
RESUMO Neste artigo, temos como objetivo analisar práticas discursivas que aludem às identidades negras no Brasil, a partir da análise de Jeremias, personagem negro criado por Maurício de Sousa nos anos 1960, presente nas atuais produções em HQs da Turma da Mônica. Como aporte teórico, recorremos a Bakhtin (2004) no que tange à linguagem; a Munanga (1988) e Hall (2014) para tratar de racismo; e a Eisner (2013) para discutir a questão cultural. Construímos o corpus por meio de escolha de narrativas nas quais o personagem Jeremias aparecia de forma mais efetiva, e nelas constatamos que o personagem negro de Maurício de Sousa oscilou entre posições de coadjuvante, figurante e protagonista temporário, sem assumir uma posição explícita e efetiva de denúncia do racismo e da promoção da igualdade racial.
RESUMO O objetivo deste artigo é analisar como o portal de notícias G1, pertencente ao Grupo Globo, estruturou narrativas jornalísticas para aferir declarações do ex-presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (2019-2022), relacionadas à pandemia de Covid-19. O percurso metodológico é constituído pelo estudo de caso único, conforme Yin (2001), com o apoio da análise de conteúdo (Bardin, 2002), a partir da definição de quatro categorias analíticas: desinformação, com base na tipologia proposta por Wardle e Derakhshan (2017); elementos jornalísticos, considerando as formulações de Lage (2008) acerca da estrutura da notícia e da organização narrativa; e fontes consultadas, também fundamentadas na classificação de Lage, além da avaliação da agência de checagem Fato ou Fake. Conclui-se que as declarações analisadas apresentam aproximações com conteúdos deliberadamente enganosos, e que as matérias do G1 recorrem à estrutura clássica da notícia, pela contextualização e mobilização de fontes institucionais, especializadas e documentais para qualificar a informação. Desse modo, evidencia-se o papel mediador do jornalismo na reordenação de declarações públicas à luz de critérios de verificação, contribuindo para a delimitação factual em um contexto de crise sanitária e intensa circulação de desinformação.
ABSTRACT The adoption of fitness apps for tracking daily activity has become increasingly normalized and routinized among a growing public. The data generated by tracking devices and apps enable forms of self-observation in which mundane activities are rendered measurable, comparable, and visible. The quantified self, as a human-algorithm assemblage, emerges through the constant interplay among app developers, users, and software infrastructures. Because the quantified self is made visible through dashboards, visualizations, and other forms of materialization, it has become relatively accessible to researchers; many studies have examined this phenomenon and evaluated its implications for society and for individuals who participate in lifelogging practices. Yet the public rarely has the opportunity to move beyond the interface and glimpse the interplay among actors and software infrastructures that co-produce the datafied self. Following Latour's actor-network theory, this paper investigates the algorithmic black box through a six-month ethnography of a Chinese fitness app that allows users to log daily workouts, body measurements, and caloric intake. It examines the inconspicuous but complex procedures through which the final data product is produced. Through the lens of the duality of translation, the paper explores how heterogeneous actants - including patents, workflow applications, workplace chat applications, and user feedback tables - are interwoven in the manufacture of the quantified self.
RESUMO O julgamento dos temas 987 e 533 no Supremo Tribunal Federal (STF) representa um momento crucial para a definição das responsabilidades das plataformas digitais no controle de conteúdos publicados. Este artigo analisa, à luz das teorias neomaterialistas, as controvérsias suscitadas por esta discussão, que tem base jurídica na análise da constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014). É realizada a análise das discussões que constam da tese, votada pela maioria dos ministros, por consenso, em contraponto aos três votos vencidos. Busca-se revelar como as mediações tecnológicas nas plataformas são consideradas no contexto do problema. Argumenta-se que a performance e o agenciamento algorítmico destas tecnologias influenciam os níveis de responsabilização a elas atribuídos. Nos votos vencidos predomina uma visão antropocêntrica das redes digitais. A aprovação da responsabilização das plataformas reconhece suas dimensões materiais-discursivas ao destacar a agência algorítmica na circulação de informações nas redes sociais.
RESUMO Este artigo investiga a constituição da desinformação como campo emergente de estudos no Brasil, por meio de uma análise bibliométrica de mais de 16 mil publicações entre 2005 e 2024. O objetivo é compreender como esse campo vem sendo estruturado institucional e epistemicamente, identificando suas principais áreas temáticas, redes de colaboração, canais de publicação e abordagens teóricas. Os dados apontam para um crescimento expressivo da produção científica sobre o tema, com forte presença em repositórios de acesso aberto e programas de pós-graduação, além de uma articulação interdisciplinar que envolve Comunicação, Ciência da Informação, Saúde, Direito e Computação. Observa-se ainda o surgimento de vertentes críticas voltadas à análise das plataformas digitais e à problematização epistemológica do conceito de desinformação, bem como um número crescente de trabalhos que tensionam a influência de atores externos, como plataformas, agências de checagem e think tanks internacionais. A consolidação do campo, portanto, ocorre em meio a disputas institucionais e epistêmicas, que revelam não apenas sua vitalidade, mas também sua instabilidade e dependência de agendas político-institucionais exógenas.