
Abstract This article analyzes the relationships between masculinities and mental health based on the care provided to men who access the SUS in the Pernambuco hinterland. Anchored in gender studies and contributions from the field of masculinities, it understands psychic suffering as a socially situated experience, crossed by gender norms, power relations, and structural inequalities. The research adopts a constructionist theoretical-methodological approach and was conducted in a CAPS III, using interviews/conversations with mental health professionals. The analysis of discursive practices examined repertoires about gender, masculinities, and health that inform the management of care provided to men. The results indicate that, although professionals recognize the influence of gender norms on the experience of male suffering, these understandings do not always translate into care practices. There is a persistence of a biomedical logic marked by the centrality of symptoms and by referrals for psychiatric hospitalization. The study also identifies professional strategies aimed at building a bond and adherence to treatment, problematizing the risks of reinforcing gender stereotypes. It is concluded that the critical incorporation of discussions about masculinities in mental health practices is essential to improve care and promote more comprehensive and equitable attention to men.
Resumo O quilombo, ao mesmo tempo que se institui enquanto lócus de resistência e memória coletiva para a população negra brasileira, articula dimensões do processo da saúde-doença que transpassam as barreiras instauradas nos modos de cuidar produzidos a partir da racionalidade biomédica. Este artigo busca compreender os elementos constitutivos das noções de saúde, cuidado e alimentação na cosmopercepção quilombola disseminada na experiência do quilombo Kaonge, localizado no Recôncavo baiano. Partiu-se de uma abordagem etnográfica assentada em trabalho de campo realizado entre os meses de agosto de 2022 e outubro de 2023, compreendendo observação participante, entrevistas semiestruturadas e um grupo focal, mobilizando oito mulheres e três homens moradores do quilombo. Buscou-se a multirreferencialidade nas narrativas, vivências e memória coletiva do grupo. Assimilado enquanto território racialmente delimitado, o quilombo mobiliza arranjos produtivos, práticas de cuidado e discursos sobre o viver que estão expressos na tessitura das memórias, sobretudo alimentares, assentadas na preservação do seu espaço onde as fronteiras da clássica discussão acerca da natureza e cultura estão constantemente sendo tensionadas. Busca-se, a partir desta reflexão crítica, a contracolonização de práticas de cuidado disseminadas no campo da saúde, instituindo novas simetrias entre os saberes tradicionais e acadêmicos no fazer saúde e políticas públicas resultantes.
Resumo Este artigo analisa as relações entre masculinidades e saúde mental a partir do cuidado ofertado a homens que acessem o Sistema Único de Saúde (SUS) no Sertão pernambucano. Ancorado nos estudos de gênero e nas contribuições do campo das masculinidades, compreende o sofrimento psíquico como uma experiência socialmente situada, atravessada por normas de gênero, relações de poder e desigualdades estruturais. A pesquisa adota uma abordagem teórico-metodológica construcionista e foi realizada em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III, utilizando entrevistas/conversas com profissionais da saúde mental. A análise das práticas discursivas examinou repertórios sobre gênero, masculinidades e saúde que informam a gestão do cuidado ofertado aos homens. Os resultados indicam que, embora os profissionais reconheçam a influência das normas de gênero na experiência do sofrimento masculino, essas compreensões nem sempre se traduzem em práticas de cuidado. Observa-se a persistência de uma lógica biomédica marcada pela centralidade dos sintomas e por encaminhamentos para internação psiquiátrica. O estudo também identifica estratégias profissionais voltadas à construção de vínculo e à adesão ao tratamento, problematizando os riscos de reforço de estereótipos de gênero. Conclui-se que a incorporação crítica das discussões sobre masculinidades nas práticas de saúde mental é fundamental para qualificar o cuidado e promover uma atenção mais integral e equitativa aos homens.
Abstract This article proposes a discussion of Ame-African (American-African) women’s memory from a countercolonial perspective and in dialogue with Lélia Gonzalez’s dialectic between consciousness and memory, focusing on her theoretical and practical contribution through the category of “Ame-African.” To this end, we draw on methodologies that prioritize the weaving of memories through oral tradition, where narratives and meanings weave an “invisible tapestry” of women’s struggles and resistance that extends throughout Latin America and the Caribbean. We address women’s resistance to violence and the violation of rights, linked to notions of the body-territory and ancestry, as well as dynamics of healing, healthcare, territorial mobilization, and the building of networks of protection and affection established by Ame-African women. We seek to articulate movements of creation and recreation of women’s resistance and insurgencies within a specific space-time in the context of Latin America and the Caribbean. Our sisterhood as Black/Afro-American/Quilombola women enables the weaving of threads and “knots” that, despite our territorial and cultural diversity, allow us to form connections and networks for the production of knowledge, wisdom, and affection.
Resumo Este artigo propõe um debate sobre a memória de mulheres amefricanas a partir de uma perspectiva contracolonial e em diálogo com a dialética entre consciência e memória de Lélia Gonzalez, com foco em sua contribuição teórica e prática por meio da categoria Amefricana. Para tanto, apoiamo-nos em metodologias que privilegiam a tecitura de memórias a partir da oralidade, onde narrativas e sentidos tecem uma “trama invisível” de lutas e resistência de mulheres que se estende a toda América Latina e Caribe. Falamos da resistência de mulheres à violência e à violação de direitos articulada às noções de corpo-território e de ancestralidade, como também abordamos dinâmicas de cura, cuidado em saúde, mobilização territorial e construção de redes de proteção e afeto concretizadas por mulheres amefricanas. Buscamos enunciar movimentos de criação e recriação de resistências e insurgências de mulheres em um determinado espaço-tempo no contexto da América Latina e Caribe. Nossa irmandade enquanto mulheres negras/amefricanas/quilombolas possibilita arranjos de fios e “nós” que, a despeito de nossa pluralidade territorial e cultural, nos permite conexões e redes de produção de conhecimento, saberes e afetos.