
Este artigo analisa uma notícia publicada em um site jornalístico sobre o Eurovision Song Contest, com o objetivo de compreender como determinadas experiências humanas são construídas linguisticamente no discurso jornalístico multimodal, bem como discutir as contribuições dessa análise para o ensino da leitura crítica. À luz da Linguística Cognitiva, investigam-se a ocorrência e o funcionamento de metonímias e metáforas ontológicas como mecanismos cognitivos que estruturam a construção de sentidos no gênero notícia. A metodologia adotada é de natureza qualitativa e interpretativista, consistindo na análise de excertos verbais e recursos multimodais da notícia selecionada, com base nos pressupostos teóricos de Lakoff e Johnson (2002) e Ferrari (2011). Os resultados indicam que tanto as metonímias quanto as metáforas ontológicas atuam como mecanismos sistemáticos de conceitualização, organizando a compreensão de eventos, instituições e agentes sociais. Tais processos evidenciam que o discurso jornalístico não apenas informa, mas também orienta a interpretação da realidade, o que reforça a relevância de abordagens que promovam a leitura crítica de textos midiáticos.
Este artigo analisa os embates dialógico-ideológicos em torno da candidatura de Thabatta Pimenta à Câmara de Vereadores de Natal (RN), sob a perspectiva do Círculo de Bakhtin. A pesquisa explora, analiticamente, como a investidura pública de Pimenta na política representa um marco na luta por direitos humanos e inclusão social, consagrando-se como a primeira mulher trans eleita vereadora no Rio Grande do Norte. A análise foca em comentários de redes sociais sobre a candidatura, categorizando-os em vozes de intolerância e vozes de resistência. Para empreender o estudo, em termos teórico-metodológicos, esta investigação se baseia na abordagem dialógica da linguagem, na ideologia como fenômeno verbo-axiológico e na luta de classes como constituinte da construção discursiva. Os enunciados analisados apresentam comentários ambivalentes, sendo contrários, que frequentemente desumanizam a candidata, e usam discursos religiosos e conservadores para justificar a exclusão, como também favoráveis, quando expressam apoio, solidariedade e reconhecimento à trajetória de Thabatta. Desse modo, portanto, percebe-se uma arena de embates valorativos constituída em torno da candidatura de Thabatta Pimenta, tornando-a, efetivamente, um símbolo de resistência e transformação em um contexto político de monologismo e intolerância.
A presente pesquisa tem como objetivo analisar, considerando a intrínseca e indissociável relação entre língua(gem), sujeito, história e ideologia, os processos de significação que emergem do discurso enunciado pelo padre Frei Gilson, em 2025, o qual discursiviza religiões não católicas. Para isso, a fundamentação teórico-metodológica ancora-se na Análise de Discurso de perspectiva materialista, com ênfase em obras como: Florêncio et al. (2009), Magalhães (2003), Orlandi (2006, 2017 e 2020) e Pêcheux (2014a, 2014b e 2015). O dispositivo analítico visa responder às seguintes questões: 1 - Como o discurso de Frei Gilson discursiviza as crenças/religiões de matrizes africanas existentes no Brasil? 2 - Como a circulação desse discurso intervém na superação (ou não) do racismo religioso? O corpus foi constituído por transcrições de um vídeo postado no YouTube, cuja análise apontou o funcionamento de um complexo processo discursivo no qual a ideologia colonialista-racista segue reproduzindo efeitos.
Este artigo investiga a ocorrência e a função das Partículas Modais alemãs (PMs) doch e wohl em excertos de Fausto I, de Johann Wolfgang Goethe, tomando o drama como material linguístico produtivo para a formação em Letras. Com base na abordagem minimalista, parte-se do pressuposto de que cada PM apresenta uma função comunicativa nuclear — doch associada à contraposição e wohl à marcação de hipótese/suspensão epistêmica —, cujos efeitos de sentido se atualizam conforme a situação discursiva encenada no texto. Após uma discussão sobre a classificação das PMs e seu lugar no ensino de alemão como língua adicional, analisam-se ocorrências selecionadas em cenas centrais da obra, evidenciando seu papel na negociação de pressupostos, tensões argumentativas e graus de comprometimento. Por fim, discute-se como esses efeitos pragmáticos tendem a ser redistribuídos ou atenuados nas traduções de Jenny Klabin Segall e João Barrento, e apontam-se implicações para o ensino universitário, especialmente na articulação entre língua, literatura e tradução.
A escrita pode parecer tão natural quanto a oralidade, adquirida facilmente por crianças em qualquer cultura. No entanto, não é assim. Trata-se de uma tecnologia recente na história da humanidade, limitada a algumas línguas, desenvolvida mediante instrução formal e, até há pouco, restrita às elites. Hoje, em contrapartida, a sociedade do conhecimento está permeada por práticas de escrita em múltiplos âmbitos e, para agir plenamente, é necessário ser um escritor experiente. No ensino superior, a escrita acadêmica constitui uma tecnologia complexa de comunicação mediada, fundamental para processos de ensino, aprendizagem, comunicação e avaliação. Com a expansão da educação superior na América Latina, a pergunta sobre que escrita ensinar e como fazê-lo tornou-se urgente. Nesse contexto, conceitos como alfabetização acadêmica, no mundo hispano-americano, e letramentos acadêmicos, no Brasil, vêm se consolidando nos últimos vinte e cinco anos. Embora diferentes tradições teóricas e propostas de ensino tenham destacado certas funções da escrita acadêmica, poucas ofereceram uma visão integrada capaz de refletir sua complexidade. A escrita possui uma função epistêmica, ao criar e transformar conhecimentos disciplinares; uma função retórica, ao comunicar segundo padrões discursivos específicos; uma função habilitadora, ao avaliar desempenhos e validar trajetórias estudantis; uma função crítica, ao favorecer agência e posicionamentos próprios; e uma função expressiva, ao construir identidades, conectar-se com escrituras vernáculas e propor olhares criativos sobre a realidade. Essas cinco funções mantêm relações complexas, por vezes complementares, outras tensas, mas qualquer proposta de ensino deve ser capaz de contemplar todas elas.