
Resumo A emergência climática tem se tornado um dos principais temas de preocupação de cientistas das mais diversas áreas do conhecimento. Especialmente após a chamada “grande aceleração” - a partir dos anos 1950 -, os impactos das mudanças no sistema Terra passaram a ser sensíveis, sobretudo para povos indígenas no contexto brasileiro. É sabido que as dinâmicas em relação à Terra - ou Gaia - são ontologicamente diferentes entre povos indígenas e a chamada civilização ocidental. Assim, a utilização do termo Antropoceno tem sido repensada e novas possibilidades - como Capitaloceno, ou Plantationceno - foram aventadas para colocar em debate os tipos de atuação humana no ambiente. Este artigo pretende compreender de que modos os povos indígenas no Brasil têm vivenciado a emergência climática, em contraste com o pensamento científico, especialmente a partir da literatura indígena brasileira contemporânea e dos pensamentos de Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Daniel Munduruku e Eliane Potiguara.
Resumo O artigo examina, sob perspectiva etnográfica e histórica, as transformações nos corpos e territórios dos Kaiowá (Guarani) no sul do Mato Grosso do Sul diante dos impactos do Antropoceno com a expansão do agronegócio. A partir das narrativas míticas e cosmológicas dos Kaiowá, o texto explora a constituição da pessoa e do corpo como processos relacionais, nos quais a humanidade - definida pelo nhe’ẽ (alma-língua-linguagem) - é continuamente produzida por práticas rituais, parentesco e alianças com seres celestes e terrestres. Ao longo do texto irei abordar as narrativas de criação e transformações dos seres e das paisagens. Em seguida procuro discutir os efeitos da intensificação das relações do contato e o avanço das frentes de exploração agropastoril na região tradicionalmente ocupadas pelas famílias kaiowá, para refletir sobre a produção de modos de existência que apontam para mediações, alianças e coexistências cosmopolíticas diante dos conflitos vividos por essas famílias.
Resumen Este artículo analiza las luchas ecológicas desarrolladas por el Consejo Regional Indígena del Cauca (CRIC), en el suroccidente de Colombia, en el contexto del antropoceno, entendido como una condición histórica marcada por el extractivismo, la devastación ecológica y la ruptura de relaciones entre seres humanos, no humanos y más-que-humanos. En diálogo con las ontologías políticas indígenas y a partir de una etnografía multisituada, sostenemos que la pervivencia, noción elaborada por el propio movimiento indígena, permite comprender una forma de lucha orientada a sostener la continuidad de la vida territorial. Mostramos que esta orientación se realiza mediante prácticas concretas de cuidado y defensa, entre las cuales la rearmonización territorial ocupa un lugar central al recomponer relaciones afectadas por la violencia armada, el extractivismo y otras formas de devastación. El concepto de antropociego permite hacer visibles esas relaciones, invisibilizadas por los marcos dominantes del antropoceno. El caso del CRIC ofrece así una crítica situada tanto de los efectos históricos del antropoceno como de los límites epistemológicos desde los cuales se ha formulado esta categoría.
Abstract The climate crises has become one of the main topics of concern for scientists in diverse areas. After the so-called ‘great acceleration’ - from the 1950s onwards - especially, the impacts of changes in the Earth system became tangible, including for indigenous peoples in Brazil. As is well-known, the dynamics in relation to the Earth - or Gaia - are ontologically different among indigenous peoples compared to so-called western civilization. Thus, use of the term Anthropocene has been rethought and new possibilities - such as the Capitalocene or Plantationcene - suggested with the intention of focusing discussion on the different types of human action in the environment. This paper explores how indigenous peoples in Brazil have experienced the climate emergency, in contrast to scientific thinking, especially in the contemporary Brazilian indigenous literature and the writings of Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Daniel Munduruku and Eliane Potiguara.
Resumo O artigo propõe uma releitura de 28 fotografias do Fundo Anthony Leeds das favelas do Rio de Janeiro nos anos 1960, estruturando a análise em torno de três ausências, três camadas e três paradoxos. As ausências referem-se à escassez de descrições que acompanham as imagens, à presença de crianças nas fotografias sem tematização analítica e ao registro de favelas posteriormente apagadas do espaço urbano. A partir dessas lacunas, o texto propõe três camadas de produção de sentido: as reportagens do Correio da Manhã, as fotografias e a interpretação construída a partir do entrecruzamento desses materiais. Nesse percurso, emergem três paradoxos: a centralidade empírica e a marginalidade teórica da infância; sua presença ora central, ora periférica nos enquadramentos; e a dissociação entre ver e olhar. Ao explorar essas tensões, o artigo interroga limites históricos e epistemológicos da produção de conhecimento antropológico sobre favela e infância.