
Esta publicação, por meio de ensaios e pesquisas acadêmicas, bebe na fonte dodiálogo com as sensibilidades, com as vivências da alteridade e com os coletivos, com a vida social em elação, comomovimento dos barcos5dos afetos e tudo isso é materializado em textos escritosque dialogam com as questões de raça, classe, gênero, memória, educação, museologia, patrimônio e museu.Ainda pedindo a benção àConceição e às suas parentes e crias,Ponciá Vicêncio, Maria Vicêncio e Nêngua Kainda, gostaríamos de compreender que as escritas acionam memórias e também se revelam na musicalidade. Por esse caminho, intuímos que a experiência de criação poética está presente nas cantorias e danças dos terreiros de candomblé e umbanda, nas músicas gravadas por Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Elza Soares e, mais recentemente, nas vivências artísticas e musicais de Criolo, Emicida, Luedji Luna e Leniker, bem como na poética de alguns raps e, particularmente, na letra e na música popularizada por Iza (Isabela Cristina Correia de Lima Lima).
Este artigo analisa o modo como a Educação Museal pode ser acionada como forma de enfrentamento às violências interseccionais por meio de um letramento racial crítico. Para tanto, evidencia a necessidade de uma educação antirracista para as relações étnico-raciais, sustentada em um pensamento ético-epistemológico, na superação do racismo estrutural e das relações de poder vigentes, a partir da escolha político-epistemológica por uma Educação Museal Antirracista para as Relações Étnico-Raciais (EMARER). Como eixo metodológico para estas reflexões realizamos uma pesquisa qualitativa a partir de revisão bibliográfica e análise documental, que teve como situação geradora, algumas ações de musealização da placa Rua Marielle Franco. A placa tornou-se um símbolo de resistência que sintetiza o enfrentamento a um conjunto de violências interseccionais: metáfora e metonímia de Marielle Franco, de suas pautas e do próprio campo progressista. Ao ser musealizada sofreu tentativas de apagamento e, também, gerou enfrentamentos aos discursos museológicos hegemônicos, propiciando, ao nosso ver, um significativo espaço de anúncio e de denúncia.
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa desenvolvida no âmbito da tese de doutorado denominada “A educação como patrimônio e a educação com o patrimônio”, que estudou a articulação da formação de professores de Duque de Caxias e a sua relação com a construção do patrimônio cultural da cidade. Nesta pesquisa, a abordagem teórica e metodológica inverte o ponto de origem do patrimônio, buscando sua constituição a partir das pessoas e não dos objetos, da política e do interesse que tangenciam as instituições culturais de preservação. Por esse caminho, é possível perceber como as narrativas são fundamentais para a constituição do patrimônio e como este é atravessado por lutas. Teremos no momento primeiro deste texto a percepção dos professores, quem são os protagonistas na construção do Museu Vivo de São Bento, e depois o que este representa para a Baixada Fluminense enquanto museu social e de resistência.
Este artigo tem o objetivo de apresentar uma breve trajetória do Movimento Negro Brasileiro no exercício museológico de criação de museus afro-brasileiros a partir do século XX. Mais especificamente demonstrar como as negras e negros em movimento ao construírem os seus museus afro-brasileiros exercitam o papel de educador das relações étnico-raciais. Identificados no cenário museológico desde os anos de 1930, estes museus foram num crescente seguindo as alterações no pensamento racial brasileiro e se colocando como contraponto aos museus criados pelos poderes públicos que centrados na história do povo brasileiro invisibilizavam e/ou congelavam a população negra como escraviza e, aos museus afro-brasileiros construídos “para” as/os negras/os, que não superaram a visão estereotipada e racista estagnada na existência dos negros e negras na escravização. Assim, apresentamos uma breve contextualização que embasa o aumento da criação destas instituições no século XXI e ao final, apresentamos as ações educativas museológicas desenvolvidas pelo Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (Mucane), durante o período que foi gerido pelo Movimento negro capixaba e o projeto educativo do Museu AfroDigital Galeria Mato Grosso da Rede de Museus Afro Digitais.
O presente texto tem por objeto analisar as ações educativas do Instituto de pesquisa e Memória Pretos novos (IPN), na Pequena África, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, como mecanismo de luta antirracista e ressignificação da memória. Temcomo ponto de partida o sítio arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos que guarda uma memória traumática da dor e do horror do passado escravista. Pretende-se analisar como, por meiode uma pedagogia da reparação,o IPN transforma uma história de morte em uma história de vida e superação.
O presente artigo narra as discussões em torno dos marcos conceituais contidos nos planos de educação museal das instituições de base comunitária, Museu Guitinho da Xambá e o museu territorial Ilê Lailai Ignez Mejigã, nascidos em territórios diversos e criados por diferentes motivos. Localizados em Pernambuco e na Bahia, ambos são Pontos de Memória premiados pelo Edital IBRAM 2023. O fio que entrelaça as memórias coletivas desses museus são os princípios filosóficos e religiosos do candomblé e a luta contra o preconceito e o racismo, especialmente o religioso. O artigo faz uma breve apresentação sobre esses museus e suas comunidades e, principalmente, sobre as bases conceituais que assentam os processos teórico-metodológicos adotados em seus programas de educação museal. Traz ainda como resultado dessas discussões, um resumo de cada plano de educação museal gestado até agora. Porém, os seus agentes ainda não os consideram planos fechados, ao contrário, são caminhos abertos, experimentais e participativos, o que, portanto, permitem o pleno exercício de processos sociomuseológicos ecossistêmicos. Para além do instituído no campo da museologia, esses museus trabalham com processos complexos de envolvimento com a comunidade e de inclusão de múltiplos saberes.
Este trabalho analisa, em caráter preliminar de pesquisa de doutorado, os aspectos educativos observados no Museu das Memórias e do Patrimônio Popular ( متحف الذكريات والتراث الشعبي ), em Chatila, campo de refugiados palestinos, localizado na cidade de Beirute, no Líbano, massacrado pelas falanges cristãs libanesas em comunhão com as forças israelenses, em 1982. Focalizamos o modo pelo qual o museu, por meio do conjunto de sentimentos e emoções traduzidos em relação aos objetos de memória recolhidos e expostos pelos refugiados, realiza seus processos educativos de dinamização e agenciamento, tornando estes objetos, patrimônios capazes de garantir a permanência no tempo de referências de memória de povos destituídos e espoliados de seus direitos fundamentais. Trata-se de fazer emergir, por intermédio de problemáticas de ordem global, metodologias educativas em museus sob o prisma universal da justiça e da ética nos direitos humanos, em diálogo com as políticas culturais e conjunturais mundiais, capazes de construir consciências identitárias em processos de patrimonialização democráticos, participativos e emancipatórios. Para isso, vamos observar, a partir da análise crítica do discurso, por meio de pesquisa exploratória qualitativa com revisão bibliográfica e entrevistas semiestruturadas, o sentido educativo contido na criação do Museu das Memórias e do Patrimônio Popular de Chatila e na sua (im)permanência, buscando, assim, ampliar os vínculos entre Patrimônio, Museu, Arte e Educação presentificados em projetos civilizatórios voltados à formação e promoção da cidadania, dos direitos sociais, humanos e culturais e de substanciar o desenvolvimento de museologias inclusivas e comprometidas com a ética e a transformação social.