
Este artigo se propõe a falar sobre o saber tradicional indígena a partir da ecologia comunicativa da cosmologia do povo Potiguara, habitante do estado da Paraíba, Nordeste do Brasil. Tem como foco o ser encantado chamado Cumade Fulozinha, um espírito da floresta protetor das matas e animais. Além do povo Potiguara, o território paraibano é habitado por outras três etnias indígenas: Tabajara, Cariri e Tarairiú. Põe-se em tela a perspectiva dos sonhos enquanto tecnologia para acesso, manutenção e diálogo com o saber ancestral. Um saber que vai além da esfera mitológica e se processa cotidianamente, no imediatismo hodierno da existência em rede dos seres vivos interatuantes na Mãe Terra.
Os paradigmas fundantes do campo da comunicação foram construídos em torno de uma matriz epistêmica lógico-causal. Essas raízes eurocêntricas desviaram as possibilidades de emergência de teorias capazes de alargar a concepção de comunicação a partir de conhecimentos não ocidentais. Entre essas epistemologias outras, o xamanismo indígena revela-se como um terreno fértil para a descolonização das teorias da comunicação. Suas qualidades técnica, conectiva e metamórfica podem revelar dimensões e qualidades subjacentes às tecnologias comunicativas. Trazemos essas reflexões a partir de pistas dos próprios xamãs, que comparam essas tecnologias a seus corpos e aos processos de conexão com forças extra-humanas e diferentes níveis cósmicos.
O artigo apresenta algumas (contra)narrativas para construir uma história da incorporação dos artefatos industriais de comunicação por um coletivo de povos conhecido como “Gavião”, e que habita a Terra Indígena Mãe Maria (Pará, Brasil). Com base em uma pesquisa etnográfica colaborativa e multissituada, a proposta é trazer as vozes de personagens da história contemporânea desse povo sobre os impactos da eletricidade, rádio, telefone, televisão, internet, smartphones e aplicativos em sua socialidade. A pesquisa indica que a indigenização dessas tecnologias estimula a autonomia perante o Estado e o acesso à direitos e políticas públicas, acirrando, por outro lado, divisões internas e cisões entre os diferentes grupos que compõem o “povo Gavião”.
Numa conversa realizada remotamente, Denilson fala sobre como considera-se um xamã a partir da sua experiência de traduzir o mundo Baniwa para os brancos — acessando a arte e o mundo brancos, mas sem se tornar definitivamente um de nós —, ocupando justamente o lugar do entre. Desempenha o papel de diplomata e mediador, enfrentando as potências e os perigos, as dores e as delícias dessa tarefa — assim como um xamã, comunicando mundos. Ele também se considera um hacker da arte, ressignificando uma certa ideia de hacker adquirida nos seus estudos em Ciência da Computação, ainda no estado do Amazonas, em Manaus, experiência marcante das suas obras, comumente construídas a partir de intervenções em imagens da colonização.