIX, um corpus de textos com itens gramaticais e lexicais que formaram a base para a pesquisa no campo da Linguística Missionária, sobre a América Latina, uma das linhas de pesquisa da disciplina de Historiografia Linguística (SWIGGERS, 2013; 2019; ZWARTJES, 2011; BATISTA, 2019). Em recente artigo, Van Hal (2020) teceu considerações sobre as “gramáticas e léxicos de missionários da primeira modernidade” (early-modern missionary grammars and dictionaries) republicadas por Platzmann e como esse corpus teve uma recepção polêmica na Europa moderna do século XIX. A polêmica cultural surgiu devido às especificidades da produção intelectual das ordens religiosas que formavam os círculos acadêmicos da América do Sul antes da secularização iluminista, entre os séculos XVI e XVIII, o que levou a Linguística moderna a marginalizar esse corpus, identificado com o Ancien Régime. A obra de Platzmann foi uma das exceções à época. Para um estudo sistemático da Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (ANCHIETA, 1595), a tradução alemã da obra, intitulada Grammatik der Brasilianischen Sprache, mit Zugrundelegung des Anchieta (PLATZMANN, 1874) é um texto fundamental. No artigo, analisamos um excerto da gramática de Anchieta, buscando demonstrar como o trabalho de Crítica Textual com a obra, atualmente, pode ser desenvolvido tendo os textos de Platzmann como apoio. Como exemplo, selecionamos um excerto do segundo capítulo da gramática que versa sobre a passagem do fonema [r] a [n] na língua indígena.
Consiste o artigo em estudo historiográfico sobre a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, cujo autor foi o missionário e humanista S. José de Anchieta (1534-1597). O estudo tem como tema a descrição do gramático quinhentista dos metaplasmos relacionados aos fonemas [b] e [p] mediais e finais na língua tupinambá, um dos temas do segundo capítulo de sua gramática missionária (ANCHIETA, 1595; ZWARTJES, 2011). Nossa investigação apoia-se na fundamentação teórica da Historiografia da Linguística, pelos modelos de Konrad Koerner (1996) e de Pierre Swiggers (2013), e interdisciplinarmente na Ecolinguística (COUTO, 2007), pelo conceito de ecologia de contato de línguas, para a análise da descrição gramatical. Como método de trabalho com o corpus selecionado empregamos a Crítica Textual, utilizando três edições: a editio princeps de 1595, a tradução alemã de Platzmann, a Grammatik der Brasilianische Sprache de 1874, e a edição mais recente de Armando Cardoso de 1990.
Estudar as línguas indígenas é, de certa forma, apoiar as causas sociais e políticas atuais dos povos originários. O artigo tem como objetivo debater o conceito de uso segundo o pensamento linguístico de José de Anchieta (1534-1597), a partir do texto Arte de gramática da língua mais usado na costa do Brasil (Anchieta, 1990 [1595]). O termo uso é registrado em diversos momentos em sua gramática que descreve a língua tupinambá empregada nas atividades de catequese intercultural da América portuguesa quinhentista. A fundamentação teórico-metodológica a ser empregada na pesquisa é a Historiografia da Linguística, conforme o modelo de Konrad Koerner (2014) e Pierre Swiggers (2019; Batista, 2019), em que temos como escopo a investigação do pensamento linguístico (linguistic thought) de Anchieta. Como resultado da investigação, encontramos a relação do emprego do termo uso na obra do missionário com concepções teológico-filosóficas e gramaticais que influíram em seu pensamento, o que denota o pensamento linguístico vigente na política missionária da América portuguesa do século XVI, em que a sua obra gramatical se situa.
O artigo tem como tema o pensamento linguístico do missionário jesuíta e humanista do Renascimento José de Anchieta (1534-1597), que atuou na América portuguesa do século XVI, então colônia ultramarina do reino de Portugal. A fundamentação teórico-metodológica para a análise do pensamento linguístico de Anchieta é a disciplina de Historiografia da Linguística, pelo modelo koerniano de análise (Koerner, 2014; Swiggers, 2019), e o principal corpus textual para o presente estudo é a carta Quadrimestre de maio a setembro de 1554, de Piratininga, escrita pelo missionário, que relata a situação das missões jesuíticas à época na colônia, sobretudo as relações interculturais com os povos originários, os indígenas de matriz tupi. Analisaremos como a carta serve para a contextualização da gramática de Anchieta sobre a língua tupinambá, a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (1595), cuja data de redação foi, provavelmente, entre 1554 e 1556, durante o reinado de D. João III (1502-1557). Nossa análise será pautada pelo conceito de “clima de opinião” (Koerner, 2014) da disciplina de Historiografia Linguística, um conceito fundamental para se compreender como se organizava o círculo intelectual de missionários na antiga colônia do reino de Portugal.
The article aims to discuss interpretative exegesis questions about the text of the play Na Festa de Silo Louren & ccedil;o, from 1587, written by the missionary and humanist S. Jos & eacute; de Anchieta (1534-1597), in the context of sixteenth -century Portuguese America. The work was staged in the indigenous community of Silo Louren & ccedil;o in Niter & oacute;i, still in the 16th century, and is one of the main records of intellectual production in the colonial period. Modernly, the author's text has been republished by Maria de Lourdes de Paula Martins, in an extensive volume with Poesias de Anchieta (Anchieta, 1989 [1954]), and by Armando Cardoso, in the edition of Monumenta Anchietana (Anchieta, 1977). Our critical interpretation will have the scope of resuming the analysis developed by C & acirc;mara Cascudo, in the work Antologia do Folclore Brasileiro (2002 [1944]), in which the interpreter cites the texts of Anchieta and chroniclers of the 16th century as a source for folklore studies in Brazil. We seek to problematize how folkloric interpretation approaches the exegesis method of the Textual Criticism discipline. Finally, in an interdisciplinary perspective with the discipline of Historiography of Linguistics, we will seek to show how Anchieta's "linguistic thought" (Swiggers, 2013; 2019) was linked to the study of indigenous popular traditions in sixteenth -century Portuguese America, which we conceptualize as a colonial Brazilian folkcore.
A Gramaticografia latina no Brasil é um dos temas de interesse da disciplina de Historiografia da Linguística (HL), em nosso contexto nacional. Em nosso texto, debateremos aspectos teórico-metodológicos, acerca da constituição de uma narrativa historiográfica sobre a história da gramática latina no Brasil, pelo modelo “koerniano”, desenvolvido por Konrad Koerner (2014) e Pierre Swiggers (2013; 2019). Como modelo exemplar, para uma narrativa (meta)historiográfica da história da gramática latina no Brasil, temos também a recente publicação de Ricardo Cavaliere (UFF/ABL), sobre a história da gramática no Brasil (CAVALIERE, 2022), que pode nos servir de modelo à aplicação da historiografia “koerniana”, para uma análise de nosso contexto específico. O tema da história da gramática latina no Brasil foi abordado de forma precursora pelo latinista e filólogo Ernesto Faria (1906-1962), em duas de suas principais obras: a Gramática Superior da Língua Latina (FARIA, 1958) e Introdução à didática do Latim (FARIA, 1959).
O presente trabalho, que é um recorte pesquisa de doutorado ainda em fase inicial, consiste em uma breve análise da obra intitulada Exposition d’une méthode raisonnée pour apprendre la langue latine (Exposição de um método racional para aprender a língua latina) (1722), do gramático e filósofo francês César Chesneau Du Marsais (1676-1756). O filósofo que é o autor das obras Méthode raisonnée (1722), Traité des Tropes (1730), Principes de Grammaire (1769) etc., Du Marsais também foi um dos colaboradores da Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers (D’ALEMBERT; DIDEROT,1751-1772), responsável pelos artigos de gramática que integram a obra. Em virtude disso, o filósofo tornou-se um gramático prestigiado na França, influindo também o pensamento linguístico de gramáticos de outros países. Uma das grandes obras de Du Marsais, que é corpus da pesquisa de doutorado, o méthode raisonnée, é um método de aprendizagem da língua latina em um contexto secular, ocasionando a descontinuidade com os padrões educacionais jesuíticos. A circulação do método repercutiu positivamente devido a sua organização, estrutura, metodologia e sua característica “inovadora”, mas também repercutiu de modo negativo em razão de um ensino secular.
No artigo, discutimos um modelo didático para a periodização da história do pensamento linguístico no Brasil, pelo modelo teórico-metodológico de Pierre Swiggers (2012; 2019; BATISTA, 2019; ALTMAN, 2019) e pelos estudos de periodização de história da gramática, de Ricardo Cavaliere (2002; 2012). Nossa proposta, ainda em fase de desenvolvimento e de debate teórico (KALTNER, 2019, 2020a, 2020b), é vincular a história do pensamento linguístico no Brasil à história institucional, em que houve três grandes modelos administrativos específicos: a antiga colônia, o Império e a República. Essas mudanças institucionais teriam se relacionado a três momentos também no desenvolvimento da história do pensamento linguístico: um período missionário, um período secular e um período científico, segundo o modelo teórico ainda em desenvolvimento. Como estudo de caso, propomos analisar uma periodização relacionada à Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (ANCHIETA, 1595), primeira obra com reflexões metalinguísticas no contexto do Brasil, escrita entre 1554 e 1556.
Thetheme of the article is the concept of letter in the humanistic grammar of the 16th century, which derives from an adaptation of the concept of 'litera' in Latin grammar. To develop this debate, we work with texts by Fernão de Oliveira, João de Barros and Anchieta, analyzing them according to the theoretical description of Sylvain Auroux, Konrad Koerner and Pierre Swiggers, on the subject of grammatization technology in the Western world.
Consiste o artigo em um estudo filológico e historiográfico do conceito de gramática derivado da Gramática da língua portuguesa (BARROS, 1540), cujo autor foi o humanista português João de Barros (1496-1570). O excerto do texto em questão, sobre o conceito de gramática, que é o primeiro capítulo da obra, é analisado sob os critérios da Crítica Textual, como corpus. A análise tem como objetivo investigar como o gramático quinhentista definiu o conceito de gramática e fazer uma exegese de seu pensamento linguístico pela descrição quinhentista. A importância histórica da gramática de João de Barros é notável, conforme analisou Buescu (1984), tendo em vista o fato de ser a primeira gramática da língua portuguesa, para gramatizar o vernáculo. O modelo de gramatização renascentista, analisado e descrito por Sylvain Auroux (1992), aplica-se à interpretação da obra de Barros. Em nossas considerações, nos valemos do modelo teórico-metodológico e do aparato conceitual da Historiografia da Linguística (SWIGGERS, 2019), campo teórico interdisciplinar que nos auxilia a compreender a história dos conceitos gramaticais no processo histórico. Nossa análise da fonte primária é desenvolvida por edição digitalizada oriunda da Biblioteca Nacional de Portugal e pela transcrição disponível no portal CTLF (Corpus de Textes Linguistiques Fondamentaux), da Université de Lyon, na França.
O presente artigo é derivado de conferência proferida por meio remoto na edição de 2021 do Linguistweets – Conferência Internacional de Linguística no Twitter, promovido pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin). Nosso tema de debate é a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (ANCHIETA, 1595), cujo autor é o missionário e humanista S. José de Anchieta, SJ (1534-1597). No artigo, dividimos em três partes nossas reflexões sobre o pensamento linguístico de Anchieta, analisando, nas duas primeiras, elementos externos, relativos à contextualização teórico-cultural de sua vida e obra, pela Historiografia da Linguística e pela Linguística Missionária (ZWARTJES, 2011), além da Ecolinguística, em perspectiva interdisciplinar (COUTO, 2007). Já na terceira parte, analisamos elementos internos na descrição de fatos linguísticos da gramática e o pensamento linguístico do missionário e humanista. Para a análise interna, selecionamos o sexto parágrafo da obra, que está no primeiro capítulo Das Letras (ANCHIETA, 1595, 1, 6).