
A visão exclusivamente eurocêntrica tem sido o maior obstáculo para a compreensão do Islã e de culturas ou religiões não ocidentais. Os efeitos do colonialismo e de sua visão de mundo impõem que outros povos aceitem e coloquem os valores ocidentais acima de seus próprios valores. Essa realidade fomenta uma superioridade cultural que analisa, interpreta e julga as crenças e o estilo de vida de outros povos conforme padrões construídos por sua própria cultura. A partir de uma revisão narrativa da literatura, este ensaio introduz alguns conceitos sobre o Islã e discute os contrastes entre a religião e o paradigma da secularização historicamente construído e enraizado no mundo ocidental. O objetivo é destacar a necessidade de um olhar decolonial que se desprenda da linguagem, de conceitos e de valores culturais ocidentais, de modo a permitir uma compreensão menos enviesada e mais fidedigna dos conteúdos islâmicos. Depreende-se deste estudo que a imposição de uma visão hegemônica ocidental sobre os muçulmanos prejudica a compreensão de seus valores religiosos, fomentando preconceitos e juízos de valor, além de potencializar conflitos e cisões culturais.
Este artigo investiga a relação entre pertencimento religioso e comportamentos reprodutivos femininos no Brasil, com ênfase na exceção evangélica evidenciada pelo Censo Demográfico de 2022. Enquanto a taxa de fecundidade média nacional caiu para 1,55 filho por mulher, entre as mulheres evangélicas o índice permanece acima da média, alcançando 1,74. Os cruzamentos realizados mostram que a fecundidade evangélica permanece superior à católica nas cinco Grandes Regiões e em todos os níveis de instrução analisados. A partir de uma análise descritiva que articula dados censitários e interpretações culturais e teológicas, o estudo examina a hipótese de que a reprodução, em determinados contextos evangélicos, pode operar como vocação espiritual e expressão comunitária de pertencimento. A fé pode reforçar a compreensão da maternidade como missão e fidelidade a Deus em contraste com discursos seculares de autonomia e planejamento familiar. A pesquisa também explora o papel das redes de cuidado e reconhecimento comunitário nas igrejas, os marcadores de escolaridade por religião e as diferenças em relação a repertórios católicos, espíritas e afro-brasileiros. Os resultados indicam que a composição territorial e educacional contribui para a compreensão das diferenças de fecundidade, mas não as esgota. Conclui-se que a fecundidade não deve ser tratada apenas como dado demográfico, mas também como expressão simbólica e moral situada em tradições religiosas específicas.
O objetivo deste artigo é discutir os dados sobre o catolicismo no Brasil contemporâneo, fornecidos pelo Censo 2022, a partir dos números do Ceará, segundo estado mais católico do país: enquanto no Brasil o percentual dos entrevistados que se disseram católicos era de 56,7%, no Ceará esse número era de 70,4%, deixando o estado atrás apenas do Piauí, que registrou um percentual 77,4% de católicos. A partir da discussão dos dados do Censo e da revisão de estudos feitos no âmbito da sociologia da religião, seja pelos autores do trabalho seja por outros pesquisadores, oferecem-se linhas interpretativas, a partir dos movimentos do próprio catolicismo no estado, das razões possíveis para a compreensão dessa “permanência” católica no Ceará.
Se considerarmos a diversidade religiosa presente em nosso país e a natureza laica do Estado, a inclusão do Ensino Religioso nas escolas se revela como um tema complexo e frequentemente polêmico, que deveria ser aplicado nas escolas de acordo com o que está previsto na Base Nacional Comum Curricular. Caberia, desta forma, ao docente desta área do conhecimento, pelo menos em teoria, disseminar informações, considerando os direitos de aprendizagem e a formação integral que contemple todos os segmentos sociais e modos de vivenciar a vida em termos de Espiritualidade, não sendo, portanto, o seu objetivo doutrinar discentes, teologicamente falando, e sim oferecer o despertar para o conhecimento dos fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações como parte integrante do substrato cultural da humanidade. O objetivo deste artigo é apresentar a Espiritualidade e a Ética Intercultural como uma abordagem teórico-metodológica para o Ensino Religioso com a finalidade de não violentar crenças e consciências conforme a constituição de 1988. Através de uma pesquisa bibliográfica e a partir de experiências de sala de aula, pretendemos demonstrar, através do pensamento decolonial de autores latino-americanos como Elias Wolff, Fidel Tubino, Paulo Freire e Ricardo Salas, como a Espiritualidade de cada sujeito da educação deve ser abordada através da Ética Intercultural. Ao fim, propomos aos docentes do Ensino Religioso uma quebra de paradigma, no qual este assume o papel de mediador de uma ética reconstrutiva em sua prática docente, fazendo da Espiritualidade e da Ética Intercultural o horizonte normativo de sua prática de ensino.
Este artigo analisa a trajetória da classificação religiosa nos Censos Demográficos brasileiros, de 1872 aos dados preliminares de 2022, com ênfase no macrogrupo “Outros” e na presença do budismo no país. A pesquisa adota abordagem histórica e documental, aliando análise quantitativa dos dados censitários disponibilizados pelo IBGE e levantamento complementar no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas da Receita Federal, a partir da busca de termos associados ao budismo (“Buda”, “Buddha”, “Budista”). Essa metodologia possibilitou identificar tanto a evolução da autodeclaração de pertencimento religioso quanto o crescimento institucional das associações formalmente registradas. Os resultados indicam um processo contínuo de pluralização religiosa no Brasil, evidenciado pelo crescimento do grupo “Outros”, que passou de 0,71% em 2010 para 4,15% em 2022, representando uma das mudanças mais expressivas no campo religioso nacional. Quanto ao budismo, observa-se aumento em números absolutos de adeptos e instituições, mas estabilidade proporcional, sugerindo uma tensão entre adesão a práticas espirituais, como a meditação, e filiação institucional formal. Espera-se, assim, contribuir para o debate acadêmico sobre as religiões minoritárias e a complexidade da autodeclaração religiosa, ressaltando a importância dos censos como instrumento de análise das transformações culturais e espirituais no Brasil contemporâneo.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952, representa uma reorganização política da Igreja Católica em resposta à urbanização, modernização econômica e crescente diversidade social. O principal objetivo deste estudo é analisar a influência política e social da CNBB, desde sua fundação até o período de redemocratização, conhecido como Nova República. A metodologia utilizada baseia-se na análise documental de importantes documentos políticos e pastorais emitidos pela CNBB, além de literatura secundária que aborda o papel da Igreja na política brasileira. Os resultados indicam que a CNBB desempenhou um papel central na formação dos debates políticos sobre questões sociais, como direitos humanos, reforma agrária e o papel da religião na governança. As considerações finais destacam a transição da CNBB de uma instituição predominantemente religiosa para uma entidade ativamente engajada na esfera política, especialmente durante e após a ditadura militar. Essa atuação contribuiu significativamente para a formação da democracia brasileira pós-ditadura, promovendo a participação política e a defesa dos pobres. Ao longo do tempo, a CNBB tornou-se uma voz essencial no cenário social e político do Brasil, associando os princípios católicos à justiça e à igualdade.
Este artigo traz, partindo de uma reflexão entre a teologia acadêmica e aquela em linguagem da religiosidade popular, uma reflexão em quatro aspectos. Em primeiro lugar, aborda a noção de dinâmica da fé movida pela esperança messiânica no seio da crise contemporânea caracterizada como crise de esperança. Em segundo lugar, evoca elementos de uma pedagogia da esperança, apontando uma construção e um aprendizado e destacando os sete sinais concretos de uma esperança ativa elencados pelo papa Francisco na perspectiva de mobilizar atitudes e ações em vista de superar os principais desafios e problemas contemporâneos da humanidade. Em terceiro lugar, considera um ensaio de teologia da esperança a partir dos sobreviventes de tantas situações de morte, a partir da teologia decolonial da ressurreição trabalhada pelo teólogo Carlos Mendoza-Álvarez. Em quarto lugar, aponta pistas de uma mística da esperança, a partir dos indícios de resiliência e resistência que permitem afirmar a utopia do Reinado de Deus já presente, mas ainda não plenamente realizado. Dentro de uma dinâmica escatológica, tão própria da fé cristã, conclui-se que, para além de uma pedagogia, importa apostar em uma mistagogia da esperança.
Resenha do Livro: MINOIS, Georges. História do Inferno. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Editora UNESP, 2023. 146 p. ISBN-13: 978-65-5711-185-7
Este artigo reflete acerca dos dados iniciais do Censo de 2022, com ênfase na temática da diversidade religiosa. A metodologia utilizada foi quanti-qualitativa, isto é, bibliográfico-teórica, com revisão de textos e autores, e analítico-interpretativa, acompanhada de análise dos dados censitários, em especial o de 2022. Questiona-se se os dados indicam indícios de maior diversidade religiosas ou se trata somente um rearranjo de tendência sociorreligiosas dentro do cristianismo majoritariamente presente no país. Sugere-se que os dados sócio numéricos podem ser interpretados como um indicativo de um Brasil mais diverso, ainda que tênue, e como uma reconfiguração mais intensa de tendências demográfico-sociais no campo religioso brasileiro. Entretanto, entende-se que, com os dados agregados disponíveis apresentados pelo IBGE, ainda não é possível alcançar respostas mais incisivas diante das transformações histórico-sociais que estão emergindo no campo das religiões no Brasil, tornando-se uma questão em aberto. Assim, os resultados deste artigo destacam a necessidade de se qualificar melhor as categorias censitárias, principalmente o tipo de classificação por meio dos “grandes grupos de religião” definidos pelo Censo de 2022, no sentido de melhor entender o peso da diversidade religiosa no país, diante da presença das múltiplas práticas de fé na realidade social brasileira.
O objetivo deste artigo é analisar o panorama religioso do Estado de Goiás, a partir das informações coletadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE), no ano de 2022. A justificativa para esse estudo é o fato de Goiás ser um lugar significativo para análise da evolução religiosa brasileira. A metodologia adotada no artigo foi usar os dados censitários para estabelecer um panorama das crenças religiosas em Goiás, mostrando a situação do Catolicismo, Protestantismo, Espiritismo, religiosidades de origem afro-americanas e indígenas e pessoas sem religião. A principal novidade revelada pelo Censo foi a diminuição do ímpeto do crescimento dos evangélicos e o aumento considerável de pessoas que se declararam sem vínculos religiosos formais.
Este artigo analisa a trajetória demográfica do espiritismo kardecista no Brasil utilizando dados censitários do IBGE de 1940 a 2022. A pesquisa demonstra que a evolução quantitativa dos adeptos está intrinsecamente ligada a mudanças metodológicas na apuração, notadamente a crucial distinção das religiões afro-brasileiras em 1980, que redefiniu o perfil estatístico do grupo. O estudo identifica um padrão de crescimento constante, interrompido apenas por ajustes metodológicos ou crises institucionais, e consolida um perfil socioeconômico distintivo: o espiritismo se caracteriza como a religião com maior proporção de brancos no Brasil e pela mais alta escolaridade e renda entre as principais denominações, com predominância feminina e conversão majoritariamente na idade adulta. A análise do Censo 2022, que apontou uma inédita retração, é complementada por uma discussão sobre as dificuldades na coleta dos dados.
Desde o censo demográfico de 1991 algumas tendências podem ser observadas no campo religioso brasileiro, tendo essas ganhado intensidade no censo 2000, a exemplo da redução de católicos e o incremento dos evangélicos e dos “sem religião”. Questionamos, assim, se e como os recém-divulgados dados do censo sobre as religiões no Brasil trazem mudanças em relação a esses movimentos estruturais da configuração do campo religioso brasileiro iniciada nas últimas décadas. Inspirando-nos nas análises desenvolvidas por Cesar Romero Jacob e colaboradores, delineando religiões metropolitanas como base das análises, apresentaremos características e tendências de Salvador e dos outros 13 municípios da Baía de Todos os Santos. Os dados são interpretados a partir da proposta de “linhas de força” e de holograma, de Clara Mafra. Consideramos a antiguidade dos circuitos que ligam a Capital ao interior do Recôncavo - uma “área de influência” para além da Região Metropolitana de Salvador - que possibilita compreender certos “rastros” da dinâmica religiosa, especialmente das religiões de matriz africana.
O Movimento Terasem – agrupamento de fé que promove a união da tecnologia com a espiritualidade para alcançar a imortalidade cibernética – é uma crença de amor à tecnociência com foco particular na imortalidade digital. O Terasem promove a ideia de que a tecnologia pode permitir a continuidade da identidade humana por meio da criação de mindfiles digitais, uma forma de preservação da consciência. Este artigo tem como objetivo apresentar a crença, a estrutura e a concepção de imortalidade da religião transumanista Terasem Moviment, a que acredita na possibilidade do prolongamento da vida no tempo, e não na eternidade apregoada pelas religiões dos grandes monoteísmos. Este artigo utiliza-se da abordagem descritivo-hermenêutica para analisar o Terasem, movimento religioso que tem o transumanismo como contexto inspirador e a tecnofilia como o que nutre a esperança dos adeptos da tecnorreligião. Com o presente artigo, chega-se a uma conclusão: a busca pela imortalidade apoia-se no potencial humano, e não no poder de um ser metaempírico.
Este artigo investiga o crescimento da categoria "sem religião" entre os jovens brasileiros à luz dos dados do Censo 2022, com enfoque nacional e perspectiva geracional. Argumenta-se que esse fenômeno reflete transformações estruturais, sociais, culturais e tecnológicas nos processos de transmissão religiosa e nas formas contemporâneas de espiritualidade. A desfiliação religiosa juvenil, longe de representar uma rejeição absoluta da esfera espiritual, expressa uma forma de reconfiguração simbólica das experiências do sagrado, marcadas por trajetórias individuais, hibridismo ritual e distanciamento institucional. Utilizando dados quantitativos do IBGE e estudos qualitativos recentes, o artigo propõe que o fenômeno deva ser interpretado em chave geracional, à luz das categorias de “memória religiosa” e de “saída da religião”, permitindo compreender a descrença como uma forma ativa de inscrição cultural. Conclui-se que o crescimento da não filiação religiosa entre os jovens aponta para uma mudança de paradigma nas relações entre juventude e religiosidade no Brasil contemporâneo.
Atenas é conhecida, não só como a cidade dos filósofos, da democracia e da cultura, mas também como a cidade dos Deuses e das Deusas. Foi esse ambiente que, segundo a narrativa de Atos dos Apóstolos 17,16-34, o apóstolo Paulo encontrou quando chegou à cidade. O objetivo da presente pesquisa é apresentar os principais remanescentes arqueológicos e históricos da antiga Atenas. E, a partir desta meta, mostrar como o ambiente diverso, aberto, dialógico e complexo de Atenas foi essencial para que na região da Grécia se gestasse o cristianismo que, aparentemente, anunciava um novo Deus. É também este ambiente diverso e dialógico que gestou a veneração à Maria, mãe de Jesus. A metodologia a ser usada será a coleta e análise de referenciais teóricos, bem como o estudo in situ dos sítios arqueológicos de Atenas.
Neste estudo, examino as dinâmicas raciais e religiosas em igrejas brasileiras nos Estados Unidos, com foco em congregações de primeira e de segunda geração na Flórida. Por meio de observação participante ao longo de oito meses e de 50 entrevistas, analiso como ideologias raciais brasileiras e estadunidenses são negociadas e perpetuadas em espaços religiosos transnacionais. Utilizando conceitos como transcendência étnica e racismo daltônico, demonstro que, embora as igrejas promovam retóricas de inclusão multirracial, suas práticas reproduzem normas culturais associadas à branquitude de classe média estadunidense. Também mostro, por meio de dinâmicas intergeracionais, como a segunda geração constrói fronteiras simbólicas a partir de estratégias de diferenciação defensiva entre a “modernidade americana” e o “tradicionalismo brasileiro”, que reforçam hierarquias raciais e classistas entre as congregações. O estudo contribui para a compreensão das intersecções entre raça, religião e imigração brasileira na sociedade estadunidense contemporânea, oferecendo uma das primeiras análises sistemáticas da segunda geração de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos.
Embora a expressão “teologia kantiana” seja tratada por numerosos intérpretes como um oximoro, o pensamento teológico encontra lugar central no sistema kantiano. Este artigo visa a delinear os princípios e condições de legitimidade para o pensamento teológico na filosofia kantiana. Para Kant, a teologia está radicada numa necessidade moral e é irrenunciável. Compreendê-la exige reconhecer que a razão kantiana não é homogênea: ela se desdobra em dimensões teórica, prática, estético-teleológica — estrutura aqui denominada racionalidade complexa e procedimental —, cada uma com princípios e condições de legitimidade próprios. É precisamente essa estrutura plural que confere ao pensamento teológico seu lugar legítimo no sistema. Ele não emerge do uso teórico da razão, mas de sua dimensão prático-teleológica, na qual Deus funciona como postulado moralmente necessário. Conclui-se que os diferentes discursos kantianos sobre Deus não se contradizem, pois pertencem a perspectivas racionais distintas e sistematicamente complementares.
Os resultados do Censo Demográfico 2022 revelam um perfil atual e confiável da religiosidade do brasileiro. Este artigo visa contribuir para o debate, trazendo aspectos metodológicos, contextuais e análise mais detalhada de alguns resultados, assim ajudando a aprimorar nosso entendimento da religião no Brasil e a minimizar potenciais equívocos interpretativos. Entre os temas abordados, destacamos previsões não confirmadas pelos dados, como a do grande crescimento dos sem religião; o cuidado com vieses nos estudos sobre religião, como nas expectativas sobre as religiões afrobrasileiras e evangélicas; o aparente decréscimo dos espíritas; e o efeito do comprometimento religioso na adesão e permanência do crente Dessa forma, discutimos como preconceitos teóricos e vieses metodológicos podem ser identificados e minimizados, favorecendo o pluralismo teórico e o teste rigoroso das hipóteses. Além disso, a partir dos dados analisados, levantamos algumas hipóteses, que devem naturalmente ser testadas, aprimoradas ou refutadas com base em futuros estudos.