
Pretende-se fazer uma análise do texto “O ensaio como forma”, de Theodor Adorno, enfatizando a relação entre particular e universal e sua mediação recíproca na densidade dialética do corpo da linguagem. Interpretamos tal mediação como índice do modo como a dialética negativa adorniana apoia-se no fragmento, no equívoco e no arbitrário para ultrapassar os dois polos de falsidade usualmente vistos no plano conceitual-filosófico, quais sejam: o particular em-si e por-si e a abstração generalizadora do pensamento classificatório. Ao final, apresentamos uma breve crítica à ideia de utopia do novo formulada a partir de Kant por Adorno.
O texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, publicado por Walter Benjamin, se transformou em um marco para o pensamento estético, redefinindo a teoria da arte a partir da ideia de que a reprodutibilidade técnica teria operado uma transformação nos modos de percepção da arte. Tendo esse fato como ponto de partida, nosso intuito será analisa o modo com que Jacques Ranciére, com sua concepção de regime estético das artes pretende, justamente, mas não só, recusar o paradigma da técnica benjaminiano. Abordaremos essa recusa, seu modo de construção, seus fundamentos e consequências para os campos estético e político, não com o simples intuito de marcar uma diferença da interpretação feita pelos dois autores em relação à transformação da percepção, mas, pretendendo compreender aquilo que fundamenta a recusa de Rancière em relação ao paradigma bejaminiano. Trata-se, como veremos, de perceber uma completa transformação do método de interpretação do tempo presente que não mais se debruçará sobre as relações entre infraestrutura e superestrutura, que não mais aceitará a interpretação do mundo a partir do determinismo econômico.
O ensaio analisa o curta-metragem Solmatalua, que através da rítmica e visualidade da montagem engendra em suas imagens a um só tempo aquilo o que Pasolini denominara de “cinema de poesia” – ao afirmar a natureza fundamentalmente artística do cinema, a sua violência expressiva –, como também por sua insistência genealógica, o filme de Rodrigo Ribeiro busca uma origem-redemoinho, impura tal qual proposta por Benjamin. Assim, a dimensão experimental da obra acaba por aproximar-se de alguns desdobramentos pensados por Bona e, ainda, por sua natureza tanto arquivística quanto afrodiaspórica, Solmatalua faz ressoar aquilo que Hartman definiu como fabulação crítica e Brand como o mapa da porta do não retorno. E através dos ritmos e das visualidades do filme, o pensamento de Deleuze se faz fundamental para pensar o ato de criação como porvir dos povos.
Relato e análise da palestra-performance Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro, realizada pela primeira vez em 2023 junto a um grupo de artistas-pesquisadores. A proposta joga com um padrão de formatação do conhecimento, o qual tenho chamado de “performatividade da academia”, em analogia com o conceito de performatividade de gênero elaborado por Judith Butler. A performatividade da academia – que, assim como o gênero, é uma estilização do corpo e da linguagem prescrita por instituições coloniais – inclui um extenso conjunto de regras tácitas sobre como os corpos devem se comportar no ambiente acadêmico e quais são as linguagens escritas e orais aceitas na produção de conhecimento. Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro é um campo de experimentação de saberes que se constroem a partir da recusa de tais normas e hierarquias e por meio de sua teatralização paródica.
Apesar de sua significativa expressividade disruptiva – evidenciada antes do dadaísmo e do surrealismo – o futurismo italiano quase não aparece na Teoria da Vanguarda de Peter Bürger. As ilustrações que o autor utiliza para sua teoria estão circunscritas à obra de arte não orgânica, efetivada por meio da alegoria e engajada na destruição da instituição arte e na recondução da arte à práxis vital, a fim de romper com o esteticismo através da autocrítica contra a arte autônoma. Em que medida os movimentos históricos de vanguarda, cujas obras destoam de tais características, podem ser inseridos na abrangência teórica de Bürger? Talvez o caráter esteticizante do futurismo italiano, que permeia sua multiartística estetização bélica da vida, pode ter tido um papel relevante no que se refere ao desdobramento histórico das posteriores vanguardas artísticas, notadamente no que concerne ao engajamento político. É sobre o futurismo italiano e seu (não) lugar na Teoria da vanguarda que tratarei neste texto, com ênfase para a seguinte questão: Em que medida podemos considerar sua importância, na sociedade burguesa, para a destruição da instituição arte e a recondução da arte à práxis vital?