
Apresentação do n. 1/26, contendo os artigos do Dossiê: JÓ E A PERMANÊNCIA DA PERGUNTA PELO SOFRIMENTO. Organizado por Lucas Merlo Nascimento; Luiz Alexandre Solano Rossi; Sue’Hellen Monteiro de Mattos.
O presente artigo analisa a obra Fausto, de Goethe, como uma releitura secularizada do livro bíblico de Jó, destacando a transposição do drama do sofrimento para o drama da liberdade humana. No texto bíblico, o sofrimento de Jó é interpretado à luz da teologia da retribuição, questionando as razões pelas quais o justo enfrenta provações em sua existência. Satã, nesse contexto, atua como acusador funcional, submetido à soberania divina, e o mal se manifesta como prova da fidelidade humana. A redenção final de Jó decorre da preservação de sua integridade e da resignação diante do mistério absoluto de Iahweh. Em contrapartida, em Fausto, o mal assume caráter dialético e existencial, operado por Mefistófeles como espírito da negação. Diferente da privação em Jó, aqui a tentação se dá pelo excesso de prazeres considerados mundanos, revelando a insatisfação estrutural do ser humano diante da finitude do conhecimento e da experiência. O sofrimento, portanto, não é externo, mas interno, expresso na inquietude e no desejo pelo infinito. A salvação de Fausto não se dá pela obediência, mas pelo dinamismo de sua ação contínua, em que até os erros são compreendidos como parte do movimento rumo ao absoluto. O estudo evidencia que ambas as narrativas partem de uma aposta metafísica sobre o homem, mas se desenvolvem em perspectivas distintas: em Jó, prevalece o drama do sofrimento e da fidelidade; em Goethe, emerge o drama da liberdade e da busca incessante pela totalidade.
Este artigo apresenta uma análise sêmio-discursiva do texto bíblico de Jó 24.1-12, com foco na identificação dos atos de violência praticados contra os pobres e na crítica implícita à teologia da retribuição no período pós-exílico do Antigo Israel. A partir do método sêmio-discursivo proposto por Júlio Zabatiero, com base teórica na semiótica greimasiana e na teoria da ação comunicativa de Habermas, o estudo percorre os planos da expressão e do conteúdo, identificando sujeitos, espaços, tempos, relações intertextuais, interdiscursivas, narrativas e passionais do texto. A análise revela que o discurso de Jó constitui uma denúncia poética da sociedade dividida entre opressores e oprimidos, em que órfãos, viúvas, indigentes e trabalhadores rurais são sistematicamente espoliados por agentes anônimos que manipulam a estrutura econômica, jurídica e religiosa em benefício próprio. O texto demonstra que a pobreza descrita não é acidental, mas resultado estrutural de atos de violência concretos, o que contradiz frontalmente a doutrina retributiva defendida pelos amigos de Jó. Conclui-se que Jó 24.1-12 representa uma contundente crítica social do Antigo Testamento, com relevância hermenêutica e teológica que transcende seu contexto histórico original.
Este artigo analisa a aproximação de leigas e leigos da Região Sisaleira da Bahia, especificamente da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, com a Teologia da Libertação (TdL) e seu engajamento no campo político, ao fundarem um dos primeiros diretórios municipais do Partido dos Trabalhadores (PT) nessa região, durante a transição democrática. Busca-se compreender aspectos da trajetória desses setores leigos, sobretudo as experiências religiosas que possibilitaram o contato com a espiritualidade da TdL e a conjuntura que influenciou o engajamento desses católicos na política partidária sob a legenda do PT. As próprias memórias dessas leigas e desses leigos constituem as principais fontes deste estudo, coletadas em consonância com os pressupostos teórico-metodológicos da História Oral. A experiência histórica vivenciada por esses sujeitos proporcionou condutas políticas mais democráticas, configurando-se como um lócus progressista em contraposição aos grupos políticos e econômicos consolidados durante a ditadura civil-militar e que mantiveram sua hegemonia durante e após a transição democrática.
O livro do profeta Ageu apresenta discursos proféticos com o intuito de encorajar o término da reconstrução do templo em Jerusalém. Em sua segunda mensagem, o retorno da glória divina é associado a essa reconstrução. Esse retorno é tematicamente expressivo para o contexto histórico do livro de Ageu, especialmente à luz do contraste entre o suntuoso templo de Salomão e o presente templo ainda em ruínas no período pós-exílico. Através de ferramentas exegéticas, este estudo propõe que o retorno da glória divina em Ageu contém forte conexão com a dedicação do templo de Salomão. Dessa maneira, o retorno da glória divina descreve tanto o reerguimento do povo de Israel perante às nações e a consequente glorificação que o templo traria para o Senhor dos Exércitos, como também evidencia noções escatológicas, indicando uma manifestação divina por meio de sua glória jamais presenciada.