
Este estudo objetivou compreender os efeitos dos complexos paternos sobre as filhas, ante sua importância para os processos de análise e individuação, por meio de uma pesquisa documental bibliográfica sobre a teoria dos complexos de Jung. Concluiu-se que a psique das filhas é impactada pelos complexos paternos originalmente positivos e negativos, complexos do pai (concreto ou projetado), arquétipo de pai (que também afeta seu animus), relação concreta com pai e mãe (ou sua ausência) e tipo psicológico. Essa multiplicidade de fatores combinados de diferentes formas veda categorizações taxativas quanto aos efeitos dos complexos paternos sobre as filhas, mas permite concluir que a compreensão de todos esses fenômenos é essencial para o processo de individuação.
O ensaio teórico-reflexivo explora a dinâmica entre carreira e saúde mental a partir do conceito junguiano de persona. Definida como a máscara social que o indivíduo adota para interagir com o mundo, a persona relaciona-se com o desenvolvimento da carreira profissional e pode contribuir ou se apresentar como um obstáculo para sua adaptabilidade, com impactos na saúde mental. Ao se relacionar com a carreira, a persona pode atuar como um fator protetivo e também como um risco para a saúde mental, o que acentua a necessidade de um equilíbrio entre as expectativas externas e as expressões autênticas do ego e do Self no desenvolvimento da carreira. Este estudo utilizou uma abordagem teórica, baseada em obras de Jung e outros autores, com o objetivo de apresentar, de forma original, uma visão integrada da interação desses três conceitos: persona, carreira e saúde mental, os quais, frequentemente, são abordados de modo independente pela literatura.
Celebrar os dez anos da Self - Revista do Instituto Junguiano de São Paulo é reconhecer uma trajetória que ultrapassa a consolidação de um periódico científico. Trata-se da celebração de um projeto coletivo que, ao longo de uma década, construiu um espaço singular de encontro entre clínica, pesquisa, cultura, arte e reflexão simbólica, mantendo vivo o diálogo entre a tradição da psicologia analítica e os desafios do mundo contemporâneo.
O presente artigo teve como objetivo realizar uma reflexão crítica e epistemológica a respeito dos atalhos conceituais de anima/animus em interlocução com as revisões empreendidas a partir dos estudos de gênero. Baseando-se na estrutura de uma pesquisa conceitual, foram selecionados para este trabalho autores do campo junguiano que realizaram essa aproximação, cujas considerações foram analisadas à luz da epistemologia da psicologia complexa. Para a realização desta pesquisa, foram selecionados autores cuja produção sintetiza de forma explícita as principais premissas da revisão dos conceitos de anima/animus pelos estudos de gênero e não pela revisão sistemática e integrativa da literatura. Feita a interlocução entre esses estudos e a epistemologia da psicologia complexa, foram identificados seis eixos de desvios conceituais: a transposição do símbolo em sinal, ao se compreender anima/animus como arquétipos de gênero; a leitura de que C. G. Jung fusionou corpo e psique, contraposto pelo conceito de psiquificação; a interpretação de “masculino” e “feminino” como categorias sociais e não como modalidades de funções psíquicas; o entendimento de Eros e logos como atributos sociobiológicos e não como conceitos nocionais e intuitivos; a indiferenciação entre imagem e o arquétipo psicóide indeterminado; e o colapso da função compensatória dessas figuras quando colocadas de forma simétrica na psique. A partir disso, o estudo concluiu que é necessário realizar uma diferenciação entre os recursos linguísticos que C. G. Jung utilizou ao descrever anima/animus em seu momento histórico e cultural dos fundamentos epistemológicos de tais conceitos que, em si mesmos, já fornecem subsídios para uma compreensão não literalista e essencialista.
Este artigo tem como objetivo analisar, em perspectiva teórico-analítica, como a cultura da juventude eterna e a expansão dos procedimentos estéticos influenciam a construção subjetiva do envelhecimento, articulando literatura científica recente e conceitos da psicologia analítica. Para isso, realizou-se uma revisão narrativa nas bases PePsic, PubMed, Google Scholar e SciELO, utilizando descritores relacionados ao envelhecimento, práticas estéticas e psicogerontologia, em português e inglês. A busca identificou 28 artigos publicados entre 1995 e 2024, dos quais, 13 foram selecionados por maior pertinência teórica. Além disso foram incorporados dados estatísticos de associações do setor estético que contextualizam o crescimento dessas práticas. Paralelamente, foram analisadas obras da psicologia analítica que discutem envelhecimento, individuação, puer, senex e metanoia, compondo o referencial para interpretar os achados contemporâneos. A análise indicou que a pressão cultural para manter uma aparência jovem intensifica a fragmentação da identidade, reforça a dependência por validação externa e dificulta a aceitação da maturidade, comprometendo processos psicológicos fundamentais da segunda metade da vida. Conclui-se que o envelhecimento deve ser compreendido como etapa central do desenvolvimento humano, cuja saúde emocional depende da integração simbólica entre puer e senex e da aceitação da finitude. Ademais, destaca-se que a negação cultural da velhice e o incentivo a padrões estéticos idealizados podem gerar impactos negativos na saúde mental, indicando a importância de abordagens clínicas e sociais que promovam uma visão mais equilibrada, crítica e integrativa do envelhecimento à luz da psicologia analítica.
Esta pesquisa teve como objetivo principal o estudo da função psíquica dos rituais fúnebres, destacando sua importância no processo de luto e investigando os efeitos da ausência dessas cerimônias durante a pandemia da Covid-19. Para tal, foram analisados dois artigos científicos e uma dissertação acadêmica contendo relatos de familiares enlutados naquele período, com base na psicologia analítica de Carl Gustav Jung e em suas concepções sobre símbolo e arquétipo, além das contribuições de outros autores que abordam a morte e o luto. A análise desses relatos permitiu compreender como a ausência de ritualização compromete a simbolização do que não pode ser expresso em palavras, dificultando a elaboração do luto, e evidenciou como os elementos simbólicos favorecem a compreensão da perda e a transformação psíquica. Como conclusão, demonstrou-se a relevância dos rituais fúnebres para a saúde psíquica dos enlutados, especialmente em contextos críticos como o da pandemia, e ressaltou-se o papel da psicologia analítica para a interpretação dos impactos psíquicos da ausência de ritualização, constatando a importância do símbolo na sociedade moderna, onde a desmaterialização das experiências de morte e de luto ameaça comprometer a elaboração emocional e a construção de sentidos.
Este artigo propõe uma reflexão sobre os 150 anos de nascimento de Carl Gustav Jung, no contexto de sua contribuição à escuta clínica e à subjetividade contemporânea. Baseada em uma abordagem teórico-reflexiva, a partir das Obras Completas e em autores junguianos e pós-junguianos, o texto articula os conceitos de Self, individuação, sombra e símbolo com os desafios atuais da psicologia clínica junguiana. Em um mundo marcado pela lógica da performance, da medicalização e da aceleração subjetiva, a psicologia analítica apresenta-se como caminho de resistência e reconexão com a interioridade. Defende-se que a individuação não é um projeto de aperfeiçoamento do ego, mas um processo simbólico de transformação psíquica, frequentemente iniciado pelo sintoma. A clínica junguiana é apresentada como campo de mutualidade, onde o vínculo entre analista e paciente torna-se espaço de verdade, implicação e alteridade. Por fim, a escuta da alma é resgatada como gesto político e existencial no cuidado com o sofrimento.
O assunto narcisismo popularizou-se de forma significativa nos últimos anos, o que contribuiu tanto para a disseminação do tema quanto para a divulgação de informações equivocadas. Diante disso, este estudo, elaborado por meio de revisão de literatura, teve como intuito compreender a formação do complexo narcisista e seu representante arquetípico: o mito de Narciso. Foram abordados os princípios fundamentais da estrutura da psique, além de se relembrar o mito, explanar o surgimento da consciência a partir de sua relação com o mito e examinar as manifestações narcísicas apresentadas por Jacoby. De acordo com os tópicos abordados, a pessoa com manifestações narcísicas, comumente, possui uma ferida psíquica que se inseriu desde a infância, denotando a relevância da existência do estabelecimento de vínculos adequados dos cuidadores com a criança, pois os primórdios de tais feridas podem ser encontrados na relação com os cuidadores. Há também uma semelhança entre algumas expressões do complexo narcísico e o complexo materno negativo, todavia é importante ressaltar que não são equivalentes. Dentre as manifestações da ferida é possível encontrar a raiva narcísica, a agressividade, a distorção da imagem e o temor da rejeição, além da significativa dificuldade de manter vínculos saudáveis e adequados com outras pessoas. Tais expressões têm como base o fato de que a pessoa com ferida narcísica direciona seu investimento de energia ao ego e não ao Self, o que ocasiona uma visão distorcida de sua imagem, impossibilitando também que a energia seja dirigida aos outros, pois não consegue reconhecer a realidade. Conclui-se o quanto é imprescindível que o profissional de psicologia aprofunde seus conhecimentos referente a essa temática. Ressalta-se que o quadro diagnóstico constitui um agrupamento de características afins, sem que se deva, portanto, limitar o sujeito ou a atuação profissional, dado que cada um carrega consigo sua subjetividade.
A depressão pós-parto é um fenômeno multifacetado que transcende fatores biológicos e sociais, possuindo raízes profundas na psique materna. Pela psicologia analítica, a maternidade pode ser compreendida como um rito de passagem, no qual a mulher vê-se diante de arquétipos do inconsciente coletivo, especialmente o arquétipo da Grande Mãe, e pode ativar conteúdos desafiadores, como o complexo materno sombrio. Esses aspectos podem desencadear sentimentos de inadequação, culpa e desconexão emocional, impactando o vínculo mãe-bebê e perpetuando possíveis padrões transgeracionais de sofrimento emocional. Este estudo discute a transmissão transgeracional na depressão pós parto, destacando como traumas maternos não elaborados podem emergir na experiência da maternidade. Além disso, explora-se o papel da sombra materna no desenvolvimento da depressão pós-parto, bem como a possibilidade de sua compreensão e elaboração como um caminho para a transformação psíquica. A partir de uma abordagem baseada na psicologia junguiana, argumenta-se que a depressão pós-parto pode ser um chamado do inconsciente e que é possível a vivência de um caminho no qual a mãe ressignifique sua história emocional e rompa com ciclos de sofrimento transgeracional. Com base nas contribuições de Jung, Neumann e autores contemporâneos, percebe-se que a maternidade, ancorada na integração da sombra, pode proporcionar não apenas um processo de cura individual, como também um legado de equilíbrio psicológico para as futuras gerações. Assim, a compreensão da depressão pós-parto sob essa perspectiva amplia as possibilidades de intervenções terapêuticas, enfatizando a importância do acolhimento, do cuidado e da ressignificação dos conteúdos inconscientes na jornada materna.
O artigo propõe uma leitura simbólica da obra “Morte na Pérsia”, de Annemarie Schwarzenbach, com base na psicologia arquetípica de James Hillman. Por meio de uma análise cuidadosa de passagens da narrativa, o trabalho explora como temas como sofrimento, morte e suicídio podem ser compreendidos como expressões da alma em travessia. A psicologia é aqui convocada não para interpretar ou corrigir o sofrimento, mas para escutá-lo em sua linguagem imaginal. A narrativa de Schwarzenbach é interpretada como um testemunho poético de descida ao inconsciente e de confronto com as forças sombrias da psique, em que figuras como o Anjo e o medo sem nome representam experiências arquetípicas de transformação. Por fim, o artigo reflete sobre o papel do analista diante do suicídio, sugerindo que sua tarefa é sustentar, sem julgar, o peso simbólico das imagens da alma.
O presente trabalho fez uma aproximação entre a divindade afro-brasileira denominada Exu e a teoria queer. A correlação se dá por meio de temas míticos que essa divindade protagoniza dentro das tradições yorubá/nagô e banto, bases mitológicas que servem de palco para o imaginário de religiões desenvolvidas em solo brasileiro, a umbanda e o candomblé, e os escritos da filósofa pós-estruturalista estadunidense Judith Butler sobre a teoria queer. As aproximações acontecem pela irreverência, transgressão, pelo caráter marginal e de denúncia aos preconceitos que a ordem social vigente deposita em minorias excluídas. Tanto essa teoria quanto essa divindade carregam esses traços e esses propósitos em suas bases.
Este estudo de caso analisou uma série de sonhos recorrentes de um paciente ficticiamente chamado Miguel, um homem adulto que enfrenta conflitos emocionais, sintomas de irritabilidade e falta de ar. Com base na hermenêutica simbólica de Jung, o estudo propôs a hipótese de que uma figura feminina desconhecida e possuída, presente nos sonhos, atua como mediadora entre a consciência e os conteúdos emocionais reprimidos, indicando um processo compensatório do inconsciente. Essa figura é interpretada como manifestação da anima enquanto complexo autônomo, cuja constelação revela a dinâmica afetiva inconsciente em curso. A análise buscou compreender as características e efeitos do fenômeno da identificação com a anima na vida psíquica do paciente, descrevendo como o simbolismo emergente dos sonhos favoreceu uma aproximação gradual com seus afetos. Observou-se uma redução dos sintomas e uma melhora na regulação emocional, o que sugere um processo de diferenciação psíquica em desenvolvimento. A abordagem interpretativa adotada neste estudo teve como base as formulações fundacionais de Jung, em consonância com a observação de Shamdasani, que aponta o deslocamento de muitos conceitos junguianos quando retirados de seus contextos originais nas releituras contemporâneas da psicologia analítica.
O presente artigo visou discutir a percepção do tempo enquanto experiência psíquica, sobretudo como tal fenômeno processa-se em uma época em que sua vivência e apreensão é cada vez mais fugidia, produzindo a sensação generalizada de escassez e a aceleração progressiva do tempo. Para satisfazer tal proposta, foram construídas reflexões sobre o tema, mediante o diálogo entre a psicologia junguiana e proposições de autores contemporâneos de diferentes campos do saber que versam sobre o mesmo assunto, especialmente a sociologia de Zygmunt Bauman. Conquanto o tempo em si mesmo não passe de uma abstração ou de uma categoria do entendimento, de acordo com alguns teóricos, o que nos importa considerar é sua dimensão arquetípica, tal como fora expresso a partir dos mitos contemplados neste texto, notadamente Cronos, dada sua grande ênfase no mundo contemporâneo. Assim, de uma abordagem que leva em consideração quase que exclusivamente seus aspectos quantitativos, necessário se faz que passemos a dar mais significado aos atos do nosso cotidiano, mesmo aqueles mais simples, de modo que nossa experiência com o tempo seja de qualidade e plenitude. Em síntese, nosso estudo restringiu-se tão somente em propor breves reflexões acerca de como o homem contemporâneo experiencia o tempo e quais são as circunstâncias envolvidas e possivelmente determinantes das alterações perceptuais.
Os enfoques junguianos e pós-junguianos sobre sexualidades e gêneros dissidentes têm se transformado à medida que analistas e pesquisadores se deparam com as produções epistemológicas dos movimentos feministas e LGBTTQIAP+, que desafiam as perspectivas cisheteronormativas. Essas mudanças acompanham a evolução da psicologia como campo de conhecimento, que se altera em resposta a essas influências. Este artigo visou demonstrar a necessidade de ampliar os pressupostos clássicos junguianos, convidando o leitor a examinar produções contemporâneas e, ainda mais importante, a reconhecer as manifestações intelectuais de LGBTTQIAP+ e das mulheres sobre suas próprias experiências. O artigo está estruturado em três partes em que se apresenta uma cronologia das publicações consideradas referências chave nos estudos junguianos e nas pesquisas feministas sobre sexualidade e gênero. Essa cronologia foi elaborada pela autora e não resulta de uma revisão sistemática. Por fim, é evidente que a psicologia analítica não avançará enquanto defensores de uma perspectiva conservadora recusarem-se a reimaginar a teoria.
Este artigo teve por objetivo realizar uma justa reparação histórica ao restituir o lugar de protagonismo que foi negado a Toni Wolff (1888–1953) na construção da psicologia complexa. Para tanto, nos valemos de textos aclamados na historiografia do pensamento junguiano, como “Jung e a construção da psicologia moderna” e os textos escritos pela própria Wolff. Neste trabalho, utilizou-se, sobretudo, seu texto intitulado “Fundamentos da psicologia complexa”, jamais publicado em português e que consta da coletânea de artigos “Die Kulturelle Bedeutung der Komplexe Psychologie”, realizada em comemoração aos 60 anos de C. G. Jung e editada em 1935 pela Springer-Verlag. Se há algo que o método da psicologia faz é organizar o pensamento junguiano, tarefa que Jung não tinha nem disposição nem atitude para fazer. Portanto, a resposta provisória ao subtítulo retórico desse momento é a seguinte: não há como não ser psicologia complexa, se a letra junguiana for pensada com o rigor e a historicidade devida. Vale reafirmar, esse elo histórico-metodológico deve-se a uma grande pensadora, psicoterapeuta e mulher: Toni Wolff.
Muitos diagnósticos onco-hematológicos não apresentam etiologia definida, intrigando o paciente sobre a doença em si e o tratamento e dificultando a compreensão do próprio processo de adoecimento. Este trabalho é o recorte de uma pesquisa de mestrado, com o objetivo de estabelecer relações de percepção e significado pessoal do adoecimento hematológico, a partir da representação simbólica-ilustrativa produzida pelo paciente. Caracterizou-se por um estudo transversal, exploratório, de natureza qualitativa. A análise dos dados teve o embasamento teórico da psicologia analítica. Foram recrutados 10 jovens adultos com diagnóstico hematológico em acompanhamento clínico no município de Curitiba/PR, os quais foram entrevistados e convidados a ilustrar uma representação pessoal e outra sobre a doença conforme o procedimento de Desenho-Estória com Tema. Observou-se dificuldades na integração entre aspectos conscientes e inconscientes e na estagnação e polarização da libido para a ressignificação de experiências passadas, expressão e representação da doença tanto gráfica como verbalmente. O trabalho centrado na análise simbólica aliado à narrativa do indivíduo fortalece a construção de sentido pessoal e pode contribuir para a compreensão sobre o adoecimento.
Neste 2025, celebramos os 150 anos de Jung, com a psicologia analítica renovando-se em novas perspectivas. No bojo das comemorações, a Self marca um novo capítulo na sua trajetória e torna-se, oficialmente, uma revista internacional.
A presente pesquisa teve o objetivo de responder como a psicologia analítica tem abordado o tema da sexualidade nas suas publicações científicas. O método empregado foi o de revisão integrativa de literatura, com pesquisa realizada nas bases de dados Journal of Analytical Psychology e Portal de Periódicos Capes. Na primeira, foram empregados os descritores: sexuality, analytical psychology e jungian psychology. Na segunda, foram utilizados: sexualidade, psicologia analítica e psicologia junguiana. Resultaram dessa busca oito artigos publicados nos últimos 20 anos e, além deles, acrescentou-se outros trabalhos para a fundamentação teórica. Os temas identificados nos resultados foram: aspectos histórico-culturais na leitura de anima e animus; a potência do simbólico feminino na vivência da sexualidade; psicopatologia e sexualidade; e novas perspectivas arquetípicas sobre a leitura clássica de anima e animus. O estudo aponta em direção a uma revisão dos pressupostos da psicologia analítica no que tange à sexualidade, para a compreensão do seu desenvolvimento e das implicações relacionadas às expressões de gênero. Concluiu-se que o tema necessita de pesquisas que tragam entrevistas e relatos de pacientes na clínica da sexualidade em psicologia analítica para que se possa compreender os sintomas que emergem das relações de poder hegemônicas.
Este artigo teve como objetivo aprofundar os estudos sobre o transtorno de personalidade borderline, do ponto de vista da psicologia analítica, e compreender a dinâmica da psique nos pacientes portadores de tal condição, por meio da ampliação da mitologia africana. A partir do estudo de autores junguianos e pós-junguianos, foi feito um paralelo simbólico do atendimento de pacientes com transtorno de personalidade borderline, por meio dos itãs (histórias) iorubás dos orixás Nanã, Oxalá e Obaluaê, apresentando ainda a ausência paterna de Oxalá e o aspecto guerreiro de Obaluaê. Iemanjá foi trazida como o aspecto materno positivo, da Grande Mãe, sendo ela a figura que acolhe e cuida do filho rejeitado, permitindo a ampliação e a correlação entre as figuras da mãe e do terapeuta. A mitologia africana, diferentemente da grega, pode ser vivida e experienciada, seja na clínica, no centro de umbanda ou no terreiro de candomblé. Apesar de o Brasil ser um país diverso e plural, o preconceito e o racismo sobre as religiões de matrizes africanas permeiam e atravessam a coletividade. Estudar e experenciar os mitos é acessar uma possibilidade de transformação.
Em sua resenha de “Memories Dreams Reflections”, Winnicott diagnosticou Jung como sofrendo de uma cisão psíquica e caracterizou o conteúdo e a estrutura da psicologia analítica como moldados e condicionados principalmente pela busca defensiva de Jung por um “self que ele pudesse chamar de seu”. Esta análise patologizante continua a ser endossada por escritores junguianos contemporâneos. Neste artigo tento mostrar que a crítica de Winnicott é fundamentalmente equivocada, pois deriva de um modelo psicanalítico da psique, um modelo que considera toda dissociação como necessariamente patológica. Argumento que a compreensão de Jung sobre a psique difere radicalmente deste modelo e, além disso, que corresponde, em geral, ao tipo de modelo dissociativo que encontramos nos escritos de Frederic Myers, William James e Theodor Flournoy. Concluo que uma relação fecunda entre Psicanálise e Psicologia Analítica depende da consciência dessas importantes diferenças entre os dois modelos psíquicos.