
O Atlântico Sul constitui um espaço geopolítico que historicamente estrutura as interações entre o Brasil e a África Atlântica, conectando agendas de desenvolvimento, segurança marítima e inserção internacional. Em um contexto de crise e transição da ordem internacional, intensifica-se a presença de potências extrarregionais, sobretudo na costa africana, ampliando disputas por rotas e recursos estratégicos. Argumenta-se que, embora o Brasil reconheça a centralidade estratégica do Atlântico Sul e das relações com países africanos, sua atuação tem sido marcada por oscilações decorrentes da ausência de um projeto nacional de longo prazo. Essa lacuna limita sua capacidade de construir políticas duradouras de cooperação política, econômica e de segurança com os Estados africanos da região.
O artigo analisa a política externa brasileira para Angola entre 2015 e 2025, com foco na cooperação técnica para o desenvolvimento. Procura compreender se Angola ainda pode ser considerada uma parceria estratégica para o Brasil, dadas as oscilações da política externa brasileira, e que elementos sustentam essa relação. Argumenta que, desde 2015, a fragilidade da política externa nacional reflete a crise política interna e a ausência de um projeto nacional consistente. Contudo, quando analisada numa perspectiva de longo prazo, observa-se a permanência de parcerias estratégicas com países africanos, especialmente Angola. O artigo conclui que a cooperação técnica para o desenvolvimento permanece como principal instrumento de aproximação, sustentando e renovando os vínculos bilaterais por meio de políticas de Estado.
Cape-Verdean musical expressions are related in different ways with the end of colonialism. The morna and the koladera were employed deliberately by activists to transmit their messages. Others, such as the batuku and the funaná were not evidently linked to the struggle. The present work shows the complexity of the relations that these musical expressions had with the political trajectory of Cape Verde. Based on interdisciplinary methodology, with emphasis on sources such as press and discography, I question the tendency, found both in current language and sometimes in academic texts, to associate the morna exclusively with the semantic field of love. I seek, at the same time, to relativize the militant attitude associated with the batuku and the funaná.
Este artigo apresenta uma análise da relação entre música e turismo em Lourenço Marques no período colonial tardio, demonstrando que este binómio foi preponderante na busca pela legitimação do império português em África, numa altura marcada por fortes pressões externas e internas pelo fim do colonialismo, e pelo crescimento de tendências emancipatórias no continente. Numa primeira parte do texto, será feita uma descrição do modo como as performances musicais se enquadravam nos estabelecimentos procurados por turistas, deixando em evidência a forma como as desigualdades do sistema colonial e as suas contradições se manifestavam nesse contexto. Numa segunda parte, serão analisados exemplos de edições fonográficas como forma de promoção turística de Lourenço Marques e de idealização da sua vida quotidiana.
This is a tightly conceived and well-crafted edited volume. Globalizing Independence Struggles of Lusophone Africa offers a compelling frame for better understanding the anticolonial movements that took shape in Portuguese-speaking Africa in the mid-twentieth century. Framing these independence struggles as constitutive rather than peripheral to global decolonising histories, the goal of the volume is to better understand how “specific forms of anticolonial politics and imperial dissolution shaped today’s world order, from the United Nations (UN) to the reification of the nation-state.” The editors achieve this in several ways. First, by emphasising revolution as “ideational power” that carried behind it local contexts, Lusophone Africa can be seen as “constitutive and transformative of the larger history of anticolonialism” (p. 1). Second, the chapters attend to political actors across the ideological spectrum, seeing revolutionary visions and alliances of the left and the right playing out in the region. In this way, we appreciate how this region became a battleground not only for the ideologies of communism and capitalism but also the racial politics of Southern Africa. And while the editors admit that there are decisively more chapters on Angola, the volume does home in on case studies of all parts of Lusophone Africa to show how each tells us more about the larger processes underway in this era.
After almost three decades of international public service as Director of the United Nations Development Programme (UNDP), Executive Secretary of the United Nations Economic Commission for Africa (UNECA), and United Nations (UN) Deputy Secretary-General, Professor Carlos Lopes returned from a practitioner to an academic. Currently teaching at the University of Cape Town at the Nelson Mandela School of Public Governance, he has also negotiated with Europe as the representative of the African Union (AU). His path makes him an ideal thinker on institutional power relationships, particularly between Africa and Europe.
Amílcar Cabral’s statement that “the struggle for liberation is, above all, an act of culture” has been a vital element in the construction of narratives, forms of organisation and mobilisation of social collectives for the transformation of Guinea-Bissau and Cape Verdean society. However, there is a notoriously odd absence and/or lack of formal endogenous Cabralist education, which has in the assumptions of its culture an important catalytic source of artivist production. This article, which is based on ethnographic and collaborative research carried out over the last decade in these two countries, sets out to address the challenge of rescuing Cabral’s ideals expressed through new forms of socio-cultural intervention within a framework of participatory and counter-colonial democracy. We will seek to understand how public processes of revindication and the creation of spaces for active and full citizenship have produced entities capable of revolutionising both societies.
A má notícia apanha-me totalmente desprevenido. Vêm-me à cabeça muitas imagens, especialmente do tempo em que fui investigador no CEA-ISCTE de 2006 a 2012, mas também de encontros posteriores. Todas elas bonitas e estimulantes. Muitas também divertidas. Penso nele e sinto que há muitos Fernando Florêncio: o antropólogo profissional, com um olhar lúcido e fundamentado, cheio de experiência com grandes pesquisas em Moçambique e Angola – sobre autoridades tradicionais, sobre a construção do Estado, sobre os conflitos… – também na Namíbia, e com uma missão no Ruanda, da qual algumas vezes me contou vivências comoventes, capaz de ver toda a complexidade e as contradições das sociedades contemporâneas.O académico comprometido, nem sempre suficientemente ouvido por um certo establishment. O homem resoluto, que sabia trabalhar em grupo, na organização de publicações, jornadas e congressos. O observador da vida quotidiana, sempre com um olhar irónico, e com uma grande capacidade de narrar anedotas e extrair delas a essência humana. A pessoa amável, sensível, próxima e divertida, que acolhia os recém-chegados, como fui eu, um dia, em Portugal. O comunicador, capaz de atrair a tua atenção desde a primeira palavra, com a sua voz rouca e uma linguagem não verbal muito expressiva, sobretudo nas expressões do rosto. O amante da vida, com os seus momentos, por vezes trágicos, por vezes cómicos. E tudo isso sempre com um sorriso pronto e um olhar brilhante. Penso que não pude aproveitar com profundidade cada momento que passei com ele. Ficaram-me muitas perguntas por fazer-lhe. Muitas histórias por ouvir-lhe. Muitos pequenos momentos para desfrutar juntos. Deixou-nos uma pessoa cheia de vida, cheia de vidas. Garanto-te, Fernando, que todos os Fernandos que conheci permanecerão vivos na minha memória. Jordi Tomàs Universidade de Barcelona
Este artigo advoga a favor da necessidade de uma meta-análise do pensamento de Amílcar Cabral trazendo à colação contribuições de alguns autores que se debruçaram sobre as suas contribuições teóricas. Nele se enfatiza a relevância deste método, geralmente utilizado noutras ciências para investigar sobre uma determinada problemática ou área do saber, com vista ao aprofundamento dos nossos conhecimentos sobre o pensamento de Cabral. O artigo defende que mais do que se contentar com citações que não permitem aprofundar o debate sobre o seu pensamento, aqueles que se propõem ou são chamados a falar sobre o seu pensamento devem interrogar as categorias, os instrumentos de análise e as metodologias usadas por Cabral nas suas abundantes reflexões, discursos e notas.
A afirmação de Amílcar Cabral de que “a luta de libertação é, antes de mais, um ato de cultura” tem sido um elemento estruturante na construção de narrativas, formas de organização e mobilização de coletivos sociais para transformação das sociedades bissau-guineense e cabo-verdiana. Porém, é notória a ausência e/ou carência de processos formais endógenos de educação cabralista que tem nos pressupostos de cultura uma importante fonte catalisadora de produção artivista. O presente artigo, que tem como base pesquisas etnográficas e colaborativas realizadas na última década, nestes dois países, parte do desafio de resgatar os ideais cabralistas no seio de novas formas de expressividade de intervenção sociocultural inseridas num quadro de democracia participativa e contra-colonial. Procurar-se-á compreender como os processos públicos de reivindicação e recriação de espaços de cidadania ativa e plena têm constituído entidades capazes de revolucionar ambas as sociedades.
In Dream the size of freedom: How African liberation mobilized new left internationalism, R. Joseph Parrot examines how the struggles in Lusophone Africa against Portuguese imperialism engaged a new generation of activists in the United States in solidarity with the Global South.
Acknowledging local knowledge and promoting participation can empower minorities and underprivileged groups and improve European social policies. We look to Cabral’s legacy in Portugal. Cabral’s actions influenced the outcome of the Portuguese revolution in the past, and today, his memory can be instrumental in constructing or consolidating the leadership of afro-descendant or underprivileged groups in the suburbs of Lisbon. Organised minorities can provide or negotiate better social policies for traditionally neglected neighbourhoods through ownership of identifying local needs and priorities. Civil society organisations and enabling social policies can bring about change by engaging with socially and politically deprived populations. Keywords: local knowledge; participation; social policy; afro-descendants; Portugal
Amílcar Cabral’s legacy transcends conventional African narratives, embodying a profound challenge to established paradigms. Through his revolutionary contributions, Cabral not only reshaped the discourse surrounding African liberation but also sparked a transformative shift in our understanding of identity, resistance, and postcolonial transformation. His insights into the complexities of national liberation and his emphasis on culture as a catalyst for change continue to inspire scholars and activists alike to reimagine Africa’s past, present, and future.
The struggle for national liberation in the Portuguese colonies raised extensive debates and critical reflections regarding whether liberation movements should adopt the coloniser’s language as a tool for contesting colonialism or prioritise linguistic decolonisation as part of their resistance efforts. In the specific case of the PAIGC, the topic was the subject of multiple discussions, as evidenced by the interventions of its leader, Amílcar Cabral. Indeed, the existence of different positions regarding the matter reveals the complexity of the issue. This paper will examine Amílcar Cabral’s theoretical contributions to the sociolinguistic debate on the use of the Portuguese language by the African Party for the Independence of Guinea and Cape Verde (PAIGC). It also aims to update existing knowledge on the subject.
No Moçambique urbano os protestos violentos de 2008 e 2010 constituíram a derradeira manifestação pública contra o governo liderado pela Frelimo. Entretanto, novos movimentos sociais foram formados depois e a partir da morte do rapper Azagaia, acontecida a 9 de março de 2023. O movimento novo, “Povo no Poder”, propôs uma visão e uma organização diferente, reticular, e que se ligou a algumas figuras dos partidos da oposição, por ocasião das eleições autárquicas de 11 de outubro de 2023. Mediante a análise política dos movimentos em questão, facilitada pela vivência no meio investigado por parte do pesquisador e por entrevistas e discussões informais, chegou-se à conclusão de que a integração do ativismo nas redes sociais com a ocupação física dos espaços urbanos trouxe cenários políticos novos a nível nacional.
A gravidez na adolescência é um problema presente na sociedade cabo-verdiana e a sua prevalência é uma questão preocupante para o país. A natureza da gravidez na adolescência constitui um desafio multifacetado, além das complexidades que recaem sobre a saúde das adolescentes. O impacto deste fenómeno tem também fortes repercussões sobrea educação das mesmas, agravando-se em circunstâncias economicamente desfavorecidase socialmente vulneráveis. O entendimento atual da questão no contexto cabo-verdiano carece de uma abordagem que estabeleça uma interseção entre a gravidez na adolescência e o sistema educativo do país. É relevante a realização de um estudo que compreenda as medidas existentes para o apoio das alunas e combate ao abandono escolar.
A Guiné-Bissau enfrenta desafios significativos na implementação e proteção dos direitos sexuais e reprodutivos. Apesar dos compromissos internacionais e de alguns esforços nacionais, várias barreiras socioculturais, económicas e políticas continuam a impedir a implementação destes direitos. Este texto explora o estado atual dos direitos sexuais e reprodutivos na Guiné-Bissau, examinando os principais obstáculos e potenciais caminhos para a melhoria seguidos pelas organizações da sociedade civil. Baseia-se num estudo qualitativo alargado, que incluiu 36 entrevistas a elementos das principais ONG e agências das Nações Unidas a trabalhar no sector, médicos e enfermeiros de saúde pública, e grupos focais com agentes comunitários de saúde.
Através de jornais publicados em Luanda, este artigo apresenta um panorama da história dos agrupamentos carnavalescos, e de suas relações com jornalistas e autoridades, entre meados do século XIX e meados do século XX. Defende-se a existência de relações contraditórias, derivadas de práticas paternalistas, que envolviam, do ponto de vista das autoridades, perspectivas de tolerância, controle, repressão e incentivo aos agrupamentos. Tais perspectivas foram construídas a partir não apenas das vicissitudes da dominação colonial, mas também dos diferentes e cambiáveis sentidos atribuídos aos agrupamentos e seus desfiles, tanto por parte de jornalistas e autoridades quanto pelos segmentos marginalizados que deles participavam. Pretende-se demonstrar que, através da história dos agrupamentos carnavalescos, é possível perceber dinâmicas fundamentais da presença colonial, bem como de suas transformações ao longo do tempo.
Este artigo tem como objetivo contribuir para uma compreensão aprofundada da situação da saúde materno-infantil na República da Guiné-Bissau (RGB), abordando a mortalidade materna, natimortalidade e outros desafios enfrentados pelas mulheres e crianças no contexto dos direitos humanos e da saúde sexual e reprodutiva. O estudo examina o progresso e as lacunas na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 e 5, sobre saúde e bem-estar, e sobre igualdade de gênero. O artigo utiliza uma metodologia qualitativa e baseia-se em entrevistas semiestruturadas a quatorze mulheres com filhos jovens, residentes na cidade de Bissau. Estas descrições são complementadas por dados de observação de terreno e ilustram os indicadores oficiais de saúde materno-infantil recolhidos através de pesquisa documental. Concluímos que a promoção da Saúde e Bem-estar (ODS 3) e da Igualdade de Gênero (ODS 5) na Guiné-Bissau é um processo multifacetado, ainda marcado por desigualdades, desafios culturais e fragilidades institucionais.
A Mutilação Genital Feminina é uma prática transversal a toda a região de África Ocidental. Os esforços para a sua erradicação encontram diversas formas de resistência neste contexto. Na Guiné-Bissau, passada mais de uma década após a criminalização da prática, o número de casos tem aumentado, e o consenso em torno do abandono da mesma parece estar longe de ser alcançado. Este artigo procura compreender as causas de resistência ao abandono da MGF na Guiné-Bissau, partindo do contexto sub-regional. Na Guiné-Bissau, compreendeu-se que os líderes comunitários são os principais agentes da resistência, sendo as organizações da sociedade civil as principais protagonistas do combate à prática. Por último, constatou-se que a fragilidade do sistema judicial e a alta taxa de analfabetismo criam consideráveis obstáculos à erradicação da MGF. Como soluções, considera-se que as reformas dos sistemas educativo e judicial, e um amplo debate nacional sobre a MGF, deverão ser considerados imprescindíveis.