
A escola digital entrou numa fase em que a pergunta decisiva já não é se a tecnologia está presente, mas o que acontece à aprendizagem quando a resposta pode chegar antes de a pergunta estar plenamente formulada. Partindo da trajetória portuguesa de desenvolvimento da competência digital docente e da rápida difusão da inteligência artificial generativa (IAG), este artigo interroga o intervalo entre proficiência tecnológica e decisão pedagógica. Adota-se uma revisão narrativa crítica articulada com análise documental de quinze fontes publicadas entre 2017 e 2026, reunindo referenciais internacionais, estudos sobre competência digital docente em Portugal e investigação recente sobre IAG. A evidência nacional mostra progressos mensuráveis após formação estruturada, mas não permite inferir uma relação automática entre maior proficiência e melhor aprendizagem. A IAG torna essa descontinuidade mais visível ao poder produzir textos, explicações, imagens e feedback sem garantir que o trabalho cognitivo correspondente tenha sido realizado pelo aluno. Como contribuição analítica, propõe-se uma lente de discernimento pedagógico-digital organizada em quatro eixos: finalidade educativa, autoria cognitiva, evidência de aprendizagem e responsabilidade. A agência docente atravessa os quatro. Conclui-se que a próxima etapa da educação digital portuguesa exige menos atenção à velocidade da ferramenta e mais capacidade para tornar visíveis, justificáveis e revisáveis as decisões que regulam a sua presença.
Este artigo apresenta uma análise sobre o romance Estela sem Deus, do autor Jeferson Tenório (2022) na qual buscou-se demonstrar as experiências da formação educativa e da construção identitária como pilares capazes de alterar o "exorcismo" imputado ao corpo feminino negro. Nesta produção, objetivou-se reconhecer como uma obra literária a narrativa ficcional em primeira pessoa de uma adolescente, exposta a diversas vulnerabilidades e, por conta delas, a constantes migrações, cria e revela sentidos da relação do corpo e da mulher negra na sociedade brasileira nos primeiros anos da década de 1990. Como aportes teóricos o presente estudo se fundamenta em diversos textos teóricos que discutem a receptividade social do corpo negro; o problema da identidade no século XX; as questões relacionadas ao feminismo e ao gênero feminino; a filosofia da diferença, tendo como exemplo a representação literária; a literatura contemporânea brasileira que tematiza corpos e heterotopias marginais e a importância de trazer estas produções literárias ao debate e, assim, construindo um novo currículo escolar que oportunize a visibilidade e representação da mulher negra no Brasil. Por fim, esta produção apresenta uma análise que objetivou alicerçar seus argumentos a partir da exploração e interpretação da obra literária de Jeferson Tenório, no seu livro Estela sem Deus (2022) e observar como a literatura problematiza a identidade da mulher negra no Brasil e o papel da educação na formação da subjetivação feminina.
A incerteza da entrada de uma criança com matrícula condicional para o primeiro ciclo poderá ser motivo de ansiedade para pais e educadores. O terapeuta da fala desempenha um papel fundamental neste processo, uma vez que poderá realizar a avaliação formal da linguagem, analisando as competências linguísticas da criança. O sucesso académico depende de inúmeros fatores, nomeadamente competências motoras, sociais, cognitivas e linguísticas, sendo estas indispensáveis para a prontidão escolar. O presente estudo teve como objetivo analisar os principais fatores preditores da prontidão escolar em crianças que ingressaram no primeiro ciclo do ensino básico através do regime de matrícula condicional. Pretendeu-se determinar se é possível identificar fatores de prontidão escolar através da avaliação da linguagem oral e do desenvolvimento global, bem como verificar se esses resultados se relacionam com o desempenho académico. Assim, optou-se por uma metodologia de delineamento observacional, descritivo e comparativo, baseada na recolha de dados através de provas formais de linguagem e da análise do Currículo da Carolina do Norte (CCN), procedendo-se posteriormente à interpretação estatística dos dados e à análise de correlações entre variáveis. Os resultados evidenciaram a existência de uma progressão consistente das competências e uma forte interdependência entre os diferentes domínios do desenvolvimento. Os resultados sugerem que melhores competências linguísticas se associam a melhor desempenho académico. Os dados obtidos reforçam a importância de uma avaliação precoce, abrangente e multidisciplinar, bem como da articulação entre profissionais da educação e terapeutas da fala, de forma a promover uma adaptação mais adequada ao contexto escolar e favorecer o sucesso académico das crianças.
Direcionar as discussões para a construção de um currículo inclusivo na prática docente é essencial na efetivação do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Este estudo analisa como a Investigação Matemática (IM) está em consonância com os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), com foco no atendimento de estudantes com altas habilidades/superdotação (AH/SD) em Matemática. Considera-se que o currículo deve se reconfigurar sempre que necessário, especialmente no contexto da inclusão, reconhecendo a invisibilidade dos estudantes AH/SD. O estudo se caracteriza como qualitativo, de natureza interpretativa e exploratória. Os dados são provenientes de uma dissertação de mestrado, desenvolvida no âmbito do AEE com cinco estudantes AH/SD em Matemática, no modo remoto, produzidos por meio de tarefas exploratórias de IM, e analisados com base na Análise de Conteúdo. Neste trabalho, as categorias foram reinterpretadas à luz do DUA. Os resultados evidenciam que a IM favorece a participação ativa dos estudantes AH/SD, sendo capaz de ampliar as formas de representação do pensamento matemático, valorizando e acolhendo as diferenças e alinhando-se ao DUA. O estudo sustenta que é possível articular a IM e o DUA para reconfigurar as práticas pedagógicas no AEE, reforçando a necessidade de acolher a diversidade como elemento fundamental na construção do currículo.
Este ensaio teórico examina como a inclusão se inscreve no currículo brasileiro e por que, apesar de um arcabouço normativo robusto, tende a não se traduzir em reorganização efetiva do conhecimento escolar. Parte da distinção entre acessibilidade, integração e inclusão para sustentar que a inclusão, quando tratada como tema transversal difuso, permanece declarada em toda parte e institucionalizada em nenhuma. Argumenta-se que essa difusão não é falha acidental de implementação, mas a forma que a inclusão assume quando o currículo permanece subordinado a lógicas externas, produtiva e normalizadora, em vez de constituir um projeto epistêmico próprio. O estudo é um ensaio teórico-crítico operacionalizado por análise documental dos marcos curriculares e de inclusão brasileiros, lidos por triangulação teórica entre a teoria crítica de currículo, o debate sobre a diferença e a justiça epistêmica. Propõe-se um critério estrutural para distinguir a reconfiguração curricular inclusiva da inclusão cosmética: uma inclusão tem forma curricular quando reorganiza a seleção, a sequência e a avaliação do conhecimento, reconhecendo de modo estruturado a pluralidade epistêmica contra o epistemicídio. Conclui-se que um currículo incorpora a inclusão não pelos valores que declara, mas por deixar de tratá-la como valor transversal e passar a operá-la como princípio de justiça epistêmica que reorganiza o que conta como conhecimento legítimo. Aplicado a um panorama de onze países latino-americanos, o critério revela três padrões de inscrição curricular e um diagnóstico regional: a inclusão raramente reorganiza o currículo comum, operando antes como trilha paralela para populações indígenas ou como tema transversal sem estrutura.