
Este texto tem como objetivo analisar a representação da mulher portuguesa nos livros Mulheres e Crianças: notas sobre educação, Cartas a Luiza: moral, educação e costumes e As nossas filhas: cartas às mães, de Maria Amália Vaz de Carvalho, publicados em 1880, 1886 e 1905, respectivamente. A metodologia se dá na perspectiva da Nova História Cultural, tomando como referência Chartier (1999), já que o livro instaura uma ordem, teoria defendida por esse autor. Nas obras, a autora, por meio da narrativa circular e da escrita epistolar, orienta a conduta moral e educacional das leitoras tanto na esfera pública quanto na privada, recursos utilizados para tornar o discurso mais persuasivo, uma vez que, na época, havia a influência de obras com figuras femininas transgressoras, a exemplo de Emma Bovary e Indiana.
Neste trabalho, iremos investigar a contribuição das teorias filosóficas das feministas pós-estruturalistas para a construção da Ética do cuidado no âmbito dos Estudos da deficiência. A partir de um breve percurso histórico em que abordaremos os desdobramentos teóricos do pensamento feminista queer e crip e da análise do conceito de capacitismo segundo uma perspectiva decolonial, chamaremos atenção para a emergência do cuidado enquanto princípio de justiça.
A imprensa periódica nos anos iniciais do século XX foi um importante espaço de efervescência intelectual e de luta por direitos das mulheres, como educação e voto. Nesse sentido, esta pesquisa se colocou a analisar um projeto de educação existente nos escritos das mulheres-autoras, fruto desse contexto, publicados na revista A Violeta, nos anos de 1916 a 1950, compreendendo que, mesmo submetidas a uma estrutura hegemônica patriarcal, reverberavam um contexto protofeminista em Mato Grosso. A pesquisa de caráter documental adotou como referencial teórico-metodológico a História Cultural, na perspectiva de Chartier. Os textos analisados evidenciaram um espaço de movimentação política no aparato textual ali disponível, que estabeleciam um discurso em que ora se utilizavam de um feminismo possível e ora resistiam a ele.
Este artigo analisou o voto da Ministra Rosa Weber na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 sobre a criminalização do aborto nas doze primeiras semanas. Verificou-se se a decisão está em consonância com as demandas de justiça e cuidado, por meio de uma perspectiva feminista relacional. Primeiramente, estudaram-se as interações entre as éticas da justiça e cuidado no campo do Direito e da decidibilidade jurídica. Depois, constatou-se se ambos os valores estão presentes no julgado. O método de abordagem utilizado foi o dedutivo, com técnicas de análise bibliográfica e documental, tendo textos de Robin West como marco teórico. Concluiu-se que o referido voto se articula com as exigências de justiça e cuidado, ao propor um sistema de justiça social reprodutiva, em vez de se limitar a inferir um direito de escolha de dimensão negativa.
A pesquisa trata acerca da vida da primeira travesti professora universitária do estado do Piauí, Brasil. O objetivo foi biografar Letícia Carolina Pereira do Nascimento com ênfase em sua trajetória formativa e atuação docente na educação superior. O estudo do tipo biográfico ancora-se teoricamente na História Cultural e metodologicamente na História Oral, entrecruzada como fontes documentais. Letícia Carolina nasceu em Parnaíba, onde viveu aos cuidados da avó materna. Ainda na identidade Romário Rawlisson, teve a oportunidade de ser escolarizada em instituições particulares. Graduou-se em Pedagogia pela Universidade Federal do Piauí, onde concluiu o mestrado e o doutorado em Educação e efetivou-se professora. Ela superou os preconceitos e as violências consoantes à sua identidade de gênero e tornou-se referência nos estudos transfeministas no Brasil, ocupando espaços pouco comuns às mulheres travestis.
Este artigo tem como temática a educação feminina, por meio da educação do corpo, em conteúdos destinados às mulheres contidos em propagandas, anúncios e matérias que circularam no jornal Diário da Tarde e nos jornais de origem protestante Expositor Cristão e O Estandarte, na primeira metade do século XX. O objetivo é analisar conteúdos portadores de representações de intimidades sobre o corpo feminino, nos referidos jornais, nesse período. O estudo ancora-se nos pressupostos teórico-metodológicos da história cultural (Roger Chartier, 1990), tendo a pesquisa bibliográfica e os jornais como fontes de investigação. Os dados obtidos, por meio da compreensão de representações, prescrevem comportamentos e modos de agir que apontam não somente para práticas culturais e educativas e, por isso, para a formação de mulheres, na primeira metade do século XX.
No processo migratório venezuelano, mais da metade das pessoas deslocadas são mulheres. Conhecer a realidade das mulheres migrantes e refugiadas venezuelanas no Brasil é assumir uma postura feminista interseccional que vislumbra romper com o escamoteamento das opressões vivenciadas por elas. Para tanto, foi realizado um estudo exploratório de caráter qualitativo que teve como objetivo compreender as vivências das mulheres venezuelanas lideranças comunitárias em Boa Vista/RR, em especial, como as relações familiares estão sendo tecidas frente ao processo migratório. Identificou-se que as desigualdades sociais e de gênero são intensificadas nas experiências das mulheres venezuelanas ao serem duplamente responsabilizadas pelo trabalho do cuidado familiar e comunitário, produzindo dialeticamente a construção de redes comunitárias e sofrimento psicológico.
O presente artigo analisa comportamentos transgressores praticados por uma jovem professora primária, protagonista do romance Eram seis assinalados, escrito pela literata paraense Lindanor Celina, que decide romper com os padrões convencionais da mulher na docência, vigente nos anos de 1930. Metodologicamente, a obra literária é entendida como fonte documental que tem no gênero romanesco a personificação de personagens femininas do mundo real. A obra romanesca em questão foi analisada com base em proposições teóricas que tratam dos temas relacionados à história da mulher e à docência feminina. As análises indicam que a professora primária rompe com padrões tradicionais da imagem da mulher recatada e apresenta comportamentos transgressores e de resistência aos padrões normativos impostos às mulheres na fictícia cidade do interior paraense na década de 30.
En las últimas décadas, existe cierta mirada feminista compartida sobre los problemas sociales de alcance global, donde se advierte la consolidación de una racionalidad política neoliberal que ordena nuestras sociedades y se apoya sobre el debilitamiento de las instituciones estatales, acumulaciones desiguales de riqueza, guerras y un refuerzo de la dominación racial, colonial y de género. Por lo tanto, la temática abordada por la autora cobra relevancia en estos tiempos, especialmente para ofrecer una explicación profunda de la actual crisis del orden social que tiene como corolarios la despolitización, el sufrimiento individualizado y una deriva punitivista de la sociedad en la resolución de conflictos, donde el feminismo aparece como reproductor de la retórica dominante pero también como chivo expiatorio.
Os discursos sobre o amor lésbico circulam em diversos espaços sociais, diferentes mídias e artefatos culturais. Este artigo estudou textos literários publicados em plataformas de leitura on-line como Wattpad e Amazon Kindle, com o objetivo de compreender que discursos sobre o amor lésbico constituem esses textos. Uma das formas de amor entre mulheres encontrada parte de um exercício ético de amar, em que o amor pela outra mulher também se configura como um amor de si, a partir do qual é possível constituir uma arte de viver para si mesma. O artigo discute em que medida o amor lésbico como amor de si funciona enquanto enunciado nos discursos de sete livros que contam histórias de amor entre mulheres publicados de forma independente nas referidas plataformas digitais.
Nas tramas da cruzada contra o fantasma do gênero, objetivamos problematizar o campo de forças da política sexual produzida no oeste de Santa Catarina. Com inspiração em perspectivas genealógicas e cartográficas, foram constituídos diálogos com pessoas envolvidas em polêmicas por defesas de pautas feministas e LGBTQIAPN+ nos espaços legislativos dos municípios. As marcas coloniais deste território são reatualizadas nos valores da família, trabalho e religião, que se entrecruzam com práticas coronelistas e antidemocráticas no Estado, complexificando as articulações neoconservadoras locais-nacionais das ofensivas antigênero. Nas micropolíticas deste ordenamento, com suas desigualdades e violências, emergem momentos de desencaixes e agenciamentos para a ação política e resistências de quem luta pela igualdade e liberdade de viver sem medo.
Passado o primeiro quarto do século XXI, persistem desigualdades de gênero e raça no mundo do trabalho, como disparidade salarial e sobrecarga dos cuidados para as mulheres. Em cenário de ofensiva do neoliberalismo e ultraconservadorismo no mundo e no Brasil, o objetivo, neste artigo, é analisar as principais políticas de trabalho e cuidados no terceiro Governo Lula (2023-2025), seus avanços, desafios e possibilidades. A estratégia metodológica foi a pesquisa documental, com análise da Lei de Igualdade Salarial e da Política Nacional de Cuidados (PNaC). Os resultados apontam que as políticas analisadas foram rapidamente recepcionadas e aprovadas, mostrando sua importância para a agenda pública brasileira. Entretanto, apresentaram concessões que refletem tensões e contradições que as consolidam como ilhas de resistência em um mar de conservadorismo neoliberal.
O que levou as mulheres pegarem em armas no regime civil militar brasileiro? Teria sido o mesmo motivo que as levou aos bancos escolares, à universidade, ao mercado de trabalho? Ou teria sido a luta pela igualdade dos direitos civis e a garantia dos direitos humanos? Ou, ainda, o combate ao autoritarismo e a luta pela democracia? Para responder a tais questionamentos, tomamos como objeto de análise as trajetórias de vida de quatro mulheres, presas políticas acusadas de subversão e de serem membros do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) em Pernambuco, no período de 1968 a 1978. Teoricamente, tais trajetórias foram analisadas à luz dos pressupostos da história das mulheres. O resultado evidencia práticas femininas que compõem um perfil de mulheres ativas e revolucionárias, distinto do “estereótipo” de passividade, que tanto as estigmatiza na escrita da História.
Este artigo tem como tema central a análise da pretensa justificativa de se considerar “falaciosa” a afirmação de que as mulheres foram invisibilizadas no que se refere a escolhas de patrimônio preservado em instituições de guarda. O objetivo central é demonstrar a diminuta existência de fundos, coleções e arquivos pertencentes a mulheres em relação aos mesmos guardados de patrimônio relativos aos homens. Para tanto, os procedimentos metodológicos referem-se a uma verificação no acervo constante de casas de guarda e instituições de patrimônio localizadas nas cidades do Rio de Janeiro e de Petrópolis, evidenciando os fundos de memória feminina em sua relação quantitativa com os fundos de memória masculina. Conclui-se com a desconstrução do discurso anacrônico de que se trata de uma “falácia” falar da invisibilidade feminina no patrimônio, corroborando-se a necessidade de estudos que possam obstaculizar argumentos sem base científica.
Resumen: La autonomía económica de las mujeres es clave para superar la pobreza, avanzar en igualdad de género y lograr un desarrollo sostenible. Sin embargo, en América Latina hay pocos estudios empíricos que aborden la capacidad de las mujeres para producir, administrar y controlar ingresos propios. A partir de una revisión sistemática de la literatura integrando el metaanálisis y la meta-etnografía, este artículo sistematiza el conocimiento sobre la autonomía económica de las mujeres en América Latina, reflexiona sobre los desafíos conceptuales y empíricos de este campo de investigación, y aporta antecedentes para las políticas públicas de igualdad de género en la región.
A Walt Disney Pictures, através da marca Princesas, tem desempenhado um papel crucial na construção de gênero, perpetuando por décadas um padrão de feminilidade que reforça expectativas restritivas para as mulheres, como a dependência dos homens e a ênfase na aparência física. Contudo, com o avanço do feminismo, essa concepção tem evoluído. Este artigo analisa como a empresa moldou e continua a moldar suas personagens femininas, explorando as mudanças e continuidades promovidas pelo estúdio à luz da ótica de gênero (Butler, 2021), e discutindo suas implicações socioculturais na sociedade contemporânea.