
Resumo O texto investiga, a partir dos dados de pesquisa empírica com grupos atingidos pelo rompimento da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, Minas Gerais, que resultou na morte de 272 pessoas, como o Direito atua na produção e na normalização da morte em larga escala. Apoiado nas teorias de Judith Butler e Achille Mbembe, o estudo discute a interseção entre morte, Direito, necropolítica e necroeconomia, evidenciando a descartabilidade e a “invisibilidade” de certas vidas. O estudo analisa a reação da Vale e da resposta do sistema judicial brasileiro e propõe reflexões sobre alternativas jurídicas emergentes, a partir das reivindicações dos atingidos por outras formas de resposta que possam permitir a elaboração do luto.
Resumo O presente paper busca compreender as razões pelas quais a década passada chilena apresentou ondas crescentes de massivos protestos, mas que encontraram limites na forma do rechaço constitucional. A hipótese é que os protestos serviram como acontecimentos que modificaram as possibilidades de organização política, mas cuja força arrefeceu devido a um déficit de organização e coordenação política, inerente aos dilemas do imaginário hegemônico na modernidade contemporânea. Mediante revisão bibliográfica e entrevistas com 19 membros do partido Frente Amplio (FA), buscou-se reconstituir o processo político da década e comparar dois eventos no mesmo país: os protestos de 2011 e do O-19, a partir dos impactos políticos-institucionais no imaginário hegemônico chileno. Analisa-se tendo por base três variáveis: descentramento das subjetividades coletivas; intensidade do poder constituinte e frustrações e demandas contra o sistema político e constitucional vigente. Como resultado propõem-se que o aumento dos protestos vem das frustrações com as respostas parciais dadas nas reformas constitucionais; todavia, O-19 ao conseguir abrir o processo constituinte demonstrar que o aumento da força dos protestos estava diretamente proporcional ao descentramento das coletividades, o que culminou em dificuldades de coordenação no processo constituinte.
Abstract This paper seeks to understand why the past decade in Chile witnessed successive waves of large-scale protests that ultimately encountered limits in the form of the constitutional rejection. The central hypothesis is that the protests functioned as events that reshaped the possibilities for political organization; however, their force waned due to a deficit of political organization and coordination, inherent to the dilemmas of the hegemonic imaginary in contemporary modernity. Based on a literature review and interviews with 19 members of the Frente Amplio party (FA), the study reconstructs the decade’s political process and compares two events within the same national context - the 2011 protests and the October 2019 uprising (O-19) - focusing on their political -institutional impacts on the Chilean hegemonic imaginary. The analysis is structured around three variables: the decentering of collective subjectivities; the intensity of constituent power; and frustrations and demands directed at the existing political and constitutional system. The findings suggest that the rise in protests stems from frustrations with the partial responses provided by constitutional reforms. However, while the October 2019 uprising succeeded in opening the constituent process, it also demonstrated that the increasing strength of the protests was directly proportional to the decentering of collective actors, ultimately resulting in coordination difficulties throughout the constituent process.
Abstract This review analyzes Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature by Alyssa Battistoni, situating its contribution within contemporary debates on capitalism and nature. It argues that, by emphasizing processes whose material significance does not appear in the form of value, the author tends to obscure the specific social mediations that historically organize the relationship between society and nature. Drawing on the relationship between nature and society in dialogue with the problem of expropriation, the review suggests that capitalist dynamics involve not only processes of invisibilization but also the continuous incorporation and commodification of new dimensions of nature. In this sense, the book’s main contribution lies in making visible the material conditions of capitalist reproduction, even as its limitations point to the need for an analysis more centered on the social mediations of accumulation.
Resumo Esta resenha analisa o livro Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature, de Alyssa Battistoni, situando sua contribuição no interior do debate contemporâneo sobre capitalismo e natureza. Argumenta-se que, ao enfatizar a não-valorização, a autora tende a obscurecer as mediações sociais específicas que organizam historicamente a relação entre sociedade e natureza. A partir do diálogo entre a relação sociedade e natureza com o problema da expropriação, a resenha sugere que a dinâmica capitalista envolve não apenas processos de invisibilização, mas também a contínua incorporação e mercantilização de novas dimensões da natureza. Nesse sentido, a principal contribuição do livro reside na explicitação das condições materiais invisibilizadas da reprodução capitalista, ainda que seus limites indiquem a necessidade de uma análise mais centrada nas mediações sociais da acumulação.