Este artigo analisa criticamente a Gerontologia contemporânea como regime de verdade que, para além de seu estatuto técnico-científico, assume funções simbólicas e morais historicamente associadas à religião. Argumenta-se que, no contexto das racionalidades biopolíticas e do neoliberalismo, os discursos gerontológicos, articulados à medicina como sistema simbólico, produzem normatividade, organizam condutas e oferecem promessas de segurança e controle da vida longa, ancoradas em ideais de envelhecimento ativo, autonomia e produtividade. A partir de um recorte interdisciplinar que articula Filosofia, Ciências da Religião e Gerontologia crítica, mobilizam-se contribuições de Michel Foucault, Georges Canguilhem e autoras da Gerontologia Social para evidenciar como tais discursos individualizam riscos, moralizam fragilidades e convertem desigualdades estruturais em falhas biográficas, produzindo culpa e regimes de sacrifício do corpo envelhecido. Sustenta-se, por fim, que libertar o envelhecer da promessa de salvação implica desativar a sacralização normativa da vida longa e reconhecer o envelhecimento como acontecimento ético, político e existencial, marcado pela vulnerabilidade e pela pluralidade das velhices.
Entre as transformações que marcam o mundo contemporâneo, poucas se mostram tão expressivas quanto o prolongamento da vida humana. O aumento da expectativa de vida modifica a composição das sociedades e nos convoca, por vezes, a reflexões sobre o tempo vivido, a memória, o cuidado e o sentido da existência. Viver mais, já não constitui exceção em muitas realidades sociais. Compreender o significado desse tempo ampliado, torna-se, portanto, uma tarefa incontornável. Em muitas trajetórias, uma pergunta, em algum momento, aparece de forma até subliminar: qual é o sentido da vida quando o tempo já se acumula em memórias, perdas, experiências e aprendizagens? A filosofia e a reflexão existencial lembram que essa interrogação acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Na velhice, porém, ela adquire uma tonalidade própria. Histórias pessoais ganham novos contornos, valores são revistos e a própria existência passa por um exercício de releitura. A psicologia existencial recorda que a busca por sentido nos acompanha nos diferentes ciclos e ganha especial intensidade quando o tempo conduz à revisão da própria história. Neste horizonte de questões que surgiu a proposta do dossiê “Religião e Envelhecimento – Perspectivas Interdisciplinares e Culturais”, cuja chamada convidou pesquisadoras e pesquisadores a refletirem sobre as relações entre religiosidade, espiritualidade e velhice. A iniciativa partiu do reconhecimento de que o envelhecimento populacional constitui hoje uma realidade global e de que a religião continua a oferecer, em muitas culturas, importantes referências simbólicas para lidar com a passagem do tempo, a fragilidade do corpo, as perdas e as perguntas últimas da existência.
O fenômeno atual das pessoas que se autodenominam crentes sem religião se apresenta bastante complexo, ambíguo, instigante e provoca pesquisadores e pesquisadoras de diversas áreas do saber a lançarem continuamente novo olhar sobre essa realidade em marcha. No intuito de oferecer contribuição original acerca do tema em voga foram realizadas entrevistas com discentes (doutorandos e doutorandas) e com docentes de dois programas de pós-graduação em Ciências da Religião no Brasil. As transcrições das entrevistas realizadas trouxeram à tona material ímpar, o qual provoca o pensar e estimula tanto a divulgação dos resultados para o público em geral, quanto a produção científica no intuito de entretecer diálogo constante com os pares. Assim sendo, importa apresentar o cenário descortinado pelos operadores diretos das Ciências da Religião, ao narrarem, delimitarem, circunscreverem e apontarem a compreensão dos sem religião nos dias de hoje. A partir daí, compete lançar luzes acerca do material obtido e estabelecer conexões que possibilitem emergir intertextualidades e horizontes novos de aproximação ao universo dos crentes sem religião em sintonia com os eixos interpretativos configurados pelo ateísmo hermenêutico.
O texto de Jānis Roze deve ser lido como uma espécie de testemunho místico, uma tentativa de compartilhar aquilo que muitas vezes apenas o silêncio é capaz de abarcar. Nas entrelinhas, pulsa o mistério da vida, que, em sua desarmante simplicidade, nos convida a participar de sua dança cósmica, a redescobrir a magia contida no cotidiano. A obra de Roze revela um percurso de transformação, em que o autor, gradualmente, desloca seu foco das ciências experimentais para a espiritualidade imersa no universo, sem nunca abdicar de seu papel como cientista. Essa jornada não é uma renúncia ao rigor científico, mas sim uma ampliação do horizonte de sua busca pelo conhecimento. Ao unir o rigor das ciências com a sensibilidade espiritual, Roze se torna uma ponte entre dois mundos aparentemente diferentes. Sua trajetória o conduz a uma conexão íntima e reverente com cada planta, cada animal, e cada cultura, vendo-os como partes integrantes de um todo maior, participantes de um espírito de totalidade. É um processo dinâmico, no qual o mistério ora se revela, ora se esconde, sempre dançando à frente, desafiando o tempo e a compreensão. Esta obra é fascinante ao trazer à luz um relato de resiliência e uma vida vivida em plenitude, resgatando, no presente, o brilho de uma existência marcada por profundidade e reflexão.
O e-Book “Estudos da Religião na Amazônia” explora a rica diversidade religiosa da região, destacando a interconexão entre fé, cultura e política. A obra defende uma abordagem interdisciplinar, essencial para compreender as complexas dinâmicas sociais que moldam as práticas religiosas. O texto enfatiza o papel vital das religiões afro-brasileiras e indígenas, que se entrelaçam com o catolicismo popular, refletindo um sincretismo único. Além disso, aborda a urgente necessidade de uma teologia ecológica, inspirada na encíclica Laudato Si’, que propõe o cuidado com a criação como um caminho de salvação. Com uma análise provocativa e original, os autores desta obra convidam pesquisadores e leitores a repensar a espiritualidade contemporânea, revelando como novas expressões religiosas emergem em resposta aos desafios atuais, promovendo um diálogo enriquecedor entre tradição e inovação.
O transe é o momento mais sublime da vivência religiosa. A hierofania do êxtase religioso, o contato com o Divino, o arrebatamento do cotidiano, tudo isso é capaz de provocar grandes transformações pessoais, mas, também, sociais. Principalmente quando novas matrizes religiosas surgem em função do êxtase vivido. Através de uma revisão bibliográfica de textos sagrados e também da análise de especialistas, o presente estudo objetivou analisar a importância do transe na fundação e na continuidade ritualística de diversas tradições religiosas. Assim, discutimos questões relevantes para elucidação do tema, como: O que é o transe? Como ele ocorre? Que tipos de transes existem? E qual o papel do êxtase religioso no surgimento de algumas das principais religiões da História? Os resultados apontam que o transe exerceu uma função essencial na gênese de várias tradições religiosas, e que ele continua sendo relevante nas práticas ritualísticas de muitas delas.
Recife é uma cidade abundante em relatos de assombrações e, ao mesmo tempo, é também uma das mais violentas do país. A Perna Cabeluda é uma lenda urbana muito popular na capital pernambucana. Nesse artigo, estudamos as origens dessa lenda, o modo como ela se difundiu pelo Nordeste brasileiro, e o que ela revela sobre a grave situação de Segurança Pública que é vivenciada na cidade. Assim, ao analisar a relação entre os relatos de violência sobrenatural e a violência real da cidade, os resultados indicam que lendas urbanas, que perduram e são largamente difundidas como a lenda da Perna Cabeluda, podem ser uma forma subliminar de manifestação social sobre a realidade de violência sofrida por uma população que “não existe”.
Este estudo discute o cenário e as diretrizes da formação médica no Brasil, apontando algumas ambiguidades. O acelerado crescimento da última década assinala a valorização da profissão pela expectativa de boa remuneração social e financeira, vinculada a um imaginário de alta especialização. Isso contrasta com as políticas públicas de saúde da década de 2000 e 2010 voltadas para a consolidação do Sistema Único de Saúde, com foco na saúde como direito social essencial para a cidadania. As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de medicina incorporam os temas dos direitos humanos, do reconhecimento, das diferenças, da autonomia e do empoderamento, da valorização das práticas e dos saberes populares e tradicionais, que convergem para cidadania ativa multicultural. Apesar desses avanços, permanecem áreas de exclusão, como a persistente ausência da religiosidade e da espiritualidade, cujos impactos na saúde das pessoas e das comunidades está bem documentado nas pesquisas das últimas décadas.
O presente estudo, ao compendiar de modo sumário as teses de alguns autores de referência para o estudo do fenômeno ritual, presta-se ao papel de introdução às teorias sobre a ritualidade. Contudo, seu objetivo principal não é este, mas, sim, evidenciar o quanto o modus operandi dos ritos está entremeado na vida cotidiana, não se restringindo unicamente ao âmbito religioso, como comumente se pensa. Metodologicamente, nossa pesquisa confronta: 1) a teoria dos ritos de passagem de Arnold Van Gennep (2013) às festas juninas; 2) a tese de Claude Rivière (1989), que assume os ritos como asseguradores dos mitos, ao rito de unção da Rainha Elizabeth II como aparece na série The Crown; 3) a hipótese de Giorgio Bonaccorso (2009), que entende os ritos como um esquema humano para enfrentar o medo da morte, ao rito das Exéquias. Depois de analisar as pesquisas de antropólogos, sociólogos e teólogos, ultima por considerar que ritualizar é uma necessidade humana, seja para transformar, seja para assegurar, seja para enfrentar a morte. Abstract: The present study, by summarizing the theses of some authors of reference for the study of the ritual phenomenon, lends itself to the role of introduction to theories about rituality. However, its main objective is not this, but rather to show how much the modus operandi of the rites are interwoven in everyday life, not being restricted solely to the religious scope, as is commonly thought. Methodologically, our research confronts: 1) Arnold Van Gennep’s (2013) theory of rites of passage to June festivals; 2) the thesis of Claude Rivière (1989) that assumes the rites as guarantors of the myths to the rite of anointing of Queen Elizabeth II as it appears in The Crown series; 3) the hypothesis of Giorgio Bonaccorso (2009) who understands the rites as a human scheme to face the fear of death at the funeral rite. After analyzing the research of anthropologists, sociologists, and theologians, we end up considering that ritualizing is a human need, either to transform oneself, to feel safe, or to face death. Keywords: Rituality; Religious Phenomenon; Culture.
Estamos vivendo em um contexto de profundas transformações socioculturais, no qual as religiões tradicionais perdem espaços e as fontes de sentidos dos crentes sem religião crescem rapidamente. Este artigo tem como objetivo analisar como e em que os crentes sem religião na atualidade estão buscando e encontrando sentidos em suas vidas na hodiernidade. Para tal, realizamos uma investigação empírica qualitativa, através de entrevista semiestruturada, aplicando questionário com perguntas fechadas e abertas, a participantes de cursos de Psicologia Transpessoal, na UNIPAZ Goiás, no período de 2020-2021 . Tanto os dados empíricos quanto os bibliográficos foram analisados à luz do pensamento de Marià Corbì, no que se refere às diferentes formas e fontes de sentidos na atualidade. Concluímos que estamos saindo de uma forma de sociedade cujas relações eram marcadas pelas hierarquias, submissões e ortodoxias políticas, econômicas e religiosas e passando para formas de relações com poderes mais compartilhados e baseadas em decisões e ações mais livres, individuais e autônomas. As mudanças nas formas e fontes de sentidos no que se refere à religião se inserem nesse processo.
Alimentação e religião são duas instâncias da vida humana a interagirem entre si por meio da constante atribuição de sentido àquilo que não se limita ao encerramento numa mera atividade biológica essencial: o ato de se alimentar. O ser humano possui a habilidade de atribuir sentido extraordinário às coisas; de instituir ritos e de conferir dimensão transcendente ao cotidiano; além de deter a competência de produzir e de oficializar práticas e ritos específicos enquanto via de experimentação do sagrado. Tal arcabouço favorece o passo de se ir além da diversidade de sentido da riqueza cultural já presente no universo culinário. Trata-se, também, de investir os alimentos de senso religioso, ou seja, de considerar o manuseio e a utilização de alimentos para fins rituais e de expressão do sagrado, dentro de um escopo de critérios e de preceitos estabelecidos pelas religiões. Nesse horizonte, a presente abordagem considera como ponto de partida a comprovada relação existente entre alimento e religião no intuito de trazer presente em que medida tal relação evoca a atenção da ciência da religião. Como resultado de nossa investigação, defende-se a necessidade de serviço qualificado junto ao setor de serviços de alimentos destinados a pessoas religiosas. Assim sendo, importa trazer à tona o papel profissional a ser exercido por cientistas da religião junto a esse específico seguimento alimentício. Donde importa afirmar, para além do universo acadêmico, campo de atuação profissional a ser amplamente explorado e exercido por cientistas da religião.
Food and religion are two instances of human life that interact with each other through the constant attribution of meaning to what is not limited to the closure of a mere essential biological activity: the act of eating. The human being can attribute special meaning to things, institute rites, and give a transcendent dimension to everyday life, in addition to holding the competence of producing and formalizing specific practices and rites as a way of having a sacred experience. Such a framework favors going beyond the diversity of meaning of the cultural wealth already in the culinary universe. It is also about investing in food in a religious sense. It means considering the handling and use of food for ritual purposes and the expression of sacred things within a scope of criteria and precepts established by religions. In this horizon, the present approach considers the beginning of the proven relationship between food and religion to discuss how and why this relationship evokes the attention of the study of religion. As a result of our investigation, the need for qualified service in the food sector for religious people is defended. Therefore, it is important to bring to light the professional role to be played by scholars of religion in this specific food segment. Moreover, it is important to affirm, besides the academic universe, a field of professional activity to be widely explored and exercised by scholars of religion.
Entrevista concedida por Flávio Senra a Claudia Ritz e Clovis Ecco para composição do Dossiê "Novos movimentos religiosos e espiritualidades laicas" da Revista Caminhos, no segundo semestre de 2022.
A discussão sobre a epistemologia da Ciência da Religião comporta a questão da cientificidade desse campo do saber perante outras ciências. Dar razões à ciência praticada por seus operadores constitui tarefa da Ciência da Religião enquanto conhecimento às voltas com as transformações sociais, culturais e religiosas a tecerem a sociedade. Diante desse horizonte interpelante propõe-se o exercício religiográfico como via de aproximação ao modo de se fazer ciência pela Ciência da Religião e como caminho metodológico possível de realização de outros estudos no campo de pesquisa das religiões. Por fim, explicita-se a cientificidade do trabalho do pesquisador cientista da religião, desde que se situe o fazer da Ciência da Religião em conformidade com as resoluções do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa com seres humanos no Brasil.
Este artigo se insere na perspectiva das atuais discussões sobre os “sem religião”, uma categoria que tem despertado interesse de cientistas da religião, teólogos e estudiosos em geral – sobretudo para os que discutem as novas tendências das sociedades secularizadas, a relação entre religião e cultura e o individualismo. Esta é a primeira parte de um trabalho que se subdivide em três partes. Como alude o título, trata-se de uma leitura introdutória ao tema, com base nos dados do Censo de 2010 e em duas outras pesquisas por nós desenvolvidas entre 2015 e 2017. Sua metodologia de análise toma como pressuposto os dados obtidos pela pesquisa quantitativa, questionando-os, em seguida, à luz de uma interpretação mais profunda, que ultrapasse a mera leitura dos índices percentuais graças ao que foi obtido nas respostas qualitativas. Como resultados, questionamos a validade do conceito “sem religião” como tem sido comumente empregado, levantando pistas para a leitura do pluralismo religioso que lhe é subjacente. O artigo se completará com suas outras duas partes, que virão ao público oportunamente.