
Por meio da noção de biografia como produtora de ficção, formulada por Alain Buisine (1991), esta resenha discute O anarquista solitário: uma biografia de Horacio Quiroga, de Wilson Alves-Bezerra, a fim de refletir sobre a biografia como forma literária e seus efeitos de construção narrativa. A discussão insere-se no campo teórico dos estudos sobre (auto)biografias (FIGUEIREDO, 2022), autoria (FOUCAULT, 2001) e as relações entre literatura e vida (OLMOS, 2024), dialogando com reflexões críticas sobre a construção discursiva do autor e os limites entre referencialidade e ficção. Como metodologia, adota-se a análise crítica da composição narrativa da biografia, com atenção ao lugar de enunciação do biógrafo, também autor de ficção, e aos procedimentos formais que organizam a representação do vivido. Sustenta-se que a voz narrativa ruma à construção de um personagem que atravessa algo semelhante à jornada de um herói maldito e latino-americano, situado na periferia do sistema literário. Como resultado, observa-se que a narrativa não apenas reconstitui a trajetória de Quiroga, mas também evidencia os processos de construção da autoria, o funcionamento da literatura enquanto instituição e as condições materiais do mercado editorial, permitindo compreender o espaço biográfico também como um espaço de elaboração literária do vivido e de reflexão crítica sobre o estatuto narrativo da vida.
Publicada pela primeira vez no México, pela Editora Nuestro Tiempo, em 1974, somente após cinquenta anos a obra A Revolução Cubana: uma reinterpretação foi publicada no Brasil. Esse importante trabalho ficou a cargo da Editora Expressão Popular que, ao longo de pouco mais de duzentas páginas, apresentou ao público brasileiro todo o vigor e profundidade teórica da análise de Vânia Bambirra, sua autora, sobre a Revolução Cubana. É luminar a apreensão de Bambirra da Revolução Cubana a partir dos traços gerais de seu capitalismo dependente, de suas classes constitutivas. Isto é, que aquela Revolução inexoravelmente passaria pelo confronto ao imperialismo, dada a inexistência de uma burguesia nacional vinculada à indústria. Com efeito, sua análise política do processo revolucionário coaduna-se à sua análise econômica do capitalismo dependente latino-americano disposta a partir de uma rica tipologia por ela criada em sua obra O capitalismo dependente latino-americano. Nesse sentido, a apreensão conduzida por Bambirra sobre a Revolução Cubana fornece inestimável contribuição aos estudos dos processos revolucionários e contrarrevolucionários nos demais
O presente artigo analisa os efeitos da não renovação do Acordo sobre Transportes Marítimos entre Brasil e Argentina, vigente entre 1985 e 2021, sobre a dinâmica do comércio bilateral, das frotas mercantes nacionais e do comportamento dos fretes. A partir de uma abordagem qualitativa, apoiada na análise descritiva de dados secundários, o estudo examina o período de 2013 a 2023, combinando pesquisa documental e bibliográfica com estatísticas provenientes de bases públicas oficiais. À luz da teoria do comércio internacional e da economia da regulação, o Acordo é interpretado como um mecanismo de restrição à concorrência, com potenciais implicações sobre eficiência alocativa e custos logísticos. Os resultados indicam a ausência de evidências robustas de que a vigência do Acordo tenha contribuído para o desenvolvimento das frotas mercantes brasileira e argentina ou para a expansão da corrente de comércio bilateral. Adicionalmente, não se observa relação sistemática entre sua revogação e alterações na volatilidade dos fretes. Por outro lado, evidências sugerem a existência de custos associados ao regime anterior, decorrentes de barreiras à entrada e mecanismos de intermediação no acesso ao mercado. Conclui-se que a não renovação do Acordo está alinhada com princípios de maior abertura e eficiência regulatória, sem impactos negativos identificáveis sobre as variáveis analisadas.
Este trabalho tem como objetivo tecer algumas considerações acerca da Negritude, o maior movimento de expressão literária e intelectual afrodescendente. No que diz respeito às literaturas antilhanas, Chancé (2005) afirma que estas nasceram a partir de um mesmo processo histórico, formado por diversos acontecimentos entre os quais está a colonização, o extermínio dos povos caraíbas, a revolução de escravos, a descolonização antilhana, entre outros. Nesse contexto surge o Movimento da Negritude, que nasceu sob as influências do Renascimento Negro do Harlem ou Harlem Renaissance, “primeiro movimento de afirmação dos valores negros, da identidade e da cultura dos descendentes de escravos em Diáspora” (SOUZA, 2006: p.23).
Este trabajo investiga las distintas conceptualizaciones sobre el ladino en Guatemala. Indaga cómo la antropología norteamericana de mediados del siglo XX definió al ladino como el no-indio, el invasor y enemigo del indio. Varios etnógrafos norteamericanos estudiaron el conflicto étnico o racial en Guatemala desde cuestionables cánones metropolitanos y prejuicios de la sociedad blanca. La visión del ladino como enemigo del indio a la larga contribuyó al proyecto de división racial de las élites finqueras guatemaltecas para insertarse en el capitalismo mundial. Ante esto, Severo Martínez Peláez llamó a desesencializar la oposición entre ladino e indígena y Eric Wolf a criticar los resabios de la teoría de la degeneración racial en la antropología mesoamericana. En este trabajo rastreo distintas aproximaciones históricas al ladino como categoría de origen colonial, fiscal, política y racial dentro de la sociedad guatemalteca. Conceptualizo al ladino como reconfiguración de la sociedad de castas bajo el impulso del capitalismo en las plantaciones guatemaltecas. Finalmente, llamo a rastrear experiencias de lucha común entre ladinos e indígenas, zonas liminales o incluso solidaridades; a encontrar el racismo dentro de la experiencia de clase y, inversamente, la relación de clase dentro del racismo.