
A cobertura jornalística de conflitos armados constitui hoje um dos terrenos mais sensíveis e controversos da comunicação pública, em particular devido à centralidade assumida pela imagem enquanto dispositivo de perceção, mediação, persuasão e construção do real. Num ecossistema mediático marcado pela aceleração informativa e o desenvolvimento da inteligência artificial generativa, pela concorrência visual e pela proliferação da desinformação, a imagem jornalística deixa de ser mero registo factual do real para se afirmar como acontecimento em si mesma, com implicações éticas, políticas e sociais profundas. Partindo desta premissa, este artigo interroga de que modo a ética e a responsabilidade social do jornalismo são tensionadas pelas estratégias retóricas da imagem na cobertura de conflitos bélicos e quais os efeitos dessa retórica na inteligibilidade dos acontecimentos e na formação da opinião pública. A pergunta de investigação que orienta o estudo é: como podem os média conciliar a força persuasiva da imagem jornalística com princípios éticos de verdade, responsabilidade social e respeito pela dignidade humana na cobertura de conflitos? Os objetivos do artigo são: (a) problematizar a imagem jornalística de guerra enquanto acontecimento mediático e dispositivo retórico; (b) analisar criticamente as implicações éticas da produção, circulação e receção/perceção dessas imagens; e (c) sustentar a literacia visual como dimensão central da responsabilidade social dos média no combate à desinformação e à violência simbólica da imagem. Do ponto de vista metodológico, o estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-concetual e crítica, assente na revisão de literatura interdisciplinar nos domínios da ética da comunicação, retórica visual, estudos dos média e das culturas visuais. Propõe-se, neste enquadramento, uma leitura filosófica e semiótica da imagem jornalística de conflitos, entendida não apenas como representação, mas como prática discursiva com efeitos morais e sociais concretos.
Este artigo propõe uma análise semiótica dos revestimentos azulejares em sete edifícios históricos emblemáticos de Fafe, construídos na transição do século XIX para o XX. O estudo argumenta que o azulejo transcendeu a sua função ornamental e protetora para se tornar um texto visual e um instrumento central de distinção social. Através de uma análise semiótica, lemos comparativamente as fachadas promovidas pelos “brasileiros de torna-viagem” e pela elite tradicional local. Para tal, a leitura interpretativa mobiliza os conceitos de “denotação”, “conotação” e “mito”, descodificando a sintaxe visual e o contexto cultural destas construções. Os resultados revelam a existência de dois discursos visuais em competição: o primeiro compreende a narrativa do “brasileiro”, que utiliza o azulejo de vanguarda (arte nova), de relevo exuberante ou com referências cromáticas explícitas (verde e amarelo), para comunicar uma identidade cosmopolita e o sucesso de uma “nova riqueza”; a segunda narrativa, representativa da elite estabelecida, responde através do revivalismo (padrões pombalinos) ou da escolha de produções de prestígio, conotando um gosto erudito, legitimidade histórica e uma riqueza culta. Conclui-se que a fachada azulejada em Fafe funcionou como um espaço discursivo onde as elites da belle époque negociaram e competiram publicamente pela sua identidade e hegemonia social. Deste modo, o estudo contribui para os campos das ciências da comunicação e dos estudos culturais ao evidenciar como a cultura visual urbana e o design de superfície materializam dinâmicas de poder.
Over the past two decades, public diplomacy (PD) has consolidated its position as a strategic field of communication and a central instrument of countries’ foreign policy, drawing increasing attention in international public relations scholarship. However, despite the growing body of literature and academic interest in these areas, systematic approaches to PD research remain limited. To address this gap, the present study examines the state of research in this field through qualitative and quantitative content analysis of all articles on PD published in Public Relations Review between 2000 and 2024 (n = 52), out of 1,991 articles published during this period. This analysis identifies the main authors and their affiliated universities, the networks they form, their objectives, research questions, hypotheses, the methodologies employed, the types of studies conducted, and the theories, findings, and conclusions presented, among other relevant aspects. Finally, the study discusses the theoretical and practical implications of PD research for the broader field of public relations and related areas.
Neste artigo, examinamos os códigos deontológicos do jornalismo de oito países e uma região autónoma de língua portuguesa para perceber como os valores que guiam os jornalistas em direção a práticas éticas se assemelham, diferenciam e divergem entre si. Trata-se de perceber como evoluíram, ou não, as normas dos jornalistas de países que, nos últimos séculos, partilharam histórias, línguas e culturas, em resultado do passado colonial português, e que, desde 1996, fazem parte da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa. Os documentos analisados são os de referência em cada território, estão em língua portuguesa e aplicam-se a todos os jornalistas. A análise foi feita com apoio do software MAXQDA e procurou caraterizar os conteúdos dos códigos, os autores e as entidades que garantem a sua aplicação, bem como os valores matriciais. Observa-se que, apesar da multiplicidade das realidades locais, os códigos apresentam nítidas similaridades e, em alguns casos, alguma semelhança formal e de conteúdo com o código deontológico dos jornalistas portugueses. Em muitos casos, a começar pelo português, é notório o facto de as normas de autorregulação da profissão de jornalista estarem repercutidas em documentos legais, da heterorregulação, ou mesmo existirem com o respaldo do Estado. Há também exemplos de expressiva autonomia normativa, sinalizando caminhos distintos na evolução da autorregulação profissional dos jornalistas, como é o caso do Brasil, uma ex-colónia portuguesa com mais de 200 anos de independência.
Phenomena such as disinformation, interaction with artificial intelligence systems, and the emergence of technosocial movements have created a challenging scenario for teachers and students, beyond purely technical considerations. Thus, media and information literacy (MIL) plays a fundamental role in the training of informed and critical citizens. However, a clear understanding of its objectives, along with consideration of cultural particularities, is key to its teaching and acquisition. This article aims to provide a MIL competency framework based on the reflection of educational actors regarding their own processes of analysis and expression, as well as those of their students, through a action research methodology. To achieve this, a techno-pedagogical experience was designed using the stages of the ADDIE (analyze, design, develop, implement, and evaluate) model, in which 117 primary education professionals from Mexico and Chile participated. As a result of the analysis and process of co-creation, eight dimensions and their respective indicators were obtained: civic participation and digital responsibility, interculturality, processes of interaction and emotional well-being, processes of production and dissemination, processes of comprehension, management of information, languages and aesthetic sensibility, and use and adaptation of technology. The resulting framework provides current and relevant information to create curricular proposals, projects, and assessment resources in this field, as well as a tool to promote collaboration and improve understanding of the reach of MIL among teachers and education authorities.