
RESUMO: A Libras - língua brasileira de sinais – como nós a conhecemos hoje, foi construída e idealizada pela comunidade surda e por pesquisadores dos Estudos Surdos brasileiros. Neste trabalho, apresento um recorte da fundamentação teórica que abordo na minha tese em andamento onde reflito sobre o período que antecede a promulgação da Lei 10.436/2002, também conhecida como Lei de Libras, entre os anos 1980 e 2000. O projeto político linguístico governamental de difusão da Libras de forma institucional alcançou amplamente o território nacional chegando em espaços até então não frequentados como as escolas regulares da educação básica, as universidades, os espaços jurídicos, de saúde e artísticos/culturais. Destaco o livro Libras em Contexto que foi uma das iniciativas do governo federal de expansão da Libras pelo Brasil. Perspectivando um olhar mais plural e diverso, proponho neste artigo, uma educação linguística inter(trans)cultural a partir de algumas leituras realizadas das teorias decoloniais, para que a Libras consiga alcançar também aquelas pessoas surdas que se encontram à margem ao mesmo tempo respeitando e valorizando suas histórias, suas línguas, suas culturas, sem que, de alguma forma, as invisibilizem como foi, ou tem sido, a violência colonial imposta à nossa sociedade. PALAVRAS-CHAVE: Libras. Decolonialidade. Educação linguística.
RESUMO: Ao tomar a educação como direito de todos (Brasil, 1988), percebemos a necessidade de adequação dos processos de ensino e aprendizagem para a garantia de sua qualidade e da inclusão (Brasil, 2015), contemplando as necessidades de alunos público-alvo da educação especial. No entanto, a imposição descendente destas demandas, sem assistência formativa para o professor (sujeito diretamente relacionado à aplicação da lei) e infraestrutura física e mental, implica na ocorrência de incidentes críticos (Seccato, 2020). Este artigo tem por objetivo investigar esta dicotomia entre teoria e prática em cenários da educação inclusiva, mais especificamente de línguas adicionais, deflagrada pelo relato de experiência de quatro professores da rede básica de educação. A partir do conceito de reprodução (Bordieu; Passeron, 2009) e de estudos de Bezerra (2013) e Fontana (2017), constataram-se algumas inconsistências e atendimento inadequado às demandas apresentadas, tendo como principal fator condicionante os obstáculos enfrentados pelos docentes, originados pelo maltrato de seus ofícios (Medrado et al., 2015), sobretudo pela falta de suporte de macroestruturas na formação inicial e continuada para ações reais de inclusão culminando na manutenção das práticas excludentes, mascaradas por uma ideia plástica de educação inclusiva. PALAVRAS-CHAVE: Educação inclusiva. Ensino e aprendizagem de línguas adicionais. Formação de professores.
RESUMO: Essa entrevista buscou trazer (des)entendimentos acerca do termo deficiência a partir das vivências da Profa. Luciana Ferrari como pesquisadora das relações entre deficiência, linguagem e decolonialidade e como mãe da Lívia, uma adolescente com paralisia cerebral. As questões trazidas pela Profa. Lívia Fortes, professora e pesquisadora da área da Linguística Aplicada, mais especificamente sobre formação de professores, partiram de seu próprio processo de construção de sentidos sobre a deficiência, atravessado pela convivência com a Lívia e com a Luciana, de quem é amiga pessoal. Esperamos que as ideias aqui apresentadas e discutidas possam ensejar processos de interrupção do capacitismo tão comum em nossa sociedade. PALAVRAS-CHAVE: Deficiência. Linguística aplicada. Capacitismo.
RESUMO: Como grande parte da população, professores também olham para as pessoas com deficiência (PCDs) com uma certa estranheza, a qual é desenhada a partir de uma lógica colonizadora, planificadora, dualista e abissal (Santos, 2010) que busca invisibilizar as alteridades, seus corpos, suas histórias, conhecimentos e saberes experienciados. Tendo o professor papel fundamental na implementação das políticas de inclusão, faz-se necessário problematizar essa resistência que o impede de realizar o seu papel como profissional e como cidadão. O objetivo deste trabalho é, por meio de relatos de experiência, compartilhar e discutir vivências na educação inclusiva que revelem não somente preconceitos e tensões, mas também a tomada de responsabilidade ética pelo outro. A análise dessas experiências é feita à luz da teoria decolonial, da filosofia levinasiana, e de Freire (2022 [1996]). As reflexões tecidas neste estudo apontam para o reconhecimento dos sujeitos e suas alteridades e a (pre)valência da ética, como preconiza Levinas (1998). Esperamos que este trabalho promova aproximações críticas e pontes desejáveis entre os diversos sujeitos e o nosso fazer pedagógico. PALAVRAS-CHAVE: Educação inclusiva. PCDs. Ética. Decolonialidade. Narrativas.
RESUMO: A história da educação de surdos é um campo amplo, com uma sucessão de temáticas que requerem ser investigadas. Entre os temas que merecem relevo estão as práticas pedagógicas na Escola Ângela de Brienza, escola dedicada à educação de surdos localizada em Vitória, Espírito Santo, Brasil. Essa escola foi fundada por volta de 1958, tendo suas atividades encerradas em 1971. O objetivo deste artigo é compreender as implicações geradas pelas práticas pedagógicas propostas no Congresso de Milão (1880) e suas regularidades no Congresso de Paris (1900 – seção dos ouvintes) na educação capixaba de surdos em meados do século XX. Sob a perspectiva de autores do campo dos Estudos Foucaultianos, recorremos aos conceitos de prática para analisar as fotografias e recortes de jornais que mencionam a Escola Ângela de Brienza no período de sua existência. Com base na análise desses documentos, é possível compreender como a regularidade das práticas discursivas e não discursivas dos dois congressos europeus, que aconteceram no final do século XIX, continuaram circulando entre países da Europa e da América, gerando efeitos na educação capixaba de surdos durante o século XX. PALAVRAS-CHAVE: História da educação dos surdos. Práticas pedagógicas. Regularidades. Fotografias.
RESUMO: A experiência linguístico-sensorial da surdocegueira tem sido descrita como uma deficiência caracterizada por um duplo impedimento sensorial. Neste artigo, objetiva-se discutir sobre as potencialidades linguísticas da experiência da surdocegueira. Para tanto, baseia-se na perspectiva da linguística aplicada indisciplinar e dos estudos da deficiência para explorar elementos identificados em uma pesquisa bibliográfica que selecionou produções acadêmicas e científicas nacionais sobre formas de comunicação utilizadas por pessoas com surdocegueira. Considerando a conjuntura de sistemas linguísticos que permeiam a existência de pessoas surdocegas, bem como a correlação necessária entre alguns deles para o estabelecimento da compreensão e da expressão, argumenta-se que a surdocegueira constitui uma experiência de translinguagem na medida em que suas possibilidades linguístico-sensoriais oferecem amplas condições de exercício da linguagem em suas mais variadas formas. PALAVRAS-CHAVE: Surdocegueira. Deficiência. Translinguagem.
RESUMO: O presente artigo busca aproximar o pensamento ecológico dos estudos da neurodiversidade para abordar a relação com a língua estrangeira. Partindo-se do pressuposto de que o momento atual (a catástrofe climática) deixa às claras as contradições da modernidade, busca-se abordar a neurodiversidade para além do enquadramento moderno, questionando-se a normatividade homogeneizante que categoriza seres a partir de hierarquias. Nesse sentido, quando um pensamento sem centro e sem bordas, ou seja, o pensamento ecológico, é trazido para a discussão, a relação com as línguas estrangeiras pode ser vislumbrada de outra forma. Sugerimos, assim, que se observarmos o desempenho das funções executivas em pessoas neurodivergentes, bilíngues e não brancas, podemos perceber que o uso de uma língua estrangeira na prática linguística pode criar um ambiente alternativo, onde o padrão cognitivo convencional deixa de ser o ponto central. Esse espaço-tempo estrangeiro e estranho é, por sua própria natureza, não uniforme e ramificado, possibilitando equalizar neurodivergentes e neurotípicos. Assim, o presente artigo busca contribuir para o ensino de língua estrangeira a partir do diálogo entre pensamento ecológico e estudos da neurodiversidade. PALAVRAS-CHAVE: Neurodiversidade. Pensamento ecológico. Modernidade. Língua estrangeira.
RESUMO: Este trabalho tem por objetivo estabelecer um diálogo entre os estudos da Linguística Aplicada — que, pelo seu viés transdisciplinar, debruçam-se sobre questões de poder marcadas na linguagem — e os estudos críticos da deficiência, à luz da perspectiva decolonial. Para tanto, utilizam-se, como materialidades, gêneros discursivos publicados em ambiente web que, mesmo disponíveis em um ciberespaço apresentado como democrático, carecem de adaptações para que, de fato, sejam acessíveis a todas as pessoas, neste caso, especificamente, a pessoas cegas. Discute-se a importância dessas adequações linguísticas segundo uma premissa ontológica e epistemológica, para que pessoas não enxergantes possam também inscrever-se nessas práticas situadas de uso da linguagem e para que tenham assegurado o seu direito à informação e à comunicação. De cunho interpretativista e de natureza qualitativa, este estudo de caso respalda-se nos pressupostos teóricos de Dirth e Adams (2019), Canagarajah (2022), Ferrari (2023), Bakhtin (2011), Lévy (1999) e Costa (2014). Entende-se que observar as propostas de práticas sociais aqui recortadas, que se endereçam a pessoas com deficiência, é uma forma de ver a realidade para além dos paradigmas coloniais. PALAVRAS-CHAVE: Linguística Aplicada. Gêneros discursivos. Deficiência. Pessoas cegas.
RESUMO: Nos últimos anos, o número de pesquisas e a conscientização sobre o autismo têm aumentado consideravelmente e, consequentemente, muitas metodologias e terapias foram criadas para que essas pessoas possam ser incluídas plenamente na sociedade. Decidimos investigar a comunicação autista através da área da Musicoterapia porque essa provou ser uma ferramenta poderosa que pode facilitar o processo de aprendizagem de crianças com autismo. A música pode melhorar suas relações sociais, e as palavras aprendidas nas canções podem passar para a vida real (Reece, 2024). Por conseguinte, este artigo tem como objetivo analisar os benefícios da Musicoterapia e investigar de que forma ela pode ajudar autistas na escola e na comunicação visando promover melhorias no seu processo de aprendizagem. PALAVRAS-CHAVE: Musicoterapia. Autismo. Comunicação. Metodologias de Aprendizado.
RESUMO: Neste artigo, buscamos abordar a forma pela qual nossas lentes culturais, baseadas em uma matriz de poder, criam linhas abissais ao considerar o transtorno do espectro autista, sobretudo, a questão da “deficiência. Para tanto, três aspectos serão destacados - a decolonialidade, o TEA e a psicologia histórico-cultural de Vygotsky para abordar a complexidade da discussão. Enfatizamos a necessidade de uma epistemologia crítica que questione as relações de poder e promova a inclusão de perspectivas historicamente excluídas. Enfatizamos a necessidade de luta pela inclusão de pessoas com autismo, cujas vozes e experiências são frequentemente ignoradas ou desvalorizadas em discussões sobre políticas sociais, educação e empregabilidade. Abordamos, ainda, a necessidade de enfrentamento dos desafios associados ao TEA que requerem esforços coletivos, interdisciplinar e continuado, que transcenda as barreiras da patologização e abra caminhos para a plena participação e reconhecimento das pessoas com autismo em todos os espaços da vida cotidiana. PALAVRAS-CHAVE: Decolonialidade. Transtorno do Espectro Autista. Linguística Aplicada.
Breves considerações sobre o dossiê temático " Por uma linguística menos eurocêntrica: reflexões, pesquisas e o estado da arte de línguas indígenas".
Este artigo tem como objetivo central discutir a formação de leitores por meio de uma prática dialógica e democrática, o Pensar Alto em Grupo (PAG), partindo do seguinte questionamento: Quais as contribuições da prática do PAG na formação de alunos de um curso de extensão universitária como leitores responsivos? Trata-se de um estudo qualitativo-interpretativista, cujo método principal para geração de dados foi o Pensar Alto em Grupo. Os dados aqui analisados foram gerados com um grupo de cinco alunos de um curso de extensão universitária desenvolvido via plataforma Teams, em 2021. Teoricamente, partimos da concepção dialógica de linguagem e dos estudos sobre leitura e letramento. Os resultados apontam para a importância de dar voz aos leitores e espaço para suas subjetividades a fim de promover uma discussão dialogizada, na qual os sentidos são construídos colaborativa e democraticamente.
O presente trabalho tem os seguintes objetivos: i. relatar ações pedagógicas realizadas com acadêmicos do Ensino Superior, no que tange ao trabalho com leitura, compreensão e interpretação de textos com o gênero textual artigo de opinião; ii. propor reflexões acerca do processo de leitura, compreensão leitora e habilidade de interpretação textual realizado em sala de aula. Para isso, a base teórico-metodológica do estudo ancora-se na Linguística Textual, a partir de Koch (2002, 2014 e 2015), Koch e Elias (2012 e 2014), Marcuschi (2008) e Antunes (2003); no trabalho com gêneros textuais, na perspectiva dos agrupamentos, com base em Dolz e Schneuwly (2004) e na pergunta problematizadora, de Freire e Faundez (1985), entre outros estudiosos do texto, como Carvalho (2018) e Bittencourt et al (2015). Os resultados revelam aperfeiçoamento das habilidades cognitivas, interacionais e linguístico-textuais dos envolvidos. Por fim, o trabalho com o artigo de opinião, por meio de leitura e compreensão, principalmente, viabiliza maior interação, reflexão e conscientização sobre a importância do aprimoramento das habilidades textuais dos acadêmicos.
No presente artigo, discutimos a importância da referenciação no processo de leitura, principalmente considerando as contribuições da Linguística do Texto e as implicações para o trabalho do professor em sala de aula. Para tanto, inicialmente, tecemos considerações teóricas sobre leitura (KOCH, 2002, 2015; KOCH e ELIAS, 2012, 2016; SOLÉ, 1998), argumentação (KOCH e ELIAS, 2014a, 2014b, 2016; CAVALCANTE et al, 2014) e referenciação (especialmente a partir de KOCH, 2002; 2015). Na sequência, realizamos a análise de um artigo de opinião que aborda uma questão polêmica a qual ganhou grande repercussão na mídia, com ênfase sobre o emprego da referenciação no texto e o impacto do uso desses elementos para a leitura. Por fim, apresentamos uma possibilidade de exploração do referido texto, com o propósito de que, a partir de adaptações e ampliações realizadas pelos docentes, venha a contribuir para a qualificação da competência leitora de textos argumentativos pelos alunos da Educação Básica.
A formação dos professores no Brasil apresenta uma dicotomia entre modelos de áreas do conhecimento e modelos de formação pedagógico-didática. Por muito tempo, esses modelos estavam distanciados, porém, com metodologias interdisciplinares nas provas de larga escala para medir o aprendizado do alunado (como SAEB e ENEM), cada vez mais, é preciso repensar a formação continuada no Brasil. Os professores precisam de uma remodelagem entre teoria vs. prática, com a finalidade de melhorar o ensino-aprendizagem dos alunos. Associado a isso, é preciso engajar todos os professores das áreas de conhecimento na escola para o ensino de leitura, considerando que o cenário de proficiência e compreensão leitora no Brasil é assimétrico para idade/série na educação básica. Essa situação se agrava quando a função da leitura na escola recai somente ao professor de português. Considerando essa situação educacional, este artigo apresenta uma metodologia gamificada, como proposta formativa, desenvolvida para professores de Ciências Humanas (História e Geografia) para a conscientização do processo de leitura e compreensão leitora dos alunos. Esta proposta de formação serve para que outros professores-formadores possam replicá-la, com o objetivo de diminuir a assimetria da proficiência leitora no Brasil.
Este trabalho apresenta reflexões sobre o ensino e a aprendizagem da leitura de textos do campo científico na escola básica brasileira. Toma-se como contexto de partida a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especificamente o Campo das Práticas de Estudo e Pesquisa (CPEP), e suas concepções e propostas acerca de leitura de textos em gêneros acadêmico-científicos desde o ensino fundamental. Com base na fortuna da Linguística do Texto e das teorias da leitura (KOCH, [1997] 2003; KOCH; ELIAS, 2006; CASTELUBER; BICALHO, 2016; CAFIERO, 2010), são analisados excertos da BNCC que esclarecem a proposta do CPEP na escola básica. Os resultados do estudo apontam para a necessidade da formação continuada docente voltada à leitura e ao letramento científico na escola básica, como estratégia para a customização de compêndios didáticos e para uma relação cada vez menos assimétrica com textos dessa natureza.