
Resumo Este artigo investiga a qualidade da democracia brasileira, focalizando o Sistema de Integridade como dimensão crucial para monitorar e controlar abusos de poder. Analisa as percepções dos atores desse sistema sobre os mecanismos de fiscalização e controle da corrupção e destaca a Operação Lava Jato como um ponto de inflexão. Metodologicamente, utiliza entrevistas e o Método Q para explorar as visões dos participantes, propondo tipos-ideais para futuras análises. O estudo aprofunda o entendimento sobre como esses atores e suas ações impactam a percepção da democracia no Brasil.
Abstract This is an interview with Jessé Souza addressing key aspects of his intellectual trajectory and his interpretation of Brazilian society. Throughout the conversation, he discusses his academic formation, shaped by his engagement with German social theory and the reflexive sociology of Pierre Bourdieu, as well as the paths that led him to formulate a critique of economicist interpretations of inequality in Brazil. The interview highlights his emphasis on the moral and cultural dimensions of social hierarchies. By situating his work within the disputes of the intellectual field, the dialogue offers a reflection on the public role of sociology and on the contemporary challenges of interpreting social inequality in the country.
Resumo Trata-se de uma entrevista com Jessé Souza, na qual são abordados aspectos centrais de sua trajetória intelectual e de sua interpretação da sociedade brasileira. Ao longo da conversa, o autor discute sua formação acadêmica, marcada pelo contato com a teoria social alemã e com a sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu, bem como os caminhos que o levaram à formulação de uma crítica às leituras economicistas da desigualdade no Brasil. A entrevista destaca sua ênfase nas dimensões morais e culturais das hierarquias sociais. Ao situar sua produção no interior das disputas do campo intelectual, o diálogo oferece uma reflexão sobre o papel público da sociologia e sobre os desafios contemporâneos da interpretação da desigualdade social no país.
Abstract In this text, we examine how neoliberalism and digitalization have transformed science in the post-pandemic context. We argue that a 'neoliberal regime of science' has emerged that transforms researchers into 'self-entrepreneurs,' constantly monitoring individual metrics such as h-index and impact factors, abandoning the communal character of research. The platformization of science, reinforced by the 'open science' movement, paradoxically contributes to epistemic fragmentation and the intensification of preprint publication, undermining the traditional order of peer-reviewed scientific communication. The growing use of altmetrics and automated systems subordinates the evaluation of knowledge to the imperatives of the digital market, aggravating global inequalities by favoring hegemonic centers and rendering the science of the Global South invisible. We conclude that the democratization of science cannot be reduced to the technical openness of data, but requires broad reflection on models of scientific development through genuinely democratic mechanisms.
Resumo Examinamos neste texto como, no contexto pós-pandêmico, o neoliberalismo e a digitalização transformaram a ciência. Argumentamos que emergiu um "regime neoliberal da ciência" que transforma pesquisadores em "empreendedores de si", constantemente monitorando métricas individuais como índice h e fatores de impacto, abandonando o caráter comunal da pesquisa. A *plataformização* da ciência, reforçada pelo movimento de "ciência aberta" paradoxalmente contribui para a fragmentação epistêmica, a intensificação da publicação de *preprints*, minando a ordem tradicional de comunicação científica baseada na revisão por pares. O uso crescente de *altmetrics* e sistemas automatizados subordina a avaliação do conhecimento aos imperativos do mercado digital, agravando desigualdades globais ao favorecer centros hegemônicos e invisibilizar a ciência do Sul Global. Concluímos que a democratização da ciência não pode ser reduzida à abertura técnica de dados, mas requer reflexão ampla sobre modelos de desenvolvimento científico através de mecanismos genuinamente democráticos.
Resumen La digitalización sanitaria ha transformado la relación entre la ciudadanía y los servicios de salud, generando nuevas oportunidades de acceso, pero también el riesgo de reproducir desigualdades derivadas de la brecha digital. Este estudio analiza cómo distintos factores sociodemográficos influyen en la exclusión digital en el ámbito sanitario español. Para ello, se emplean los datos de los Barómetros Sanitarios de 2024 del Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS). En primer lugar, se elabora un perfil descriptivo del uso y conocimiento de la eSalud según variables sociodemográficas. Posteriormente, mediante los estadísticos Chi-cuadrado y V de Cramer, se analizan las relaciones de asociación y su intensidad. Los resultados muestran que la digitalización del sistema sanitario excluye especialmente a las personas mayores y con bajo nivel educativo. Además, otras variables que acentúan la desigualdad son el bajo nivel de ingresos, el trabajo doméstico no remunerado y la autopercepción negativa sobre el estado de salud.
Resumo Esta conferência examina o “Grande Embaralhamento Simbólico” em curso nos Estados Unidos e em outros contextos nacionais, tomando como eixo analítico os processos de reconhecimento e estigmatização. A partir de uma abordagem comparativa e multiescalar, o texto analisa como fronteiras simbólicas e sociais são produzidas, contestadas e transformadas por lideranças políticas, instituições, produtores culturais, movimentos sociais e grupos marginalizados. O argumento central é que a desigualdade não se reproduz apenas por meio da exploração econômica ou da dominação simbólica, mas também por processos culturais que definem quem merece dignidade, pertencimento e valorização social. Com base em pesquisas anteriores e em trabalhos em andamento, a conferência discute as narrativas inclusivas produzidas por agentes culturais, as estratégias de reconhecimento mobilizadas por jovens trabalhadores nos Estados Unidos e as tensões entre trabalho, território e responsabilidade ambiental entre povos indígenas no Canadá. Ao final, sustenta-se que o reconhecimento não deve ser entendido como um jogo de soma zero, mas como dimensão fundamental para construção de sociedades mais inclusivas.
Resumen The article analyzes the spaces of emerging citizenship of Haitian people who live in Santiago de Chile, as well as their forms of social organization. Through field work carried out between the years 2018 and early 2025 with an ethnographic methodology, a nascent autonomy is observed in Haitian residents in the communes of Quilicura and Estación Central - and especially in the peripheral commune of Quilicura - which we investigate here based on the understanding of the dynamics of social incorporation and roots or not of migrants: uncertain citizenship, ethnic borders and urban relegation. The results conclude that Haitian migrants report being discriminated against for racist reasons and undervalued for their national origin, within the framework of an asymmetric multiculturalism that does not accept them as equals in political-social terms. The creation and growing participation in Afro-descendant associations that act as intermediary structures is confirmed. Currently, there are few publications that analyze the experiences of Haitians in Greater Santiago, considering their practices and strategies in the face of situations of contempt experienced; In this way, the article hopes to contribute to a better understanding of the coexistence between nationals and Haitians in Chile.
Resumo O estudo aborda a interação entre geografia eleitoral e padrões de voto, especialmente relevante no Distrito Federal (DF) devido ao seu sistema eleitoral único e à escassez de análises aprofundadas sobre a relação entre voto e atuação parlamentar local. O objetivo central é analisar a possível configuração da conexão eleitoral no Distrito Federal a partir da existência de padrões espacialmente concentrados de votação, investigando como a atuação parlamentar se articula a essas bases territoriais e contribui para a possível conformação de uma distritalização informal. O estudo utilizou mapeamento dos votos de 2018 com base no Índice de Dominância, seguido de uma análise da legislação proposta e das ações parlamentares dos eleitos para determinar se alguma Região Administrativa (RA) se beneficiou mais em relação ao DF. Os resultados indicam que o conceito de conexão eleitoral, evidenciado na atuação e na votação dos deputados distritais Chico Vigilante (PT), Robério Negreiros (PSD), João Cardoso (AVANTE) e Jaqueline Silva (MDB), assim como na expressiva concentração de votos da candidata Jaqueline Silva, possibilita a identificação de distritos informais. Este estudo contribui significativamente para o entendimento da geografia eleitoral do DF e suas implicações na representação política local.
Resumo Para o sociólogo Michael Löwy, a teologia da libertação é a expressão espiritual de um cristianismo de libertação, que foi o protagonista dos movimentos populares do final da década de 1950, principalmente no Brasil. Por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e das pastorais populares, a teologia da libertação criou as condições para o surgimento de uma nova cultura política em toda a América Latina. Consequentemente, as mudanças socioculturais da segunda metade do século XX na América Latina não podem ser explicadas sem mencionar o desenvolvimento da teologia da libertação. Nosso objetivo neste artigo é duplo: por um lado, examinaremos a dimensão ecológica na teologia da libertação e, por outro lado, analisaremos o papel dos movimentos sociais/populares dentro do cristianismo da libertação que propõem outra relação com a natureza.
Resumo O artigo analisa a construção discursiva do masculinismo evangélico no Brasil como resposta às crises do neoliberalismo, inserindo-a no conservadorismo político-religioso. Com base em Laclau & Mouffe (1985) e Butler (2018), investiga os movimentos Machonaria e Nação dos Homens Fortes. Por meio de etnografia digital, observação participante e entrevistas, mostra como esses grupos transformam a virilidade tradicional em projeto espiritual e político, convertendo precariedade em antagonismos culturais. O masculinismo evangélico aparece como tecnologia de poder neoliberal que naturaliza hierarquias de gênero e reforça discursos autoritários.
Resumo Este artigo objetiva analisar os mecanismos da branquitude que influenciam a implementação de cotas raciais nos concursos para a carreira docente em instituições públicas federais de ensino, de modo a manter os privilégios do grupo racial branco. Em termos metodológicos, a pesquisa apresentou uma abordagem qualitativa e crítica, em que foram realizadas cinco entrevistas em profundidade com servidores Técnico-Administrativos em Educação (TAE) de uma universidade federal, que já assessoraram concursos para magistério, os quais previam a aplicação de cotas raciais. Os resultados da pesquisa apontaram que as articulações da branquitude desdobraram-se no reforço da ideia de tradicionalismo inerente à universidade, na mobilização de redes de influência para a estruturação das etapas do concurso – incluindo a definição dos temas das provas e a composição das bancas examinadoras –, além da condução de processos avaliativos que pavimentaram caminhos para que pessoas brancas fossem aprovadas no concurso, mesmo quando a vaga estava destinada à cota racial.
Resumo Embora venha se reduzindo progressivamente, em face do grande avanço evangélico, o catolicismo ainda constitui o maior segmento religioso nacional, conforme demonstra m os dados do Censo de 2022. Assim, em vez de abordar a fragilidade católica diante de tal concorrência, o artigo se volta para o contrário, ou seja, a análise de determinada resistência desse segmento religioso. Nesse sentido, são abordados dois fatores que contribuem para que o catolicismo não seja, hoje, ainda menor do que já se tornou. O primeiro e mais importante deles é o culto mariano, especificamente à Nossa Senhora Aparecida; já o segundo é a devoção juvenil observada, sobremaneira, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Constatamos, dessa forma, que esses dois fatores mantêm a efervescência do catolicismo brasileiro no mercado de bens de salvação e contribuem para certa estabilização do contínuo processo de descatolização das últimas décadas.
Resumo Este artigo traz uma síntese dos achados da literatura socioantropológica, publicada entre 1994 e 2015, sobre as representações e as relações de gênero entre os evangélicos. Visa-se introduzir novos pesquisadores à temática a partir de referências incontornáveis a fim de que não se assuma como novo ou original aquilo que, na verdade, é legado de uma geração precedente. O texto põe em diálogo, de modo ainda não realizado, 16 trabalhos emblemáticos a partir de uma revisão narrativa que recupera as evidências do impacto dessa fé, em particular sua ambivalência para a revisão da distribuição de poder entre os gêneros e para a vivência das mulheres. O artigo salienta ainda as novas direções teórico-metodológicas consolidadas sobretudo a partir de 2009.
Resumo Este trabalho analisa as percepções judiciais sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), a partir do censo dos acórdãos publicados entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021 pelos tribunais estaduais, Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF), que mencionam o PCC em suas ementas, totalizando 856 casos. Para tanto, utilizou-se um formulário semiestruturado com 44 questões, permitindo a coleta de dados sobre o conteúdo integral dos acórdãos. A análise revela que o PCC é predominantemente visto como uma organização criminosa masculina, centrada no tráfico de drogas. As decisões destacam, ainda, o foco do coletivo criminal na normalização de comportamentos e na punição de infrações específicas. Nesse contexto, a prisão (preventiva ou definida em sentença condenatória) é associada à necessidade de “normalização da ordem pública”, tratada como indispensável para garantir a segurança e a paz social diante do que é descrito como a atuação “sanguinolenta” do PCC.
Abstract This article argues that Turkey has become both a producer and exporter of anti-gender politics through the coordinated efforts of the state and a dense network of Islamic civil society organizations. While anti-gender mobilizations elsewhere often emerge from bottom-up coalitions of religious, conservative, and right-wing actors, Turkey’s model is distinctly state-led. In Turkey, anti-gender discourse and activism are orchestrated through state institutions and loyalist faith-based NGOs that function as extensions of the regime’s ideological and policy agenda. Working in tandem with the state, these civil society actors help legitimize gender hierarchy, promote religious familism, and target gender equality frameworks. Drawing on a feminist political sociology approach, the article traces how Islamic NGOs, think tanks, and transnational coalitions operationalize anti-gender politics across epistemic, transnational, and everyday domains. It demonstrates that the civil society label enables these actors to frame exclusionary politics as culturally grounded advocacy and to construct competing gender models that challenge the global rights-based consensus.
Resumo A sociologia das religiões tem sido desafiada pela crescente relevância pública da religião, contrariando as teses clássicas da secularização. Nas últimas décadas, o fenômeno religioso voltou a ocupar papel central na compreensão de processos sociais, políticos e morais, especialmente no contexto do Sul Global. Na América Latina, destacam-se a atuação política de grupos evangélicos, os efeitos modernizantes da conversão e as tensões entre religião, Estado e pluralismo. A recente onda conservadora global reforçou a articulação entre racionalidade neoliberal, discursos morais e mobilização religiosa, produzindo gramáticas políticas reativas. Este dossiê analisa essas transformações a partir de três eixos: as afinidades entre neoliberalismo e conservadorismo religioso; as negociações entre religião e Estado; e as contranarrativas oriundas do Sul Global, incluindo resistências internas às tradições religiosas e propostas alternativas, como a ecologia política inspirada na teologia da libertação.
Resumo O artigo aborda a questão da integração dos artistas latino-americanos no sistema artístico internacional. Para tanto, analiso os dados produzidos pelo ArtFacts, um importante ranking internacional, entre 1988 e 2024. O artigo se compõe de três partes. Na primeira, analiso o lugar do ArtFacts no campo da arte global (Buchholz, 2022) e sua metodologia. Na segunda, discuto a presença dos artistas latino-americanos no ranking, notadamente a partir dos casos de Gabriel Orozco, Vik Muniz e Ana Mendieta. Finalmente, na terceira parte, abordo as fontes utilizadas pelo ArtFacts para a obtenção dos dados, problematizando seu caráter efetivamente “neutro” e “global”; e, a seguir, com base em entrevistas, procuro salientar o lugar simbólico que ele ocupa para agentes significativos no mundo da arte brasileiro.
Resumo O presente texto analisa como a maternidade é mobilizada por comunidades terapêuticas (CT’s) no atendimento de mulheres que fazem uso problemático de substâncias e que desejem e/ou precisem passar pelo período de acolhimento na companhia de seus filhos. Sendo assim, o objetivo principal desse estudo é melhor compreender como a maternidade é acionada ao longo do período em que essas mulheres permanecem com sua prole nessas instituições. Os dados analisados derivam de entrevistas semiestruturadas e observação de campo conduzidas entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro semestre de 2021 e entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro semestre de 2023 em uma CT de orientação católica e outra evangélica. O artigo conclui que, nas CTs observadas, a maternidade incorpora moralidades conservadoras (religiosas e não-religiosas) compreendidas como recursos capazes de interromper o uso problemático de substâncias.