
Este artigo analisa a aplicação do conceito de “comunidade remanescente quilombola” na Vila Esperança de Mariental, Paraná, abordando seu processo de etnogênese e contexto social, ambiental e territorial. Utilizou-se uma metodologia que engloba a caracterização socioeconômica por meio de questionários e levantamentos aerofotogramétricos, além de análises teóricas baseadas na legislação brasileira de 1988 e estudos antropológicos. A pesquisa reconhece a Vila Esperança como uma população negra tradicional, destacando a complexidade dos quilombolas no Brasil contemporâneo e mostrando que essas comunidades nem sempre mantêm a memória ancestral como prevê o conceito oficial. Os resultados são úteis para a elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade, revelando diversas dimensões da identidade quilombola em contextos periurbanos. O trabalho amplia a compreensão das dinâmicas sociais e culturais dessas comunidades e enfatiza a importância de integrar perspectivas socioambientais na autogestão territorial e no reconhecimento de direitos tradicionais. A pesquisa enfatiza a necessidade de políticas públicas mais inclusivas e eficazes que atendam às especificidades e vozes quilombolas, fomentando uma gestão territorial que priorize a sustentabilidade ambiental e a justiça social.
Neste artigo, ensaiamos algumas reflexões sobre a escrita dos geógrafos que buscam, na fenomenologia, embasamento para realização do seu fazer-científico. Entre essas reflexões estão a crítica ao modo moderno de se fazer geografia, a geograficidade como relação existencial com a realidade geográfica e a escrita como fazer-científico engajado. Ao final, concluímos que a geografia engajada, atrelada à nossa situação existencial no mundo-da-vida e comprometida com as realidades geográficas vivas, carece de uma escrita que dê vazão à geograficidade dos fenômenos, isto é, uma escrita engajada com as experiências geográficas, e não apenas com os conceitos e categorias científicas da Geografia. Como o geógrafo Eric Dardel nos ensinou, a escrita geográfica perde muito ao abandonar a linguagem literária e se ancorar na linguagem cientificista, principalmente em expressividade, que é um dos modos de tocar o leitor que se debruça sobre um texto.
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que buscou analisar as relações entre técnica, tecnologia e lugar na experiência de microempreendedores/microempresas em Salvador-BA, com ênfase nas áreas populares e periféricas da cidade. O objetivo central foi o de compreender como os pequenos empreendimentos vêm se apropriando das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e de outras ferramentas digitais como formas de fortalecimento, visibilidade e inserção no mercado, sem se desvincular de suas realidades espaciais. A metodologia incluiu uma etapa inicial de classificação dos empreendimentos com base na frequência de atividade digital, seguida do envio de formulários por redes sociais e da realização de entrevistas com 16 empreendedores de diferentes setores. Os resultados estão organizados em dois eixos principais. No primeiro discute-se o papel da inovação, das TIC e da automação tecnológica nos microempreendimentos, evidenciando que, embora o acesso a essas ferramentas ainda seja desigual, muitos empreendedores as utilizam de forma criativa e adaptativa, como estratégia de sobrevivência e diferenciação. No segundo eixo aborda-se a relação entre lugar e tecnologia, mostrando que, mesmo diante da virtualização dos negócios, o lugar permanece como base simbólica, afetiva e prática para o desenvolvimento das atividades empreendedoras. As redes digitais ampliam as possibilidades de circulação, mas não eliminam os vínculos e estéticas locais, bem como os desafios estruturais enfrentados. A pesquisa reafirma a importância de se compreender os processos de inovação a partir do chão vivido da cidade, reconhecendo o lugar como base de criatividade e resistência frente às dinâmicas excludentes da urbanização e da digitalização desigual.
Torto Arado é uma obra contemporânea, de autoria de Itamar Vieira Júnior, que foi publicada, em 2019, pela editora Todavia. O referido livro sensibiliza os seus leitores pela alta carga emotiva de grande parte dos (as) personagens na relação com um lugar fictício (“Água Negra”). Nesse contexto, este manuscrito tem por objetivo analisar a topofilia, presente na narrativa em epígrafe, na interlocução com a Geografia Humanista, além da Filosofia e Sociologia, a fim de evidenciar as percepções afetivo-culturais de uma comunidade quilombola, localizada no sertão da Bahia. Como método de pesquisa, adotou-se a “Análise do Discurso de Linha Francesa” (Pêcheux, 2008, p. 11; Orlandi, 2012, p. 9). Desse modo, aponta-se, como principais resultados, que a topofilia em Torto Arado reflete um profundo sentimento de pertencimento histórico dos moradores na relação com o lugar de origem e / ou de sobrevivência, destinando a essa terra afeição, cuidado e proteção numa analogia ao termo “morada-ninho” (Bachelard, 2008, p. 35). Portanto, os moradores de “Água Negra” transmitem resistência e resiliência, negando-se a abandonarem os seus lares, reivindicando, assim, a sua permanência como bens culturais e simbólicos do espaço historicamente habitado.
O presente artigo visa evidenciar a cadeia de relacionamentos que entrelaça humanos e escorpiões no espaço urbanizado do município de Salinas-MG. Abandonando pretensões de determinância dessas relações, o trabalho em questão utiliza pressupostos mais-que-representacionais que visam exibir as manifestações de afeto e performance que integram não somente humanos e escorpiões, mas outros partícipes que ajudam a intermediar as relações entre estas duas espécies. Parte-se da hipótese de que as relações mais-que-representacionais são marcadas pela indeterminação que, por sua vez, fica evidenciada no levantamento das performances dos actantes. Ao abordar humanos e escorpiões, a metodologia utiliza estratégias assimétricas: entrevistas semiestruturadas para o levantamento do afeto e performance humana e, no caso dos escorpiões, levantamentos s partir de estudos técnicos a respeito de informações acerca de sua performance. É sugerido o termo assemblage humano-escorpiônica para aludir a zoopolis que emerge a parte do relacionamento de actantes. Destaca-se que este trabalho aborda metodologias ainda não bem disseminadas na geografia brasileira, mas já bem consolidadas na geografia anglófona. Mais do que determinar como se dão as relações, a metodologia visa atender o objetivo de apontar possibilidades de interação dos actantes, revelando distintas respostas à vida em rede. A relevância deste trabalho reside na originalidade em apresentar uma tentativa empírica de evidenciar a associação entre espécies mediante pressupostos mais-que-representacionais.