
O artigo analisa, a partir de uma abordagem etnográfica, como múltiplas formas de violência, incluindo violência doméstica, simbólica, institucional, estatal e estrutural, atravessam e constituem as trajetórias de mulheres transexuais, operando de forma contínua, articulada e interdependente. Essas violências configuram um campo relacional no qual diferentes mecanismos de controle, regulação e exclusão se sobrepõem e se reforçam em distintas esferas da vida social. A investigação, realizada entre 2020 e 2024, tem como eixo empírico o trabalho de campo na Casa Florescer, em São Paulo, no Brasil, e interlocuções no Porto, em Portugal. O artigo mobiliza esses contextos de forma diferenciada, tomando o caso brasileiro como núcleo analítico e o português como campo de contraste, a partir do qual se observa como essas violências se configuram e se reconfiguram em distintos regimes de reconhecimento e proteção. A pesquisa baseia-se em entrevistas abertas e semiestruturadas, observação participante e análise de documentos institucionais. Os dados evidenciam que a existência de dispositivos legais não garante proteção efetiva, sendo sua aplicação atravessada por estigmas e práticas institucionais que contribuem para a reprodução dessas violências.
MANAS collective is a self-managed project that promotes mutual support, the creation of safe environments and new advocacy agendas. Located in Intendente, Lisbon, the group includes cis and trans women who use drugs (WWUD), migrants, sex workers, and/or experiencing homelessness, who face multiple forms of daily violence. Through an ethnographic approach, this article analyses MANAS’ contributions to the development of action research that strengthens collective identity through community care activities and activist actions that advocate popular participation for political innovation. In addition, the article explores peer leadership and the extent of the creation of a space for women in GAT IN Mouraria service.
Este artigo retoma os estudos sobre a casa e o habitar desenvolvidos pela Antropologia e pela Arquitetura portuguesas, acrescentando-lhes um olhar vindo das geografias da arquitetura, para de seguida explorar a forma como os habitantes de edifícios de arquitetura de autor experienciam as suas casas e os seus bairros no quotidiano. Focando-se no caso do bairro da Malagueira em Évora, projetado por Álvaro Siza Vieira no final dos anos 70 para albergar populações de baixos rendimentos, mas entretanto tendo integrado uma constelação de populações mais variada, o artigo procura responder a perguntas sobre o que significa viver numa casa e num bairro projetados por um arquiteto consagrado, como se relacionam os modos de viver dentro da casa com o desenho e a estética relativamente austeras da arquitetura de Siza, e finalmente como é experienciada a relação com determinados elementos arquitetónicos que fazem a casa funcionar. Baseado em trabalho de campo etnográfico onde se usou a etnometodologia Show Us Your Home (Mostre-nos a Sua Casa), o artigo preenche a lacuna da relativa ausência de estudos sobre a experiência da arquitetura de Siza pelos seus moradores.
Este trabalho propõe reflexões a respeito das diferentes variáveis que operam na categorização de uma situação como competente ou não ao Núcleo Especial de Defesa dos Direitos da Mulher e das Vítimas de Violência de Gênero (Nudem) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ), onde realizei um trabalho de campo etnográfico entre agosto e dezembro de 2022. A expressão “violência de gênero atual/recente” é utilizada pelas assessoras jurídicas para caracterizar os casos que podem ser atendidos pelo núcleo. As categorias “violência”, “gênero” e “atual” são contextuais e refletem percepções morais distintas das pessoas responsáveis pelos atendimentos. Com base na descrição de casos específicos e em pesquisas sobre as dinâmicas classificatórias no sistema de justiça, construídas a partir de categorias relacionais e valorativas, analiso o impacto da expressão “violência de gênero atual/recente” na garantia dos direitos das mulheres que procuram o Nudem. Além disso, discuto os fatores que possibilitam o acolhimento de demandas inicialmente consideradas fora da competência do órgão.
En este artículo abordamos el caso de los huertos urbanos comunitarios de Madrid integrados en el Programa Municipal de Huertos Urbanos Comunitarios. Son iniciativas situadas en los intersticios entre la gestión comunitaria y la gestión institucional pública en torno a lo “ecológico” y “sostenible”. Su expansión e institucionalización involucra prácticas y relaciones entre diversos agentes, desde las cuales emergen nuevas demandas sobre la gestión de los llamados urban green commons (comunes verdes urbanos) y se habilitan formas de gobernanza compartida. En este contexto analizamos cómo los huertos urbanos comunitarios enfrentan el desafío de mantenerse como espacios transformadores – actualizando vínculos comunitarios, de reciprocidad y de cuidados mutuos, reformulando formas de relación con “la naturaleza” en la ciudad y de aprovisionamiento alimentario – sin quedar absorbidos por las lógicas mercantiles ni marginados al espacio asistencialista o de voluntariado comunitario.
Museus de antropologia têm revisto suas práticas frente à crítica colonial, aplicando perspectivas como descolonização, pós-colonialismo e decolonialidade em exposições e na comunicação com o público. Esta pesquisa analisou uma exposição temporária em Madrid, fruto da colaboração entre museus comunitários brasileiros e um museu antropológico espanhol, por meio de entrevistas com organizadores e análise de imagens. Os resultados mostram que a colaboração e a reciprocidade promoveram renovação institucional e política, evidenciando o papel da crítica pós-colonial na transformação dos museus e abrindo caminho para novos estudos sobre práticas emergentes no campo.
This study showcases how long-term ethnographic research in India brings marginalized voices to the forefront and uncovers social realities frequently overlooked by dominant narratives. By addressing silence and stigma, it emphasizes anthropology’s duty to consider peripheral experiences while reaffirming the epistemological importance of ethnography in examining both continuity and change in social life.
Face aos desequilíbrios socioecológicos que atravessam a contemporaneidade, várias são as vozes e movimentos que se empenham nos debates sobre um futuro possível. No seio do paganismo contemporâneo, um movimento religioso e espiritual bastante heterogéneo que engloba diversas práticas, correntes e interlocutores, estes ecos são prementes. Ao considerarem a natureza enquanto entidade sagrada, e se inspirarem e inspirarem movimentos políticos como o ambientalismo e o ecofeminismo, a celebração da natureza, e a necessidade de cura, regeneração e empoderamento, tanto pessoal como coletivo, são dimensões centrais nas suas vidas religiosas, espirituais e políticas. Na interseção de diálogos entre o sagrado, a ecologia e o político, refletem, criam e agem criativamente na procura de relações equilibradas com o ambiente, e de espaços onde podem experienciar a sua identidade de género. Este artigo propõe-se refletir como a dimensão do sagrado dialoga com a dimensão ecológico-política a partir da experiência religiosa/espiritual das pessoas pagãs em Portugal. E como estas se relacionam com o meio ecológico em que vivem, e são afetadas e se posicionam politicamente ao procurarem soluções para os desequilíbrios socioecológicos que a contemporaneidade atravessa.
O cançonetista madeirense Max foi dos mais populares artistas da música ligeira portuguesa nas décadas de 50 e 60 do século passado. A canção Porto Santo (1953) está entre os seus maiores êxitos em palco e em disco. Ao revisitar a letra surgiu uma visão contrastada, despida da emotividade romântica e nostálgica. Transpareceu um quotidiano pleno de incertezas. Na origem da canção esteve um jingle para promoção radiofónica de um produto comercial – a água mineral extraída numa das poucas nascentes de água doce disponíveis naquela pequena ilha semiárida. O êxito nacional da canção explica-se pelo arranjo feito de acordo com as vogas cosmopolitas da época. No entanto, tinha plasticidade suficiente para a posterior incorporação no “aportuguesamento” – a política governamental da época –, pela qual se regeu a música comercial. Recentemente a canção está a ser reciclada como emblema sónico para uma ilha carente de identificadores culturais e desafiada por uma vaga dominadora provocada pelo turismo. Nesta biografia cultural sugiro a aplicação da teoria debordiana da sociedade do espetáculo.
A alimentação é um dos setores da economia que melhor exprime as contradições entre o sistema socioeconómico hegemónico e o conhecimento ecológico contemporâneo. Em oposição à agricultura industrial, temos testemunhado o surgimento de várias iniciativas que abraçam a agroecologia como princípio basilar. Adotando como casos de estudo a cooperativa Rizoma e a AMAP Maravilha, este artigo constitui uma exploração das implicações, potencialidades e limitações de colocar princípios ecológicos no centro da atividade económica num contexto de hegemonia capitalista. Como argumento central, defende-se que a democratização económica é imprescindível para desenvolver circuitos alimentares realmente sustentáveis.
O primeiro estudo sobre a prevalência do VIH/SIDA em Angola revelou um dado surpreendente: 14,2% na cidade do Dundo na Lunda-Norte – antigo centro administrativo da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) –, muito acima da média nacional de 2%. Este enigma serve de ponto de partida para questionar os pressupostos de narrativas biomédicas sobre a origem do VIH-1. Explicações centradas em grandes urbes, comércio sexual, transportes mecânicos e coinfeções com doenças sexualmente transmissíveis mostram-se insuficientes para explicar a magnitude e a localização periférica e rural deste surto. A investigação adota uma abordagem interdisciplinar, combinando dados biológicos, epidemiológicos e sócio-históricos. A análise sócio-histórica revela a ausência dos fatores dominantes dessas narrativas: grandes centros urbanos, predomínio masculino, comércio sexual e epidemias venéreas. A empresa incentivava o recrutamento de famílias e o envolvimento laboral de mulheres africanas, contrariando estereótipos coloniais que as associavam ao sexo comercial. O estudo propõe uma nova leitura da disseminação do VIH-1, destacando o papel da biomedicina, em particular de práticas iatrogénicas associadas à indústria extrativa, contribuindo para uma compreensão mais complexa e histórica das epidemias.
O presente artigo debruça-se sobre o conflito socioambiental que opôs movimentos sociais ecologistas a um projeto de fracking na Bajouca, perto de Leiria, e, em especial, sobre um dos eventos, ocorrido entre 17 a 21 de julho de 2019, que marcou este conflito: o Camp-in-Gás, Acampamento de Ação contra o Gás Fóssil e pela Justiça Climática. A partir de uma etnografia militante realizada neste acampamento, analisarei o perfil das pessoas e grupos que participaram nele, o seu modo de organização, o seu conteúdo ideológico, bem como as formas de protesto aí desenvolvidas, ocupando-me, sobretudo, das suas dimensões simbólicas e performativas. Neste âmbito pondero as performances políticas como um momento de quebra temporária com a normatividade e afiro quais as limitações e as potencialidades destas performances para a transformação material das sociedades.
Com base em uma etnografia realizada no Japão por quase uma década, descrevo alguns episódios, fatos e estranhamentos que se tornaram profícuos para pensar a antropologia produzida naquele país. Parto da perspectiva de uma antropologia halfie, ao problematizar a relação entre biopoder e a tradição antropológica japonesa. Em seguida, aponto como se deu a construção da alteridade na visão hegemônica do Estado, o que resultou na supressão das minorias que compõem o país. Por fim, ressalto a importância de uma perspectiva histórica e crítica ao pensar a antropologia japonesa que, apesar de já ter sido revelada, insiste na repetição da exclusão, agora dos migrantes.