Entrevista com Sadi dal Rosso, ex-presidente do Andes-SN e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).
O trabalho como fenômeno atemporal. Trabalho e criatividade. O trabalho sob ataque do capital. O novo mundo do trabalho e as formas de resistência de trabalhadores e trabalhadoras. Destacam-se as mudanças enfrentadas pelo mundo do trabalho frente às formas de flexibilização e precarização introduzidas pelo modelo de globalização em curso no mundo. Apresentam-se as estatísticas que evidenciam o crescimento do desemprego no Brasil na última década. Analisam-se as modalidades de trabalho introduzidas pela legislação trabalhista que cria o trabalhador sem direitos, ampliando ainda mais a precarização do trabalho e a desproteção social dos trabalhadores. Desenvolvem-se reflexões sobre mudanças que trouxeram para a dominação do capital sobre o trabalho não apenas a modernização tecnológica característica do neoliberalismo, mas também as opções impostas à classe trabalhadora no contexto dessas mudanças. Intenta-se apresentar um olhar diferenciado para a relação empírica existente entre escolaridade e trabalho, tendo como objeto as jornadas de trabalho, por exprimirem de forma singular a manifestação social do trabalho. Diante de tantas transformações, o nível de instrução se desvencilhou da velha narrativa de segurança e se impregnou com o trabalho flexível. Frente ao aumento da participação da população com nível superior no mercado de trabalho, observa-se que, num cenário de redução das jornadas de trabalho, esse nível de instrução começa a avançar de maneira tímida para as jornadas extensas, embora se concentre nas jornadas de tempo integral. Outro fenômeno observado foi o comportamento inverso presente na relação entre arrefecimento econômico e concentração da população em jornadas de tempo integral.
Resenha do livro de Gérard Duménil e Dominique Lévy. Managerial Capitalism. Ownership, management and the coming new mode of production. London, Pluto Press, 2018.
In this article, we analyze the Universidade Aberta do Brasil (UAB [Open University of Brazil]) program, the aim of which is to democratize the Brazilian educational system, through the distance education modality and its institutionalization in the University of Brasilia (UnB). We question the democratizing intent of the program, based on contemporary theses that speak of the renewal of education reproduction dynamics and on the specialized literature already accumulated on the program in question. Precisely, we question whether the educational modality at issue becomes stratified, in a type of intra-institutional duality. For this, interviews were conducted with coordinators of undergraduate distance programs, seeking to analyze the several dimensions of the supposed intra-institutional duality generated by the program. A documental analysis was also conducted, aimed at complementing the understanding of the subject and reaching the goal of the research. A complex institutional scenario was found, with significant changes over the years of application of the program. However, it became clear that institutional and teaching operations, and community relations in distance programs, in several aspects, are marginal to face-to-face programs. After an analysis of the research results, it was concluded that the distance modality is confined to merely partial institutionalization and inclusion, reinforcing the theses of the theory of reproduction in its most current versions.
Resumo Neste artigo, analisamos o programa Universidade Aberta do Brasil (UAB) que visa à democratização do sistema educacional brasileiro através da modalidade a distância e sua institucionalização na Universidade de Brasília (UnB). Questiona-se a pretensão democratizante do programa a partir das teses contemporâneas que versam a respeito da renovação das dinâmicas de reprodução educacional e da literatura especializada já acumulada acerca do programa em questão. Precisamente, se a modalidade educacional em questão se estratificaria na forma de uma dualidade intrainstitucional. Para tanto, foram realizadas entrevistas com coordenadores de curso de graduação a distância, buscando analisar as diversas dimensões da suposta dualidade intrainstitucional gerada pelo programa. Uma análise documental também foi mobilizada, visando a complementar o entendimento do objeto e atingir o objetivo da pesquisa. Constatou-se um complexo cenário institucional, com significativas modificações no decorrer dos anos de aplicação do programa. No entanto, ficou claro que as operações institucionais e didáticas e as relações comunitárias dos cursos a distância, em vários aspectos, ocorrem de forma marginal ao presencial. Após análise dos resultados da pesquisa, conclui-se que a modalidade a distância se encerra em uma institucionalização e inclusão apenas parcial, reforçando as teses da teoria da reprodução em suas versões mais atuais.
Resumo Propõe-se, neste artigo, analisar a contribuição da produção social de quatro intelectuais que trabalharam nos primórdios da Universidade de Brasília com relação à teoria marxista da dependência. São utilizados textos e memoriais produzidos à época e duas entrevistas realizadas recentemente, além da bibliografia sobre o assunto. Encontrou-se evidência de que a Universidade de Brasília foi lugar de embate teórico travado entre funcionalismo e marxismo, da necessidade de fundamentar a produção analítica dos intelectuais com o aporte metodológico e teórico do marxismo, da realização da crítica sobre a concepção da relação entre países que fazem parte do sistema mundial como desenvolvidos e subdesenvolvidos, sem com isso envolver uma relação de exploração, embora se tenha encontrado nos textos referências e raízes de elementos da teoria da dependência, tal como o mecanismo da exploração redobrada pela burguesia nacional e pelo capital internacional. O artigo destaca a formação militante de pelo menos três dos quatro intelectuais nas fileiras da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (Polop) e sua influência sobre a atuação política e a necessidade da revolução socialista.
Resumo O objeto deste artigo é a discussão de elementos conceituais e metodológicos envolvidos com o fenômeno da intensidade do trabalho. Pesquisas realizadas em diversos países mostram que a intensificação é um componente estruturante do trabalho na contemporaneidade e essa tendência tem a capacidade de se prolongar por tempo indefinido sob o paradigma da hegemonia neoliberal que continua a reger as relações econômicas mundiais. O mesmo consenso não prevalece em relação a definições conceituais do fenômeno, seus correspondentes pressupostos teóricos e suas implicações metodológicas. A análise desta falta de consenso constitui o objetivo principal deste artigo. Para atender a este objetivo, será realizada uma revisão da literatura sobre a formulação da teoria do valor trabalho e de pesquisas recentes sobre o tema. A discussão conceitual e metodológica ancora-se na prática de levantamento de informações por meio de surveys da European Working Conditions Survey (EWCS), cujos questionários e relatórios serão analisados no tocante à objetividade e subjetividade, à relação das práticas empíricas com pressupostos conceituais, entre outros. Este ensaio de crítica conceitual e metodológica tem em vista estabelecer parâmetros para pesquisas necessárias ao contexto brasileiro, dadas, especialmente, as implicações da intensificação laboral sobre as condições de saúde de quem trabalha.
O artigo discute a intensidade do trabalho em escala global e suas particularidades na América Latina). A ampliação (in) visível da duração do trabalho no mundo e suas repercussões sobre os (as) trabalhadores (as). Jornadas excessivas de trabalho, condições degradantes e trabalho análogo à escravidão: o setor sucroalcooleiro no Brasil e a morte por exaustão no trabalho. O trabalho imaterial, criativo e a subsunção da subjetividade das trabalhadoras sob a produção capitalista na Argentina. As formas de resistência da classe trabalhadora frente aos processos de desconstrução da subjetividade e de intensificação do trabalho.Palavras-chave: Trabalho, intensificação do trabalho, saúde do trabalhador, trabalho imaterial/criativo, resistência da classe trabalhadora.INTENSITY AND EXCESSIVE WORK: exhaustion, impacts on subjectivity and ways of resistance of workersAbstract: The article discusses the intensity of work on a global scale and its peculiarities in Latin America. The (in)visible increasing of working time over the world and its impacts on workers. Excessive working days, degrading conditions and labor comparable to slavery: the sugar/alcohol sector in Brazil and death at work due to exhaustion. Immaterial labor,creative and subsumption of the subjectivity of female workers under capitalist production in Argentina. Methods of working class resistance against processes of subjectivity deconstruction and work intensification.Keywords: Work, work intensification, worker’s health, creative work, immaterial work, working class resistance.
Interpretações da teoria do valor trabalho encontram dificuldades em definir o papel e o lugar das atividades de serviço com relação à produção ou não de valor. Esse problema ganha magnitude na medida em que a perspectiva histórica mostra que os serviços são grandes empregadores de mão de obra na atualidade. Tradicionalmente, os serviços são entendidos como atividades não produtivas, devido ao fato, dentre outros argumentos, de que não resultam em materialização na forma de mercadorias, ou que não produzem novos valores e mais-valia. O objetivo deste artigo é examinar essa questão e sugerir a proposição de que certos serviços, que preenchem determinadas condições, podem ser interpretados como produtivos de valor e de mais-valia. O artigo examina as categorias materialidade e imaterialidade, assim como as de trabalho produtivo e não produtivo de valor, introduzindo, a seguir, critérios para distinguir trabalhos produtivos e não produtivos de valor no setor de serviços. Com isso, pretende contribuir para clarificar o entendimento da teoria do valor trabalho num terreno entrecruzado de polêmicas e de posições teóricas diferenciadas.
Associacoes de trabalhadores, sindicatos, intelectuais, movimentos sociais progressistas desenvolvem luta renhida contra longas jornadas. Ainda assim, elas permanecem. Este artigo coloca em discussao as jornadas excessivas, assim chamadas por excederem o padrao de civilidade ja reivindicado pela Organizacao Internacional do Trabalho desde 1919, estabelecido como padrao laboral pela Revolucao Russa em 1918, e aquiescido por muitos Estados-Nacao posteriormente e que se materializa em jornadas de 49 horas ou mais por semana. Aportam-se evidencias de jornadas excessivas de paises de todos os continentes, destacam-se informacoes da Uniao Europeia e analisam-se dados censitarios e de PNADs para o Brasil. A estimativa de uma media mundial de jornada excessiva, a indicacao de jornadas excessivas entre paises de capitalismo central e periferico, a descricao de tendencias de reducao ou elevacao introduzem argumentos centrais no debate que, por si sos, suscitam questoes sobre trabalho, saude e seguridade, mas tambem sobre a natureza do desenvolvimento capitalista contemporâneo, sobre o processo de globalizacao, sobre modernidade e valor.
Este numero da revista Sociedade e Estado inclui um dossie sobre trabalho. De imediato, o tema dirige a atencao para impactos da crise socioeconomica, em curso em muitos paises do mundo, sobre o trabalho e o emprego. O trabalho e moldado por forcas estruturais que se projetam para alem de um periodo entendido como de crise. Os principios neoliberais da flexibilidade dos empregos e dos horarios de trabalho ou o modelo toyotista de organizacao do trabalho, com enfase em polivalencia, trabalho de equipe e just in time, possivelmente se projetarao para alem da crise atual. Tendo em vista esta particularidade, o dossie aqui apresentado aos leitores combina o estudo e a analise de elementos teoricos e mais estruturais com estudos de caso sobre a realidade contemporânea e o impacto da crise: o tempo de trabalho como chave analitica para a teoria do valor; as estrategias gestionarias como elementos ideologicos e controladores da subjetividade dos assalariados; processos de fragmentacao e transformismo em curso nas organizacoes sindicais; e as dificuldades para o acesso a direitos no trabalho domestico.
RESUMO O Brasil chama a atencao pelo numero de entidades sindicais de trabalhadores. Uma pesquisa feita pelo IBGE em 2001 resultou em 13.203 sindicatos, dos quais 9.186 tinham registro no Ministerio do Trabalho e Emprego. Onze anos mais tarde, em 2012, este mesmo Ministerio registra 9.954 instituicoes com certificado ativo, aproximadamente 8% a mais de sindicatos em onze anos. Qual o significado da ampliacao do numero de sindicatos? Esta-se diante de processos de saudaveis organizacoes de novas bases sindicais ou se trata de fragmentacao de forcas? O artigo discute esta questao e tambem mostra a heterogeneidade da estrutura sindical, que apresenta um grande numero de organizacoes dadas as praticas constitutivas requeridas por lei. Opera-se com a hipotese de que boa parte da divisao organizativa, processo que se observa no interior dos sindicatos de trabalhadores, corresponde a uma fragmentacao em decorrencia de lutas por espacos politicos, por verbas do imposto sindical, por divisao territorial e por puro corporativismo, o que nao implica em elevar a capacidade de luta da estrutura como um todo. A primeira parte do artigo analisa o principio da liberdade sindical e sua implementacao pela Constituicao de 1988. A segunda procede a um estudo mais circunstanciado ao sindicalismo no setor da educacao, especialmente a educacao superior. O vertiginoso surgimento de centrais sindicais apos o ano 2000 fornece forca cabal ao argumento da fragmentacao.
RESUMO Associacoes de trabalhadores, sindicatos, intelectuais, movimentos sociais progressistas desenvolvem luta renhida contra longas jornadas. Ainda assim, elas permanecem. Este artigo coloca em discussao as jornadas excessivas, assim chamadas por excederem o padrao de civilidade ja reivindicado pela Organizacao Internacional do Trabalho desde 1919, estabelecido como padrao laboral pela Revolucao Russa em 1918, e aquiescido por muitos Estados-Nacao posteriormente e que se materializa em jornadas de 49 horas ou mais por semana. Aportam-se evidencias de jornadas excessivas de paises de todos os continentes, destacam-se informacoes da Uniao Europeia e analisam-se dados censitarios e de PNADs para o Brasil. A estimativa de uma media mundial de jornada excessiva, a indicacao de jornadas excessivas entre paises de capitalismo central e periferico, a descricao de tendencias de reducao ou elevacao introduzem argumentos centrais no debate que, por si sos, suscitam questoes sobre trabalho, saude e seguridade, mas tambem sobre a natureza do desenvolvimento capitalista contemporâneo, sobre o processo de globalizacao, sobre modernidade e valor.
O Brasil chama a atenção pelo número de entidades sindicais de trabalhadores. Uma pesquisa feita pelo IBGE em 2001 resultou em 13.203 sindicatos, dos quais 9.186 tinham registro no Ministério do Trabalho e Emprego. Onze anos mais tarde, em 2012, este mesmo Ministério registra 9.954 instituições com certificado ativo, aproximadamente 8% a mais de sindicatos em onze anos. Qual o significado da ampliação do número de sindicatos? Está-se diante de processos de saudáveis organizações de novas bases sindicais ou se trata de fragmentação de forças? O artigo discute esta questão e também mostra a heterogeneidade da estrutura sindical, que apresenta um grande número de organizações dadas as práticas constitutivas requeridas por lei. Opera-se com a hipótese de que boa parte da divisão organizativa, processo que se observa no interior dos sindicatos de trabalhadores, corresponde a uma fragmentação em decorrência de lutas por espaços políticos, por verbas do imposto sindical, por divisão territorial e por puro corporativismo, o que não implica em elevar a capacidade de luta da estrutura como um todo. A primeira parte do artigo analisa o princípio da liberdade sindical e sua implementação pela Constituição de 1988. A segunda procede a um estudo mais circunstanciado ao sindicalismo no setor da educação, especialmente a educação superior. O vertiginoso surgimento de centrais sindicais após o ano 2000 fornece força cabal ao argumento da fragmentação.
de LEE, S.; McCANN, D. & MESSENGER, J. C. Duracao do trabalho em todo o mundo. Tendencias de jornadas de trabalho, legislacao e politicas numa perspectiva global comparada, (Brasilia: OIT, 2009)