
Resumo O artigo propõe uma releitura de 28 fotografias do Fundo Anthony Leeds das favelas do Rio de Janeiro nos anos 1960, estruturando a análise em torno de três ausências, três camadas e três paradoxos. As ausências referem-se à escassez de descrições que acompanham as imagens, à presença de crianças nas fotografias sem tematização analítica e ao registro de favelas posteriormente apagadas do espaço urbano. A partir dessas lacunas, o texto propõe três camadas de produção de sentido: as reportagens do Correio da Manhã, as fotografias e a interpretação construída a partir do entrecruzamento desses materiais. Nesse percurso, emergem três paradoxos: a centralidade empírica e a marginalidade teórica da infância; sua presença ora central, ora periférica nos enquadramentos; e a dissociação entre ver e olhar. Ao explorar essas tensões, o artigo interroga limites históricos e epistemológicos da produção de conhecimento antropológico sobre favela e infância.
Resumo A loteria popular do jogo do bicho possui em sua estrutura de gestão uma dinâmica espacial territorialmente organizada de modo que as apostas possam ser realizadas de maneira contínua e estável. A geopolítica do bicho envolve mecanismos político-econômicos que foram historicamente engendrados de modo a garantir a manutenção do jogo nas mãos dos atuais donos e seus familiares. Com isso, o presente artigo busca refletir e analisar algumas das dinâmicas e mecanismos com que essa organização produz garantias e transmite transgeracionalmente o controle legítimo de um determinado território. Enquanto tais relações de poder político, econômico e simbólico são projetadas sobre o espaço das ruas e esquinas da capital fluminense, distintos processos de territorialização e desterritorialização intrínsecos à própria dinâmica do bicho se animam.
Resumo O presente artigo analisa os textos da música de mbira em Moçambique, com vista a identificar os aspetos que impulsionam a sua prática. O estudo dos textos musicais foi conduzido através de pesquisa bibliográfica e de trabalho de campo, que possibilitaram a interação humana e a compreensão holística da cultura moçambicana. Os textos musicais foram analisados à luz das teorias pós-coloniais, tendo emergido vozes até então excluídas das narrativas históricas dominantes. Como resultado, os textos musicais dos estudos anteriores revelaram aspetos como a escravatura, o colonialismo, a exploração, as torturas, as injustiças, a desigualdade, entre outros, bem como a necessidade de união para combater esses males. Por outro lado, os textos da música de mbira abordam aspetos como o Ubuntu, os dogmas de algumas etnias, a ancestralidade africana, a natureza e os valores educativos, sem descurar a permanente desigualdade e o colonialismo. Conclui-se que, embora ainda haja resquícios do colonialismo, as pessoas agem para além da matriz universal, reinventando a tradição africana.
Resumo Estudos antropológicos têm demonstrado como os mundos humanos são co-constituídos com outros seres vivos, especialmente com plantas. Este artigo reflete sobre modos de habitar, viver e se relacionar olhando para uma relação humano-planta específica, entre o dendezeiro e os Yoómbe, que residem na floresta do Mayombe na República Democrática do Congo. Discuto como esta relação define os corpos, os gêneros e as gerações, sublinhando as associações alto - baixo e masculino - feminino, que atravessam também a casa e os modos de se sentar. O estudo de caso possibilita uma reflexão mais abrangente que indica como modos de habitar também devem ser considerados modos de se sentar, o que nos permite pensar sobre processos coloniais, as transformações de gestos, corpos e a incorporação de novos artefatos à vida cotidiana, como no caso às cadeiras com assentos e encostos elevados enquanto itens de mobília. Ao mesmo tempo, viabiliza uma discussão sobre o fazer etnográfico e os modos de se sentar de nossos próprios corpos durante o trabalho de campo.
Resumo Nas últimas décadas, Cabo Verde vem passando por um processo de transformação das suas paisagens com o recebimento de um expressivo fluxo de estrangeiros, especialmente europeus e africanos, que aportam no país em busca de auferir renda a partir do boom turístico que vive o país. Essas alterações são vistas e sentidas não apenas nas paisagens, como também nas relações conjugais entre cabo-verdianas(os) e estrangeiras(os). Tendo esse contexto como foco, desejamos argumentar aqui como esses “novos” vínculos parecem refletir e reproduzir relações hierárquicas, desiguais e de violência por um lado e de cordialidade, abertura ao outro e hospitalidade a depender de quem é esse estrangeiro que adentra no universo doméstico e familiar, ainda que não sejam reproduzidas em uma dicotomia radical. Partindo de dados produzidos nas ilhas de Santiago e Boa Vista, este artigo é um esforço analítico inicial para compreender os relacionamentos conjugais a partir de um nexo racial.
Resumo Este artigo examina as ações jurídicas e políticas migratórias do primeiro chefe de Estado do Haiti, general Jean-Jacques Dessalines, em sua resistência ao colonialismo francês, de 1804 a 1806. Suas medidas punitivas contra os franceses considerados culpados de assassinar africanos representaram uma forma de justiça revolucionária e não uma vingança indiscriminada. No entanto, a historiografia colonial há muito tempo enquadra essas ações como “massacres”, uma narrativa que continua influenciando a pesquisa contemporânea. A partir de uma perspectiva decolonial, o estudo revisita documentos históricos para revelar como Dessalines contribuiu para restaurar a dignidade e a humanidade dos afrodescendentes, ao mesmo tempo que transformou o Haiti em um refúgio e em um símbolo de resistência anticolonial. Ao problematizar interpretações ocidentais que diminuem a importância do libertador haitiano, o artigo contribui para uma compreensão profunda das bases da identidade haitiana e do papel duradouro do país na luta global pela liberdade e pela igualdade dos negros.
Resumo A luta pela legitimação do acesso a creche enquanto direito e como forma de compartilhar socialmente o cuidado de crianças tem sido, ao longo das últimas décadas, marcada pelo protagonismo de mulheres e de movimentos sociais negros e feministas. A partir de etnografia realizada em Porto Alegre com mulheres mães a fim de garantir acesso à vaga em creches para seus filhos(as), este artigo objetiva refletir sobre as articulações entre a luta de mulheres negras por creches e outras lutas por melhores condições de uma vida digna. Ao tomar o ativismo cotidiano como eixo analítico, a discussão apresentada mobiliza diferentes sentidos de cuidado, ao refletir como as articulações de mulheres negras para o cuidado de crianças pequenas envolve diferentes articulações políticas e comunitárias na/fora da comunidade em que vivem pela garantia de direitos, como água encanada, eletricidade e saneamento básico.
Resumo Este texto analisa a apropriação e a utilização da imagem pelos diferentes grupos indígenas que fazem parte do projeto Vídeo nas Aldeias, de acordo com seus projetos políticos e culturais e a expressão de suas identidades coletivas, que se revelam quando as imagens de si mesmo e dos outros povos, em vídeo, são apreciadas e compartilhadas.
Resumo Este estudo examina a vivência cotidiana de um grupo de batuqueiros - pessoas ligadas a uma das modalidades de Religião Afro-Brasileira de Porto Alegre - tendo como ponto de partida a casa da mãe-de-santo, a experiência de pertencimento a uma Família de Santo e, posteriormente, os deslocamentos deste grupo na cidade, principalmente em seus espaços de lazer. Tais vivências cotidianas revelam-se intermediadas pelas concepções e valores religiosos, mostrando os batuqueiros como sujeitos inseridos numa ordem cosmológica tradicional de mundo. A utilização de fotografias neste trabalho se dá em níveis distintos. Inicialmente, enquanto imagens que subsidiaram a construção da escritura. Num segundo momento, enquanto material de troca e inter-relação com o grupo, onde se revelou a persistência da visão sagrada de mundo totalizando as experiências cotidianas batuqueiras. Finalmente, as fotos complementam a escritura, como imagens que revelam a sensibilidade religiosa do grupo, requisito que o texto escrito, por si só, não preenche.
Resumo O trabalho procura analisar o churrasco enquanto um prato emblemático do Rio Grande do Sul e enquanto um ritual de comensalidade. Considera o churrasco em grupo uma manifestação eloqüente, ou seja, uma prática cultural significativa para a sociedade riograndense, expressando julgamentos e valores bem como formas de sociabilidade e de organização grupal.
Resumo Trato, nesta comunicação, da pesquisa realizada entre 1984 e 1991 junto aos fast-foods de grandes cadeias (McDonald’s, Burger King, Kuick, Bob’s, etc.), em vários países e especialmente no Brasil e na França. Enfoco as práticas, significados e imaginários dos alimentos nesses restaurantes, tendo em vista a relação entre a comida e a identidade. Entre os temas tratados estão os mitos de origem dos fast-foods; a dicotomia refeição/snack (tomada de alimento estruturada ou não); atração e repulsão à carne e aos vegetais; preferências e suspeitas dos consumidores segundo gênero, idade e etnia.
Resumo Neste artigo interpreto valores da cosmologia luterana relativos à alimentação, tendo como campo etnográfico A Festa de Babette. O filme narra o modo de vida de um grupo de luteranos dinamarqueses do século XIX e os embates emocionais em que se envolvem quando se expõem a outros estilos de vida. Interiorizando a moral luterana, as irmãs Martine e Felipa, personagens centrais do filme, conduzem suas vidas seguindo o curso da devoção, da austeridade e negação de si. Valores que podem ser entrevistos tanto na recusa da vida amorosa quanto em sua cozinha, concebida com sobriedade e insipidez para ser o lugar privilegiado de elaboração da noção de vítima sacrificial da mística religiosa que professam. O banquete de Babette, uma criada que é também uma artista, subverte esses valores ao transformar o ato de comer em uma epifania.
Resumo Neste ensaio, discuto a relevância da dimensão imagética na pesquisa antropológica a partir de uma reflexão sobre o significado da etnografia. Diferentemente dos antropólogos pós-modernos, que tendem a tratá-la meramente como um “gênero literário”, ou uma relação dialógica entre pesquisadores e seus sujeitos, enfatizo a sua importância como um fenômeno histórico que reflete e transforma a teoria antropológica. Dessa perspectiva, examino: a) a relação entre etnografia e uma prática de pesquisa engajada, que inclui o uso do vídeo e de histórias orais; b) a resultante redefinição das relações entre pesquisador(a) e seus sujeitos, bem como da questão objetividade versus subjetividade na pesquisa; e c) as relações, diferenças e complementaridades existentes entre o texto etnográfico escrito e a etnografia visual.
Abstract This paper examines the addition of Umbanda spirits (exus) into the therapeutic treatments of break-away Kardecist healers. The author analyses some of the implications of the use of Umbanda spirits. After first presenting Umbanda as a syncretic religion whose founders saw it as a hopefully unifying and integrating religion for a racially, ethnically and socially divided Brazilian society, he describes two cases of “disobsession” therapy summarizing the morally driven Kardecist belief system that informs the treatment. He shows, as exemplified in the second case, that exus are seen by the Kardecist healers as a negative force contributing to the illness and suffering of patients. Consequently, they are treated and, along with other spirits that are “causing” illness, set back on a course of moral development. After placing Kardecism and its traditional white, middle-class constituency in the context of massive urbanization, declining access to resources and a growing fear of competition from large and increasing numbers of people of African heritage, he concludes that the addition of Umbanda spirits in Kardecist disobsessions may be seen as a way of demonstrating the ability to control Africa and Africans, thereby minimizing their perceived threat.