
Este artigo visa compreender como a cocriação de conteúdo com consumidores contribui para o engajamento emocional, o sentimento de pertencimento e o fortalecimento simbólico da marca. A pesquisa, de natureza qualitativa e descritiva, foi realizada com 14 famílias participantes de campanhas fotográficas promovidas pela marca LOK, nas quais os pais foram convidados a criar imagens autorais de seus filhos utilizando as roupas da nova coleção. As respostas foram analisadas à luz de referenciais teóricos sobre branding, experiência de marca, identificação, cocriação e comportamento do consumidor. Os resultados sugerem que os participantes se sentiram livres para criar e emocionalmente conectados à marca, e que a cocriação funcionou como catalisadora de vínculos simbólicos e de lealdade. O estudo também evidencia a potência das estratégias colaborativas para marcas de pequeno porte no setor da moda. Ao final, indicam-se as limitações da pesquisa e caminhos para investigações futuras.
O vestuário, além de expressar aspectos estéticos e culturais, também influencia questões ligadas à saúde, física e emocional. No entanto, raramente se considera o papel das roupas como prática de cuidado, configurando uma lacuna entre moda e saúde. Este artigo tem como objetivo compreender como profissionais da saúde percebem a moda e o vestuário no contexto dos cuidados em saúde, considerando dimensões simbólicas, funcionais e ambientais. Esse conhecimento é relevante para entender como a prática em saúde pode oferecer subsídios à criação de produtos e estratégias voltadas à promoção da saúde. A pesquisa, de natureza qualitativa, utilizou entrevistas semiestruturadas com onze profissionais de diferentes áreas da saúde, cujos relatos foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo. Emergiram cinco categorias: funcionalidade e conforto; higiene, segurança e prevenção; identidade e autoestima; motivação e metas terapêuticas; e percepção ambiental do vestuário. Os resultados indicam que o vestuário influencia percepções de conforto, identidade e bem-estar, além de atuar como suporte em processos de reabilitação, autoestima e autonomia. Em alguns casos, os entrevistados relataram utilizar o vestuário como ferramenta de mediação terapêutica ou estímulo ao autocuidado. Por outro lado, observou-se desconhecimento quanto aos impactos ambientais da produção e do descarte de roupas, indicando a necessidade de ampliar o diálogo entre moda, saúde e sustentabilidade. Conclui-se que o vestuário deve ser reconhecido como elemento ativo nas práticas de cuidado, reforçando o diálogo entre moda e saúde e contribuindo para a formação de profissionais, incentivando a criação de produtos mais sensíveis às necessidades humanas.
O presente artigo discute a modelagem modular como um sistema de criação fundamentado no desenvolvimento de módulos intercambiáveis, capazes de se articular de múltiplas formas, possibilitando distintas configurações de produto. Adota-se uma abordagem de design responsável, que considera, desde as etapas iniciais do projeto, aspectos relacionados à adaptação, reconfiguração e reuso. Trata-se de uma pesquisa-ação, precedida por estudo exploratório e descritivo, cuja integração entre referencial teórico e prática experimental viabiliza o processo de concepção e materialização de um artefato têxtil, concebido sob a premissa zero waste e estruturado a partir de um sistema de módulos interconectados. O estudo fundamenta-se nos princípios projetuais de Nanni Strada e Issey Miyake. Os resultados evidenciam que a experimentação, enquanto estratégia criativa aplicada à modelagem modular, configura-se como um instrumento promotor de inovação estética e técnico-produtiva, contribuindo para a otimização de recursos e a mitigação de impactos ambientais decorrentes do processo produtivo.
Este artigo tem como objetivo abordar tipos generalizados de técnicas de costura, industrial, artesanal e doméstica, para discutir a possibilidade de existência de multicosturas em um mundo dominado por uma monocostura industrial. A partir do diálogo entre as teorias de Heidegger (2006 [1953]) e Hui (2020), sobre a técnica no mundo moderno, e de pesquisas que investigam costureiras no Brasil, este trabalho coloca em perspectiva o lugar técnico deste ofício. Este exercício leva a reflexão sobre a possibilidade de “costureiras de bairro” exercerem múltiplas técnicas de costura simultaneamente, considerando suas práticas heterogêneas, desenvolvidas em suas trajetórias, principalmente por não ser uma profissão institucionalizada. Julga-se as práticas das “costureiras de bairro” um importante objeto de estudo em relação a técnica na moda e no vestuário. O estudo sugere que uma perspectiva de tempo não linear acerca das técnicas de costura, como se apresenta na maioria das referências bibliográficas do campo da moda, como alta-costura > prêt-à-porter > fast-fashion, seja capaz de resgatar outros modos de costura.
O presente artigo propõe examinar a elegância masculina negra a partir das concepções de tecnologia da negritude e das sutilezas técnicas do dandismo. Objetiva-se investigar os processos que estruturam o regime de visibilidade do dândi negro, bem como delinear a constituição de sua formação ético-poética. Para tanto, retoma-se a noção de afrofabulação como instrumento teórico para refletir sobre o valor expressivo dos gestos corporais e a individuação da nuance por meio do uso de artefatos e artifícios técnicos. No âmbito das intersecções entre negritude e dandismo, adotamos uma dinâmica operatória interdisciplinar, que nos permite pensar as relações entre moda, estética, história e antropologia. A primeira seção da análise dedica-se à exploração do gesto e das técnicas corporais, com o intuito de integrar as estratégias de estilização do corpo ao modelo dinâmico da negritude. Para essa análise, recorre-se aos escritos de Marcel Mauss (2021), André Leroi-Gourhan (1964), Yves Citton (2012), Marielle Macé (2016), Albert Camus (2012) e Abdias Nascimento (1982). Na segunda seção, volta-se aos processos de recepção, transmissão e transgressão histórica do dandismo em manifestações diaspóricas. Com base na anarquia sartorial, investiga-se a subversão das estratégias coloniais de subjugação, revisitando os significados de fabulação e etnicidade para refletir sobre o conceito de “afrofabulação”, com referência a Gilles Deleuze (2012), Achille Mbembe (2014) e Stuart Hall (2006). O objetivo é pensar a formação do ethos do homemnegro elegante, compreendendo sua construção identitária a partir da ação heroica de modelar a aparência, concebida como um ato de liberdade cívica.