
OBJECTIVE: To investigate an outbreak of canine visceral leishmaniasis and the circulation of Leishmania in phlebotomine species in a peri-urban area in the municipality of São Paulo. METHODS: Twelve dogs were assessed for Leishmania infection and sandflies were collected using Shannon and CDC light traps. The presence of the parasite in the captured female sandflies was analyzed by molecular method. RESULTS: Of the dogs analyzed, four were seropositive both in the rapid serological test and by ELISA for Le. infantum. Among the 8,354 phlebotomines captured, Nyssomyia whitmani predominated in the area (98.2%) and DNA from Le. infantum and Le. braziliensis was detected in females of this species, indicating potential participation in the transmission cycle of the visceral leishmaniasis agent. CONCLUSION: The findings of this study demonstrate the occurrence of an outbreak of canine visceral leishmaniasis in the Perus district, in the municipality of São Paulo, characterized by the presence of dogs infected with Le. infantum and potential transmission associated with the phlebotomine Ny. whitmani. It also reinforces the importance of entomological surveillance of susceptible vectors and the integration of information in a one health approach, with a view to the early detection of potential transmission foci.
OBJETIVO: Descrever as características do ambiente construído em microescala e verificar diferenças conforme a região de moradia e variáveis sociais e demográficas entre adultos em São Paulo, Brasil. MÉTODOS: Trata-se de uma análise transversal com 1.434 adultos da coorte ISA–Atividade Física e Ambiente. As características do ambiente foram avaliadas pelo método Microscale Audit of Pedestrian Streetscapes (MAPS Global) a partir de imagens do Google Earth em rotas de 400m–700m dos endereços georreferenciados dos participantes. Para análise, foram aplicados testes U de Mann-Whitney para dois grupos independentes e Kruskal-Wallis para três ou mais grupos, seguido do pós-teste de Dunn, para verificar diferenças nos escores médios do ambiente segundo coordenadorias de saúde, sexo, idade, escolaridade e cor da pele. RESULTADOS: O entorno das residências na região Centro-Oeste apresentou os maiores escores gerais (p < 0,001). Indivíduos com maior escolaridade, autodeclarados brancos ou amarelos e com 60 anos ou mais residiam em áreas com melhores escores de estética, aspectos sociais, presença de árvores, coberturas aéreas, calçadas, cruzamentos e escore geral do ambiente (p < 0,001). Em contrapartida, pessoas com menor escolaridade e autodeclaradas pretas ou pardas viviam em áreas com piores condições de calçadas (p < 0,001). CONCLUSÃO: Conclui-se que as condições de microescala foram melhores no entorno das residências em regiões centrais e para indivíduos com maior escolaridade, pele branca ou amarela e mais velhos, ressaltando a necessidade de políticas públicas para um planejamento urbano mais equitativo e inclusivo.
OBJECTIVE: To compare two methods for assessing gestational weight gain (GWG) among overweight adult pregnant women receiving care in Primary Health Care. METHODS: This is a secondary analysis of a randomized controlled clinical trial conducted between 2018 and 2021 involving 260 overweight pregnant women receiving prenatal care at primary health care centers in the municipality of Ribeirão Preto, São Paulo. Participants were assigned to two groups: intervention (received individualized nutritional counseling— GI) or control (received only standard prenatal nutritional guidance—GC). Prenatal weight gain (PWG) was classified according to the U.S. guidelines of the National Academy of Medicine (NAM) and in accordance with Brazilian growth curve recommendations. To assess agreement between the methods, the kappa coefficient was used, and for the classification of weight gain (adequate, insufficient, or excessive), the criteria adopted by each method were used. Logistic regression models were employed to analyze the association between the groups (IG and GC) and the two methods used in the assessment of PWG. RESULTS: Moderate agreement was observed between the methods, with a pattern of disagreement indicating possible underestimation of GPG by the NAM guidelines. Pregnant women in the GI had a higher likelihood of insufficient GPG according to the Brazilian method (OR = 2.87; 95%CI 0.88–9.25) and a lower likelihood of excessive weight gain according to the US method (OR = 0.63; 95%CI 0.34–1.17), compared to women in the GC, although neither finding was statistically significant. CONCLUSION: The Brazilian curves proved to be more appropriate for classifying GPG in overweight Brazilian pregnant women, better reflecting weight monitoring during prenatal care. Their adoption may facilitate the early identification of GPG inadequacies and, consequently, contribute to improving the quality of prenatal care.
OBJETIVO: Analisar de que maneira diferentes governos subnacionais, partindo de diretrizes nacionais comuns, desenvolveram modelos próprios de regulação do acesso à atenção especializada, com distintos graus de inovação, institucionalização e integração da telessaúde. MÉTODO: Estudo descritivo e exploratório, de abordagem qualitativa, que analisa de forma comparada a implementação da regulação do acesso à atenção especializada. Dados coletados por meio de análise documental, revisão da literatura e, em alguns casos, entrevistas com atores-chave, consolidados em descrições detalhadas de cada cenário, para composição do corpus da pesquisa. Análise realizada com a aplicação do Consolidated Framework for Implementation Research (CFIR). Foram selecionadas as experiências dos municípios de Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP) e dos estados do Ceará, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e do Distrito Federal. RESULTADOS: As oito experiências brasileiras de regulação ambulatorial se caracterizam pela diversidade nos modelos organizacionais, graus de institucionalização da teleconsultoria e integração entre níveis de atenção. A adoção de tecnologias, protocolos de regulação do acesso e sistemas informatizados variou entre os locais, influenciada por fatores estruturais, normativos e contextuais. A teleconsultoria, quando integrada, qualificou os encaminhamentos e aumentou a resolutividade na atenção primária, mas sua implementação permanece desigual no território nacional. CONCLUSÃO: A implementação da regulação do acesso à atenção especializada no SUS variou conforme capacidades institucionais, organizacionais e tecnológicas. Foram identificadas fragilidades na integração entre sistemas de informação em saúde na organização e oferta da atenção especializada com desigualdades estruturais, na governança com baixa padronização de protocolos, integração limitada entre Atenção Primária à Saúde e atenção especializada e resistência profissional a mudanças. Territórios com melhores resultados integraram a teleconsultoria à regulação ambulatorial, protocolos clínicos e de acesso adotaram sistemas de informação em saúde integrados com recursos de inteligência analítica e diretrizes regulatórias institucionalizadas. O CFIR evidenciou a influência de contextos, atores e processos, reforçando a importância de diretrizes nacionais para aperfeiçoar as organizações locais.
OBJETIVO: Avaliar a disponibilidade de estabelecimentos saudáveis e não saudáveis no Brasil e, com isso, mapear desertos e pântanos alimentares. Analisar os mapas de desertos e pântanos de forma integrada a indicadores de desigualdade social. MÉTODOS: Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS, 2022), integrados aos perfis de consumo da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, 2017–2018), foram utilizados para classificar os estabelecimentos segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira. Em escala municipal, estimou-se a densidade de estabelecimentos com perfil saudável e não saudável para os municípios brasileiros. Em escala intramunicipal, foram identificados desertos e pântanos em municípios urbanos com mais de 300 mil habitantes, cruzando os resultados com indicadores de renda do Cadastro Único. RESULTADOS: Em nível municipal, observou-se que as regiões Norte e Nordeste concentram a maioria dos municípios com baixa densidade de estabelecimentos saudáveis, enquanto Sul e Sudeste apresentam maiores densidades de estabelecimentos não saudáveis. Em escala intramunicipal, cerca de 25 milhões de pessoas residem em desertos alimentares, o que corresponde a 32,3% da população dos 91 municípios analisados e, aproximadamente, 15 milhões vivem em pântanos alimentares (19% da população). Entre os indivíduos do Cadastro Único com renda per capita inferior a meio salário-mínimo, 38% vivem em desertos alimentares e 10% em pântanos. CONCLUSÃO: Os resultados evidenciam a sobreposição entre vulnerabilidade socioeconômica e ambientes alimentares adversos, reforçando a urgência de políticas públicas voltadas à regulação do ambiente alimentar, ao fortalecimento de equipamentos públicos de abastecimento e à promoção da equidade territorial no acesso a alimentos saudáveis.
OBJECTIVE: The study investigated the lifetime prevalence of intimate partner violence among women aged 20 to 69 years residing in the urban area of São Leopoldo (RS) and associated factors. METHODS: This was a population-based cross-sectional study in which 1,113 women were interviewed. The outcome was self-reported lifetime intimate partner violence, and sociodemographic, physical and mental health, and behavioral variables were assessed. A stratified analysis by age group was performed. RESULTS: The prevalence of intimate partner violence in the sample was 17.9% (95%CI 15.6–20.1). In the adjusted analysis, the outcome was associated with lower socioeconomic status, a history of sexually transmitted infections, and the presence of common mental disorders. In the stratified analysis, women aged 20–39 years had a 13.7% (95%CI 10.5–16.8) lifetime prevalence of intimate partner violence, with nearly three times the likelihood among those with common mental disorders. Among women aged 40 years or older, the prevalence was 20.7% (95%CI 17.6–23.8), with those in the lowest socioeconomic class, who were single, divorced, or widowed, who self-reported sexually transmitted infections, and who had common mental disorders being more likely to experience the outcome. Secondary intersectional analyses revealed a higher prevalence of intimate partner violence among Black or Brown women with low educational attainment (PR = 1.67; 95%CI 1.14–2.45) and White women with low educational attainment (PR = 1.58; 95%CI 1.14–2.19), compared to white women with higher educational attainment. CONCLUSIONS: The study demonstrated a high lifetime prevalence of intimate partner violence, reinforcing the need for public policies that improve women’s socioeconomic conditions, as well as integrated gender-based violence prevention programs that incorporate mental health care in the support provided to victims.
OBJETIVO: Propor o framework Health Research Standard Process for Artificial Intelligence, adaptado da abordagem Cross-Industry Standard Process for Data Mining e aplicá-lo por meio de técnicas de séries temporais e inteligência artificial na análise dos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação sobre violência contra mulheres em São Paulo, explorando dimensões sociodemográficas, espaciais e preditivas. MÉTODOS: A metodologia foi adaptada às pesquisas em saúde, substituindo a etapa original do Business Understanding por Research Understanding ao incorporar elementos técnico-científicos essenciais. Foram analisadas 80.148 notificações de violência contra mulheres entre 20 e 59 anos, residentes no município de São Paulo, no período de 2013 a 2023. As análises incluíram estatísticas descritivas, cálculo de razões de prevalência, decomposição e modelagem preditiva de séries temporais capturando tendências e sazonalidade, e análise geoespacial das notificações. RESULTADOS: Observou-se padrões temporais e características sociodemográficas das vítimas, com tendências crescentes nas notificações de violência física, psicológica e sexual após 2015 e comportamento sazonal. Entre as associações, identificou-se aumento de 32% na prevalência de violência sexual quando o agressor estava sob efeito de álcool e risco 2,47 vezes maior de violência sexual entre gestantes. A distribuição geoespacial revelou concentrações de notificações em áreas periféricas do município, como a zona sul, leste e central. A modelagem preditiva indicou que a tendência de aumento persistirá nos próximos 24 meses, com estimativas de taxas alcançando até 12 casos por 100.000 habitantes. CONCLUSÃO: A aplicabilidade do Health Research Standard Process for Artificial Intelligence foi eficaz como modelo para análises de dados e desenvolvimento de algoritmos preditivos em saúde pública. Foi possível propor uma matriz metodológica replicável para futuras pesquisas e intervenções baseadas em evidências.
OBJECTIVE: To describe the patterns of medication use among individuals with Covid-19 to treat the disease in Brazil, according to area of residence, demographic and socioeconomic characteristics, religion, and level of trust in scientists. METHODS: Epicovid 2.0 National Survey (2024) in 133 municipalities. The analysis included participants who reported having had an episode of Covid-19. The use of antibiotics, azithromycin, antipyretics, chloroquine, and ivermectin was assessed, in addition to the composite outcomes: use of chloroquine and/or ivermectin; chloroquine, ivermectin, and/or azithromycin (CIA); and use of any medication. The frequency of use and 95% confidence intervals were estimated, considering the complex sampling design and sample weighting RESULTS: The frequency of use of any medication to treat Covid-19 was 63.0% (95%CI 60.0–65.9). Antipyretics were the most commonly used (53.7%), followed by antibiotics (36.2%) and azithromycin (27.2%). The isolated use of ivermectin was reported by 23.6% and that of chloroquine by 12.1%; the use of ivermectin and/or chloroquine reached 27.8% and that of CIA, 39.0%. Overall, medication use was more frequent in the North, Northeast, and Central-West regions and among women. Use was concentrated among adults aged 40–59, people with low educational attainment, and those with lower incomes. Self-identified black and brown individuals reported higher use of chloroquine. Use of chloroquine, ivermectin, and combinations of these medications was more common among evangelicals (0.05 < p < 0.1) and among people who consulted doctors (p < 0.001). Participants who reported distrusting scientists reported higher use of chloroquine and chloroquine/ivermectin compared to those who reported trusting scientists. CONCLUSION: Four out of ten people who reported episodes of Covid-19 consumed medications not recommended by science to treat the disease. Medication use tended to be more frequent among women, in the northern half of Brazil, among evangelicals, and among people with lower income and education levels. These groups should be prioritized in future campaigns on the appropriate use of medications.
A hesitação vacinal é um desafio global à saúde pública e suas características mudam conforme o contexto social e epidemiológico. Neste comentário, busca-se estimular o debate sobre o caráter dinâmico da definição e dos determinantes da hesitação vacinal, especialmente após a pandemia de covid-19 e com o aumento do acesso da população a novas formas de busca de informação, como a inteligência artificial. A produção científica sobre a hesitação vacinal infantil no Brasil antes de 2016 era focada em famílias de alta renda. Após 2016, houve aumento da produção sobre a hesitação vacinal, considerando o modelo de determinantes da Organização Mundial da Saúde de 2014. Após o início da pandemia, destaca-se o aumento expressivo de estudos sobre desinformação e politização da vacina. Atualmente, põem-se em reflexão o uso da inteligência artificial generativa, cada vez mais frequente na busca de informações sobre vacinas.
OBJECTIVE:To describe the patterns of medication use among individuals with Covid-19 to treat the disease in Brazil, according to area of residence, demographic and socioeconomic characteristics, religion, and level of trust in scientists. METHODS:Epicovid 2.0 National Survey (2024) in 133 municipalities. The analysis included participants who reported having had an episode of Covid-19. The use of antibiotics, azithromycin, antipyretics, chloroquine, and ivermectin was assessed, in addition to the composite outcomes: use of chloroquine and/or ivermectin; chloroquine, ivermectin, and/or azithromycin (CIA); and use of any medication. The frequency of use and 95% confidence intervals were estimated, considering the complex sampling design and sample weighting. RESULTS:The frequency of use of any medication to treat Covid-19 was 63.0% (95%CI 60.0-65.9). Antipyretics were the most commonly used (53.7%), followed by antibiotics (36.2%) and azithromycin (27.2%). The isolated use of ivermectin was reported by 23.6% and that of chloroquine by 12.1%; the use of ivermectin and/or chloroquine reached 27.8% and that of CIA, 39.0%. Overall, medication use was more frequent in the North, Northeast, and Central-West regions and among women. Use was concentrated among adults aged 40-59, people with low educational attainment, and those with lower incomes. Self-identified black and brown individuals reported higher use of chloroquine. Use of chloroquine, ivermectin, and combinations of these medications was more common among evangelicals (0.05 < p < 0.1) and among people who consulted doctors (p < 0.001). Participants who reported distrusting scientists reported higher use of chloroquine and chloroquine/ivermectin compared to those who reported trusting scientists. CONCLUSION:Four out of ten people who reported episodes of Covid-19 consumed medications not recommended by science to treat the disease. Medication use tended to be more frequent among women, in the northern half of Brazil, among evangelicals, and among people with lower income and education levels. These groups should be prioritized in future campaigns on the appropriate use of medications.
OBJETIVO: Descrever o perfil socioeconômico e de atuação dos ambulantes, bem como o perfil de comercialização de alimentos, segundo o processamento industrial, no entorno de escolas privadas nas capitais brasileiras. MÉTODOS: Estudo transversal com ambulantes no entorno imediato de uma amostra probabilística nacional de escolas privadas brasileiras. Foram incluídas escolas de ensino fundamental e/ou médio, participantes do Estudo Comercialização de Alimentos em Escolas Brasileiras. Aplicou-se questionário previamente validado para caracterizar trabalhador, infraestrutura e disponibilidade de alimentos. Os alimentos foram classificados segundo o sistema NOVA. Comparações entre macrorregiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) e portes de ponto de venda (menor: 1–3 itens; intermediário: 4–13 itens; maior: ≥ 14 itens) foram avaliadas pelo teste de Kruskal–Wallis. RESULTADOS: Foi mapeado o comércio informal de alimentos e bebidas no entorno imediato de 2.180 escolas privadas, totalizando 699 ambulantes. Predominaram homens (57,8%), pessoas negras (68,8%), com ensino médio completo (35,8%) e que subsistiam da informalidade (91,4%), em carrinhos e barracas, por falta de oportunidade no mercado formal (52,5%). A mediana de itens ultraprocessados superou em cerca de duas vezes a de alimentos in natura, minimamente processados ou processados e preparações baseadas neles (2,17; IC95% 1,90–2,45). Pontos comerciais de porte maior concentraram mais ultraprocessados em todas as regiões, exceto no Nordeste, onde essa predominância já ocorria no porte intermediário (3,32; IC95% 2,88–3,75). A menor razão de ultraprocessados foi observada no Sul (0,21; IC95% 0,05–0,37) e a maior, no Nordeste (3,32; IC95% 2,88–3,75). CONCLUSÃO: O comércio ambulante no entorno de escolas privadas brasileiras reflete desigualdades estruturais e expande-se comercialmente na oferta de ultraprocessados para crianças e adolescentes. Recomenda-se sua inclusão como componente indissociável na avaliação do ambiente alimentar escolar, para subsidiar políticas que conciliam geração de renda e promoção da alimentação saudável.
OBJETIVO: Investigar os fatores associados à capacidade autorreferida de cumprimento do isolamento domiciliar após o diagnóstico de Covid-19 em comunidades vulnerabilizadas de duas cidades brasileiras. MÉTODOS: Estudo de corte transversal com dados de um estudo de implementação de uma intervenção baseada em estratégias de testagem, isolamento, quarentena e telemonitoramento (TQT) para Covid-19 na Atenção Primária à Saúde em bairros vulnerabilizados (Estudo TQT Covid-19). Foram utilizados dados demográficos, socioeconômicos e comportamentais para realizar análises descritivas e de regressão logística, visando avaliar os fatores associados à capacidade de isolamento domiciliar. RESULTADOS: A amostra foi composta por 324 participantes, sendo a maioria do sexo feminino (72,5%) e autodeclarada preta ou parda (85,2%). Em relação à escolaridade, 20,1% possuíam até o ensino fundamental; 42%, ensino médio; e 37,9%, ensino superior ou pós-graduação. A densidade de pessoas por cômodo foi alta em 57,1% dos domicílios. Na análise multivariada, a alta densidade domiciliar (≥ 0,5 moradores/cômodo) esteve significativamente associada a menor capacidade de isolamento (ORa = 0,41; IC95% 0,20–0,82). As demais variáveis sociodemográficas e comportamentais, incluindo idade, sexo, raça/cor, escolaridade, histórico de infecção por Covid-19, acesso aos serviços de saúde e comportamentos preventivos, não apresentaram associação estatisticamente significativa. CONCLUSÃO: O estudo indica que condições habitacionais, especialmente a alta densidade domiciliar, podem ser um determinante para a adesão ao isolamento domiciliar. Assim, estratégias inovadoras de prevenção devem combinar ações educativas e estruturais que considerem o contexto domiciliar de famílias em situação de vulnerabilidade.
OBJETIVO: Descrever a prevalência da adoção de comportamentos preventivos à Covid-19 e avaliar os fatores associados entre usuários de unidades de saúde em Salvador e no Rio de Janeiro. MÉTODOS: Estudo transversal, realizado entre julho de 2022 e julho de 2023. A adoção de comportamentos preventivos foi avaliada com base em oito comportamentos, agrupados nos desfechos: distanciamento social; etiqueta respiratória; barreira por máscara; higienização das mãos; características sociodemográficas, habitacionais, estruturais e percepções individuais. Todas as análises foram estratificadas pelo sítio do estudo. Análises bivariadas e múltiplas foram feitas por regressão de Poisson com variância robusta. RESULTADOS: Foram avaliados 5.476 participantes de Salvador e 1.940 do Rio de Janeiro. Os comportamentos preventivos mais prevalentes foram a etiqueta respiratória (82,7 e 84,3%) e a higienização das mãos (84,9 e 79,1%), respectivamente. Em Salvador, a idade permaneceu associada a todos os comportamentos avaliados. No Rio de Janeiro, a adoção dos comportamentos preventivos aumentou entre os que utilizaram o reforço da vacina de Covid-19. Em ambas as cidades, indivíduos com idades entre 40 e 59, com 60 anos ou mais e aqueles que não trabalhavam apresentaram maior adesão ao distanciamento social. A prática da etiqueta respiratória foi mais prevalente entre mulheres, pessoas com ensino médio e que receberam reforço vacinal para Covid-19. O uso de máscara e a higienização das mãos estiveram associados ao sexo feminino, à maior idade e ao reforço vacinal nas duas localidades. O uso de máscara também foi mais frequente entre os que se vacinaram contra influenza, enquanto a higienização das mãos mostrou associação com maior escolaridade. CONCLUSÕES: Esses achados reforçam a importância de políticas públicas que influenciem na manutenção dos comportamentos preventivos e na sensibilização da prevenção de novas epidemias, especialmente entre homens, pessoas mais jovens, com menor escolaridade e que não utilizam as vacinas oferecidas ou as suas doses de reforço.
OBJETIVO: Analisar percepções de profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) sobre a testagem para Covid-19 em Unidades Básicas de Saúde (UBS). MÉTODOS: Estudo qualitativo, integrante de pesquisa formativa, envolvendo 22 entrevistas semiestruturadas e 4 grupos focais com profissionais que atuavam na APS de uma capital brasileira. Selecionou-se, entre outros critérios, o profissional de cada UBS mais diretamente envolvido com ações de enfrentamento à pandemia. Foi realizada análise de conteúdo com abordagem analítica dedutiva em que os achados foram organizados em categorias definidas com base nos componentes do sistema de saúde (população; infraestrutura; organização dos serviços; prestação dos serviços ou modelo de atenção; gestão). RESULTADOS: Relatos comumente referiram, no componente população, os desafios procedentes dos limites de cobertura da APS; na infraestrutura, destacou-se a insuficiência de recursos humanos e infraestrutura física que, por sua vez, exigiram mudanças na organização e na prestação de serviços, com reflexos no modelo de atenção. As contribuições revelaram, ainda, que em alguns momentos da pandemia houve descaracterização do processo de trabalho, especialmente nas equipes de saúde da família. Pouco identificado, no componente gestão foram apontadas fragilidades nos fluxos de comunicação entre secretaria de saúde e UBS. CONCLUSÃO: Constatou-se a percepção de que a ampliação e capilarização dos testes nas UBS eram necessárias. Os achados apontam para a importância da coordenação da pandemia e descentralização efetiva das ações adotadas, de planos de preparo e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e dos seus profissionais, bem como investimentos em infraestrutura e capacitação das equipes e avanços nas ações voltadas à saúde do trabalhador. A pandemia desvelou a importância de avançar no complexo econômico-industrial da saúde e, fundamentalmente, fortalecer e defender o Sistema Único de Saúde brasileiro.
OBJECTIVE: To identify factors associated with the acceptability of Covid-19 self-testing among socioeconomically vulnerable populations. METHODS: Cross-sectional study using data from the “TQT Covid-19” project, which involved users from 19 primary health care (PHC) units located in socioeconomically vulnerable areas in Salvador (BA) and Rio de Janeiro (RJ), Brazil. Data were collected between July 2022 and July 2023. Descriptive analysis of Covid-19 self-test acceptability was performed, and logistic regression models were used to estimate factors associated with acceptability, with respective 95% confidence intervals (95%CI). RESULTS: Among 7,939 study participants, 45.8% (95%CI 44.75–46.95) reported willingness to use a Covid-19 self-test. In the analysis of associated factors, regarding sociodemographic profile, non-Black individuals (ORa = 1.17; 95%CI 1.02–1.34), cisgender men (ORa = 1.23; 95%CI 1.12–1.37), and participants with higher educational levels (ORa = 1.60; 95%CI 1.43–1.79) were more likely to accept the self-test. Those with prior knowledge of the self-test (ORa = 2.33; 95%CI 2.11–2.58) and those previously diagnosed with Covid-19 (ORa = 1.17; 95%CI 1.05–1.28) also reported higher acceptance. CONCLUSIONS: Provision of Covid-19 self-testing should be considered as a complement to testing within the public health system, especially due to its acceptance among vulnerable populations and the difficulties in accessing testing in many Brazilian regions. During periods of increased Covid-19 incidence, self-testing may serve as an important strategy for mass case detection, provided that access and knowledge are expanded so communities can play an active role in SARS-CoV-2 epidemiological surveillance.
OBJECTIVE: To explore the perception of Health Professionals (HP) who worked in Primary Health Care (PHC) between 2020 and 2022, in the Manguinhos neighborhood of Rio de Janeiro, regarding the risk and protective factors for their mental health during the management of the COVID-19 pandemic. METHODS: This is a qualitative study integrated into a broader investigation on testing strategies, quarantine, digital health, and telemonitoring in areas of high socioeconomic vulnerability in Brazil. Three focus groups were conducted with community health agents and ten semistructured interviews with higher education professionals. The data were collected between November 2022 and March 2023. The analysis was conducted based on the psychodynamics of work, and the procedures followed the content analysis technique. RESULTS: The study identified several factors that contributed to high levels of stress and anxiety among health professionals who worked in family health units during the COVID-19 pandemic. The main reported factor was the constant fear of death. Additionally, work overload, lack of adequate Personal Protective Equipment (PPE), feelings of decision-making incapacity, and absence of mental health support exacerbated the impact on the professionals' health. Among community health agents, the perception of exclusion concerning the HP category was particularly noted. CONCLUSION: The COVID-19 pandemic revealed the urgent need to prioritize the mental health of health professionals from the onset of any health crisis. Preparing for future emergencies requires proactive actions, such as equitable distribution of workload, adequate provision of PPE, and free and accessible access to specialized mental health treatment for health professionals.
OBJECTIVE: To analyze the work process of Primary Health Care professionals regarding care practices aimed at users with hypertension and diabetes during the Covid-19 pandemic in a capital in Northeastern Brazil. METHODS: 35 semi-structured interviews were conducted with professionals who provided care and followed up this subpopulation in Primary Health Care, in addition to analyzing municipal documents and news reports from the Municipal Department of Health about Covid-19 and Primary Health Care. The study criteria were Primary Health Care workers who acted in the Covid-19 pandemic in the same Primary Health Care unit. Data were analyzed according to the health work process reference of Mendes-Gonçalves. RESULTS: The pandemic has imposed significant changes in Primary Health Care practices. We observed priority of spontaneous demand, weaknesses in continuous monitoring of users, emphasis on prescriptions renewal, and work in vast territories, with unattended areas, by the Family Health Strategy. CONCLUSIONS: Health practices aimed at users with chronic conditions, such as hypertension and diabetes, remain fragmented and should be resumed, but based on equity, with planning, monitoring, and knowledge of their territory in such a way to provide comprehensive and problem-solving access to the population that remains “isolated,” even with the end of the pandemic.