
A chamada União Ibérica (1580-1640), época da integração dos territórios lusos à Monarquia Hispânica, sempre foi objeto privilegiado da historiografia portuguesa, que analisou o período sob diversos aspectos. Desde uma perspectiva claramente nacionalista, em finais do século XIX, passando por fórmulas interpretativas ligadas à novas correntes da história social e econômica, entre os anos 1960 e 1980, o tema é um excelente estudo de caso sobre as próprias mudanças ocorridas no cenário intelectual português. Nos anos 2000, entretanto, os trabalhos têm sido impactados, cada vez mais, por movimentos historiográficos, como a Global History; a Atlantic History e as Connect Histories, produzindo uma interpretação mais atenta aos territórios extra-europeus, incluindo aqui a América portuguesa. O objetivo deste artigo é discutir o impacto das Histórias Conectadas na Historiografia portuguesa, a partir dos trabalhos produzidos, entre os anos 1990 e 2010, sobre a União Ibérica.
Os estudos sobre escravidão tendem de modo geral a uma divisão binária e em simetria inversa: de um lado, “histórias esperançosas de subalternos heroicos”; de outro, “anatomias da destruição” (cf. BROWN, 2009). No interior desta oposição esquemática, a produção acadêmica de Sidney Chalhoub é invariavelmente referenciada — em revisões de literatura e balanços historiográficos — como exemplo paradigmático do primeiro caso. Procedendo à análise crítica dos pressupostos conceituais-procedimentais dos livros Visões da liberdade (1990) e A força da escravidão (2012), este artigo lança luz a um deslocamento perspectivo de grandes proporções — ainda pouco tematizado pela fortuna crítica do autor — por meio do qual o historiador brasileiro pôde desenvolver uma estratégia analítica capaz de abrir caminho à efetiva superação desta dicotomia historiográfica.
O artigo avalia a relação entre caráter (Charakter), destino (Schicksal) e habitus na tese Dante como poeta do mundo terreno (1929), de Erich Auerbach. A máxima de Heráclito – Ēthos anthrōpōi daímōn – escolhida pelo filólogo como epígrafe, conduz a análise da história da ideia de homem na tradição poética ocidental e constitui o princípio a priori motivador de uma certa noção de realismo que teria impulsionado uma gama de figurações da realidade na literatura europeia, desde Homero até épocas mais recentes. Nessa história, a Divina Comédia de Dante Alighieri ocupa um capítulo especial. Argumento que o que viabiliza a conjunção das distintas manifestações literárias europeias sob a rubrica de “realismo” seria menos o conteúdo das obras em si do que uma certa visão espiritual do mundo qualificada como genuinamente europeia: a atitude auerbachiana, cuja raiz é Dante. Essa atitude é aquilo que conforma as condições de possibilidade de seu conceito, ao mesmo tempo universal e múltiplo, de mimesis.
O artigo aborda a origem dos esportes eletrônicos (esports), apontando como as narrativas predominantes do Norte Global, especialmente dos Estados Unidos e do Japão, moldam a história do fenômeno. A análise dessa historiografia revela que as narrativas negligenciam contribuições de outras partes do mundo, perpetuando desigualdades históricas e epistemológicas. Como alternativa, o trabalho propõe que essa história seja vista de forma provisória e sugere uma reinterpretação que valorize a importância das experiências locais para a construção global dos esports. Ao final, o texto convida acadêmicos do Sul Global para questionar essas imagens e discursos coloniais, promovendo o reconhecimento de experiências e práticas locais como forma de reimaginar as culturas e histórias dos esports em um contexto global.
En este trabajo sostengo que la disputa entre las “Dos culturas”, dominante hasta 1970, a pesar de haber quedado relativamente desplazada, sigue siendo heurísticamente productiva para delimitar los alcances teóricos de los programas historiográficos actuales. Para ello me concentro en el análisis teórico-metodológico de The History Manifesto de Jo Guldi y David Armitage, y L'Histoire est une littérature contemporaine de Iván Jablonka, publicados en 2014. Sostendré que la apuesta del francés puede inscribirse en la tradición humanista, con un énfasis en la comprensión y en la dimensión literaria de la historia, mientras que los norteamericanos son próximos al interés cientificista, en el que se destacan los nuevos modelos estadísticos y digitales. Sobre estos énfasis contrapuestos, defiendo la conclusión de que existe un sustrato “empirista” común a estas aproximaciones historiográficas.