
A questão racial tem se apresentado cada vez mais como um aspecto fundamental para a compreensão das estruturas sociais e, mais amplamente, da cultura e da humanidade. Compreender o colonialismo, a escravidão e as relações internacionais de dependência a partir de uma visão decolonial e reparadora é urgente. Este artigo problematiza essa questão a partir da análise da ação e das políticas do Estado brasileiro, considerando os recentes “pedidos de reparação” como solicitações de reconhecimento no campo do patrimônio cultural. Embora haja avanços recentes, como a Portaria nº 135/2023 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre o tombamento dos quilombos, as políticas de patrimônio cultural ainda devem articular o reconhecimento cultural, jurídico e político, assim como mobilizar ações integradoras entre Estado, sociedade, comunidades detentoras do patrimônio e seus territórios. Dessa forma, defende-se que a compreensão desses bens como paisagem cultural pode ser a chave para o reconhecimento conjunto de culturas intrinsecamente associadas a territórios.
Since the 1980s, the field of cultural heritage has been mobilized by various social movements as a political instrument, highlighting its functional transformation. This article discusses how these new uses reflect a strong challenge to the Authorized Heritage Discourse (AHD), introducing a new sense of politics to the theme. We argue that traditional aspects are questioned by groups interested in building the future through heritage, configuring it as a political resource in the struggle for citizenship. The research points to different examples of these new uses across various Brazilian cities, and presents a case study focusing on the actions involving the Mucuripe Lighthouse in Fortaleza, Ceará (CE), where the reappropriation of the listed asset and the production of counter-narratives functioned as community resistance strategies. The results demonstrate that contemporary heritage requires participatory practices in the construction of its values, moving away from an exclusively statecentered logic. We conclude that heritage becomes a vector for the affirmation of citizenship, ensuring the right to exist and build the future.
No ano em que se celebram os oitenta anos desde o término da Segunda Guerra Mundial, iniciativas têm sido conduzidas no intuito de ressaltar a importância desse conflito em seus diversos aspectos. A partir de diferentes perspectivas, muitas dessas ações têm como foco memórias afetas a indivíduos e/ou seus grupos sociais e seus processos de construção e reconstrução desde esse passado. Nesse sentido, é possibilitado um diálogo interdisciplinar entre a história e a arqueologia, notadamente no que se refere às diferentes representações desse passado e da relevância da memória e da materialidade, sob o prisma dessas duas áreas, respectivamente, na construção dessas representações e, principalmente, da memória sobre a participação brasileira naquele conflito. O presente estudo tem como principal objetivo analisar especificidades da memória nesse processo de permanente (re)construção e consolidação e a relevância da materialidade nesse decurso. Assim, são levantadas algumas considerações sobre essas memórias e seu distanciamento da guerra no mar – onde foi perdida a maioria absoluta das vidas brasileiras durante o conflito – e, consequentemente, da participação da Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Analisa-se o próprio naufrágio do navio-auxiliar Vital de Oliveira como vestígio desse passado, o único navio da força naval brasileira que naufragou em razão do ataque de um submarino alemão e cuja confirmação da localização foi apresentada pela instituição naval em janeiro de 2025. O artigo intenciona ainda ampliar o debate acerca da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e, principalmente, sobre o processo de (re)construção da memória relativa a um passado dinâmico e ainda presente.
This article examines inclusion and universal accessibility in four national museums located in Madrid's Paisaje de la Luz (Landscape of Light): the Prado National Museum, the Reina Sofía National Art Center Museum, the Thyssen-Bornemisza National Museum, and the National Museum of Decorative Arts. Using semi-structured interviews and thematic analysis with the MAXQDA tool, it has been possible to identify the strengths and difficulties they face in becoming fully inclusive museums, as well as their perceptions of museum accessibility. The most notable results show a genuine commitment to inclusion on the part of museums as a component of their activity as a public service. However, this is limited by various external factors such as funding, the legal framework, staff training, and dependence on management. In addition, the study confirms the persistence of a reductionist perspective on accessibility, focused mainly on the physical dimension, as well as the continuing difficulty of incorporating sensory, cognitive, communicative, and social dimensions into accessibility. In this regard, the Thyssen Museum stands out as a model of good practice and has obtained AENOR UNE 170001 certification. Finally, the study concludes that improvements in digitalization are necessary as a means of advancing toward more inclusive and accessible museum models, and it suggests the creation of a shared public service to provide operational support for cultural accessibility.
La fundación en 1895 del Museo Nacional de Bellas Artes fue un hito en el proceso de institucionalización del arte en la Argentina. Su primer acervo reflejó en gran medida los consumos de los coleccionistas que contribuyeron a su conformación. Asimismo, fueron decisivas en esta instancia inicial las intervenciones de Eduardo Schiaffino, director entre 1895 y 1910, mediante selección de obras de donantes particulares y en dependencias del Estado, así como por las contadas pero significativas adquisiciones. Los estudios sobre la historia del Museo y sus estrategias curatoriales en diferentes períodos no han identificado una lógica en la exposición inaugural de 1896, considerándola como la presentación aleatoria de piezas en el espacio. Sin embargo, la indagación en los escritos de Schiffino y en el catálogo editado para la ocasión nos lleva a proponer que la exposición de 1896 fue el escenario en el que Eduardo Schiaffino tuvo oportunidad de desplegar sus ideas sobre el arte nacional en formación y sus relaciones con la tradición y contemporaneidad europeas. Este primer discurso del Museo de 1896 cobra sentido en el entramado de ideas que en las últimas décadas del siglo XIX y primeras del XX en el medio local partieron del binomio arte-civilización y exaltaron la agencia educativa del museo.