Este relato de experiência apresenta o processo de construção e manutenção de uma rede multicêntrica e transdisciplinar de pesquisadores no campo das migrações transnacionais e da saúde no contexto da Covid-19. Descrevemos os desafios no processo, a organização das estratégias metodológicas, os processos de trabalho, as contribuições dos atores, bem como os limites e as potencialidades. Na pesquisa multissituada em seis estados no Brasil, identificamos problemáticas em saúde e no adoecimento no acesso aos serviços de saúde e proteção social por migrantes internacionais e refugiados durante a pandemia. Nesse relato sobre o processo de planejamento e execução, evidencia-se a complexidade do design na perspectiva teórico-metodológica provocando reflexões e decisões singulares. Com a experiência coletiva busca-se contribuir para a pesquisa qualitativa, multicêntrica e interdisciplinar com foco nas migrações internacionais por meio das Ciências Sociais em Saúde na Saúde Coletiva.
RESUMO O acesso à saúde para a população trans aparece como uma questão que merece atenção, principalmente ao notar que esse direito foi amplamente negado ao longo da história, afetando o desenvolvimento dos serviços e a atenção integral à saúde. Estudo de natureza qualitativa com estratégias etnográficas, que tem como objetivo analisar a vivência da transgeneridade e suas experiências nos serviços de saúde. As técnicas de coleta de dados foram a observação participante e a realização de entrevistas semiestruturadas. Foram entrevistados 30 participantes, sendo eles 22 pessoas trans, 6 profissionais de saúde e 2 gestores. Discutir políticas de saúde e serviços eficazes requer considerar o aspecto interseccional que atravessa as necessidades das pessoas trans, que enfrentam obstáculos significativos no acesso à saúde e às tecnologias médicas. Os serviços especializados no processo transexualizador são centralizados, oferecendo condições restritas de acesso. O fornecimento de hormônios e a insuficiente realização de cirurgias pelo SUS foi constatada como uma das principais barreiras na efetivação do direito à saúde. As vulnerabilidades sociais e programáticas atravessam a relação de saúde vivenciada por essa população e a qualificação dos profissionais de saúde é colocada como um fator decisivo para a transformação da assistência especializada.
A pandemia de COVID-19 trouxe novos desafios para a cooperação global dos países e afetou, primordialmente, populações que já estavam em situação de vulnerabilidade social, aprofundando as desigualdades sociais estruturais do país. O artigo enfoca algumas experiências de cooperação internacional implementadas durante o período da pandemia no que tange à epidemia de HIV e Aids e na compreensão de experiências de cooperação que colaboraram para a garantia dos direitos de pessoas vivendo com HIV. Desenvolveu uma análise de notícias online divulgadas em sites oficiais de instituições de governo, organismos internacionais e não governamentais, que atuam no campo da saúde coletiva envolvidos na resposta nacional ao HIV e Aids, no período de 2020-2022. A informação coletada foi sistematizada por meio de uma matriz analítica. O UNAIDS e a Fiocruz figuram como instituições centrais na manutenção dos direitos das pessoas vivendo com HIV durante esse período, no qual desenvolveram algumas experiências de cooperação internacional. Os resultados mostram a capacidade institucional de mobilização e articulação na oferta de respostas rápidas. A pandemia de COVID-19 sobrecarregou os sistemas de saúde dificultando o acompanhamento das pessoas que vivem com HIV e Aids e potencializou efeitos negativos por meio da sindemia HIV e Aids e COVID-19.
Resumo Documentos que subsidiam a assistência à saúde de pessoas transexuais surgem no Brasil no final do século XX. Como política pública, o processo transexualizador foi redefinido em 2013 no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. A literatura discute a forma como o modelo biomédico atravessa as práticas em saúde e desconsidera os aspectos socioculturais da comunidade. Porém, para além da interface biologicista, sabe-se que as práticas de cuidado a corpos trans também têm suas identidades permeadas pelo binarismo de gênero. O presente artigo realizou uma discussão teórico-conceitual sobre a forma como o binarismo de gênero influencia as práticas em saúde para pessoas trans e violenta a diversa possibilidade de existência desses corpos e identidades. O binarismo de gênero incide sobre as práticas assistenciais com o objetivo de corrigir esses corpos para dentro da norma biológica do ser homem e mulher e ignoram as percepções e desejos das pessoas trans sobre os seus próprios corpos, colocando-as como coadjuvantes desse processo em que deveriam ser protagonistas. Devem ser assegurados espaços assistenciais seguros que respeitem os desejos das pessoas trans sobre os seus corpos e a diversa possibilidade de existência referente a corporalidade humana e a identidade de gênero.
In the context of international migration, many migrant women face an overload of care work for other people, corroborating a lack of adequate care and protection for them, which places them in vulnerable situations and at risk of suffering psychosocial harm. emotional and physical to your health. This is aggravated in the scenario of the COVID-19 pandemic, considering the structural social inequalities that have deepened to unsustainable limits for the subaltern sectors of societies, where Latin American migrant women who work in the field of domestic care of Spain and Germany. In this way, this work seeks to analyze the problem of psychosocial suffering related to care work in migrant Latin American women in Germany and Spain during the COVID-19 pandemic. For this, the integrative review was used as a qualitative synthesis procedure of previous related studies. The importance of this study lies in the fact that there are few studies on the psychosocial health of Latin American migrant women who perform domestic and care work. Some results show that, in this labor niche in Germany and Spain, the identity of women, migrants and Latin Americans, can contribute to unleash psychological and emotional suffering, due to the precarious working conditions to which many submit out of necessity and because of the field. of care to be the first "option", derived mainly from the limited perspectives of labor and social insertion in the country of destination, than from a freely and consciously chosen task.
BackgroundTransnational immigrants are particularly impacted by neglected diseases, which take a heavy biological, social, and emotional toll in these marginalized communities. Chagas disease has transformed from an exclusively rural to an increasingly urban phenomenon encompassing non-endemic areas in Latin America.MethodsThrough semi-structured interviews, we investigated representations of Chagas disease in Bolivian immigrants in São Paulo, Brazil. Between August and September 2015, 27 adult migrants were interviewed, 11 of them with Chagas disease. We explored problems of access to health services and essential knowledge about the disease, as well as related conceptions and health practices.ResultsParticipants constructed social representations of Chagas through interactions with family and social networks, drawing on earlier experiences in Bolivia. Diagnosis often provoked fear, and participants faced barriers to care based on language differences and uncertainties about the disease and treatment options. Healthcare personnel played an important role in alleviating concerns and facilitating access to information.DiscussionThe complex intersection of migration and neglected diseases creates challenges for local and national health programs, requiring innovative responses incorporating the perspectives and needs of the often vulnerable affected communities.
BACKGROUND:Social reintegration relies on the support given to prisoners not only during their reentry into society but also throughout their imprisonment. Our goal was to analyze the expectations reported by cisgender and transgender women returning to society and of the justice and social welfare professionals from the Brazilian prison system. METHODS:A qualitative analysis using saturation sampling was conducted. The participants were selected through a non-probabilistic sampling technique. Data was collected through semi-structured interviews with professionals involved in the management of the prison system and female former inmates. Interviews were transcribed and analyzed using an open and focused coding process. Textual data was stored, organized, and coded using Atlas software according to emerging themes. RESULTS:The study involved 15 professionals and 13 female former inmates, five of them identified as transgender women. Among the professionals, the age range went from 38 to 65 years old; they reported a work history in their respective fields, from 10 to 35 years, with an equal distribution across genders. As for the female former inmates, their ages ranged from 24 to 42 years old, and the most reported crime was drug trafficking. Their incarceration time varied from 1 to 8 years. Female inmates were vulnerable to abuse and violence, including physical, sexual, and emotional violence. Women in situations of prior vulnerability faced additional challenges during their sentences. Transgender women were even more neglected and discriminated against by the system. Despite the professionals being aware and concerned about vulnerabilities and the need to improve the reintegration process, in general, they were not sensitive to the gender perspective. There were no specific policies able to support social integration for this public. CONCLUSIONS:Data showed multifaceted challenges faced by female former inmates within the Brazilian prison system, highlighting the insufficient policies for both cisgender and transgender women. Additionally, the results revealed a lack of sensitivity among professionals regarding gender issues and their particularities in the prison system and social reintegration. These findings emphasize the need for a more comprehensive and intersectional approach that addresses the diverse socio-economic backgrounds of these individuals.
Resumen Las desigualdades estructurales sociales y de distinto tipo, intrínsecas al capitalismo, se profundizaron con la pandemia de Covid-19 hasta límites insostenibles para los sectores subalternos, entre los cuales se ubican los conjuntos de migrantes en situación administrativa irregular de los distintos países. A través de un enfoque antropológico transnacional, auxiliado por la etnografía virtual, se aborda el impacto sociosanitario que tuvo la crisis pandémica para estos grupos en Barcelona, São Paulo y Buenos Aires durante 2022-2023, así como sus respuestas grupales-comunitarias para contener y sobrellevar sus necesidades inmediatas y urgentes, más allá de las políticas públicas implementadas en cada país/región/ciudad, con desigual cobertura y eficacia. La realidad abordada, entonces, conjuga esas carencias estructurales que no fueron resueltas como consecuencia de la crisis desatada a partir de la pandemia, con nuevas problemáticas sociosanitarias derivadas de las necesidades de supervivencia de los migrantes en cada contexto, destacándose el protagonismo de las mujeres.
With the increasing number of women deprived of liberty worldwide, implementing specific strategies that should be applied to the support offered to these women are essential social measures. This study aims to analyze the supply of resources for the social reintegration of former inmates of the Brazilian prison system from a gender perspective. We propose to conduct a documentary analysis on governmental and non-governmental strategies aimed at this audience, with a gender perspective, through an analytical matrix for the 2020-2021 period. The results show several programs in the country aimed at the social reintegration of former prisoners; however, few have a gender perspective. The theme of social reintegration and the prison system was identified in 84 news items on government agencies’ websites, 20 of which were federal and 64 state, in 11 international organizations operating in Brazil, and 12 NGOs. Only six had a gender profile. The challenge for the Brazilian penitentiary system is to introduce the citizenship and human dignity approach in the prison system, including an approach to the gender issue.
With the increasing number of women deprived of liberty worldwide, implementing specific strategies that should be applied to the support offered to these women are essential social measures. This study aims to analyze the supply of resources for the social reintegration of former inmates of the Brazilian prison system from a gender perspective. We propose to conduct a documentary analysis on governmental and non-governmental strategies aimed at this audience, with a gender perspective, through an analytical matrix for the 2020-2021 period. The results show several programs in the country aimed at the social reintegration of former prisoners; however, few have a gender perspective. The theme of social reintegration and the prison system was identified in 84 news items on government agencies' websites, 20 of which were federal and 64 state, in 11 international organizations operating in Brazil, and 12 NGOs. Only six had a gender profile. The challenge for the Brazilian penitentiary system is to introduce the citizenship and human dignity approach in the prison system, including an approach to the gender issue.
Resumo Com o aumento do número de mulheres privadas de liberdade em todo o mundo, a importância da implantação de estratégias específicas que devem ser aplicadas ao suporte oferecido a essas mulheres são importantes medidas sociais. O objetivo deste estudo é analisar a oferta dos recursos para a reinserção social de egressos do sistema prisional brasileiro, com o recorte de gênero. A proposta é realizar uma análise documental sobre estratégias governamentais e não governamentais direcionadas para este público, com recorte de gênero, por meio de uma matriz analítica pelo período compreendido entre 2020 e 2021. Os resultados mostram que há no país diversos programas voltados à reinserção social de egressos do sistema prisional, entretanto poucos apresentam um recorte de gênero. O tema reinserção social e sistema prisional foi identificado em 84 notícias em sítios dos organismos governamentais visitados, sendo 20 federais e 64 estaduais. Em 11 organismos internacionais atuando no Brasil e em 12 ONGs, somente seis apresentaram recorte de gênero. O desafio do sistema penitenciário brasileiro é incluir a abordagem de cidadania e dignidade humana no sistema prisional, incluindo uma abordagem da questão de gênero.
This paper analyzes, in an articulated way, the trajectories experienced by a group of Syrian refugees hosted in Portugal, within the framework of the European relocation program (2015-2017), and the policies adopted, as well as the programs implemented, to host and integrate them in the country. From the development of an ethnographic methodology, the perspectives of the actors themselves of these processes were recovered. Through the analysis of their narratives, it was possible to detect a series of deficits, shortcomings, and development needs not covered in terms of refugee-hosting programs and integration policies, which can be synthesized into three main ones: language (lack of effective teaching of the Portuguese language), work (lack of support tools for its search and job placement) and training (lack of training). A fourth element to consider in the analysis is that of structural obstacles, fundamentally those of bureaucratic-clientele order
This ethnographic work explores the processes of insertion of refugees in Portugal, focusing specifically on the university environment, from the perspective of the actors themselves. The field work, carried out in Lisbon during 2017-2018, was based on the selection of a sample of eight adult refugee men with complete or incomplete higher studies, to whom I conducted in-depth semi-structured interviews. The integration of refugees in the Portuguese higher education system still lacks a regulatory framework and a base of guidelines that allow the recognition of their academic qualifications; added to the structural obstacles and the deficit in the teaching of the language, their insertion processes are difficult. The instances of diagnosis and evaluation of the sectoral policies implemented should consider the voice of the actors who are the protagonists of these processes and the main recipients of the actions. Here is the contribution of this study.
Este trabajo explora etnográficamente los procesos de inserción de los refugiados en Portugal focalizado específicamente en el ámbito universitario, desde la perspectiva de los propios actores. El trabajo de campo, desarrollado en Lisboa durante 2017-2018, se basó en la selección de una muestra de ocho hombres refugiados adultos con estudios superiores completos o incompletos, a quienes se realizaron entrevistas semiestructuradas en profundidad. La integración de los refugiados en el sistema de educación superior portugués aún carece de un marco normativo y de una base de directrices que permitan el reconocimiento de sus cualificaciones académicas; sumado a los obstáculos estructurales y al déficit en la enseñanza de la lengua, sus procesos de inserción se dificultan. Las instancias de diagnóstico y evaluación de las políticas sectoriales implementadas deberían contemplar la voz de los propios actores protagonistas de esos procesos y principales destinatarios de las acciones. De ahí el aporte de este estudio.
O fenomeno de jovens trabalhadores bolivianos de ambos os sexos que migram para a cidade de Sao Paulo em busca de melhores condicoes de vida, tem sido determinado principalmente pela possibilidade de encontrar trabalho e remuneracao melhores do que aqueles encontrados em seu pais de origem. A maior parte dos imigrantes desconhece as condicoes que trabalho que encontrarao no destino, sendo a costura, muitas vezes, a unica opcao de trabalho viavel quando da chegada ao destino, tendo garantia, tambem, de morada, alimentacao e remuneracao. Os imigrantes, e em alguns casos seus filhos, vivenciam varios problemas de saude gerados pelas precarias condicoes de higiene, saude e trabalho presentes nas oficinas de costura. Uma parte importante dos imigrantes nao frequenta os centros de saude para tratar seus problemas devido ao desconhecimento sobre os servicos, medo, barreiras linguisticas e, principalmente, porque nao podem interromper a jornada de trabalho sob risco de diminuicao da renda adquirida pela producao de pecas de vestuario.
Resumo Os recentes processos migratórios internacionais ocorridos no Brasil se apresentam como um campo de estudo para as ciências sociais e humanas em saúde. Este artigo tem como objetivo refletir sobre os processos de inclusão de imigrantes e refugiados pelas instituições de saúde, considerando o campo de debates das ciências sociais e humanas em Saúde e o comprometimento dessa área com os direitos humanos. Inicialmente, são apresentadas características contemporâneas das migrações internacionais, incluindo a situação brasileira. Em seguida, são descritas algumas pesquisas e práticas sobre concepções de saúde, doenças e cuidados com imigrantes e, por fim, propomos um debate acerca de alguns conceitos antropológicos que podem contribuir para uma abordagem menos estereotipada dos processos de inclusão nas instituições de saúde nacionais. Pretendemos apresentar uma perspectiva das ciências sociais e humanas em saúde em um horizonte teórico articulado com práticas em saúde que, de certa forma, podem contribuir para a formulação de conceitos, explicações e orientações no plano das políticas públicas com essas populações.