
O presente trabalho explora o reinado de Manassés de Judá sob uma perspectiva histórica e o analisa em relação às descrições encontradas na Bíblia Hebraica. Manassés é retratado, especialmente em 2 Reis 21.2-6.16, como o monarca mais perverso da história judaíta. O texto deuteronomista o acusa de restaurar práticas religiosas pagãs abolidas por Ezequias, como a construção de altares a Baal e Asherá, a adoração aos astros e a violação do Templo de Jerusalém. Também lhe são atribuídos atos como sacrifício infantil, feitiçaria e derramamento de sangue inocente. No entanto, a historiografia recente, apoiada em evidências arqueológicas, tem apontado que seu reinado representou um período de estabilidade política e recuperação econômica. Essa restauração se deu por meio da submissão voluntária ao Império Assírio após os conflitos desencadeados por Ezequias. As evidências extrabíblicas sugerem que Manassés foi um governante pragmático e estratégico, que soube recuperar a prosperidade do reino a partir dos recursos que tinha à sua disposição, o que indica que sua imagem negativa nas descrições deuteronomistas reflete uma visão enviesada, provavelmente relacionada ao crescimento da influência cúltica assíria durante o seu reinado.
Resenha de: MORAES JUNIOR, Manoel Ribeiro de. Saberes em diálogos: diplomacias, linguagens, filosofias e ontologias a partir da Amazônia brasileira. Rio de Janeiro: Editora Contra o Vento, 2025.
No livro de Jó, os substantivos ʿāfār, pó, e ʾēfer, cinza, ultrapassam o sentido semântico material e assumem uma função antropológica e teológica, constituindo um importante isomorfismo simbólico para a interpretação do livro. Este estudo visa demostrar que a junção de ʿāfār wāʾēfer exprime a fragilidade constitutiva da condição humana e influência a dinâmica interna da narrativa e da poética de Jó. Metodologicamente, a pesquisa parte da tradução de Jó 2,8;12; 30,19 e 42,6, acompanhada de análise semântica, sintática e retórica, a fim de examinar as relações estabelecidas entre os termos e seus respetivos contexto e compreender sua função nas perícopes em que ocorrem. Em seguida, busca-se interpretar esse isomorfismo simbólico no conjunto do livro. A relevância da pesquisa reside na desconstrução de leituras que reforça a teologia da retribuição, hoje associada a lógica prosperidade, tanto no epílogo quanto nas respostas de Jó a YHWH na teofania. Como resultado, demostra-se que ʿāfār wāʾēfer não constitui somente uma expressão de humilhação ou luto, mas isomórfico simbólico que confere sentido a experiencia de Jó entre a ruína e a restauração, revelando a fragilidade humana diante de Deus e relativizando a des-lógica da tradicional da retribuição. Palavras-chaves: Livro de Jó; teologia da retribuição; pó e cinza; isomorfismo simbólico.
O diálogo entre Teologia, Bíblia e estudos literários, por um lado, e a possibilidade de abordar textos bíblicos a partir dos Estudos do Corpo e Hermenêutica da carne, por outro, configuram os elementos teóricos que fundamentam, em perspectiva interdisciplinar, a análise proposta do livro de Jó. Visa-se, portanto, o papel da carne literariamente construída e descrita do personagem Jó na formulação da crítica teológica e social presente no livro. Para tanto, são analisados literário-teologicamente, por meio de textos-exemplo, os itinerários teológicos expressos nos discursos das personagens Elifaz, Bildade e Zofar, enquanto exemplos de teologias desencarnadas, que subjugam os corpos concretos a partir do controle da tradição, e que geram, com isso, estigmas quanto aos corpos sofredores. Após, volta-se à “carne viva”, isto é, o sofrimento do corpo da personagem Jó não apenas como elemento literário-teológico passivo, mas como lugar teológico produtor de horizontes que se abrem a partir do protesto e crítica teológica e social. Resgata-se, portanto, na análise literário-teológica a corporeidade como elemento ativo na tarefa da formulação teológico-discursiva exemplificado na carne literária de Jó.
O artigo analisa a interpretação do livro de Jó proposta pelo filósofo e rabino medieval Moshe ben Maimon, mais conhecido como Moisés Maimônides, com especial atenção à sua obra magna, o Guia dos Perplexos. Além de considerar os contextos histórico-exegéticos e filosófico-teológicos que constituem o horizonte de sua leitura, o artigo tem como objetivo principal compreender de que modo Maimônides articula uma interpretação alegórica da narrativa sobre Jó, buscando conciliar a tradição teológica judaica com a filosofia aristotélica. Nesse ínterim, examina-se particularmente a forma como ele interpreta os personagens do prólogo do livro sagrado, especialmente Jó, os “filhos de Deus” e Satanás, à luz de sua complexa concepção de providência divina. A metodologia adotada consiste numa análise textual detalhada dos capítulos do Guia dos Perplexos que tratam diretamente do tema, sobretudo na terceira parte da obra, em diálogo com uma relevante literatura secundária que contextualiza o pensamento de Maimônides no interior do judaísmo medieval. Conclui-se que, ao combinar de modo singular exegese judaica, filosofia aristotélica e hermenêutica alegórica, Maimônides oferece uma interpretação original do livro de Jó, que posteriormente influenciará a hermenêutica sagrada, de modo geral, e a tradição judaica, de modo particular.