
O presente artigo tem como objetivo analisar a mobilização de princípios geográficos na construção de conceitos relacionados às condições de vida no espaço urbano por meio do uso do jogo digital de simulação Cities Skylines. Para Moreira (2013, p. 108), os princípios são a “matéria-prima racional da construção de conceito”. O conceito central foi condições de vida, entendido como os elementos materiais visíveis e necessários para a sobrevivência nas cidades, que impactam a vida da população, e foi abordado por meio das categorias de organização espacial e escala local. Para isso, utilizamos uma sequência didática com alunos do terceiro ano do Ensino Médio, tendo como recurso didático o referido jogo, no qual os alunos construíram uma cidade sustentável. Assim, estruturamos as aulas por meio de problematizações, sistematizações e síntese. Para análise do conteúdo, utilizamos as atividades feitas em sala de aula. Os resultados evidenciam que o jogo Cities Skylines permite atuação ativa do aluno ao construir, gerir e administrar a cidade, pautado nas ofertas de saúde, educação, segurança e áreas verdes. Evidenciamos que, por meio das manipulações das variáveis, observação das resultantes e reflexão mediada pelo professor, é possível ao aluno formar conceitos e desenvolver o pensamento geográfico.
Este artigo analisa a produção didática de Aroldo de Azevedo em suas relações com a rede de circulação de saberes acadêmicos e pedagógicos que atuavam no campo das interações entre as geografias acadêmica e escolar francesa e a geografia escolar brasileira e suas práticas didáticas (1900-1945). Lança mão dos pressupostos teórico-metodológicos da matriz epistemológica proposta por Silva e Gamboa (2014) para empreender as análises sobre as obras didáticas de Azevedo no trato à questão territorial e econômica brasileira do segundo quartel do século XX, a partir das interfaces com os pressupostos didático-pedagógicos da tradição escolar francesa da geografia. Foram analisadas, ainda, obras didáticas de geografia na França, que são incorporadas como parte do referencial bibliográfico de Azevedo em seus movimentos de participação na modernização do discurso escolar da geografia no Brasil. A análise dos manuais escolares de Azevedo e dos franceses por ele citados nos permite argumentar que o pedagógico – enquanto forma de conceber, organizar e validar socialmente o conhecimento a ser ensinado – na geografia também é uma ideia que circula espacialmente.
Os aquíferos cársticos, formados em rochas altamente solúveis, apresentam elevada vulnerabilidade natural à contaminação devido à sua estrutura permeável e complexa rede de condutos subterrâneos. Nesse contexto, o presente estudo avaliou a vulnerabilidade e o risco de contaminação subterrânea no aquífero cárstico Bambuí, aplicando o método COP para identificar as zonas mais vulneráveis, juntamente com a metodologia descrita na COST Action 620 para ponderar os perigos e determinar os riscos. Os resultados indicaram cinco classes de vulnerabilidade: Muito Alta (2,18%), Alta (14,02%), Moderada (25,23%), Baixa (49,26%) e Muito Baixa (9,28%). As áreas mais suscetíveis à contaminação estão associadas às Formações Sete Lagoas e Lagoa do Jacaré, que apresentam cavernas, dolinas e solos rasos e arenosos, como Neossolos Litólicos e Quartzarênicos. O risco de contaminação foi classificado como Muito Alto (0,44%), Alto (4,46%), Moderado (19,98%), Baixo (35,27%) e Muito Baixo (39,83%), destacando-se nas regiões com mineração, agricultura intensiva e PCHs. Embora predomine o baixo risco, as zonas críticas coincidem com áreas de elevada vulnerabilidade natural, o que aumenta a probabilidade de contaminação. Conclui-se que a integração entre vulnerabilidade e risco é essencial para a gestão e proteção dos aquíferos cársticos, orientando ações de manejo sustentável e políticas públicas voltadas à conservação da qualidade das águas subterrâneas.
O artigo analisa os usos do território associados ao financiamento público das Comunidades Terapêuticas (CTs) na Região Metropolitana de Natal (RN), tomando como referência a categoria analítica território usado. A pesquisa parte da problematização da inserção das CTs na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e da hipótese de que essas instituições, embora financiadas pelo Estado, não atuam de forma complementar aos serviços públicos, mas estabelecem relações de concorrência institucional pelo fundo público. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa e quantitativa, pautada no método dialético e na análise técnica de sistemas. Foram realizados levantamentos documentais, análise de dados do Portal da Transparência (CGU) e mapeamento da distribuição espacial de CAPS e CTs entre 2011 e 2024. Os resultados evidenciam que as CTs financiadas, que receberam montantes superiores a R$ 12 milhões, concentram-se em municípios que já dispõem de serviços públicos de saúde mental, como Extremoz e São Gonçalo do Amarante. Tal dinâmica reforça a centralização territorial da assistência e desvia recursos que poderiam fortalecer a rede pública de saúde mental. Conclui-se que essa configuração revela a consolidação das CTs como um mecanismo de privatização indireta, expressando usos seletivos do território coerentes com a racionalidade neoliberal de gestão das políticas sociais.
A abordagem da Climodiversidade e a inventariação de climossítios inexistem na literatura científica. Embora relevantes, sobretudo nos contextos de mudanças climáticas, tais representam lacunas nas Geociências, bem como na Ciência Geográfica, ressaltando a necessidade de incluir estas temáticas nas dimensões da Geodiversidada e do Geopatrimônio, sobretudo na região amazônica, onde o clima pode ser reconhecido como patrimônios abiótico e imaterial brasileiros. Enquanto os estudos em Geodiversidade se limitam majoritariamente a aspectos geológicos e geomorfológicos, a Climodiversidade propõe um paradigma inovador para a Geoconservação, integrando a dimensão climática à discussão. Com o objetivo de qualificar climossítios, a metodologia adotada neste estudo teve respaldo na abordagem integrada da Geodiversidade e do Geopatrimônio, visando identificar, caracterizar e categorizar climossítios da Climodiversidade no estado do Amapá, como dimensão inovadora no campo da Geoconservação. A categorização de potenciais climossítios considerou aspectos teórico-conceituais e dados empíricos, tendo a Climodiversidade como dimensão central. Para a qualificação das áreas de interesse, foram consideradas as ocorrências de fenômenos climáticos raros e a relevância cientifica e as interações ambientais específicas destes. Como resultado, identificou-se três potenciais climossítios, com características climáticas únicas e de relevância para a Geoconservação: a foz mista do rio Amazonas; as áreas de ressaca de Macapá; e a Serra do Navio. Nesse contexto, esse estudo fortalece o paradigma da Geoconservação no âmbito climático e também reforça as bases científicas do planejamento ambiental e da mitigação das mudanças climáticas, diante da pressão das sociedades humanas sobre os ecossistemas.