
A obstetrícia ocupa posição singular na formação médica por articular ciência biomédibrca, tomada de decisão em cenários dinâmicos e conflitos éticos de elevada complexidade. No contexto brasileiro, marcado por desigualdades regionais, expansão acelerada de escolas médicas e transformação do perfil discente, repensar o ensino obstétrico na graduação médica torna-se imperativo. Este ensaio analisa, de forma crítica, as dimensões estruturantes do ensino de obstetrícia, organizadas em quatro eixos: o que ensinar, como ensinar, onde ensinar e como avaliar. Discute-se a necessidade de estruturar o currículo a partir de uma matriz baseada em conhecimentos, habilidades e atitudes, articulando currículo mínimo, oculto e estendido. São exploradas estratégias metodológicas integradas, incluindo metodologias ativas, simulação realística e inserção longitudinal nos serviços de saúde, bem como a diversidade de cenários pedagógicos, desde sala de aula e cine-debate até laboratórios e centros assistenciais. Propõe-se avaliação multidimensional, combinando instrumentos cognitivos, observação estruturada do desempenho clínico e análise reflexiva de atitudes éticas. A qualidade da formação obstétrica na graduação relaciona-se com a assistência à saúde reprodutiva no ciclo gravídico-puerperal e com os indicadores perinatais, constituindo elemento importante na promoção do nascimento seguro e respeitoso.
Eu também não poderia deixar de falar algumas palavras sobre o Acadêmico e meu Professor Omar. Tive o privilégio de ser seu aluno na 7ª Enfermaria do Hospital Univer-sitário Gaffré e Guinle, isso há 40 anos e, desde então, nos relacionamos.
Querida Otília, Andréia, querido Omar Lupi, desde os bancos da UERJ, netos de Omar... Não posso deixar de falar dois minutos sobre esse querido amigo. Conheci o Profes-sor Omar da Rosa Santos no Hospital do An-daraí, há mais de trinta e cinco anos, quando fui fazer uma palestra em um Simpósio de Urologia. Ele muito me impressionou: era um médico que não parava de perguntar e que conhecia profundamente o assunto que estava sendo discutido. Aproximamo-nos, desde então.
Trago à família Rosa-Santos o maior pesar pela perda do saudoso convívio com o patriarca – Omar da Rosa Santos, que a todos mostrou o melhor caminho e ofereceu permanente proteção. Faço isso em nome da Direção e dos professores da Escola de Medi-cina e Cirurgia do Rio de Janeiro (EMCRJ) e também do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), seus médicos, corpo de enfermagem e funcionários técnico-admi-nistrativos.
As mudanças climáticas configuram-se como uma ameaça inequívoca à saúde, ao meio ambrbiente e à sustentabilidade do planeta, sendo apontadas como o maior desafio global do século XXI. O Brasil, detentor da maior biodiversidade do mundo e de vastos recursos naturais estratégicos, ocupa papel singular nesse cenário. Seus biomas, em especial a Amazônia, e sua atuação na Antártica colocam o país como ator-chave tanto para a mitigação quanto para a adaptação aos efeitos da crise climática.
A minha vida e a de Omar tiveram, em algumas etapas, um certo grau de paralelis-mo. Omar morava no Grajaú, numa época em que o bairro ainda não tinha prédios, apenas casas, em um ambiente tranquilo e sereno. Ele morava na Rua Botucatu e, como gostava muito dos termos tupi-guarani, di-zia que Botucatu significava “bom clima”. Eu brincava com ele, dizendo que, então, ele morava em “Buenos Aires”. Depois, ele frequentou o colégio das freiras, onde fez o jardim de infância — assim como eu. Em se-guida, foi para o Externato São José, onde eu já estava um ano antes. Seguimos caminhos semelhantes até a faculdade de Medicina, ingressando em instituições federais: ele na Unirio e eu na Praia Vermelha. A vida se-guiu, ele se tornou um dos grandes nefrolo-gistas do Rio de Janeiro, e eu, trocando o “F” pelo “U”, segui na Neurologia. Anos depois, quando me candidatei a esta Casa, procurei o Omar, e ele me disse algo que nunca mais esqueci: “Conte comigo”. A partir daí, passei a conviver com ele em diversas situações.
Boa tarde a todos. Eu gostaria de iniciar saudando a família do saudoso Acadêmico Omar da Rosa Santos: dona Otília, seus fi-lhos Omar Lupi, Otília Helena e Olímpia Maria. É um grande prazer estar aqui na Academia juntamente com Andréia Mateus, Marcos Pitombo e Carlos Coelho, marido de Olímpia, que não está presente.
Eu gostaria de falar um pouco sobre o quão importante foi o convívio que tive com o Professor Omar ao longo desses últimos cinquenta anos. Meu pai era médico da Força Aérea Brasileira e, muito antes de eu ingressar na faculdade de Medicina, já me falava de um colega nefrologista que havia estagiado com ele no Hospital Central da Aeronáutica. Ele era chefe da clínica médica e sempre desta-cava a importância do Omar, assim como de outro colega aqui presente, Henrique Mu-rad, que trabalhavam com ele.
A elevação da temperatura ambiental, intensificada pelas mudanças climáticas globais e pela urbanização acelerada, constitui hoje um dos determinantes ambientais mais relevantes da saúde humana. Este trabalho apresenta uma análise abrangente dos mecanismos biológicos, fisiológicos e fisiopatológicos envolvidos na exposição ao calor, articulando evidências da fisiologia da termorregulação, da epidemiologia ambiental e da prática clínica. São discutidos as bases evolutivas da adaptação humana à temperatura, os sistemas integrados de controle térmico e os limites da homeostase frente a exposições térmicas extremas ou persistentes.
Muitas vezes ouvi dizer que querer bem ao Professor Omar, o Acadêmico Omar da Rosa Santos, era uma unanimidade na ANM, e ouso afirmar, sem hesitação, que tal unani-midade não se construiu por interesse ou con-veniência, mas por virtude. Havia nele algo que naturalmente atraía, unia e elevava. Não era apenas o médico respeitado, o acadêmico brilhante ou o mestre admirado; era, sobretu-do, uma pessoa excepcionalmente boa.
Este artigo apresenta uma análise comparativa dos métodos de avaliação da memória episódica em humanos e episódica-like em modelos experimentais (camundongos C57BL/6), abordando aspectos conceituais, metodológicos e os desafios da pesquisa translacional. A memória de reconhecimento é definida como a capacidade de discriminar estímulos previamente experienciados de situações novas, constituindo um subtipo da memória episódica. Sua avaliação é fundamental, uma vez que alterações mnemônicas configuram importantes marcadores de rastreio em doenças neurodegenerativas, como a doença de Este artigo apresenta uma análise comparativa dos métodos de avaliação da memória episódica em humanos e episódica-like em modelos experimentais (camundongos C57BL/6), abordando aspectos conceituais, metodológicos e os desafios da pesquisa translacional. A memória de reconhecimento é definida como a capacidade de discriminar estímulos previamente experienciados de situações novas, constituindo um subtipo da memória episódica. Sua avaliação é fundamental, uma vez que alterações mnemônicas configuram importantes marcadores de rastreio em doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, além de se manifestarem como sequelas persistentes em agravos infecciosos que afetam o sistema nervoso central. Trata-se de uma visão geral da literatura que descreve, em humanos, testes neuropsicológicos como o teste de aprendizagem auditivo-verbal de Rey, o teste da figura complexa de Rey e o teste de memória de reconhecimento, destacando suas especificidades na avaliação da memória verbal e não verbal, além da influência de fatores sociodemográficos. Em modelos murinos, são descritos os protocolos de reconhecimento de objetos, localização de objetos e reconhecimento de ordem temporal, baseados na tendência natural à exploração da novidade. A análise evidencia que, enquanto os métodos aplicados em humanos oferecem maior relevância clínica, os modelos murinos se destacam pela simplicidade, reprodutibilidade e possibilidade de manipulação experimental. Conclui-se que, embora o modelo murino represente uma ferramenta valiosa devido à similaridade neuroanatômica entre mamíferos, o desafio translacional exige controle metodológico rigoroso e a integração com abordagens complementares, como estudos moleculares, farmacológicos e de neuroimagem, a fim de ampliar a aplicabilidade dos achados à prática clínica.
Eu diria que um dos mais importantes Acadêmicos desta casa, sem sombra de dúvida, foi o professor Omar da Rosa Santos, que cumpriu à risca a primeira necessidade desta casa: que ela seja frequentada, protegida e amada. Se pensarmos rapidamente, entre alguns, certamente o Professor Omar foi um destaque nesses quesitos.
A perda de um amigo sempre gera uma tristeza profunda, e não poderia ser diferen-te quando Omar partiu... Leva-nos sempre a rememorar passagens, momentos que compartilhamos. Eu guardo, particular-mente, na saudosa memória, sua recepção, quando da minha posse na Academia Na-cional de Medicina, em 2007. Sua cultura e erudição, sobretudo da língua portuguesa, eram conhecidas de todos nós. A sua oração de boas vindas começa com o sub-titulo: Protegônemos ! E nela encontro a frase... “tenho hoje a honra de agregar a recepção de Miguel Carlos Riella, pura gentileza da sim-patia, pois a estima ocupa no coração humano espaço mais que aquele dedicado à justiça”. Lindo!
A neuroinflamação tem sido reconhecida como um eixo central na fisiopatologia do envelhecimento cerebral e das doenças neurodegenerativas. O envelhecimento populacional, associado à elevada prevalência de doenças cardiometabólicas, tem contribuído para o aumento expressivo das demências, incluindo a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson. Evidências experimentais e humanas demonstram que a neuroinflamação crônica de baixo grau, caracterizada pela ativação persistente da micróglia e pela reatividade dos astrócitos, desempenha papel determinante na disfunção sináptica, na perda de plasticidade neural, na reorganização patológica dos circuitos neuronais e no declínio cognitivo progressivo. Em nível molecular, a liberação sustentada de citocinas pró-inflamatórias, o estresse oxidativo, a disfunção mitocondrial e a ativação de vias inflamatórias intracelulares estabelecem um ciclo autoperpetuante de inflamação e vulnerabilidade neuronal. Do ponto de vista funcional, esses processos afetam preferencialmente regiões com alta demanda metabólica e plasticidade, como o hipocampo e o córtex pré-frontal, resultando em déficits de memória, atenção, funções executivas e cognição social. Apesar das diferenças clínicas e anatômicas entre as doenças neurodegenerativas, a neuroinflamação emerge como um mecanismo convergente em condições como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson, a esclerose lateral amiotrófica e a esclerose múltipla. Nesse contexto, estratégias terapêuticas voltadas à modulação da inflamação cerebral têm ganhado destaque. Agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 e ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) apresentam potencial neuroprotetor ao modularem a ativação glial, reduzirem citocinas pró-inflamatórias e estresse oxidativo, e preservarem a função mitocondrial e a plasticidade sináptica. Entretanto, limitações translacionais ainda impõem desafios à ampla aplicação clínica.
A medicina contemporânea atravessa momento singular. O conhecimento biomédico cresce em velocidade inédita, enquanto os desafios que afetam a saúde humana tornam-se complexos e interdependentes. Formar profissionais qualificados, produzir ciência de qualidade e compreender os determinantes ambientais e sociais da saúde constituem dimensões inseparáveis de um mesmo esforço científico. Os trabalhos deste número dos Anais da Academia Nacional de Medicina refletem essa convergência ao abordar a formação médica, a investigação translacional e os impactos das mudanças ambientais sobre a saúde humana.
Minha vida profissional sempre esteve perto da do Professor Omar da Rosa Santos, um grande e dileto amigo. Nosso primeiro contato foi na Maternidade Clara Basbaum, quando eu estava no quarto ano da Faculda-de de Medicina e Omar era recém formado. Ele me ensinou a fazer partos e acho que me ensinou muito bem... Posteriormente, servimos juntos na Ae-ronáutica, como médicos militares tempo-rários, os R2. Passamos três meses na base aérea do Galeão numa adaptação à vida mili-tar. O grande problema do Omar, nessa épo-ca, era marchar na cadência esquerda-direi-ta-esquerda-direita. O comandante da Base resolveu esse problema nos colocando para treinar marcha dentro de um hangar fechado para não dar mau exemplo aos soldados...
Tomo a liberdade de dizer que a sauda-de é o único paraíso do qual não podemos ser removidos e, portanto, neste momento, estou invadido de imensa saudade. Ao querido amigo, eminente mestre, professor - como já foi dito - de carreira lu-minosa, lembrada pelo acadêmico Basílio. Eu relembro, minha cara Otília, quando ia à sua casa e você nos recebia, junto com suas belas filhas, proporcionando-nos grande alegria e, por que não dizer, também com quitutes maravilhosos. Além disso, lembro, meu caro Omar Lupi, que em frente à casa de Omar e Otília morava o professor José Maria Bar-cellos, que também fazia parte desta Casa. Eu, então, aproveitava para cumprimentá-lo.
A Bacia Amazônica abriga o maior sistema de água doce do planeta e sustenta uma extraordinária diversidade de peixes que constitui a principal fonte de proteína e micronutrientes para milhões de pessoas. Em comunidades indígenas e ribeirinhas, o consumo de pescado pode ultrapassar 160 kg per capita por ano, evidenciando a profunda dependência nutricional e cultural dos ecossistemas aquáticos. Esta revisão narrativa sintetiza evidências recentes sobre como mudanças ambientais, especialmente mudanças climáticas e poluição, estão afetando a ictiofauna amazônica e, consequentemente, a segurança alimentar regional.
As mudanças climáticas configuram uma ameaça imediata e crescente à saúde global, comsendo descritas como o maior desafio sanitário do século XXI. Seus impactos abrangem desde ondas de calor, desastres ambientais e insegurança hídrica e alimentar até a intensificação de doenças infecciosas e não transmissíveis. Estima-se que mais de 3,6 bilhões de pessoas vivam em condições de alta vulnerabilidade climática, especialmente em países de baixa e média renda, perpetuando desigualdades históricas.
No Brasil a grande maioria dos médicos decide pela carreira assistencial após a graduação. Estima-se que, em 2024, o número de médicos atuando em território nacional sem especialização (pós-graduação lato sensu) girava em torno de 350.000, o que representava, então, 60,7% do total de médicos. Um número ainda menor opta pela carreira acadêmica, na qual é necessária uma pós-graduação stricto sensu para o desenvolvimento e evolução profissionais e a capacitação para realizar pesquisas e ministrar aulas estando envolvido no processo de produção de conhecimento. Vários aspectos podem justificar essa realidade, que vai desde a urgência econômica e financeira do médico até o funil dos concursos de seleção para as pós-graduações (lato sensu ou stricto sensu). Porém, algumas características da carreira acadêmica merecem ser ressaltadas e divulgadas pelos docentes para atrair os jovens médicos nessa direção e fortalecer o desenvolvimento médico-científico brasileiro.