
Se considerarmos a diversidade religiosa presente em nosso país e a natureza laica do Estado, a inclusão do Ensino Religioso nas escolas se revela como um tema complexo e frequentemente polêmico, que deveria ser aplicado nas escolas de acordo com o que está previsto na Base Nacional Comum Curricular. Caberia, desta forma, ao docente desta área do conhecimento, pelo menos em teoria, disseminar informações, considerando os direitos de aprendizagem e a formação integral que contemple todos os segmentos sociais e modos de vivenciar a vida em termos de Espiritualidade, não sendo, portanto, o seu objetivo doutrinar discentes, teologicamente falando, e sim oferecer o despertar para o conhecimento dos fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações como parte integrante do substrato cultural da humanidade. O objetivo deste artigo é apresentar a Espiritualidade e a Ética Intercultural como uma abordagem teórico-metodológica para o Ensino Religioso com a finalidade de não violentar crenças e consciências conforme a constituição de 1988. Através de uma pesquisa bibliográfica e a partir de experiências de sala de aula, pretendemos demonstrar, através do pensamento decolonial de autores latino-americanos como Elias Wolff, Fidel Tubino, Paulo Freire e Ricardo Salas, como a Espiritualidade de cada sujeito da educação deve ser abordada através da Ética Intercultural. Ao fim, propomos aos docentes do Ensino Religioso uma quebra de paradigma, no qual este assume o papel de mediador de uma ética reconstrutiva em sua prática docente, fazendo da Espiritualidade e da Ética Intercultural o horizonte normativo de sua prática de ensino.
Este artigo investiga o crescimento da categoria "sem religião" entre os jovens brasileiros à luz dos dados do Censo 2022, com enfoque nacional e perspectiva geracional. Argumenta-se que esse fenômeno reflete transformações estruturais, sociais, culturais e tecnológicas nos processos de transmissão religiosa e nas formas contemporâneas de espiritualidade. A desfiliação religiosa juvenil, longe de representar uma rejeição absoluta da esfera espiritual, expressa uma forma de reconfiguração simbólica das experiências do sagrado, marcadas por trajetórias individuais, hibridismo ritual e distanciamento institucional. Utilizando dados quantitativos do IBGE e estudos qualitativos recentes, o artigo propõe que o fenômeno deva ser interpretado em chave geracional, à luz das categorias de “memória religiosa” e de “saída da religião”, permitindo compreender a descrença como uma forma ativa de inscrição cultural. Conclui-se que o crescimento da não filiação religiosa entre os jovens aponta para uma mudança de paradigma nas relações entre juventude e religiosidade no Brasil contemporâneo.
O presente artigo examina a interação entre autoridade moral e política vis-à-vis à crescente polarização política. A associação entre discurso religioso e forças conservadoras na arena pública desafia o papel das religiões em sociedades pluralistas. Argumentamos que a democracia liberal busca equilibrar a liberdade e a democracia, mas nunca alcança um equilíbrio perfeito. O artigo está estruturado em três seções. Primeiramente, discute os desafios dentro da teoria democrática liberal, com foco na perspectiva crítica de Carl Schmitt. Exploramos o conceito de "inimigo" e suas implicações para repensar a política como um domínio de forças antagônicas. No entanto, o artigo argumenta que a perspectiva de Chantal Mouffe oferece uma compreensão mais matizada do conflito como agonismo. A seção subsequente enfatiza os conflitos entre ordens religiosas e o ordenamento constitucional. Lançamos mão das lições de Ran Hirschl e Ayelet Shachar para demonstrar como ordens religiosas específicas desafiam o constitucionalismo ao promover reivindicações normativas que se opõem ao arcabouço legal. Por fim, a última seção explora possíveis caminhos para reavaliar a participação democrática de atores religiosos na arena política. Concluímos que a democracia agonística, informada pela participação religiosa e não religiosa, pode reafirmar o pluralismo na medida em que nenhuma crença é desacreditada ou impedida pelas elites predominantes.
Nesse artigo investigamos como a verdade sobre a salvação cristã atua na produção do jovem cristão Louco por Jesus. Para a realização do estudo, investigaram-se jovens envolvidos em uma prática religiosa protestante conhecida como Célula e uma página do Instagram denominada de a.rede. Nomeamos de Currículo da Célula Evangelizadora o conjunto de práticas que aconteceram nas reuniões presenciais da célula e as interações na a.rede. Currículo, por sua vez, é entendido como discurso, isto é, como práticas produtivas que se formam sob regimes de verdade sobre a fé cristã protestante. Como metodologia, articularam-se procedimentos da observação presencial e no ciberespaço e entrevistas. Argumenta-se que nesse currículo produz-se o louco por Jesus, um jovem cristão que renuncia a si mesmo para ganhar a vida eterna. As características e o modo como o/a jovem cristão deve se conduzir são ensinados por meio de práticas que ele deve operar sobre si mesmo e por meio delas conduzir a própria existência.
Propus nas reflexões a seguir, interpretar os sentidos da noite e os do medo na cidade de Belém-PA. O estudo foi estruturado por meio de dez processos de desquite, em algumas matérias publicadas no jornal católico “A Palavra” e em passagens bíblicas. Por conseguinte, a respeito do medo e da noite, ao se problematizar tais documentos, descortinei como maridos, esposas e Igreja Católica os compreenderam e os disseminaram no tempo e no lugar em tela. À vista disso, através da inquirição das fontes tornou-se possível afirmar que os dois substantivos jamais se distanciaram do catolicismo e da feitiçaria, então, ao serem intercalados por essas matrizes religiosas inevitavelmente foram reforçados pelas acepções de Deus e Diabo, luzes e trevas. Assim sendo, o intuito dos que manobravam os sentidos da noite, os do medo, os de Deus, os do Diabo passava pelo desejo de dominar o outro nas suas escalas psicorreligiosas. Desse modo, a intervenção ora apresentada foi sustentada sobre o argumento denominado de constrição do sujeito, a categoria explica que a noite e o medo, Deus e Diabo quando bem articulados pelos perpetradores conseguiram produzir pelo medo desgovernos sobre os perpetrados.