
Na compreensão democrática e liberal, a noção de cidadania adquire relevância estratégica na medida em que são os indivíduos no exercício de seus direitos e liberdades que postulam acordar mecanismos para a convivência social e os marcos normativos para a resolução de conflitos a partir de um entendimento sem a interferência de juízos morais ou religiosos. O crescimento dos movimentos neoconservadores nos dias atuais amplia um paradoxo. Enquanto a política se reveste com elementos religiosos, as vozes religiosas neoconservadoras assumem uma linguagem cada vez mais secularizada. Nela, certos conceitos dão lugar às narrativas em torno de uma pseudociência, da democracia e dos direitos humanos. O objetivo na análise aqui entabulada é, pois, vislumbrar os meandros da confessionalização do espaço político, e, por outro, ampliar o entendimento acerca de uma politização da religião.
Resumo: O presente artigo analisa a relação entre o (neo)pentecostalismo brasileiro e a política partidária, com ênfase no processo de cooptação político-religiosa ocorrido antes e durante o governo Jair Bolsonaro (2018-2022) e sua continuidade pós-governo. Partindo de uma revisão historiográfica sobre o apoliticismo do pentecostalismo clássico e sua transição para o ativismo político contemporâneo, o estudo investiga como a difundida “Teologia do Domínio” e a pauta moral foram instrumentalizadas para legitimar um projeto de poder autoritário que cooptou as grandes denominações pentecostais no Brasil. A metodologia baseia-se em pesquisa bibliográfica e análise documental de fontes jornalísticas e declarações de lideranças eclesiásticas, com enfoque na Assembleia de Deus no Amazonas. Os resultados apontam que a adesão acrítica de grandes denominações ao bolsonarismo não apenas reconfigurou a identidade pública evangélica, mas também fomentou práticas antidemocráticas, culminando no apoio ou silêncio institucional diante dos atos de 8 de janeiro de 2023. Palavras-chave: (Neo)pentecostalismo; Política Brasileira; Bolsonarismo; Teologia do Domínio; Extrema-direita.
O presente artigo assume a noção de colonização como um confronto violento entre regimes ontológicos de existência e autoridade. O texto mobiliza a narrativa da Águia e do Condor como cosmopolítica e como dispositivo de memória ativa (Pachakuti) frente à hegemonia ocidental. Central a essa análise é a crítica ao geontopoder liberal, modelo de governança que sustenta a exploração capitalista mediante a separação binária entre matéria animada e inanimada. O artigo apresenta os axiomas de Elizabeth Povinelli na virada ontológica, que analisa a distribuição desigual de direitos para argumentar que o reconhecimento do entrelaçamento existencial não apaga as assimetrias políticas de poder. Propõe-se, assim, a extensão da "vida protegível" a todo o corpo da Terra, reconhecendo entidades geológicas como seres-terra dotados de agência que desafiam o dualismo antropocêntrico e apontam para um paradigma cosmocêntrico de direito. Em última análise, o artigo contrasta essa cosmologia insurgente com a "governança do fim" do liberalismo tardio, que busca gerir o colapso planetário sem abdicar da lógica de acumulação e expropriação.
O presente artigo se configura como uma introdução à interface de estudos entre teorias conspiratórias e religião para o público acadêmico brasileiro, com foco na área de Teologia e Ciência da Religião. Para tanto, faz-se uma revisão de literatura da área, com foco, primeiramente, nos estudos de teorias conspiratórias, e, em seguida, com ênfase na interface entre as teorias conspiratórias e a religião. O conceito de teorias conspiratórias foi dividido em duas dimensões – epistemológica e narrativa – de forma a abranger a discussão sobre o percurso histórico-conceitual do termo, o surgimento do discurso conspiratório contemporâneo, a ênfase paranoica e patológica que predominou nos estudos por décadas e a explanação da retórica conspiratória, esta última ocorrendo em torno da tríade narrativa “conspirador-plano-sigilo” e detalhada por meio de proposta do autor em onze características que definem o gênero. Em seguida, são apresentadas três ênfases de estudos na intersecção teorias conspiratórias-religião e seus devidos exemplos e características – teorias conspiratórias como, na e sobre a religião – indicando as comunidades religiosas como locais importantes para a articulação de conspirações. Conclui-se, portanto, que as pesquisas da intersecção entre teorias conspiratórias e religião fariam bem em superar a chave de interpretação simplista do religioso “paranoico-lunático”, dando lugar a paradigmas norteadores mais apropriados, como os que enxergam as teorias conspiratórias como mundividência, propaganda política ou tradição retórica.
O presente estudo tem por finalidade, a partir de um método hermenêutico que permite uma revisão bibliográfica dos autores de referência, analisar a retomada de certos autores do pensamento contrarrevolucionário europeu por parte de Carl Schmitt, de modo a fundamentar a sua crítica à democracia-parlamentar de Weimar. No contexto do fim da Primeira Guerra Mundial e da promulgação da Constituição de Weimar, os escritos do jusfilósofo alemão Carl Schmitt se apresentam como de grande relevância para uma compreensão do período. Ao retomar pensadores autoritários como De Bonald, De Maistre e, especialmente para o presente estudo, Juan Donoso Cortés, Schmitt busca tecer críticas ao parlamento de modo a denunciar a sua ineficácia, colocando a burguesia como uma classe que nunca decide os problemas da ordem concreta. Diante desse cenário, é necessário a presença de um soberano que efetivamente irá deliberar sobre as questões de relevância social, visto que representa a identidade e a vontade soberana do povo.