
Objetiva-se, no presente estudo, refletir sobre os processos utilizados nos relatórios administrativos do então prefeito Graciliano Ramos, quando gestor municipal da cidade alagoana de Palmeiras dos Índios, à luz da teoria da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de Halliday. Os relatórios em análise (dois) foram os únicos produzidos pelo próprio Graciliano e ali já era possível vislumbrar um escritor (até então inédito). Esses relatórios foram escritos em 1929 e em 1930, referentes aos dois anos de mandato do prefeito Graciliano Ramos (1928 e 1929 respectivamente). O aporte teórico pautado na LSF toma como foco a metafunção ideacional da linguagem, a partir da variável do contexto campo, dentro do sistema de transitividade. A análise se deu a partir da discussão de processos utilizados nesses dois relatórios, referendada pela proposta teórico-metodológica calcada nos princípios da LSF, sob a égide de um estudo qualitativo, de base interpretativista. As análises revelaram um dizer peculiar do autor dos relatórios, para além do objetivo do gênero analisado. Os usos dos processos destacados mostraram duas estratégias na escrita do autor alagoano: i) busca se resguardar de críticas quanto à sua gestão; ii) mostra-se crítico quanto a gestos de pessoas ligadas à gestão atual e de anteriores, funcionando como uma espécie de denúncia. Entende-se, portanto, que os escritos analisados, embora pressuponha uma escrita mais técnica, aproximam-se mais dos moldes da escrita literária, graças à habilidade escritora presente, sem se descuidar, contudo, do objetivo do gênero em questão.
A formação de professores de Língua Portuguesa e Literatura, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, requer estudo e vivência da realidade para que a relação docente com a sociedade seja pautada na compreensão de suas problemáticas e potencialidades (Candau, 2008). Nessa perspectiva, este artigo analisa uma experiência formativa de futuros professores de Letras vivenciada em atividades extensionistas que promovem clubes de leitura e de escrita em contexto prisional no Amazonas. Para tanto, analisam-se, de forma qualitativa e interpretativista (Denzin; Lincoln, 2006) os dizeres de alunos extensionistas em entrevista estruturada e registros memorialísticos realizados durante um ano de participação em programa de extensão. Com base nas discussões da pedagogia crítica (Freire, 2000), da pedagogia decolonial (Walsch, 2013) e da busca pela superação das consequências das desigualdades sofridas pelos povos historicamente subalternizados (Mignolo, 2003; Russel; Souza, 2024), compreende-se, ao final das análises, que a formação de professores na vivência de clubes no contexto prisional promove aprendizados pautados na justiça social, porque reconhece pessoas, produz encontros de subjetividades (Rouxel, 2023) e cria revoluções do pensamento, impulsionando modos de participação, interpretação e diálogo, bem como a autonomia e a apreciação estética da vida por meio da leitura e da literatura.
Este estudo propõe refletir sobre o planejamento apriorístico, uma expressão que se relaciona ao ato de escrever, de argumentar, estabelecendo um diálogo com algumas ideias da Filosofia, mais precisamente de Immanuel Kant. A hipótese é de que a aplicação desse tipo de planejamento pode, do ponto de vista racional, auxiliar os alunos no processo e na construção de uma escrita argumentativa. Do ponto de vista teórico e metodológico, tomamos como base as leituras de Cabral (2008), Adam (2011), Charaudeau (2016), Kant (2001), Silva (2017), Marcuschi (2008), Koch; Elias (2016), Coelho (2016), Emediato (2007) e outros. O corpus analisado compreende alguns trechos de redações do ENEM 2015, que teve como tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". A escolha temática se deve em função da grande relevância social, dada a sua recorrência nos espaços midiáticos e por compreender um assunto que vem se tornando cada vez mais um problema grave: a misoginia. Palavras-chave: Linguística Textual; Teoria da Argumentação da Língua; Filosofia; Escrita; Planejamento apriorístico
Este estudio analiza los desafíos lingüísticos que enfrentan aprendices brasileños de español como segunda lengua, sus creencias sobre las variedades lingüísticas a las que están expuestos y propone orientaciones para mejorar la enseñanza de la pronunciación en contextos de lenguas afines. La investigación se basó en un corpus auténtico compuesto por una ficha sociolingüística de los participantes, sustentada en los aportes de Pennington (1994) y Nobre y Almeida (2012), quienes destacan que la adquisición fonético-fonológica de una L2 implica superar barreras fisio-psicológicas y socioculturales, siendo la autoevaluación un elemento central del proceso. Los resultados muestran que la proximidad entre portugués y español favorece la comunicación inicial, pero también puede contribuir a la fosilización de errores fonéticos. Asimismo, la limitada exposición a diferentes variedades dialectales restringe el desarrollo de una pronunciación más competente, tanto en términos de conciencia fonológica como de ritmo del habla. En este sentido, el estudio confirma que factores como la transferencia lingüística, la motivación y la diversidad de input influyen directamente en la inteligibilidad comunicativa. Además de ampliar el conocimiento en adquisición de segundas lenguas, la investigación ofrece orientaciones prácticas para la didáctica del español y abre perspectivas para futuros estudios con enfoques pedagógico y socioculturales.
O presente estudo analisa de que modo o ensino de espanhol na educação básica pode atuar como ferramenta de promoção da educação antirracista, por meio do letramento racial e da valorização de saberes linguísticos e culturais afrodescendentes. Para tanto, fundamenta-se na Linguística Aplicada, em perspectivas decoloniais, e na noção de justiça social a partir de autores como Moita Lopes (2009; 2015), Bagno (2015), Bell (2016), Ribeiro (2019). Nascimento (2019), etc. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, descritivo-interpretativista, estruturada como pesquisa-ação. Esta, surge mediante um projeto que foi desenvolvido em uma escola pública estadual em João Pessoa (PB), com estudantes do ensino médio, articulando práticas pedagógicas voltadas à reflexão crítica do racismo linguístico, à desconstrução de paradigmas eurocêntricos ao ensino do espanhol como língua estrangeira (LE). Entre os resultados, destacam-se o engajamento discente durante o processo, a ampliação da consciência crítica e o fortalecimento da valorização identitária e intercultural. Conclui-se que o ensino de LEs, quando pautado em princípios antirracistas, contribui significativamente para formação cidadã e a transformação social.
Neste estudo, discutimos as praxiologias de três professoras de língua inglesa que atuam em escolas públicas do estado de Goiás, a fim de problematizá-las à luz de perspectivas interculturais críticas e decoloniais de educação linguística (DUBOC, 2018; FREIRE, 2023; NUÑEZ-PARDO, 2018; OLIVEIRA; SABOTA, 2020; PENNYCOOK, 2021; PESSOA; PINTO, 2013; PRADO, 2021; QUIJANO, 2005; REZENDE et al., 2020; REZENDE, 2022; RODRIGUES; SILVESTRE, 2020; SEGATO, 2021; WALSH, 2009, 2023). O estudo, de cunho qualitativo interpretativista, foi desenvolvido a partir de um grupo focal realizado em três encontros virtuais, nos quais as participantes compartilharam relatos e registros de suas práticas pedagógicas. Seguindo uma concepção crítica de praxiologias docentes (PESSOA et al., 2021), procuramos articular teoria e prática ao longo da discussão dos dados, entrelaçando-os de maneira mútua e interdependente e, portanto, não separando-os em seções distintas. Os resultados evidenciam esforços praxiológicos marcados pela contextualização sociocultural das aulas e pela busca de justiça social, ao mesmo tempo que expõem concepções funcionalistas de interculturalidade e dificuldade em adotar práticas decoloniais mais contundentes. Conclui-se, assim, que as praxiologias abordadas se constituem como processos situados, contraditórios e inacabados, demandando constante inquietação e ressignificação no contexto da escola pública.
Este artigo investiga a relação entre conformidade e evidencialidade no Português Brasileiro (PB), à luz da Gramática de Construções Baseada no Uso (GCBU). Partindo da concepção de evidencialidade como categoria que indica a fonte da informação, argumenta-se que construções conformativas integram o conjunto de estratégias evidenciais disponíveis no PB. O estudo focaliza os seguintes esquemas: [Segundo X], [Para X], [Como X], [De acordo com X], [Com base em X], analisadas a partir de dados sincrônicos extraídos de textos da revista Superinteressante (2020-2021), corpus desenvolvido por Oliveria (2018). A análise demonstra que as construções conformativas não apresentam funcionamento homogêneo: enquanto alguns usos operam no plano sintático-semântico, introduzindo parâmetros internos ao evento (conformidade circunstancial), outros atuam no plano pragmático-discursivo, estabelecendo ancoragem enunciativa e indicando a fonte do saber mobilizado (conformidade evidencial). Defende-se que tais diferenças refletem a organização em rede do constructicon, envolvendo relações de herança entre esquemas, subesquemas e microconstruções, e contribuem para a compreensão do continuum léxico-gramatical da evidencialidade no PB.
Ao aprender uma língua, um aspecto importante para o desenvolvimento da oralidade está relacionado à pronúncia. Porém, para que os docentes possam realizar um trabalho efetivo voltado para esse conteúdo, convém que tenham os conhecimentos teóricos adequados e uma sólida formação para sua aplicação didática. A fim de verificar se a referida prática é oferecida aos docentes em sua formação inicial, este trabalho objetiva analisar os planos de curso da graduação em Espanhol nas universidades do Rio de Janeiro. Para tanto, tomamos como base teórica Pinho (2021), que propõe a abordagem dos conteúdos fonético-fonológicos em dois momentos: um teórico e outro prático. Realizamos uma pesquisa documental, pois tomamos como corpus os referidos planos, e procedemos à análise do conteúdo (Bardin, 2016). Os resultados indicam que as instituições oferecem uma base teórica adequada para os conteúdos fonético-fonológicos, em uma disciplina específica, além de quase todas também os trabalharem nos períodos iniciais de aprendizagem da língua. Quanto à formação pedagógica, porém, o tema pode ser depreendido de forma ampla pelos planos de curso, mas nenhuma instituição o aborda claramente. Diante dessas lacunas, cabe revisar os referidos planos, com a finalidade de oferecer uma formação mais adequada quanto aos conteúdos em questão.
O presente artigo analisa o Edital Nº 26/25 da Universidade Federal de Roraima (UFRR), que institui um processo seletivo específico para o ingresso de solicitantes de refúgio, refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade. Partindo do arcabouço epistemológico da Linguística Aplicada crítica e indisciplinar (Moita Lopes, 2006), investigamos como as políticas linguísticas de acolhimento se materializam em um instrumento de acesso ao Ensino Superior. Argumentamos que, embora o edital represente uma política de ação afirmativa fundamental, suas exigências, como a prova de redação em língua portuguesa, podem revelar descompassos dos debates atuais sobre acolhimento linguístico e acolhimento entre línguas (Zambrano, 2021). Por meio de uma análise documental crítica, examinamos como o edital articula (ou deixa de articular) o acesso à permanência, e discutimos as implicações de suas escolhas para a construção de um ambiente universitário verdadeiramente inclusivo e decolonial. Concluímos apontando para a necessidade de repensar os mecanismos de acesso ao Ensino Superior.
A formação de professores de Língua Inglesa (LI) na Educação Escolar Quilombola (EEQ) envolve dinâmicas afetivas, epistêmicas e sociopolíticas que ultrapassam modelos tradicionais de ensino. Este artigo analisa narrativas de cinco professores que atuaram em escolas quilombolas da Amazônia Marajoara, buscando compreender como emoções, práticas decoloniais e processos de auto-organização emergem no ensino de inglês. A pesquisa ancora-se no paradigma da complexidade (Morin, 2005; Larsen-Freeman; Cameron, 2008), na perspectiva afetiva da Linguística Aplicada (Aragão, 2011; Barcelos, 2015; Zembylas, 2003) e em aportes da decolonialidade (Quijano, 2000; Mignolo, 2007; Walsh, 2018). Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, utilizando narrativas docentes como eventos emergentes de Sistemas Adaptativos Complexos. Os resultados evidenciam que emoções como medo, esperança, orgulho e empatia operam como fatores que modulam práticas pedagógicas e promovem reorganizações curriculares situadas. Além disso, emergem gestos decoloniais que aproximam o inglês dos saberes comunitários, fortalecendo identidades quilombolas. Conclui-se que o ensino de inglês na EEQ constitui um ecossistema vivo, no qual complexidade, afetividade e decolonialidade se entrelaçam na construção de práticas de justiça social.
Moçambique possui uma diversidade de línguas bantu que compartilham o mesmo espaço com português, a língua oficial. Qual é o lugar da língua Emakhuwa na Cidade de Pemba? A pesquisa visa discutir o lugar da língua Emakhuwa na Cidade de Pemba e na sociedade moçambicana. Especificamente visa: (a) analisar como é tratada a política linguística em Moçambique, (b)debater criticamente o tratamento das línguas bantu moçambicanas em relação à língua portuguesa e; (c) compreender o cumprimento dos direitos linguísticos no território moçambicano. A pesquisa é relevante porque problematiza o lugar da língua Emakhuwa, em todos os níveis de atuação e convivência na comunidade de fala. A Metodologia utilizada neste trabalho foi a pesquisa quantitativa, e o instrumento de coleta de dados foi o questionário online (google forms) composto por 28 perguntas sendo 27 fechadas e 1 aberta. O questionário foi respondido por 57 informantes, todos residentes na Cidade de Pemba. Desta pesquisa, conclui-se que o lugar da língua Emakhuwa na Cidade de Pemba, não deve ser apenas nos mercados, parques de transportes rodoviários, nos ritos de iniciação, nas práticas religiosas, na transmissão da cultura, nas campanhas eleitorais, na comunicação com os vizinhos. Essa língua poderia ser língua do Ensino, da Justiça, desde que haja vontade política a sua oficialização. A língua Emakhuwa merece ter o direito de ter espaço em ambientes administrativos e escolares, por isso que a proposta da Educação Bilíngue em Moçambique é importante e urgente para que as línguas não se percam ao longo tempo.
O artigo discute o ensino de português brasileiro como língua de acolhimento em contextos migratórios, a partir da interlocução entre a psicanálise, a educação linguística crítica e perspectivas decoloniais de formação docente. O objetivo é refletir sobre os efeitos subjetivos da aprendizagem do português como língua de acolhimento por sujeitos em situação de migração, bem como sobre as implicações desses efeitos para a formação de professores de línguas em contextos migratórios. O referencial teórico articula contribuições da psicanálise (Freud, Lacan, Melman, Gebrim), dos estudos da linguagem e da educação crítica e decolonial (Freire, Walsh, Moita Lopes). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de base interpretativa, fundamentada em relatos de experiências vividas em turmas de nivelamento de português brasileiro ofertadas a imigrantes haitianos e venezuelanos no âmbito de um programa de extensão universitária. A análise de episódios de recusa e esquecimento linguístico evidencia que a aprendizagem da língua de acolhimento envolve conflitos simbólicos relacionados à filiação, ao desejo e ao pertencimento. Conclui-se que a formação docente precisa deslocar-se de modelos técnicos e assimilacionistas para assumir uma ética do cuidado, da escuta e do acolhimento da heterogeneidade, reconhecendo o professor como agente de transformação social em contextos de migração.
O presente artigo objetiva investigar como a homossexualidade emerge discursivamente ou se é silenciada em quatro coleções de livros didáticos de Língua Inglesa aprovadas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2024, sendo duas da Editora FTD e duas da Editora Moderna. Fundamentada em Michel Foucault (1979; 1987; 1996, 1999; 2008) sobre o discurso, o poder e o dispositivo da sexualidade, articulados às reflexões de Guacira Louro (1997; 2000; 2004) sobre gênero e sexualidade na educação, a pesquisa articula uma abordagem metodológica lexicológica e discursiva. Na primeira etapa, realizamos um levantamento de termos relacionados à homossexualidade e à sexualidade nos livros. Na segunda, descrevemos e analisamos os sentidos produzidos, e os silêncios mantidos, em torno do tema. Os resultados apontam para um silenciamento sistemático do tema homossexualidade nos livros didáticos, com raras menções e ausência quase total do tema. Tal discurso configura um efeito de poder que regula o que pode e deve ser dito no espaço escolar, com o silenciamento funcionando discursivamente como uma regularidade. Concluímos que esses livros, ao silenciar as identidades dissidentes, reproduzem regimes de verdade cisheteronormativos e reforçam práticas discursivas excludentes, o que demonstra a necessidade de uma abordagem crítica e inclusiva no ensino de línguas.
Este artigo tem como objetivo analisar o uso de aforizações em oito manchetes dos jornais populares (AMARAL, 2006) cariocas Meia Hora e Expresso. Parte-se do pressuposto de que as manchetes constituem espaços privilegiados de disputa de sentidos e de circulação de valores sociais, nos quais se articulam múltiplas vozes e posicionamentos ideológicos. O referencial teórico fundamenta-se na Análise do Discurso de base enunciativa, especialmente nos conceitos de aforização e particitação, conforme propostos por Maingueneau (2004, 2008, 2010). Metodologicamente, realiza-se a análise qualitativa de um conjunto de manchetes, observando-se os efeitos de sentido produzidos pela mobilização de aforizações de destacamento constitutivo, aforizações destacadas de outros textos e aforizações alteradas. Os resultados evidenciam a recorrência de um enunciador que legitima uma concepção punitiva de justiça, marcada pela exaltação da violência estatal, pela inferiorização dos bandidos e pela naturalização da morte como solução para o crime.
Este artigo investiga a formação de professores de línguas sob a ótica da justiça social, dimensão socioemocional e equidade educacional. Ancorado na escola socialmente justa (LIBÂNEO, 2012; LIBÂNEO; SILVA, 2020) e no direito à literatura como humanização (CANDIDO, 2011), propõe-se a decolonização curricular para superar desigualdades estruturais. A problemática reside na colonialidade do saber (MIGNOLO, 2008, 2017), que subalterniza saberes periféricos e perpetua um dualismo escolar: ensino intelectualizado para elites e acolhimento assistencialista para massas, negligenciando aspectos afetivos e relacionais. O arcabouço teórico-metodológico articula a Pedagogia da Autonomia e o ato de ler (FREIRE, 1996; 2011; 2024) às perspectivas decoloniais, com centralidade na escrevivência (EVARISTO, 2020), dispositivo de cura e engajamento emocional. Argumenta-se que a integração da literatura decolonial e da pluralidade de saberes na formação docente supera o impasse entre direito à diferença e acesso ao conhecimento sistematizado, promovendo bem-estar e dignidade cultural. Conclui-se que tal reconfiguração mune o docente com competências (PERRENOUD, 2000) e sensibilidade relacional para atuar como intelectual transformador, rompendo barreiras curriculares que limitam o pleno desenvolvimento e afirmação da dignidade de populações marginalizadas.
Embora existam muitas pesquisas sobre crenças no ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras (LE) (BARCELOS, 2007; COELHO, 2005) e algumas investigações sobre o amor na Linguística Aplicada (BARCELOS, 2019; VIEIRA, 2023), o amor permanece pouco explorado nessa área, especialmente, quanto às crenças docentes sobre o amor pedagógico. Diante dessa lacuna, este trabalho teve como objetivo investigar as crenças de uma professora de língua inglesa acerca do amor pedagógico e analisar como essas crenças se relacionam com suas ações em sala de aula. O estudo baseia-se em pesquisas sobre crenças em LE (BARCELOS, 2014; BARCELOS e KALAJA, 2013) e sobre o amor pedagógico (BARCELOS, 2019; VIEIRA, 2023). Trata-se de um estudo de caso (YIN, 2001), realizado em uma escola pública de Minas Gerais, com uso de questionário, entrevista, narrativas escrita e visual e observações de aula. Os dados foram analisados segundo a análise de conteúdo (BARDIN, 2016). Os resultados indicaram crenças sobre os alunos e o amor pedagógico, incluindo amor à profissão e aos estudantes. As crenças da professora influenciaram suas práticas, revelando relação intrínseca entre crenças e ações docentes. O estudo destaca a importância de incluir o amor pedagógico nos currículos de Letras e em debates acadêmicos.
Este artigo tem como objetivo analisar como as emoções narradas por duas professoras de língua inglesa em formação inicial evidenciam tensões, possibilidades e práticas de resistência no processo de formação docente. Partimos de uma perspectiva sociocultural que compreende as emoções como fenômenos multidimensionais, atuando simultaneamente nos níveis biológico e social. Os dados foram gerados por meio de um grupo focal, da elaboração de narrativas visuais e de sessões de verbalização dessas narrativas. A análise seguiu os pressupostos da análise de conteúdo. Os resultados indicam que emoções como esperança e insegurança não apenas atravessam o processo de formação inicial, mas operam como afetos políticos que orientam leituras da realidade, tomadas de decisão pedagógicas e modos de posicionamento docente. Esses achados reforçam a centralidade das emoções na formação inicial de professores de línguas, especialmente no que se refere à construção das identidades docentes, às decisões pedagógicas e às possibilidades de resistência frente a discursos e práticas hegemônicas no campo educacional.
Com base nas contribuições de Foucault, em diálogo com outros aportes teóricos, este artigo analisa a violência epistêmica (Zembylas, 2024) como acontecimento discursivo, compreendido enquanto prática produtora de efeitos de sentido, cuja força mobiliza representações de poder e de cuidado de si, enunciadas de modo explícito e implícito nas falas de adolescentes do 9º ano do Ensino Fundamental em uma instituição de ensino. Nessa perspectiva, o estudo articula a violência epistêmica às emoções e aos modos de subjetivação (Foucault, 2016). No âmbito do quadro teórico-metodológico (Clarke & Braun, 2013; Denzin & Lincoln, 2006), a conversa orientada semiestruturada constitui o objeto de análise, tomada como categoria reflexiva e entendida como “fatos de discurso que merecem ser analisados ao lado dos outros, com os quais mantêm relações complexas” (Foucault, 1995). Tal abordagem não concebe a entrevista como unidade estável no escopo da categorização dos gêneros do discurso, nem como unidade homogênea, mas como um dispositivo das práticas discursivas e dos percursos de sentido que sustentam regimes de verdade sobre emoção e violência no espaço escolar. Os resultados lançam luz sobre os modos pelos quais a escola, ao operar por meio da subalternização e do silenciamento dos sujeitos, exerce um poder que nega e invisibiliza práticas emocionais, impactando diretamente as interações humanas.
This study investigates how emotion can operate as a decolonial force in pre-service language teacher education and aims to develop a framework theorizing the relationship between emotion, reflection and decoloniality. Drawing on Maturana's biology of knowing and Walsh's notion of re-existence, we propose a Decolonial-Emotional Framework comprising three recursive movements: discomfort, reflexive awareness and re-existence. Data was collected through six critical-reflective rounds of conversation and reflective journals with one participant of a study. Narrative analysis focused on emotional narratives drawn out from the data. Results suggest that colonialities' hierarchies inscribe themselves emotionally in language teacher education, producing shame, fear and self-doubt. Through collective conversation, participants transformed discomfort from an individual burden into a shared epistemic event. Care and empathy enabled reflexive awareness that emotions are socially produced and can be transformed. Participants reconstructed emotional positions grounded in love, courage and solidarity, becoming agents of re-existence who created pedagogies affirming students lived realities. This framework contributes to Applied Linguistics by synthesizing the affective and decolonial turns, demonstrating emotion as a political energy essential to language teacher education.