
This paper aims at unveiling the interactional metadiscourse style of a prominent applied linguist, Douglas Biber. Comparisons are made between 25 of his research articles (RAs) to 126 RAs written by other applied linguists. In this work, a Corpus Linguistics (CL) methodological framework is proposed by using AntConc tools. The results show that the author’s interactional stylistic choices convey levels of certainty and uncertainty about his propositions; make his views explicit, comment on the message, and express evaluations (importance and suitability) and emotions (surprise); and directly involve readers in the ongoing discourse by overtly pointing them to other parts in the RAs. Strikingly, Biber’s interactional rhetorical practices are essentially evaluative and engaging, expressing solidarity, anticipating objections, and revealing the extent to which he works to jointly construct texts with his readers. As a result, the author’s tendency to pursue an interactional metadiscourse style reveals how an expert academic writer crafts an authorial style that may empower novice and other expert writers to craft a style that involves the audience in meaningful reading and writing experiences through academic texts.
Tomando como fundamento teórico a Semiótica Francesa, sobretudo em sua vertente tensiva, este artigo apresenta uma breve reflexão a respeito da crise de comunicação que se instaura, com frequência, no domínio testemunhal da catástrofe histórica. Nesse âmbito específico, a magnitude do acontecimento-catástrofe acaba por engendrar uma série de enunciados que sugerem uma espécie de impossibilidade discursiva, ora de ordem estritamente comunicativa (a experiência é “indizível”), ora de ordem assimilativa (a experiência é “incognoscível” ou “indecifrável”). Tal crise parece envolver, de maneira bastante ampla, dois actantes distintos: de um lado, um actante mais diretamente associado ao relato e, de outro, um actante mais diretamente associado à experiência sensível. Procuraremos mostrar que a crise de comunicação em pauta se constitui, preliminarmente, como manifestação de uma incompatibilidade tensiva entre os dois actantes e, subsequentemente, como marca de veridicção e mecanismo de resistência em face da banalização da experiência-limite.
Este artigo centra-se em aspectos relativos à análise da produção escrita de artigos científicos da área das Ciências Humanas. A reflexão ora apresentada advém de resultados de uma investigação mais ampla, uma Dissertação de Mestrado, que teve como objetivo central analisar e detalhar o papel das relações dialógicas na escrita de artigos científicos representativos das diferentes áreas do conhecimento. Com o objetivo de caracterizar como se configuram as relações dialógicas em artigos científicos da área das Ciências Humanas e discutir as implicações dessas relações para a construção da escrita científica, analisamos artigos científicos coletados em dois periódicos acadêmicos classificados no estrato A1 (Qualis), cujos fragmentos textuais ilustraram diferentes manifestações das relações dialógicas, examinadas com base nas classificações dos tipos e variantes de discurso discutidos em Bakhtin (2018) e em Volóchinov (2021). Metodologicamente, a análise empreendida baseou-se no estudo metodológico da língua exposto por Volóchinov (2021), conjugado com o paradigma indiciário (Ginzburg, 1991). Os resultados apontam como são diversas as diferentes formas de manifestação do dialogismo no gênero discursivo artigo científico e como os usos dos tipos e variantes de discurso orientam o processo de textualização dos artigos científicos na medida em que o discurso do outro é retomado, antecipado e citado.
Este artigo analisa criticamente as estratégias discursivas adotadas por uma empresa multinacional mineradora após o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho (MG), em 2019. Com base na Análise Crítica do Discurso (ACD), investiga-se como o discurso empresarial opera na construção da reputação corporativa e na legitimação de práticas hegemônicas em contextos de crise. Inserida no campo da Ecologia Humana, a pesquisa adota abordagem qualitativa, com triangulação entre documentos oficiais, relatórios institucionais e entrevistas com a população atingida. O referencial teórico articula conceitos como neocolonialismo, capitalismo de desastre, ethos organizacional, greenwashing e silenciamento simbólico, revelando mecanismos linguísticos utilizados para obscurecer responsabilidades, reorganizar a memória coletiva e neutralizar o luto social. A análise propõe um modelo replicável de leitura discursiva que identifica quatro facetas do ethos discursivo institucional: a empresa aprendiz, a mãe, o mito da força reconstrutora e a arauta do futuro. Em contraposição, emergem narrativas de teor testemunhal, por meio das quais os sujeitos atingidos resistem aos enquadramentos institucionais e inscrevem memórias subterrâneas que desestabilizam a versão oficial dos fatos. Os resultados evidenciam que o discurso da empresa funciona como instrumento de dominação simbólica, operando na normalização da desigualdade e no controle das formas de lembrar e narrar o desastre. Conclui-se que a linguagem corporativa, longe de ser neutra, exerce papel central na disputa por sentidos em territórios minerados. Esta análise almeja oferecer subsídios para o fortalecimento de políticas públicas de reparação e justiça socioambiental.
Esse texto tem por objetivo, sob a perspectiva do filósofo Jacques Derrida, pensar as narrativas de teor testemunhal como discursos de resistência. Com o fim de alcançar esse objetivo, o evento das ocupações de escolas em 2016 no Brasil perpassará todo o texto como uma empiria das reflexões apresentadas. Em seu desenvolvimento, o texto traz considerações sobre a impossibilidade de contar um acontecimento e, nessa linha, traz também, a partir da filosofia derridiana, algumas ponderações acerca das noções de verdade e de mentira. Concluímos, destacando a importância do testemunho, circunscrito ou não ao linguístico, como uma força coletiva de resistência.
Este artigo investiga a distribuição sintática e as condições de licenciamento de tópicos aboutness (–shifting), tópicos de informação dada e tópicos contrastivos no português brasileiro, a partir da tipologia de Frascarelli e Hinterhölzl (2007) e Bianchi e Frascarelli (2010). A investigação busca determinar quais tipos de tópicos podem aparecer nos seguintes contextos sintáticos: em posição canônica (i.e., sem alteração da ordem básica dos constituintes da sentença), deslocado para a periferia esquerda da sentença, deslocado para a posição pós-verbal na periferia de vP e deslocado à direita em posição final. Com base nas observações empíricas, o texto discute as condições de licenciamento de cada tipo de tópico e argumenta que apenas os tópicos do tipo aboutness(-shifting) estão sujeitos a uma bipartição da sentença em tópico-comentário, ao passo que tópicos de informação dada e tópicos contrastivos são licenciados com base em sua posição relativa ao foco da sentença. Ao final, o artigo propõe um mapeamento das posições marcadas de tópicos no português brasileiro e defende uma visão contextual para o fenômeno.
Este estudo busca analisar a construção do ethos discursivo na obra Atos humanos, de Han Kang (2021). O romance retrata a repressão violenta dos protestos pela democracia na Coreia do Sul, ocorrida em maio de 1980. O objetivo principal deste texto consiste na investigação do ethos discursivo perante as posturas adotadas e sua legitimidade na preservação da memória coletiva traumática para a reescrita da história a partir de outros ângulos. Para tanto, partiu-se de uma pesquisa bibliográfica qualitativa, considerando o discurso e o ethos discursivo (Maingueneau, 2008; 2015), o teor testemunhal (Seligmann-Silva, 2003), a memória (Halbwachs, 1990; Ricoeur, 2007), o trauma (Caruth, 1996) e a resistência (Harlow, 1987). Além disso, há menções à necropolítica (Mbembe, 2018) e à condição de vida nua frente ao estado de exceção (Agamben, 2004). A narrativa de teor testemunhal atua como instrumento de resistência contra o silenciamento e apagamento impostos pela história oficial, estabelecendo um entrelace entre a ficção e a história em relação à memória do massacre de Gwangju. Assim, os enunciados revelam que o ethos discursivo em Atos Humanos promove o resgate da memória como ato de resistência e reparação histórica.
Este estudo investiga as representações linguísticas dos descendentes de imigrantes alemães no município de Niterói observando como esses sujeitos constroem, interpretam e valorizam a língua alemã no contexto contemporâneo. A pesquisa insere-se no campo da sociolinguística de contato e parte de um panorama histórico da imigração germânica no Brasil (Bezerra, 2015; Lang, 2002). A fundamentação teórica mobiliza o conceito de representação linguística, discutido a partir de autores como Petitjean (2009), Gueunier (2003) e Calvet (1998), enfatizando o caráter simbólico e social das percepções linguísticas. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa baseada em entrevistas sociolinguísticas semiestruturadas, realizadas com doze descendentes de alemães residentes em Niterói. Os resultados indicam uma relação predominantemente distante com a língua e a cultura alemãs, marcada pela perda intergeracional do idioma, pelo pouco contato com parentes europeus e por uma desconexão cultural reforçada por fatores como barreiras linguísticas e limitações econômicas. Ainda assim, observa-se entre os participantes um forte desejo de preservar a memória familiar, assim como uma valorização simbólica das raízes germânicas. A análise evidencia como as representações linguísticas articulam identidade, memória e pertencimento, revelando as tensões entre herança cultural e assimilação linguística no contexto brasileiro.
The objective of this article is to show how a multimedia franchise can be studied through terminological lenses. The Star Wars saga was chosen for the study due to its huge amount of material available on the internet. The theoretical framework comprises the Terminology area (more specifically, the Communicative Theory of Terminology and Ethnoterminology), the Terminography, a lexical analysis suite (WordSmith Tools) used for the work with concordance lines from the saga and the development of the Terminology in Fiction platform. The methodology presents many steps, from the choice of the material, the selection of term candidates from the WordSmith Tools suite up to the exploration of the concordance lines of these candidates to create entries in the Terminology in Fiction platform. The platform is also analysed, from the creation of the project up to the entries development. As a result, we present one example (of many available at the platform) of a Star Wars monolingual entries in contrast (available in Portuguese and English), useful for translators, fans and for those curious about how terminology permeates even fictional works.
Resumo: O objetivo deste artigo é analisar as relações entre políticas educacionais e linguísticas e um livro didático de português. Especificamente, analisar como concepções de linguagem ofereceriam pistas de políticas linguísticas implícitas. O trabalho se concentra nas políticas do Estado Novo para o ensino de português e no Manual de Língua Portuguesa, publicado, em 1945, pela Companhia Editora Nacional. Como arcabouço teórico, assume-se uma abordagem discursiva, de linha francesa, recorrendo, sempre que necessário, às contribuições da história da educação. Do ponto de vista metodológico, em uma pesquisa qualitativa e documental, analisa-se, a princípio, o Manual quanto à legislação educacional do Estado Novo, particularmente, o decreto-lei do livro didático, nº 1.006 de 30 de dezembro de 1938, em busca de políticas linguísticas explícitas. Em seguida, propõe-se uma análise linguístico-discursiva de suas concepções de linguagem, em busca de políticas linguísticas implícitas. Quanto às políticas explícitas, constatou-se que, submetido ao controle do Estado, o Manual cumpria exigências legais não somente nos conteúdos e métodos de ensino, mas também nos usos da língua, interditando “linguagens” consideradas “defeituosas” e adotando a ortografia oficial. Quanto às políticas implícitas, constatou-se que o livro se alinhava a um processo de organização, conservação e unificação nacional. Esse processo se marcava pela dupla expressão de uma concepção de linguagem como forma pura, ora pela afirmação da elegância, correção e pureza de certa escrita literária, ora pela negação de usos que escapassem a essas expectativas.
O presente número temático engloba quinze artigos de pesquisadores vinculados a diferentes instituições, os quais desenvolvem pesquisas, com base em abordagens teórico-metodológicas de natureza discursiva, que apresentam reflexões e/ou análises sobre narrativas de teor testemunhal, pensadas como uma possibilidade de resistência ao discurso hegemônico vigente. Privilegiar a narrativa como modo de organização do discurso permite destacar sua relação intrínseca com a dimensão temporal e com o agir humano, implicando, pois, sujeitos/narradores que, ao recuperarem, no presente da enunciação, marcas de um passado vivido ou presenciado, colocam-se como fiadores do que é dito e, ao mesmo tempo, contribuem para desestabilizar e questionar o discurso oficial, podendo contrapor-se ao negacionismo (esquecer/apagar o passado), ao silenciamento, à invisibilização social e aos estereótipos atribuídos a certos grupos em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, as análises e/ou reflexões empreendidas pelos autores dos artigos possibilitam apreender e aprofundar as articulações e tensões que atravessam os conceitos de narrativa, testemunho e resistência, lançando novas luzes sobre eles e colaborando, dessa forma, para sua compreensão no campo dos estudos do discurso.
Este artigo propõe uma análise discursiva do testemunho de Nair Yumiko Kobashi, ex-presa política durante a ditadura militar brasileira, com base no capítulo “Pequenas estratégias de sobrevivência”, publicado na coletânea Tiradentes: um presídio da ditadura (Freire; Almada; Ponce, 1997). A investigação focaliza a mobilização dos afetos como estratégia argumentativa e como um meio de resistência simbólica, observando como o discurso da autora ressignifica a experiência da prisão por meio da valorização da solidariedade, do humor e do cotidiano partilhado entre as detentas. O objetivo é compreender de que forma a linguagem sustenta e performa esse contradiscurso, ativando a memória como forma de resistência simbólica e política. A análise apoia-se nas contribuições de Christian Plantin (2010), Veena Das (2007), Michael Pollak (1989), Marianne Hirsch (1992-93) e Ruth Amossy (2008), articulando as noções de tópicas da emoção, memória subterrânea, pós-memória e ethos discursivo. Conclui-se que o testemunho de Kobashi constitui um (contra)discurso de resistência que inscreve na cena pública uma memória sensível e ética da repressão, projetando um legado pós-memorial que interpela o presente e as futuras gerações.
A Lei n.º 13.415 (Brasil, 2017), ao instituir a reforma do Ensino Médio, reorganiza o espaço escolar e convoca o sujeito-professor a se significar em novas condições de produção, marcadas pela lógica da flexibilização. Nesse cenário, este artigo analisa enunciados de sujeitos- professores de línguas da rede pública estadual de Chapecó/SC, chamados a lecionar nos Itinerários Formativos, tomando-os como testemunhos inscritos na linguagem a partir de um lugar de deslocamento. O objetivo é compreendê-los não como relatos individuais, mas como dizeres atravessados pela memória, pela ideologia e pelo confronto com o que se institui como verdade sobre a escola pública. A pesquisa ancora-se na Análise de Discurso de linha francesa, conforme formulada por Orlandi (1999 [2020]), em articulação com as noções de memória subterrânea (Pollak, 1989) e de testemunho como gesto que não se fecha no sentido (Mariani, 2016). O corpus é composto por três sequências discursivas recortadas de entrevistas realizadas em 2022, nas quais o funcionamento da linguagem se marca por hesitação, repetição e metáfora. Esses elementos produzem efeitos de sentido que apontam para um real resistente à simbolização e reinscreve modos de ser e estar professor na escola pública. Desse modo, o sujeito-professor aparece atravessado por uma memória que escapa à política oficial e reinscreve a experiência do ensinar como gesto ético-político. O testemunho, nesse funcionamento, não organiza a memória como lembrança, mas como insistência que desestabiliza consensos e abre espaço para outras possibilidades de escuta sobre a escola pública.
A iconicidade pode ser caracterizada como uma semelhança entre certos aspectos de uma forma linguística e certas aspectos de seu sentido. Com o objetivo de investigar o papel dessa propriedade na aquisição de palavras do português, replicamos o experimento de Perry, Perlman e Lupyan (2015) e coletamos a percepção de iconicidade de 504 participantes para uma amostra de 521 palavras do português brasileiro (PB). A partir das avaliações coletadas, examinamos a relação da iconicidade e a idade de aquisição de palavras, cuja relação é perpassada por métricas como frequência e concretude. Utilizamos o corpus de palavras e a idade de aquisição para o português disponíveis no MCDI (MacArthur-Bates Communicative Developmental Inventory); recorremos à frequência de palavras disponível no site O Corpus do Português e realizamos um experimento de percepção de concretude. Por meio de análise de regressão linear, nossos resultados indicam que palavras aprendidas mais cedo também apresentam maior índice de percepção de iconicidade no PB. Ao comparar nossos resultados com os de inglês (Winter et al., 2023) e de espanhol (Hinojosa et al., 2021), encontramos que, assim como nas duas línguas, as categorias com maior nota de iconicidade no PB foram onomatopeias e interjeições. Entretanto, divergindo dos indicativos do inglês e do espanhol, os verbos, no PB, obtiveram pontuações mais altas que os substantivos, enquanto não houve diferença significativa no espanhol e, no inglês, os verbos obtiveram notas mais altas.
Esta pesquisa analisa o discurso nos relatos de violência sexual de ex-presas políticas apresentados à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no contexto do regime ditatorial-militar brasileiro, e à Truth and Reconciliation Commission (TRC), no contexto do apartheid sul-africano. Os relatos são divididos em dois grupos: testemunhos de mulheres à CNV e testemunhos de mulheres à TRC. O objetivo é compreender como o gênero é performado nesses relatos, à luz das formulações de Butler (2018), em diálogo com Segato (2022) e Foucault (1970, 1975). O artigo, com foco em discursos de negação e justificativa da violência sexual, conclui que a impunidade dos perpetradores de violência sexual durante esses regimes, violência essa respaldada pelo Estado, aliada à forma limitada com que as comissões da verdade trataram o tema, contribuiu para a naturalização e a persistência da violência contra a mulher nas sociedades contemporâneas. Os relatos são analisados por meio da ferramenta de análise linguística Sketch Engine, tendo, assim, a Linguística de Corpus como abordagem metodológica. Essa análise parte de uma perspectiva decolonial de análise crítica do discurso.
O presente artigo objetiva analisar o Jornal A Sirene como instância produtora de narrativas testemunhais que constituem práticas discursivas de resistência das populações atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão (Mariana) em 2015. Passados quase dez anos desse acontecimento, o jornal continua sendo uma ferramenta de preservação da memória e de mobilização dessas comunidades contra o poder hegemônico das empresas de mineração (Samarco/Vale e BHP Billiton) e a impunidade relativa à efetiva reparação dos danos causados pelo maior crime socioambienal do país. No momento em que grande parte dessas comunidades discute o Novo Acordo de Repactuação, aprovado em novembro de 2024, é relevante e oportuno analisar as estratégias discursivas testemunhais utilizadas pelos atingidos e publicadas nesse jornal, que se tornou o seu principal veículo de comunicação e de luta contra o esquecimento, o trauma e a injustiça. A fundamentação teórica e metodológica utilizada integra categorias de diferentes abordagens, destacando-se o conceito de atingidos/pessoas atingidas (Gomide et al., 2018; Souza; Carneiro, 2019), a relação entre as noções de memória (Ricoeur, 2007; Paveau, 2015) e de testemunho (Amossy, 2004, 2011; Tocaia, 2024; Seligmman-Silva, 2010; Nascimento, 2007); e ainda, a sua articulação com a análise pragmática da narrativa (Motta, 2013; Ricouer, 1994). A metodologia caracteriza-se como uma abordagem qualitativa de natureza heurística, desenvolvendo-se em função de excertos recortados do jornal em questão.
A educação de Surdos apresenta desafios na implementação da modalidade de educação bilíngue, no âmbito das políticas linguísticas e educacionais vigentes. A partir da discussão sobre a configuração da educação bilíngue em espaços escolares em Portugal e no Brasil, este artigo analisa narrativas de teor testemunhal de docentes Surdos Professores de Língua Gestual Portuguesa (LGP) e Professores de Língua de Sinais Brasileira (LIBRAS), colocando-as em contraponto ao panorama das políticas educativas marcadas na legislação atual e desenvolvendo uma análise qualitativa e exploratória. Como resultado, identifica-se uma visão reducionista das políticas educacionais vinculadas à educação especial, que veem as Línguas Gestuais/de Sinais como instrumentos de apoio à comunicação, desconsiderando seu valor cultural e identitário; adverte-se que as escolas estão centradas no desenvolvimento da oralidade e terapias da fala, menorizando o papel da Língua Gestual/de Sinais e identificam-se esforços de defesa das Línguas Gestuais/Sinais e de presença da Cultura Surda enquanto topos de resistência. Conclui-se que a educação de Surdos requer revisões na política linguística e educacional, com um incremento do investimento na formação profissional docente (inicial e continuada) e com políticas públicas de valorização e divulgação das Línguas Gestuais/de Sinais. Para além da necessária revisão das políticas vigentes, faz-se fundamental uma monitorização da aplicação do modelo bilíngue para alunos Surdos no espaço escolar.
Este trabalho tem como objetivo expor o percurso de pesquisa que temos realizado sobre a noção de testemunho no quadro teórico-metodológico da Análise de Discurso (materialista). Para tanto, inicialmente, retomamos alguns postulados teóricos da AD, como as noções de discurso, de interpretação, de ideologia etc. Em seguida, junto a Mariani (2016, 2021, 2023), produzimos um breve gesto de leitura da noção de testemunho, atrelando-a às de resistência e revolta, aqui entendidas como efeitos discursivos. À medida que a exposição teórica é realizada, para fins de análise, tomamos como corpus os testemunho de Primo Levi, sobrevivente ao Holocausto (1941-1945), em É isto um homem? (1947) e Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades (1986); e de Frei Betto, encarcerado durante a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), em Cartas da prisão (2017). Esta reflexão aponta para a importância da continuidade da análise do testemunho em sua espessura discursiva, isto é, linguístico-histórica.
Este artigo tem por objetivo delinear um breve histórico do problema da relação criança-outro no campo da aquisição de linguagem. Para tanto, inicialmente, introduz o debate sobre duas visões do problema, uma visão dual e uma visão triádica. Em seguida, examina duas propostas, cada qual representativa de uma visão: a proposta de Jerome Bruner, representativa da visão dual (criança-outro), e a proposta de Cláudia de Lemos, representativa da visão triádica (criança-outro-língua). Os resultados conduzem à conclusão de que as duas visões, embora convirjam na tomada do diálogo como unidade analítica, divergem tanto em termos metodológicos (elegendo para análise distintos períodos da trajetória linguística da criança) quanto em termos teóricos (assumindo diferentes concepções de linguagem/língua, cultura, aquisição, sujeito, outro e interpretação).
Esta pesquisa investiga a interação entre a dinâmica das sentenças interrogativas e o fenômeno de falha de pressuposição à luz da semântica e da pragmática formais. O estudo focaliza perguntas polares com descrições definidas, que desencadeiam pressuposições de existência e unicidade. Objetiva-se compreender como tais falhas influenciam a dinâmica contextual e em quais situações o interlocutor acomoda ou contesta a pressuposição. Também buscam-se descrever formalmente os efeitos pragmáticos e conversacionais decorrentes dessas respostas. A pesquisa justifica-se pela escassez de estudos formais sobre interrogativas no português brasileiro e pela lacuna na literatura sobre falhas de pressuposição e suas implicações na interação conversacional. Adotou-se o método introspectivo, em que se construiram contextos comunicativos com perguntas polares seguidas de respostas variadas, permitindo-se observar processos de acomodação, nos quais o ouvinte integra a informação pressuposta ao common ground, e de contestação, em que a pressuposição é negada e substituída por uma proposição alternativa. Exemplos como O gato da pracinha foi adotado? evidenciam que respostas como Não sabia que tinha um gato na pracinha configuram acomodação, enquanto respostas como Não tem nenhum gato na pracinha ou Tem muitos gatos na pracinha caracterizam contestação. Nos casos de falha de pressuposição de existência, a contestação impede a pergunta de ser respondida, retirando-a do question set. Já na contestação da unicidade, a pergunta permanece, subdividindo-se para refletir múltiplos referentes possíveis. Em síntese, o estudo contribui para a compreensão dos mecanismos formais que regem o comportamento semântico-pragmático das interrogativas no PB, destacando como interlocutores interagem diante de falhas pressuposicionais e atualizam o contexto conversacional.