
A filosofia das medições tem se mostrado uma área profícua não apenas em função dos seus interesses autônomos, mas também na contribuição para as reflexões clássicas na epistemologia da ciência. Seja questionando, criticando ou corroborando as teses epistêmicas em voga, a área tem contribuído ativamente para o fortalecimento de uma virada prática na filosofia da ciência, a qual considera que a compreensão da natureza do conhecimento científico requer análises sistemáticas - inclusive de questões filosóficas - vinculadas com as suas práticas efetivas. Neste texto, procuro mostrar um dos modos com que a atual literatura na filosofia das medições tem se encaixado com os debates sobre a impregnação valorativa e a objetividade da ciência, em especial, explorando as análises sobre o medir e as metodologias das ciências sociais.
Este artigo examina as críticas dirigidas à retórica no pensamento de Platão e Santo Agostinho, mostrando que, embora partam de horizontes históricos e filosóficos distintos, ambos recusam a pretensão de autonomia do discurso persuasivo. No Górgias, Platão problematiza a retórica em sua dimensão política e argumenta que, por carecer de conhecimento do objeto e de explicação racional de seus procedimentos, ela não pode ser legitimada como verdadeira arte (tekhne), sendo reduzida ao domínio da experiência e da adulação. Em Agostinho, sobretudo no De magistro e nos livros I, II e III do De doctrina christiana, a crítica desloca-se para o problema da insuficiência dos signos e para a subordinação da palavra à verdade ensinada pelo Mestre interior. Desse modo, o artigo sustenta que, em ambos os autores, a legitimidade do discurso depende de seu vínculo com a verdade e de sua ordenação a um fim superior, o que impede que a retórica se apresente como técnica autônoma e moralmente indiferente.
Este artigo objetiva destacar o interesse limitado de Heidegger pela dialética e sua não aplicação em obras como Ontologia: Hermenêutica da Facticidade. Mostraremos que, para o filósofo, especialmente nessa obra, o procedimento dialético é passível de críticas; a apresentação dos termos destas constitui parte substancial do nosso trabalho. Com base nesse curso de 1923 em Friburgo, apontaremos diversos momentos em que Heidegger se opõe à dialética, especialmente ao que dela resulta em uma espécie de “platonismo de bárbaros”, na filosofia de seu tempo. Para contextualizar essas análises, buscaremos contrastar o procedimento dialético com a atitude fenomenológica adotada por Heidegger em sua fenomenologia hermenêutica da vida fática. Para tanto, será necessário introduzir o conceito de “indicação formal”, que, embora não muito evidente na obra que nos serve de base, é crucial como método da filosofia heideggeriana durante esse período. Pelo que pudemos ver, a dialética é propriamente a antítese da fenomenologia. Contudo, ao final do artigo, indicaremos que, anos antes, o filósofo havia considerado um papel para a dialética em sua própria filosofia, o que originou à proposta de uma “diahermenêutica”. Essa ideia será retomada aqui, embora jamais tenha sido desenvolvida pelo filósofo.
O texto examina a crítica de Schmitt ao parlamentarismo no contexto do que ele chamou de “marcha triunfal” da democracia. O objetivo é destacar a distinção conceitual entre liberalismo e democracia desenvolvida pelo autor na década de 1920, como ponto de partida para compreender seu decisionismo. Busca-se argumentar que enquanto o primeiro se fundamenta e tem como princípio estruturante a crença na discussão pública, a democracia se ancora sobretudo no princípio de identidade entre governantes e governados. Partindo dessa distinção, Schmitt pode redefinir a democracia para além de sua identificação com formas institucionais específicas, indo além do caráter formal e abstrato e da ausência de critérios substantivos de legitimidade, que marcaram a visão equivocada de associar democracia e liberalismo. Desse modo, a democracia de massas opera como um princípio vazio de legitimação, capaz de sustentar formas políticas diversas e até contrastantes, abrindo espaço para sua compatibilidade com modos intensificados de tomada de decisão.
O presente trabalho tem como objetivo apresentar a dicotomia entre democracia e autocracia no pensamento do filósofo italiano Norberto Bobbio. Inicialmente, explicita-se a concepção procedimental de democracia, compreendida como um conjunto de regras formais que promovem a defesa substancial da liberdade e da igualdade. Tais regras do jogo democrático propõem tanto a participação política ascendente e a defesa das liberdades individuais quanto a limitação do poder e a autonomia dos cidadãos na elaboração das leis. Em seguida, aborda-se o conceito de autocracia enquanto modelo político heterônomo, oposto à democracia, estabelecendo-se, assim, a relação dicotômica entre ambos os conceitos. Como exemplo de governo autocrático, evidencia-se o fascismo italiano, movimento político extremo que se consolidou de forma violenta no início do século XX e suprimiu gradativamente as liberdades na Itália, ao avançar da restrição das liberdades civis para as liberdades políticas. A análise do fascismo italiano justifica-se tanto por sua contribuição para a formação do pensamento democrático de Bobbio quanto por constituir um referencial histórico de regime autocrático de caráter ditatorial. Por fim, nas considerações finais, aprofunda-se o sentido político da relação dicotômica entre democracia e autocracia.
El presente artículo examina la concepción de las pasiones en Tomás de Aquino, situándola en el marco del debate contemporáneo entre el dualismo antropológico y el reduccionismo fisicalista. El objetivo principal consiste en analizar la doctrina tomista de las pasiones, atendiendo a su fundamentación metafísica en la teoría hilemórfica, su estructura y clasificación, su relación con la razón práctica y las virtudes morales, así como sus implicancias para la comprensión de la incontinencia y la enfermedad mental. La metodología adoptada es de revisión y reconstrucción conceptual de las obras del Aquinate, poniéndola en diálogo con estudios contemporáneos e integrando los niveles metafísico, antropológico y ético. El estudio muestra que, para Aquino, las pasiones son movimientos del apetito sensitivo que surgen de una aprehensión cognoscitiva del bien o del mal y que implican necesariamente una transmutación corporal, por lo que pertenecen al compuesto humano entero, es decir, cuerpo y alma, evitando tanto el espiritualismo como el biologicismo reductivo. Asimismo, se destaca que la razón no ejerce un dominio despótico sobre las pasiones, sino político, orientándolas mediante la virtud hacia el bien verdadero. Se concluye que la propuesta tomista constituye una vía media capaz de superar el emotivismo y el cientificismo actuales, ofreciendo una comprensión unitaria de la afectividad como dimensión intencional, cognoscitiva y moralmente integrable en la vida humana.
O presente artigo investiga a gênese da psicofísica hobbesiana a partir do conatus, demonstrando que esse conceito opera como princípio genético que faz nascer simultaneamente a descrição do indivíduo como corpo senciente e a plasticidade como capacidade de reconfiguração interna pela experiência. A plasticidade de que se trata não corresponde à noção contemporânea de neuroplasticidade nem a qualquer projeção retrospectiva: ela designa, estritamente, propriedades que se deduzem do conatus tal como definido no De Corpore XV — persistência, acumulação e reorganização de movimentos no corpo vivo. A investigação acompanha a diferenciação do conatus em vital e reativo, examinando como o encontro entre pressão externa e movimento vital gera sensação, imaginação, memória, paixões e deliberação. O argumento central sustenta que a plasticidade emerge como consequência necessária do modo como o conatus organiza o circuito que vai do impacto sensorial à ação. O artigo reconstrói essa progressão exclusivamente a partir dos textos de Hobbes — De Corpore, Leviatã, Elementos da Lei, De Homine e Terceiras Objeções —, evidenciando que a mesma estrutura que permite aprendizagem e formação de hábitos permite também erro, loucura e desorganização. A análise demonstra que o circuito psicofísico dissolve o dualismo mente-corpo sem incorrer em reducionismo ontológico, situando o indivíduo hobbesiano como organismo plástico cujas disposições se formam, estabilizam e reorganizam pela experiência acumulada.
A retomada das questões da Filosofia Teórica em Wahrheit e Rechtfertigung (1999) representa o resgate de problemas negligenciados pela pragmática formal como a formulação de uma Teoria da Verdade, de critérios para a determinação do conhecimento verdadeiro e do esclarecimento da natureza da relação entre Verdade e Justificação, esta última decisiva para a compreensão da analogia entre correção normativa e verdade de proposições sobre fatos no mundo, incorporada pelos processos de aprendizagem. A relação da pragmática formal com essas questões é ambígua, senão paradoxal quando se discute as pretensões e o alcance teórico da pragmática da linguagem, considerando que a teoria da ação comunicativa sequer trata das questões centrais da Teoria do Conhecimento, visto que dedica atenção particular ao problema da aceitabilidade racional dos Atos de Fala via resgate discursivo das pretensões de validade criticáveis e a compreensão normativa de entendimento mútuo. Para além da intenção de revisar o conceito discursivo-consensual de verdade, a referida obra de Habermas que aqui se discute deve ser interpretada e compreendida metacriticamente como a apresentação de uma Teoria da Justificação Discursiva que (se) não fundamenta uma Teoria Crítica da Sociedade, porém ancora uma concepção da Moral, do Direito e da Democracia.
Este artigo trabalha com a hipótese de que a noção yanomami de “espírito auxiliar xamânico” (xapiri) pode ser pensada como variação cosmológica do conceito de “expressão”, desdobramento topológico-nominal e eixo de articulação de sentido entre domínios a princípio distintos — termo que Gilles Deleuze atribui ao “atributo” na Ética spinozana. Tal hipótese leva em conta a sugestão de Marco Valentim de que a cosmologia yanomami apresenta uma espécie de “nominalismo exorbitante”, submetendo a unidade da expressão xapiri a uma multiplicidade de imagens utupë, duplos imagético-intensivos da pessoa yanomami. Se admitirmos isso e partirmos do pressuposto de que cosmologias como essa estão perpassadas por uma equivocidade ontológica constitutiva, na qual não só povos/espécies, como mundos/naturezas estão em constante atrito e desencontro, como garantir comunicabilidade? Em contraste com as soluções deleuze-guattariana (por via do unívoco) e dusseliana (por via do análogo) do problema da comunicação ontológica, proponho aqui que o xamanismo yanomami busca suturar a lacuna comunicacional entre mundos distintos por meio do xapiri, entendido enquanto expressão “transontológica”, envolvendo a introdução aparentemente paradoxal de mais equívoco no sistema.
O presente artigo tem como objetivo apresentar a discussão acerca da natureza hermenêutica do encontro clínico, segundo a qual a relação entre médico e paciente é compreendida como um processo de interpretação textual. Neste sentido, recursos da tradição hermenêutica são mobilizados, principalmente a partir do aporte teórico de Paul Ricoeur. O artigo explora a metáfora do “paciente como texto”, na qual o corpo, os sintomas e a narrativa da pessoa enferma formam um todo significativo que deve ser lido e interpretado pelo médico. Daniel (1986) e Leder (1990) argumentam que a medicina não deve ser vista apenas como ciência pura, mas como uma prática interpretativa que integra dados objetivos e as experiências em primeira pessoa dos pacientes. Assim, o artigo está organizado em cinco seções. As duas primeiras dizem respeito a uma breve retomada da história da hermenêutica, moderna e contemporânea, enquanto as duas últimas se referem aos contextos de aplicação da hermenêutica com a prática clínica. Por fim, pretende-se, com base na literatura especializada, argumentar que o conceito de “texto” integra diferentes dimensões significativas da clínica médica, como a experiência subjetiva da enfermidade, os sinais e sintomas manifestados pelo paciente e os processos fisiológicos e bioquímicos registrados em exames. Ao interpretar o “paciente como um texto”, busca-se uma tomada de decisão médica que, em última instância, fornece cuidado e promove a cura (ou restabelecer a saúde) da pessoa enferma.
Mediante una vía de interpretación expositiva, en este trabajo abordaremos cómo en “Sobre la facultad mimética” y en “Doctrina de lo semejante” Walter Benjamin presenta el campo de la lectura y de la escritura a partir del declive del estatuto historicista del archivo y del modelo clasicista de la semejanza. Este doble declive se halla imbricado con la reinvención del fundamento de determinación que atraviesa la experiencia estética de la percepción lectora, concebida tras la semiosis de las llamadas semejanzas no sensoriales. Las semejanzas no sensoriales resultan perceptibles y reconocibles en cuanto tales tras la transposición de las distinciones condicionado-incondicionado emplazadas en el marco de una tópica idealista hacia una crítica retórica radical, en la que el estatuto de lo simbólico deja de estar supeditado a una doctrina subjetivo-trascendental. Esta transposición encontrará tanto a die Sprache (la lengua, el habla, el lenguaje) como a la escritura bajo el rodeo de la dimensión kairológica de la instancia de acto de la lectura, signada por la oportunidad que habilita su transmisión equívoca, aún por venir.
No presente artigo, trata-se de explorar a maneira como Deleuze propõe uma filosofia da natureza que orbita a disputa entre preformismo e epigênese. Em primeiro lugar, a partir de Casetta (2020), introduzimos o debate específico do desenvolvimento biológico. Na sequência, tomando como base as páginas de Diferença e repetição (1968) dedicadas à embriologia, acompanhamos como Deleuze promove uma cosmologia orientada à reconciliação entre as duas vias. Então, demonstramos como a vida embrionária não se restringe a um estágio anterior à formação dos organismos, uma vez que, na filosofia deleuziana, ela é alçada aos processos transversais da diversidade e da reprodução, da diferença e da repetição dos seres. Enfim, apontamos como a tese do eterno retorno da diferença se relaciona com uma filosofia da natureza orientada aos processos, de maneira que podemos compreender plenamente a fórmula segundo a qual “o mundo é um ovo”.
Neste artigo, tenho como objetivo mostrar como as metáforas terapêuticas de Mente e mundo (1996), que constituem o principal objetivo desta que é a obra mais importante de John McDowell, remetem à uma postura wittgensteiniana adotada pelo autor. A conclusão é a indicação de que uma chave de leitura adequada a Mente e mundo depende de um esclarecimento acerca do wittgensteinianismo terapêutico de McDowell extraído da leitura do texto Wittgenstein on following a rule (1984) e do encaixe desse wittgensteinianismo com as metáforas terapêuticas de Mente e mundo. Para tanto, seguirei o seguinte percurso. 1 - mostrarei de que forma as metáforas de Mente e mundo dizem respeito a uma postura wittgensteiniana que remonta a uma disputa interpretativa travada por McDowell acerca do argumento do seguimento de regras nas Investigações Filosóficas (1953) de Wittgenstein. 2 - apresentarei brevemente o texto Wittgenstein on following a rule, no qual McDowell confronta soluções não terapêuticas ao problema do seguir regras à sua alternativa terapêutica, desde onde se pode delinear as características gerais do que seria um modelo de terapia filosófica. 3 - apresentarei brevemente uma leitura de Mente e mundo que enfoca no tratamento de duas propostas filosóficas, o coerentismo e o mito do dado, desembocando em duas alternativas de dissolução dessas propostas, a saber, a inextricabilidade kantiana entre conceitos e intuições, e a ideia de segunda natureza. A partir dessa leitura de Mente e mundo, alinharei seus aspectos metodológicos às características gerais obtidas na segunda parte do artigo.
Neste artigo, busca-se examinar até que ponto Aristóteles entende o desejo não só como uma força orientadora dos fins, mas como um elemento ativo no raciocínio prático, isto é, no processo de escolha dos meios adequados para atingir esses fins. Além disso, dada a diversidade de tipos de desejo (orexis) apresentada por Aristóteles, querer (boulesis), apetite (epithymia) e ímpeto (thymos), investiga-se qual deles é o responsável por eleger os melhores meios para atingir um fim qualquer, juntamente com a deliberação racional (bouleusis), elementos que compõem a escolha deliberada (prohairesis). Para atingir tal objetivo, são analisadas as obras De Anima, Retórica e Ética a Nicômaco, além da literatura secundária pertinente ao tema. Conclui-se que o desejo exerce uma função estrutural na escolha dos meios que conduzem aos fins. Ao caracterizar a prohairesis como orexis bouleutiké, Aristóteles rompe com uma visão estritamente dualista entre desejo e razão, revelando que a escolha deliberada não é um ato puramente intelectual, mas um movimento integrado entre disposição desejante e cálculo racional.
O seguinte artigo pretende esboçar alguns dos elementos centrais do texto A questão da técnica de Martin Heidegger e, com base nisso, apresentar de modo introdutório novos caminhos no contexto dos desafios enfrentados pela filosofia brasileira. Para alcançar esse objetivo, o artigo foi dividido em cinco itens, sendo que os quatro primeiros tratam de apresentar os elementos centrais do texto de Heidegger – assim como uma linha interpretativa que o distancia de certas críticas recorrentes e expande o seu horizonte de possibilidades – e o último busca delinear a herança crítica, a atualidade e alguns de seus limites. Partindo da crítica de Heidegger à noção corrente da técnica e à tese da neutralidade, adentrando a questão da essência da técnica e a sua relação com a metafísica e a história do ser, seguindo pela questão do dispositivo e da subjetividade como fundamento metafísico da modernidade e, finalmente, passando pela questão do perigo representado pela técnica e do horizonte de salvação da humanidade, o artigo termina com uma breve contextualização do cenário brasileiro e com a indicação de algumas das principais heranças críticas da reflexão de Heidegger, assim como de seus limites, para a filosofia brasileira contemporânea.
O problema mente-corpo permanece presente e desafiante no campo da filosofia. Propomo-nos a encará-lo através do olhar da Filosofia da Existência de Karl Jaspers. Os Somaticistas capitaneados por Wilhelm Grissinger defendiam a conceção que a doença mental era uma doença do cérebro. Por outro lado, Johann Heinroth, líder dos Psicologistas, defendia que a mente enferma sofria dos influxos da Moral e da Religião.Karl Jaspers vai se rebelar contra tais visões. A conceção de Grissinger receberá a denominação de “Mitologias Cerebrais” por parte de Jaspers.Jaspers lutará contra uma visão reducionista do enfermar psíquico. Em 1913 virá a baila a sua obra seminal Psicopatologia Geral que buscará um ordenamento bem definido dos diversos saberes existentes ao abordarmos o doente mental.Veremos que ao longo dessa obra, a questão mente-corpo sofrerá diversas abordagens e iremos demonstrar as diversas falhas de cada abordagem. Por fim, com a revisão da Psicopatologia Geral a partir da quarta edição, ocorrerá o que viemos a denominar uma “transposição” dos conceitos da Filosofia da Existência para a Psicopatologia Geral, nomeadamente no que diz respeito ao problema mente-corpo. De fecho, discutiremos as vantagens e desvantagens dessa “transposição” principalmente no que diz respeito a vertente da prática clínica.
Este artigo investiga a (enunci)ação filosófica dos nomes iorubás a partir do pensamento da filósofa iorubá Oyérónkẹ́ Oyěwùmí, que compreende o nome não apenas como mera expressão linguística ou uma palavra com a qual se designa pessoas e coisas, mas a exteriorização que determina e situa o ser no seu contexto familiar, genealógico, ancestral e social. Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí destaca que, antes da colonização britânica, a sociedade Oyó-iorubá não se organizava por meio de gênero, mas de senioridade. Consequentemente, nomes, pronomes, substantivos, atividades, funções e termos designativos de características não apresentavam marcações generificadas. A emergência de nomes generificados é entendida tanto como reflexo dos processos coloniais que transformaram modos de pensar e práticas sociais quanto como indicador da ocidentalização. Processo que exerceu profundo impacto sobre os povos iorubás e suas práticas de nomeação. Metodologicamente, o artigo dialoga com referências da filosofia africana ao sustentar que a reflexão sobre os nomes constitui um campo fecundo para a ampliação do horizonte conceitual da própria filosofia.
O artigo investiga a construção de um ideal de feminilidade doméstica no século XVIII a partir da análise comparada entre a versão de La Bela et la Bête publicada por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1756) e os escritos de Jean-Jacques Rousseau, especialmente a Carta a d’Alembert (1758) e o Émile (1762). Partindo da constatação de que a versão de Beaumont reformula e simplifica a narrativa anterior de Gabrielle-Suzanne de Villeneuve (1740), o texto argumenta que o modelo de mulher ideal – recatada, cuidadora, virtuosa e ligada ao espaço doméstico – já se encontra consolidado no conto pedagógico antes mesmo de ser sistematizado pela filosofia de Rousseau. Embora Rousseau tenha se tornado a voz mais influente na normatização da feminilidade no Iluminismo, sua obra dialoga com um imaginário já em circulação, no qual o lar se configura como espaço formador de cidadãos virtuosos e a mulher como agente moral indireta da república. O artigo defende que essa transição não deve ser atribuída exclusivamente à retórica rousseauniana, mas compreendida como fruto de uma rede mais ampla de discursos e práticas pedagógicas. A noção de “mulher pública paradoxal”, central, mas confinada, emerge como chave de leitura para compreender os efeitos duradouros dessa normatividade de gênero que, sob o signo da virtude, reorganiza papéis, afetos e a própria gramática da cidadania moderna.
Este artigo analisa a pintura de Francis Bacon a partir do conceito deleuziano de Corpo sem Órgãos. Para tanto, toma como base o livro do filósofo dedicado ao pintor, Francis Bacon: Lógica da Sensação, e transita por outras obras e conceitos centrais para a construção argumentativa, com destaque para os conceitos de devir e histeria. De acordo com Deleuze, a histeria na pintura de Bacon não se refere ao pintor ou ao modelo, mas é uma característica intrínseca à própria pintura, que se distribui pela tela. Já o conceito de devir é crucial para entender como Bacon cria imagens compostas por forças na imanência de um Corpo sem Órgãos. Este artigo defende que Bacon, como pintor da sensação, foi capaz de transformar o conceito em expressão artística por meio de imagens pictóricas que modulam o paradoxo entre a visibilidade e a invisibilidade do corpo da Figura.
Este artigo desenvolve uma crítica cética e materialista à literatura contemporânea sobre desacordos profundos, argumentando que ela falha em captar a dinâmica real do convencimento em conflitos éticos e políticos persistentes. Sustentamos, em primeiro lugar, que, mesmo em Fogelin (1985/2005), a persuasão surge como um resíduo pouco tematizado do fracasso da argumentação racional, abstraído das relações de poder, dos afetos e das condições materiais que estruturam os jogos de linguagem. Em segundo lugar, defendemos uma virada normativa na análise desses desacordos: eles não dizem respeito primariamente à verdade de crenças, mas à disputa por critérios, procedimentos e normas que definem o que conta como fato, razoável, legítimo ou verdadeiro. Essa disputa criterial conduz a uma leitura normativa do trilema de Agripa, na qual o regresso não é de crenças, mas de critérios, e encontra seu ponto de estabilização em certezas fulcrais. Em terceiro lugar, argumentamos que tais certezas funcionam como metacritérios para a ação e que, em contextos de injustiça estrutural, podem e devem ser explicitadas, disputadas e transformadas. A análise de alguns cenários do diálogo imaginário entre Moore e o rei em Sobre a Certeza (1969), de Wittgenstein, evidencia que a persuasão, quando ocorre, é sempre atravessada por instituições, afetos e poder. Com isso, defendemos a possibilidade de intervenção normativa coletiva nas práticas conceituais, caracterizada como soberania gramatical, condição prática para a transformação de jogos de linguagem injustos.