
Este artigo analisa expressões verbais designativas do transe religioso e mecanismos dêiticos em duas religiões extáticas brasileiras — o candomblé e a Igreja Universal do Reino de Deus —, inscrevendo-se na Semântica Histórica da Enunciação e na Análise do Discurso materialista. Propõe-se o conceito de atribuição predicativa do lugar sintático, a partir de Dias (2015). A análise mostra que, no candomblé, as expressões nominais que designam o sujeito-no-transe (X) e o sujeito-do-transe (Y) distribuem-se de modo intercambiável, materializando uma relação de coabitação entre o Mesmo e o Outro. Na IURD, X ocupa sistematicamente o lugar de locativo e Y o de sujeito, materializando uma relação de ocupação. A análise dêitica, mobilizando a noção de heterogeneidade mostrada (Authier-Revuz, 1990), revela que o candomblé produz uma prática de autoalterificação, enquanto a IURD visa restaurar a equivalência corpo-sujeito pelo exorcismo — processo denominado mesmificação. Esses dois modos de subjetivação materializam projetos políticos distintos: o candomblé como prática contracolonial e contracapitalista; a IURD como prática de individuação compatível com a lógica capitalista.
Este trabalho apresenta resultados da pesquisa desenvolvida na monografia de conclusão de curso de Souza, que investigou o tratamento da concordância nominal de número em material didático destinado à rede municipal do Rio de Janeiro. O estudo analisou o material RioEduca (SME-RJ, 2024) a partir da interface entre Sociolinguística (Weinreich, Labov, Herzog, 1968) e a Teoria Gerativa (Chomsky, 1965), com o objetivo de discutir caminhos para o ensino de língua portuguesa que não se restrinjam exclusivamente ao viés tradicional, frequentemente pautado pela dicotomia certo/errado e pela limitada reflexão sobre o funcionamento da língua em uso. Essas perspectivas linguísticas, articuladas, contribuem para a defesa de um ensino epilinguístico da gramática, isto é, orientado para a reflexão sobre o conhecimento linguístico internalizado com o qual o falante chega à escola. A análise do caderno de língua portuguesa de 2024, destinado ao 8º ano, evidenciou que o material apresenta tratamento superficial do fenômeno e privilegia orientações normativas voltadas à revisão da produção textual, sem promover reflexão sistemática sobre a estrutura do sintagma nominal. Como alternativa, propõe-se uma sequência de atividades destinada a estudantes do 8º ano, que busca explorar o conhecimento linguístico dos alunos e promover reflexão sobre o funcionamento da concordância nominal no português brasileiro, contribuindo para uma abordagem epilinguística da gramática que integra reflexão estrutural e consciência sociolinguística.
Este artigo analisa o comportamento morfossintático e semântico do pronome "você" no português brasileiro no quadro da Morfologia Distribuída. Argumenta-se que "você" não possui traços de pessoa em seu nó terminal, o que explica tanto a concordância verbal de terceira pessoa quanto a ausência da pressuposição que barraria a leitura de segunda pessoa; a interpretação de interlocutor é atribuída ao componente dêitico, e não a traços morfossintáticos. Examina-se e descarta-se a análise alternativa por empobrecimento de traços, cuja condição de aplicação não se formula para as variedades em que "tu" preserva a concordância de segunda pessoa. Para a leitura impessoal do pronome, sujeita a restrições aspectuais, modais e sintáticas aqui descritas, adota-se a proposta de Zobel (2014), segundo a qual a variável introduzida pelo pronome é ligada por um operador genérico. Discutem-se, por fim, as implicações desses resultados para o ensino de língua portuguesa na educação básica, com propostas de atividades voltadas à reflexão metalinguística.
Na Educação Básica, a organização dos conteúdos do ensino de sintaxe do período simples comumente se dá seguindo a ordem da própria definição em “termos essenciais, integrantes e acessórios da oração”. Tal organização, contudo, não dialoga com a estrutura hierárquica dos constituintes de uma sentença e com o conhecimento inato de um falante nativo de PB, o que pode dificultar o processo de aprendizagem desses conteúdos. Nesse contexto, apresentamos uma análise acerca de como os tópicos de análise sintática são abordados em três materiais didáticos de Ensino Médio, partindo do pressuposto de que, embora documentos oficiais proponham uma abordagem reflexiva da linguagem, o ensino de gramática ainda se mantém fortemente ancorado na Gramática Tradicional, com ênfase classificatória e pouca articulação com a competência linguística intuitiva dos estudantes. Como contribuição, o artigo propõe uma reorganização do ensino de sintaxe fundamentada nos princípios da Gramática Gerativa, priorizando noções como sintagma, constituência e estrutura argumental, de modo a alinhar o ensino escolar ao funcionamento cognitivo da linguagem. Defendemos que uma abordagem que considere a gramática internalizada dos estudantes pode favorecer uma apreensão mais assertiva das estruturas sintáticas e, também, um olhar mais reflexivo e crítico acerca das limitações da taxonomia da NGB.
O objetivo deste trabalho é traçar um panorama histórico dos contextos de mudança relativos ao uso de preposições que introduzem objetos indiretos em português brasileiro (PB), assim como abordar as consequências dessas alterações no ensino de português para brasileiros. Os dados analisados evidenciam que a descrição apresentada nas gramáticas normativas e nos materiais didáticos não condiz com a realidade da língua em uso. A partir dessas constatações, apresentaremos propostas de estratégias de ensino que acomodam tanto as mudanças diacrônicas ocorridas no PB, como o estatuto real das preposições e pronomes no cenário do PB moderno. Assumimos, portanto, que o ensino de português não deve ser prescritivo, mas sim explicativo (Possenti, 1996, Leffa, 2014). O aprendizado deve partir do conhecimento internalizado do aluno para que, então, se construa a sistematização do funcionamento das regras que compõem a gramática dos falantes (cf. Chomsky, 1981, 1986). Logo, é necessário pensar em um aprendizado integrado, que não separe os níveis de análise linguística, mas que unifique questões sintáticas e semânticas, por exemplo. Por fim, as atividades propostas em aula devem ter alguma função prática e efetiva, e ser relacionadas ao conhecimento de falante nativo do aluno.