
As mudanças de paradigmas nas políticas culturais e nas relações entre pessoas, artes e culturas favoreceram a emergência de novas necessidades e respetivas respostas oferecidas de forma profissional. A fim de conhecer melhor esses profissionais e as suas práticas de intervenção em mediação artística e cultural implementadas em Portugal, foi realizado um inquérito por questionário. Os resultados mostraram que os profissionais em mediação artística e cultural têm uma formação de elevado nível de qualificação, em áreas que vão das artes às ciências sociais, mas também em mediação artística e cultural, levando-nos a encarar a possibilidade de emergência de um grupo profissional uniforme, mas caraterizado pela inter/transdisciplinaridade da sua formação e das suas competências, que incluem a flexibilidade, a variabilidade e a adaptabilidade para fazer face às situações complexas. Palavras-chave: mediação artística e cultural; profissão; grupo profissional; Portugal.
Este artigo tem o propósito de analisar como o cuidado se configura numa oficina de pintura em contexto institucional, explorando de que modo a prática artística reconfigura gramáticas de ação no trabalho social. Com base numa investigação qualitativa de inspiração etnográfica, desenvolvida ao longo de dois anos de observação participante e conversas informais com técnicos e utentes, analisamos as práticas à luz da ética do cuidado, das sociologias pragmáticas e da tipologia de Laforgue. Os resultados evidenciam três modalidades de cuidado: um cuidado com os outros, na copresença e coautoria; um cuidado para os outros, ligado à manutenção hospitaleira do espaço; e um cuidado sem os outros, marcado pela contenção ética, pela espera ativa e pelo respeito ao silêncio e ao retraimento. A oficina mostra-se, assim, como dispositivo ético-estético capaz de acolher presenças, hesitações e ausências, valorizando o “trabalho sem os outros” como forma discreta, mas decisiva, de cuidado. Palavras-chave: cuidado; vulnerabilidade; sociologias pragmáticas; arte; trabalho social.
O presente artigo pretende analisar o lugar da mulher negra nas práticas discursivas do Renascença Clube, considerado o primeiro clube negro da cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, visa entender como ocorre a participação do clube nas atividades e serviços voltados ao empoderamento da mulher negra frequentadora da instituição, ações implicadas em discursos que apresentam virtudes e ambiguidades. O método de pesquisa, baseado na Pesquisa-Ação, permitiu problematizar os projetos atualmente em desenvolvimento, mediante críticas às suas evidentes contradições, tanto sob a perspectiva histórica quanto sob o viés étnico-racial e de gênero. Verificou-se que as práticas do clube, como os concursos de beleza e os projetos voltados à saúde mental, conquanto positivadas em sua premissa, ainda revelam um enredo que pode reatualizar certas categorias de controle sobre o autêntico protagonismo da mulher negra. Palavras-chave: empoderamento feminino; mulheres negras; beleza negra; afro rena.
Este estudo explora a Hermenêutica de Profundidade (HP) como uma abordagem teórica e metodológica para a compreensão de fenômenos em contextos sociais complexos. Este ensaio discute e demonstra as etapas de construção da HP. Aplicamos essa metodologia para analisar um fenômeno atual no contexto brasileiro: a Educação a Distância no ensino superior. Os resultados indicam como as formas simbólicas atuaram em um contexto institucional, incentivando a formação de um oligopólio nessa modalidade de ensino. Nossa contribuição para a literatura reside na demonstração da relevância da HP para investigar transformações institucionais e normativas, destacando a importância da contextualização sócio-histórica na compreensão do fenômeno. Além disso, enfatizamos o papel do tensionamento interpretativo, que possibilita uma análise crítica dos achados do estudo. Palavras-chave: hermenêutica; interpretativismo; ideologia; educação a distância; contextos complexos.
El presente artículo analiza la identidad profesional docente en una maestra de educación infantil aymara desde un enfoque interseccional que articula género, cultura y profesión. Mediante un estudio cualitativo de caso único con perspectiva narrativa, se coconstruyó la trayectoria biográfica de Alicia, una educadora cuya historia encarna una agencia situada en contextos de desigualdad estructural. Los hallazgos se organizan en cinco momentos: (1) “Urdiendo raíces”, infancia con vocación temprana; (2) “Tramas de la formación docente”, marcadas por tensiones de género; (3) “Hilvanes andinos”, retorno al altiplano y re-etnización; (4) “Contrahilos urbanos”, docencia en sectores vulnerables; y (5) “Entrelazando saberes”, madurez profesional desde la revitalización cultural y disputa de género. El análisis revela cómo la identidad docente se configura como un tejido dinámico que articula resistencia, justicia epistémica y prácticas pedagógicas culturalmente pertinentes. Palabras clave: identidad profesional docente; educación infantil; cultura aymara; interseccionalidad; narrativa biográfica.