
O presente artigo é uma versão resumida do meu trabalho de conclusão de curso que se propõe a analisar as estruturas arquitetônicas do Hospital São Vicente de Paulo-DF do ano de 1976, buscando entender seus discursos não-verbais. Compreendendo a loucura como uma construção social, ligada a ideais higienistas e modernistas, muitas vezes como forma de separar aqueles considerados produtivos e improdutivos, procura-se analisar, a partir da Arqueologia do Contemporâneo e da Arquitetura, como essa estrutura arquitetônica contribuiu para a construção disciplinadora e controladora pretendida pela reforma modernista projetada para Brasília-DF. Para tal, foram utilizados o modelo gamma e os índices de Blaton com o objetivo de melhor entender sua materialidade, os usos de controle e poder no São Vicente de Paulo-DF.
A pesca artesanal é imprescindível para a subsistência de comunidades tradicionais e contribui significativamente para a produção nacional de pescados, a realização desta atividade apresenta multiplicidade de formas e alta complexidade. Este estudo buscou descreve o perfil dos pescadores artesanais e caracterizar a pesca na Vila do Mota, litoral nordeste paraense. Destaca-se que a compreensão da pesca e do conhecimento associado a ela, é crucial para o desenvolvimento de políticas socioambientais mais eficazes e contextualizadas. Foram utilizadas abordagens qualitativa e quantitativa, através da entrevista semiestruturada e da observação participante. Participaram da pesquisa um total de 30 pescadores do sexo masculino, com idades entre 30 e 65 anos, com mais de 10 anos de experiência na atividade. A principal arte de pesca desenvolvida é a de curral, entretanto, a pesca com malhadeiras, tarrafa, cerco e arrasto de praia também são empregadas de forma complementar, cada uma com suas especificidades e conhecimentos associados, a depender da espécie-alvo. Os pescadores relataram uma drástica diminuição da produção ao longo das últimas décadas, ameaçando seus modos de vida e a perspectiva de continuidade da atividade.
Este artigo reflete sobre o processo de ensino-aprendizagem de temáticas envolvendo a diversidade sexual e de gênero em uma escola de nível secundário, diante do conservadorismo a nível nacional e a diferença no campo da sexualidade a nível local. É resultado da relação entre um período de estágio curricular obrigatório do curso de Licenciatura em História e uma pesquisa histórico-antropológica em arquivos mais ampla sobre a história da ideia de “mudança de sexo” à brasileira, utilizando como fontes jornais, diários, práticas clínico-cirúrgicas e biografias entre o Rio Grande do Norte e São Paulo no período de 1950 a 1980. Enquanto um diálogo interdisciplinar entre história e antropologia, estuda-se as dinâmicas de aprendizagem numa sala de aula, de forma que se considere tanto o emprego da fonte histórica como a análise social do contexto dos alunos. Através da oficina, os estudantes puderam questionar conceitos pré-estabelecidos e levantar questões como o uso do banheiro por pessoas trans e a possibilidade de mudança de gênero, ao mesmo tempo que puderam reconhecer a escola como um espaço de sociabilidade LGBTQIA+.
As relações entre humanos e animais são complexas e multifacetadas no mundo urbano contemporâneo de Belém (PA), abrangendo uma variedade de contextos espaciais esituações culturais que indicam a heterogeneidade sociocultural nas formas dos coletivos humanos se relacionarem com os animais, sejam eles silvestres, domésticos ou asselvajados,nas paisagens urbanas da metrópole amazônica. Pensando essas dimensões, este artigo se propõe a debater as relações humanimais nas paisagens urbano-cemiteriais-mais-que-humanas onde os rituais da vida e da morte constituem formas expressivas da vida social e, portanto, agenciam processos simbólicos e sensíveis dos dois mundos – o dos vivos e o dosmortos. Para tal, a partir da antropologia urbana, das paisagens e das relações humano-animais, buscamos compreender as complexas interações entre humanos e gatos que transitamno Cemitério Santa Izabel e no Parque Cemitério Soledade, ambos localizados em Belém (PA). Nestes termos, buscamos ir além da simples observação dos comportamentos e daspráticas de convivência humanimais em cemitérios, explorando as dimensões simbólico-práticas de tais interações nos ambientes cemiteriais belenenses.
Este artigo apresenta uma síntese da pesquisa sobre a produção artesanal de carros de boi, no município de Cururupu, Maranhão, cujos resultados foram apresentados em formato monográfico no Curso de Ciências Humanas, da UFMA – Centro de Pinheiro. Partiu-se da problemática que os carros de boi foram amplamente utilizados nos primeiros séculos da colonização do Brasil, especialmente nas regiões produtivas, como o Nordeste Açucareiro e nas áreas de mineração no Brasil Central, ao passo que no Maranhão, permanece o desconhecimento sobre a utilização dos carros de boi no contemporâneo, como também sobre a existência de mestres artífices que ainda dominam o conhecimento ancestral acerca da sua manufatura. O percurso metodológico se utilizou das Fichas do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), elaborado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Módulo Inventário, com observação participante de caráter exploratório, coleta de relatos orais em entrevistas e registro imagético, aliado a uma discussão histórica e social por meio da análise bibliográfica e documental. Os resultados apontaram que os carros de boi são suportes de histórias, memórias cultura e identidade do universo rural maranhense e registram a resiliência dos saberes e viveres em meio as mudanças de um mundo globalizado que atuam fortemente na ruptura de conhecimentos ancestrais.
Com o intuito de refletir sobre as contribuições e limitações da tecnologia para a educação a partir da experiência corpórea e estética da pandemia construída na virtualidade, apresenta-se esse estudo desenhado a partir de três experiências narradas durante a pandemia de COVID-19. Pauta-se em um referencial fenomenológico, no qual corporeidade está imbricada à nossa forma de existir no mundo. As três narrativas apresentadas como forma de descrever as experiências pandêmicas das autoras e do autor foram analisadas à luz da análise textual discursiva. Dessa análise, emergiram quatro categorias: (a) as imposições dos tempos e espaços próprios (re)criados na pandemia, muitas vezes em oposição aos tempos e espaços habituais da rotina pré-pandemia; (b) A contínua imposição da lógica capitalista/produtivista e tecnicista nos contextos específicos da educação na pandemia (c) a cultura corporal (re)criada a partir das interações à distância, com mediação das tecnologias; (d) o “novo incorporado” a partir das vivências do/no “novo normal”.
Por meio de uma abordagem etnográfica, este trabalho investiga as práticas alimentares no sistema prisional de Pelotas, à luz do debate sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). Considerando que o ato de comer, mais do que uma necessidade biológica, se torna uma expressão de agência e sociabilidade no contexto carcerário, a pesquisa busca compreender como a alimentação oferecida no cárcere repercute nos corpos e nas mentes dos apenados, além das relações que emergem desse cenário. Nesse contexto, o estudo explora as táticas utilizadas pelos apenados para contornar a precariedade alimentar à qual estão submetidos, revelando formas de resistência e adaptação. A comida, portanto, se destaca como um elemento chave para refletir sobre as complexidades que permeiam o sistema carcerário, principalmente por ultrapassar sua dimensão biológica.
Este artigo investiga, sob uma perspectiva antropológica, as enchentes recorrentes no bairro Elizabeth, em Rio das Flores (RJ), a partir de entrevistas com mulheres que vivenciam cotidianamente o transbordamento do córrego Manuel Pereira. Longe de serem apenas eventos naturais, as enchentes configuram-se como processos relacionais, nos quais materialidades, corporalidades e técnicas se entrelaçam. A água, a lama, os móveis, os corpos humanos e não-humanos constituem uma ecologia compartilhada, onde perdas materiais são também perdas simbólicas, e onde o habitar se refaz continuamente em meio ao risco. As narrativas revelam como a enchente atravessa memórias, afetos e modos de existir, produzindo identidades e coletividades. Ao articular antropologia dos desastres, memória social e debates sobre justiça climática, o estudo evidencia que a experiência da enchente não se limita ao trauma, mas também gera solidariedade e agenciamento comunitário. Assim, propõe compreender o habitar sob risco como co-produção entre humanos, mais-que-humanos e elementos materiais, em um território marcado por vulnerabilidades e resistências. Palavras-chave: Materialidades; Antropologia dos desastres; Memória coletiva.
O dossiê temático "Antropologia e Arqueologia Sensorial” surgiu de debates e reflexões proporcionados pelos encontros do Núcleo de Estudos Saberes Costeiros e Contra-Hegemônicos da Universidade de Rio Grande (NECO/FURG). Nele estão reunidos textos de Antropologia e Arqueologia, bem como de outras áreas de conhecimento, voltados para a temática sensorial. Um interesse central do dossiê consiste em entender como a pesquisa etnográfica se relaciona e pode contribuir para o estudo da sensorialidade, mais especificamente, no que diz respeito aos modos de ser-no-mundo de determinadas sociedades humanas a partir de suas relações sensíveis com as coisas, seres e lugares.
Este artigo analisa o conhecimento ecológico tradicional da comunidade quilombola do Jacarequara de modo a caracterizar aspectos bioculturais nas práticas de uso e manejo na atividade de pesca. Dentro de uma perspectiva etnozoológica e etnoecológica, utilizou-se o método etnográfico para captar dados qualitativos e quantitativos por meio da observação participante, diferentes tipos de entrevistas e listas livres. Os dados revelam que a pesca é fundamental na subsistência dessas famílias, exibindo uma complexidade de saberes e práticas na utilização de 23 apetrechos em 17 estratégias de pesca, elementos essenciais na compreensão de aspectos sociais e bioecológicos que influenciam na efetividade da captura e na manutenção do estoque pesqueiro. Assim como a identificação de fatores climáticos e hidrológicos associados às escolhas das estratégias de pesca em caráter sazonal, como a malhadeira e a tarrafa. O conhecimento etnoictiológico dos moradores mostra-se indispensável na ocupação de lacunas referentes ao manejo de recurso pesqueiro desta região, o que evidencia a importância de se considerar esta parcela da população na elaboração de planos de manejo pesqueiro para a bacia do rio Guamá.
Neste artigo, a proposta é refletir a respeito dos modos de se fabricar cães trufeiros no Chile, comparando-os a outros métodos de preparação de cães de trabalho – como, por exemplo, cães de caça, cães de busca e salvamento, e cães policiais –, buscando, com isso, contribuir com as discussões a respeito das distintas formas de se fazer um cão – e, consequentemente, um humano –, a depender da função que lhe(s) cabe desempenhar. A partir de meus dados etnográficos, argumento que tanto cães quanto humanos, no contexto da truficultura chilena, se fazem e são feitos na prática, e, como se espera demonstrar, preparar ou fabricar um cão trufeiro, no Chile, significa fazer com que os animais se tornem bons trabalhadores. Destaca-se a complexidade de todo o processo de fabricação levado a cabo por meus interlocutores, já que preparar cães para a caça de trufas demanda a co-constituição de uma relação interespecífica extremamente profunda, que vai muito além da linguagem e do próprio corpo, e que se baseia em uma negociação incessante na qual tanto humanos quanto cães têm muito a dizer.
Nossos animais de estimação – os hoje chamados pets – vivem atualmente cercados por uma pletora de objetos cada vez mais impressionante, impulsionada por um mercado que cresce e diversifica opções, dando origem a uma pujante cultura material muito específica, e que se autonomiza de modo acelerado em relação aos objetos com os mesmos fins para usos humanos. Supõe-se, a partir daí, que tratamos os pets com grande cuidado, carinho e preocupação, além de elevadas somas de dinheiro. Ao contrário, os cachorros entre os povos indígenas nas terras baixas sul-americanas são geralmente descritos como pobres animais: abandonados, maltratados, sujos, doentes, esquálidos e famélicos. Aos “cachorros de aldeia” não se oferece qualquer atenção especial, frequentemente nem mesmo alimento. Nesse cenário, seria plausível supor que não existiria nenhum objeto ou sistema de objetos associados a esses tristes caninos. Todavia, verifica-se uma rica cultura material associada aos cães nos mundos ameríndios – artefatos que mediam as relações entre humanos e cachorros, no que podemos denominar de materialidades da familiarização – que é ainda virtualmente desconhecida. Neste artigo discuto alguns desses artefatos, e o que eles podem nos dizer sobre modos ameríndios de relação com o cão.
Este artigo examina a relação entre identidade surda e educação inclusiva, destacando a integração da memória coletiva e da diferença cultural como elementos fundamentais nesse contexto. O objetivo principal é analisar como esses aspectos contribuem para a compreensão da identidade surda e sua influência na prática educacional inclusiva. Para atingir esse objetivo, adotamos uma abordagem qualitativa, utilizando revisão bibliográfica como metodologia principal. Entre os teóricos fundamentais para esta análise, destacam-se Hall (2014), Halbwachs (2006), Nora(1993/1997) Strobel (2009), Skliar (1998), Albertoni (2015), UNESCO (1994) e legislações como a LDBEN (1996), entre outros. Os resultados destacam a importância de reconhecer a identidade surda como uma construção cultural e social complexa, influenciada pela memória coletiva e pela diversidade cultural, e como essa compreensão pode informar práticas educacionais mais inclusivas e sensíveis às necessidades dos alunos surdos. Esta análise ressalta a relevância de promover práticas educacionais que atendam às necessidades dos alunos surdos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais igualitária, equitativa e respeitosa à diversidade. Palavras-chave: Identidade Surda; Educação Inclusiva; Memória Coletiva; Diferença Cultural; Práticas Educacionais.
Os elementos que compõem as coleções de museus podem ser chamados por muitos nomes: objetos de arte ou da ciência, cadáveres, exemplares, bichos mortos, corpos mutilados ou parte da cultura material. Também podem ser referidos como restos biológicos, corpos dissecados ou partes corporais. A partir dessas definições, este artigo problematiza a ideia de que animais são objetos e a de que as coleções museológicas são compostas por espécimes inanimados e sem vida. A partir de pesquisa etnográfica e documental, discutimos como a memória biológica sobrevive à metamorfose e como a materialidade dos insetos preservados resiste e se transforma dentro dos museus. As coleções entomológicas não só representam a paisagem como são a paisagem e assim, é possível reconhecer tanto memória quanto vida nos insetos vivos e mortos. A vida persiste, mesmo na morte, nos processos invisíveis que continuam a atuar sobre os corpos preservados. Por um lado então, esses espécimes foram afastados da percepção imediata do universo social o qual estava conectado. Contudo, ao adentrar as caixas entomológicas, borboletas e mariposas constituem e se constituem em outro universo. A coleta do inseto e sua inserção nas caixas entomológicas implica, portanto em um deslocamento contínuo entre diferentes formas de existência.
Este artigo tem como objetivo debater os efeitos da modernização da polícia sobre as corporalidades dos cães policiais. Os dados foram coletados etnograficamente em canis policiais do Distrito Federal. O debate sobre a modernização das polícias, orientado pelas categorias de eficiência, eficácia e produtividade, tem levado a mudanças nas estruturas, nos recursos e nas práticas destas instituições, inclusive em suas unidades de policiamento com cães. Na busca pelo cão mais eficiente, os Pastores Belga de Malinois se tornaram referência nos canis policiais do Brasil. Os cães desta raça ocuparam o espaço antes consagrado para Pastores Alemães, Rottweilers e Dobermanns. Este processo de modernização reforça o paradoxo típico dos animais de trabalho, e do qual o cão policial não é exceção, que é o duplo posicionamento enquanto sujeito e objeto. A partir da seleção das raças, da reprodução controlada e da seleção genética, os canis policiais buscam preencher seus plantéis com os cães supostamente mais eficientes. Os dados também apontam para uma redução da biodiversidade doméstica nos canis policiais e nas redes de agentes e instituições que, de alguma maneira, estão interligadas ao seu trabalho, como criadores particulares, kennel clubs e treinadores.
Esta investigação se passa no Território Taquaritiua do povo Akroá Gamella, indígenas do tronco Jê, que vivem na Amazônia Legal, na Baixada Maranhense. Busco apresentar o território multifacetado, um espaço construído por dimensões visíveis e invisíveis que abriga uma classe de seres, os encantados. Seres magnificados, eles vivem em suas moradas, lugares sagrados para os AkroáGamella por serem domínios dos encantados. Nesses espaços, esses seres desenvolvem agência não só com os locais, mas em todo o território, através do cuidado, proteção e ações políticas, principalmente nas ações de retomadas.
A cultura equestre milenar recorre, em diversos momentos, à metáfora do centauro, tropo chave que indica como muitas sociedades desejam pensar este encontro interespécie singular. Nas culturas equestres modernas, a muito prezada meta e chave, qual seja, “sentir-se um/a” com seu cavalo (‘estar em plena harmonia com’), parece invocar, de maneira mais domesticada, essa antiga metáfora de fusão. Por outro lado, nas últimas décadas, têm crescido demandas e reivindicações perante as culturas equestres, de sensibilizar-se em relação aos muitos elementos menos idealizáveis das práticas e culturas equestres. Desde as perspectivas mais ‘reformistas’ que atacam métodos de doma e equitação tradicionais por suas tecnologias de dominação e crueldade, passando pela atual ‘terapização’ da relação humano-equina, e até as posições que rejeitam todo e qualquer uso humano do equino, emergem novos discursos e práticas. O presente texto se insere nesta problemática, através de um objeto delimitado: as configurações e disputas atuais em torno de métodos de doma no Brasil.
Este artigo é parte de minha pesquisa empírica para construção da tese de doutorado em Antropologia que tem por escopo compreender aspectos do dispositivo carcerário, através da análise das articulações que ocorrem entre o dentro e o fora da prisão e que mobilizam pessoas, objetos, normas e discursos e revelam o transbordamento da experiência carcerária. A pesquisa está ancorada no Presídio Regional de Bagé/RS. A abordagem tem por eixo as etnografias sobre prisões da última década e os estudos sobre mobilidades, pois pretende-se desconstruir a imobilidade própria de um espaço físico delimitado por muros e grades destinado a segregação de pessoas e avançar trazendo os fluxos e deslocamentos de tudo que nela circula ou que ela põe em circulação. A etnografia permite a pesquisadora atentar para o processo social da experiência vivida por mulheres confinadas e livres, observar trajetos e trajetórias, conhecer as relações, descobrir subjetividades e observar o sistema social de comunicação que se configura entre a prisão e a rua para melhor compreensão do fenômeno a ser estudado. Palavras-chave: Mulheres. Prisão. Gênero. Poder. Fluxos.
A intensificação dos sistemas de criação contemporâneos alterou o ambiente, as práticas e as relações entre humanos e animais na pecuária leiteira, tirando as vacas dos campos e alocando-as em galpões industriais. Para lidar com alguns dos efeitos de tais mudanças, as ciências do bem-estar animal (zootecnia, veterinária e campos afins) encarregaram-se de criar uma ampla variedade de artefatos para “enriquecer” esses espaços “artificiais” e estimular o que definem como comportamento e ambiente “naturais” das vacas. Etnograficamente, tais questões se embaralham com a forma pela qual criadores de vacas leiteiras da região sul do estado do Rio Grande do Sul estão pensando as práticas de enriquecimento ambiental, o bem-estar das vacas e o confinamento na pecuária leiteira. Assim sendo, este trabalho discute as diferentes perspectivas – das ciências do bem-estar animal e dos produtores de leite – sobre “o que é bom para uma vaca”, mostrando que isso pode ser alternativamente expresso em termos de cuidado, conforto ou produtividade, a depender das maneiras de se relacionar com estes animais, o que acaba por determinar, por sua vez, seus supostos comportamentos “naturais”.