
O reconhecimento e a identidade são dimensões estruturantes do sujeito. O artigo visa analisar a identidade profissional e o reconhecimento dos médicos em Portugal com base na sua experiência, em uma situação-limite inédita. À luz da análise do discurso, procuramos compreender como testemunhos de médicos, em jornais, durante a pandemia Covid-19, (re)produzem o mundo real, moldando práticas e identidades profissionais. Os discursos evidenciam o esforço dos médicos da linha de frente para garantir a qualidade dos cuidados de saúde, mas também como a gravidade da situação; a falta de equipamentos e tratamentos; e a deterioração das condições de trabalho comprometeram a sua atuação, causando-lhes cansaço e sofrimento. Incidindo na profissionalidade médica, os discursos estabilizam consensos e refletem lutas em torno do serviço público de saúde, da dignidade, da ética, da identidade e do reconhecimento profissional, evidenciando processos de produção e legitimação do poder e do prestígio profissional.
Este estudo analisou o impacto da Covid-19 na aprendizagem experiencial de residentes médicos e multiprofissionais com base na teoria de David A. Kolb. Diante disso, o presente estudo teve como objetivo compreender as influências da pandemia da Covid-19 no processo de aprendizagem pela experiência dos médicos e multiprofissionais residentes. A pesquisa de campo qualitativa entrevistou 13 residentes, organizou os dados no software ATLAS.ti e analisou-os pelo método de Análise de Conteúdo. Os resultados indicam que a pandemia redirecionou o aprendizado dos residentes de suas especialidades para o atendimento emergencial, evidenciando lacunas na formação para cenários de crise. Os resultados evidenciam a necessidade de reestruturação da formação em Saúde, assegurando experiências práticas na área de especialização e tempo para reflexão, promovendo uma melhor preparação dos profissionais para futuras emergências.
Trata-se de estudo de caso cujo objetivo é analisar o papel da redução da força de trabalho na determinação de um acidente do trabalho fatal, em 2014, em uma refinaria de petróleo brasileira, baseado nas conclusões da investigação do acidente. Foi utilizada uma triangulação de técnicas – pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e entrevistas semiestruturadas com trabalhadores petroleiros. O debate considera a intensificação do trabalho um dos reflexos da redução do efetivo, com extensão de jornada e degradação da segurança, que oferece perigo, principalmente em sistemas sociotécnicos complexos. Conclui-se que a busca da máxima exploração nos marcos do capitalismo contemporâneo, sob a acumulação flexível, faz com que a empresa resista em recompor o seu efetivo operacional reduzido, impondo aos trabalhadores vários agravos à saúde, inclusive, em muitos casos, a perda da própria vida.
O uso de silicone industrial para fins estéticos popularizou-se entre travestis e mulheres trans a partir da década de 1980, tornando-se um problema de saúde pública. Embora o uso clandestino e os seus efeitos deletérios tenham atingido proporções consideráveis, trata-se de uma problemática que recebeu pouca atenção das ciências humanas. Diante do quadro, esta pesquisa objetivou conhecer e problematizar os itinerários terapêuticos de travestis e mulheres trans que enfrentam problemas de saúde decorrentes do uso do produto. A partir de uma abordagem qualitativa, três travestis e uma mulher trans residentes em São Paulo foram entrevistadas, a fim de se conhecer suas buscas por soluções terapêuticas, emergindo três categorias temáticas: “Automedicação”, “(Im)possibilidades terapêuticas” e “Mecanismos de cuidado-acusação”. As trajetórias demonstram que o Sistema Único de Saúde (SUS) é convocado recorrentemente a lidar com o problema, mas diversos obstáculos inviabilizam o acesso a um cuidado integral.
Diante da manicomialização do cuidado à população em sofrimento mental, inclusive por uso de substâncias psicoativas, e das potencialidades do Projeto Terapêutico Singular (PTS) objetivouse qualificar, de forma participativa, como o PTS pode nortear as práticas de cuidado da equipe de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps Ad). Tratou-se do recorte de um estudo qualitativo de pesquisa-ação com dez trabalhadores do Caps Ad, realizado em duas etapas: entrevistas semiestruturadas individuais e a Oficina de Construção do Conhecimento (OCC). Os dados foram triangulados e analisados segundo a Análise de Conteúdo na modalidade temática. Constituíram-se cinco categorias temáticas que evidenciaram concepções da equipe sobre o PTS como organizador do cuidado potente, mas também desafios na sistematização do PTS. Por meio desses dados, a OCC com os trabalhadores viabilizou a construção de conhecimento sobre o PTS de forma coletiva e participativa.