
Resumo: Embora o Brasil seja um dos maiores produtores de alimentos halal (i.e., alimentos produzidos de acordo com as prescrições islâmicas) do mundo, a produção acadêmica sobre o tema ainda está limitada e frequentemente trata as regras alimentares islâmicas como fixas. Este artigo, em contraste, examina a transformação e a diversificação dessas regras, destacando o papel do Brasil nesses processos. Argumentamos que transformação e diversificação se tornam especialmente visíveis em contextos de mudanças culturais, como a expansão islâmica, a industrialização, a globalização, o revivalismo islâmico e as crises socioambientais atuais. Para essa análise, adotamos como lente teórica as reflexões de Mary Douglas sobre regras alimentares, desenvolvidas em Pureza e perigo (2014 [1966]). A pesquisa foi conduzida por meio de métodos qualitativos.
Resumo: Visando a identificar a presença e as mudanças no perfil das associações religiosas nos conselhos de Assistência Social e da Criança e do Adolescente, o trabalho mapeou os dados sobre a composição associativa desses Conselhos Gestores em onze capitais do país e nos dois conselhos nacionais, em diferentes gestões. Os dados foram obtidos por meio de busca emsiteseblogsde conselhos, consulta aos decretos de nomeação publicados nos Diários Oficiais e consulta ao banco de dados de pesquisas anteriores. As associações religiosas, com destaque para as católicas, ocupam 30% da representação da sociedade civil, com variação entre as áreas, a escala e as cidades. No campo evangélico, as protestantes históricas predominam, em detrimento das neopentecostais, ausentes nesses espaços.
Resumo: O artigo caracteriza a evolução demográfica e política evangélica no Brasil desde os anos 1980. A década de 1990 foi o auge do crescimento, mas o último Censo tende a corroborar previsões feitas pelo autor, de que dificilmente haverá maioria evangélica. Já os anos 1980 marcaram o início de uma transição pentecostal, na qual a teologia da dignidade foi sendo suplantada pela teologia da prosperidade; e o distanciamento sectário do Estado foi abandonado em favor da exploração sectária do Estado. Agora, o apoio maciço ao populismo aponta para a transformação do movimento evangélico brasileiro, de outsider exótico para portador privilegiado do cristianismo cultural brasileiro, completando uma transição da “dignidade recomposta” (do indivíduo) para a “dignidade imposta” (sobre a nação).
Resumo: Este artigo analisa os processos por meio dos quais uma matriz católica modela a linguagem normativa responsável por redefinir o que se entende por “diversidade” no currículo do ensino religioso vigente em escolas públicas brasileiras. Primeiro, examinamos os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso, documento fundamental para a regulação dessa disciplina no cenário pós-Constituição de 1988. Os Parâmetros inauguram uma gramática classificatória que estabiliza modos específicos de reconhecer e ordenar o religioso na escola. Em seguida, observamos como as conexões de sentido apresentadas nesse documento são emuladas em sessões de formação docente. A análise revela que o registro católico é reatualizado como gramática legítima do ensino religioso, produzindo efeitos de ontologização e hierarquização das diferenças no espaço educacional.
Resumen: Este artículo propone una relectura de la laicidad a partir de su materialidad, es decir, de formas cognoscibles tales como imágenes resultantes de acontecimientos controvertidos, que en principio tornan esas imágenes transgresoras en tanto transmiten lo opuesto a los principios constitutivos de esa categoría, pero también se tornan una manera de presentar cómo se percibe, se entiende y se produce laicidad sin la carga normativa que la compone. Esto genera un desplazamiento del centro al margen, que desubstancializa estándares compartidos al paso que formas de hacer religión acentúan su lugar en la esfera pública. Mediante una aproximación antropológica y semiótica se recuperan acontecimientos que generaron controversias en los casos brasileño, colombiano y mexicano para pensar la visibilidad de la laicidad, que se mueve entre su contenido y su forma, entre lo institucional y lo cultural, entre discursos, prácticas y también entre imágenes que se indexan en los imaginarios y representaciones colectivas, al tiempo que crean y refuerzan afinidades con sus audiencias.