
O presente artigo propõe uma reflexão sobre a escrita da história no mundo contemporâneo a partir de um exercício de fecundação da literatura de Hisham Matar. A análise se apoia nos conceitos de “passados singulares”, formulado pelo historiador italiano Enzo Traverso, e de “eu metódico”, cunhado pelo o francês Ivan Jablonka – ambos destacando a inserção da subjetividade do pesquisador num texto historiográfico. Paralelamente, busca-se explorar as relações entre ficção, literatura, história e eventos traumáticos, na perspectiva de Jablonka, LaCapra e Hayden White. Por fim, pretende-se refletir sobre o conceito de tempo, demonstrando como a autoficção de Matar abre espaço para se pensar numa temporalidade espectral, ausente-presente, como alternativa ao modelo linear e sucessivo, hegemônico durante o período moderno.
Utilizando métodos dos Estudos de Recepção, esta investigação procura entender o efeito que o romance histórico A Canção de Aquiles (Miller, 2011) teve em seus leitores e em seu entendimento sobre o passado e a disciplina Histórica. Argumentamos que a imaginação histórica LGBTQ+ e os produtos culturais criados por ela podem ser usados para legitimar uma identidade contemporânea, e como pontos de identificação afetiva e de reconhecimento para a comunidade. Mostramos também como o romance está sendo utilizado como uma plataforma para leitores criticarem a História enquanto disciplina, dando voz à sua suspeição e desconfiança dos seus profissionais, e para demandar maior representação para sujeitos LGBTQ+ em narrativas sobre o passado, sejam históricas ou ficcionais. Por fim, consideramos também o impacto emocional que comunidades marginalizadas sentem quando são representados na História e na Literatura de uma forma positiva.
Com sua primeira edição realizada em 2000, o Latin Grammy é a consolidar espaços de reafirmações latinas no mainstream. Marcado por definições complexas entorno das identidades "latinas" a serem representadas na premiação, o Latin Grammy foi palco de uma série de debates, discussões e politizações que extrapolaram a indústria da cultura, ganhando contornos geopolíticos e comunitários importantes. O presente artigo analisa como a premiação, lançada pela LARAS e que mobilizou diferentes setores sociais, econômicos, políticos e culturais se tornou palco central para disputas entorno da comunidade cubana no exílio em suas primeiras edições. Deste modo, elaboram-se alguns breves comentários sobre a concepção complexa, contraditória e fluída da Latinidade envolvida na premiação. Em seguida, são analisadas as tenções entorno da participação da comunidade cubana exilada na politização do Latin Grammy, com particular ênfase ao anticastrismo.
Este artigo apresenta um balanço da produção historiográfica sobre o crime e a violência física no Paraná de 1985 até 2025. A pesquisa baseou-se na análise de dissertações e teses de universidades paranaenses e de outras instituições brasileiras que abordam direta ou indiretamente o tema. Os trabalhos foram sistematizados em ordem cronológica, permitindo identificar tendências, abordagens e lacunas. A síntese revelou padrões temáticos e metodológicos sobre o estado atual desses estudos, contribuindo para mapear o seu desenvolvimento e possibilidades futuras.
Este trabalho discute como é contada a história do município de Tarrafas-Ceará. Que foi contada de uma forma essencialmente baseada na oralidade e quem a pesquisou possuía uma dupla legitimidade, de intelectual e de político, e fez com que esta se tornasse a única narrativa possível, silenciando qualquer outra. Visamos entrelaçar os conceitos de História Única, debatido por Chimamanda Ngozi Adichie (2019), política do silêncio ou silenciamento, cunhado por Eni Orlandi (2007) e o de acontecimento e ciência-régia, discutido por Michel Pêcheux (2006), para discutir esse processo de apagamento e dos riscos das histórias únicas para a formação da identidade de um município através dos discursos circulantes sobre a fundação de Tarrafas, partindo da obra escrita por Vasconcelos (2022).
Diante da promulgação da Constituição Federal de 1988, quais foram as impressões manifestadas pelo oficialato do Exército Brasileiro em relação aos povos originários? O objetivo geral deste artigo é analisar a categoria “Os indígenas do passado” na revista "A Defesa Nacional" entre 1988 e 1992. Para isso, emprega-se a metodologia de análise de conteúdo com o intuito de explorar as narrativas históricas e os estereótipos presentes nos textos do periódico. A análise indica que as representações dos indígenas são marcadas por um imaginário social que mescla realidade, regras sociais e estereótipos com interpretações militaristas. Tais percepções moldam a compreensão dos oficiais sobre o papel dos indígenas na sociedade brasileira e refletem uma complexa dinâmica entre história, cultura e identidade militar.
Este artigo versa sobre o humanismo nos séculos XIV e XV na Península Itálica. Analisamos a atuação dos humanistas como agentes públicos que priorizavam a vita activa em vez da contemplação medieval. Exploramos também o papel da virtù na formação do indivíduo. Em suma, observamos que esses homens buscavam equilibrar ação e reflexão, pois almejavam um ideal capaz de alcançar fama e glória.
O artigo explora a trajetória do cuxá, um prato típico do Maranhão, como expressão cultural e patrimonial. Analisa a planta Hibiscus sabdariffa, conhecida como vinagreira, sua origem e uso histórico, e discute como o prato “arroz de cuxá” era consumido na boemia ludovicense no século XIX. No século XX, o cuxá ganhou novos significados, tornando-se símbolo da identidade cultural maranhense e do turismo gastronômico. A partir de fontes periódicas, textos históricos, poemas e crônicas nos jornais revelam a evolução das narrativas em torno do prato, de suas ligações com o contexto noturno à sua ressignificação como comida afetiva e patrimônio alimentar. Atualmente, o cuxá é uma representação cultural do Maranhão, simbolizando tanto a memória coletiva quanto a diversidade alimentar nacional.
O presente trabalho parte de uma leitura da produção inicial de Rubem Fonseca, ao longo dos anos de 1960. Apesar de os livros do período não se caracterizarem pelo “brutalismo” que seria atribuído ao autor na década seguinte, é possível observar que já nesse momento as narrativas lidam com a realidade marginal e, frequentemente, violenta do contexto urbano brasileiro. Essas narrativas, em oposição à atmosfera pacífica e de cordialidade coletiva afirmada pelos meios de comunicação do Regime Militar, apresentam a face oculta ou ao menos indesejável da sociedade de então, em que as classes dominantes, as instituições de segurança pública e os indivíduos marginais se aproximam pela transgressão insistente dos valores fomentados pelo discurso governista. A análise parte sobretudo dos contos “A coleira do cão” e “O caso de F.A.”, utilizando também textos que dão conta do momento político vivido à época.
O presente artigo tem como objetivo analisar o romance O Corpo Interminável (2019), de Cláudia Lage, abordando a representação simbólica de traumas individuais e coletivos produzidos pela Ditadura Militar (1964-1985), que persistem até os dias atuais. Partindo de referenciais teóricos como Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin e Márcio Seligmann-Silva, observa-se a ficção como parte de um trabalho de luto e elaboração da memória coletiva. A obra é analisada conjuntamente a entrevistas da autora e depoimentos de familiares de vítimas do regime, destacando-se as temáticas do impacto dos desaparecimentos políticos na coletividade, os efeitos do silenciamento imposto e as tensões no presente decorrentes do trauma histórico, abordadas na narração do protagonista.
O artigo propõe uma leitura crítica do romance Morra, amor, de Ariana Harwicz, a partir do diálogo com a historiografia e a teoria social sobre a normatização dos corpos femininos. A narrativa, marcada por um fluxo de consciência caótico e sensorial, apresenta uma personagem materna que desafia os modelos tradicionais de maternidade. Com base em Badinter (1985), analisam-se os dispositivos históricos que naturalizaram o papel da mãe como centro moral da família. A obra evidencia uma maternidade vivida com angústia, hostilidade e desejo de ruptura, refletindo os efeitos subjetivos das imposições sociais. A personagem não representa uma anomalia, mas sim o sintoma de um modelo que oprime e silencia. Sua recusa em performar o ideal materno é lida como um gesto de subversão, trazendo a importância de se desnaturalizar a maternidade e escutar experiências que rompem com o mito da mãe ideal.
Este artigo investiga a trajetória histórica e biográfica de Kira Muratova, analisando como sua visão autoral se desenvolveu no contexto das políticas culturais da União Soviética. O objetivo central é compreender de que maneira seus primeiros filmes delineiam uma linguagem estética singular, desafiando as convenções narrativas e formais do cinema soviético oficial. A análise é estruturada em dois eixos complementares: o primeiro examina a interação entre as diretrizes culturais estatais e seus impactos nos processos de produção, na estética e na linguagem cinematográfica; o segundo realiza uma revisão crítica dos primeiros filmes da diretora, com ênfase em Breves Encontros (1967), seu primeiro filme solo. Essa abordagem integrada permite evidenciar como seus experimentos formais e narrativos antecipam uma estética autoral que se consolidaria em suas produções subsequentes.
Este artigo analisa a construção de uma cartografia do sobrenatural na transição do Medievo à Modernidade, a partir de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e do mapa La Voragine dell’Inferno, de Sandro Botticelli. Com base na História Cultural, investiga-se como texto e imagem representam o Inferno, articulando códigos simbólicos e religiosos. Argumenta-se que tais produções expressam um mapeamento moral e espiritual, no qual o visível e o invisível se entrelaçam, revelando uma geografia sagrada marcada pela contrariedade e pelo medo. O trabalho propõe que essas obras funcionam como instrumentos para compreender imaginários sociais e crenças no espaço da longa duração.
A presente entrevista foi realizada presencialmente com a professora da Universidade da Serra Leoa (USL), Elizabeth Lucy Alberta Kamara, sendo um dos resultados da mobilidade acadêmica/pesquisa de campo realizada em Freetown pelo pesquisador Rafael B. J. Santana. O encontro com Kamara ocorreu em dezembro de 2024 e só foi possível pelo apoio financeiro prestado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). A entrevista foi conduzida a partir de tópicos como gerações de literatas serra-leonenses, agendas temáticas, relação entre economia, sociedade, história e literatura, etc. As contribuições da educadora, poetisa e pesquisadora entrevistada nos abrem caminhos para futuros trabalhos acadêmicos que enfoquem suas análises na literatura da Serra Leoa, campo ainda pouco estudado na área da História no Brasil.
Este artigo propõe uma releitura da poesia de Mário de Andrade à luz de tendências acadêmicas e culturais do século XXI. No cenário dos novos estudos sobre o modernismo brasileiro, analisamos interpretações que destacam aspectos antes negligenciados na compreensão de Mário, particularmente sua racialidade e sexualidade. A partir do trabalho de Roland Bleiker (2009), questionamos a visão tradicional que enxerga o autor como um poeta apolítico, propondo, em vez disso, uma leitura que evidencie seu potencial engajamento com questões identitárias. Ao destacar essas dimensões antes negligenciadas, argumentamos que tais perspectivas não apenas renovam a compreensão de sua obra, mas também reforçam sua ressonância em discussões atuais.
Em abril de 1952, Graciliano Ramos (1892-1953), então membro do Partido Comunista do Brasil (PCB), viajou à União Soviética para as comemorações do 1º de Maio, visitando escolas, fábricas, pontos turísticos e culturais. Dessa experiência, nasceu Viagem (1954), obra póstuma e incompleta com impressões do autor sobre o Leste Europeu socialista. Este trabalho divide-se em duas partes: na primeira, analisamos quatro dessas reflexões, três em Moscou, capital russa, e uma em Tbilisi, capital da Geórgia. Na segunda, apresentamos a recepção da obra pelo PCB, em três momentos: a tentativa de impugnação do livro, as críticas iniciais e, após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), a autocrítica dos comunistas brasileiros sobre o tratamento dado aos escritores do Partido.
O presente trabalho tem por objetivo discutir o estado de exceção da década de 1960 e 1970 no Brasil, especialmente seus aspectos jurídicos e históricos. Para isso, usaremos o aporte teórico de Carl Schimitt acerca das questões jurídicas, e de Bronislaw Baczko sobre Imaginário Social. Através da análise do relatório especial de informação produzido pelo Ministério da Aeronáutica, de 1973, onde o assunto principal era “Teoria e Prática da Contra Rebelião”, verifica-se o esforço no campo jurídico e social para difundir no meio militar uma narrativa sobre a luta contra a subversão e sobre os subversivos. Perceber a construção de uma narrativa específica é essencial para entender os desdobramentos do período que chegaram aos nossos dias criando inúmeros mitos e crenças que ainda hoje são capazes de agirem no imaginário da população.
Este artigo analisa os efeitos do discurso na dominação e subalternização cultural eidentitária das populações indígenas da Amazônia no início do século XX, conforme retratadono filme O Abraço da Serpente (2015), de Ciro Guerra. A pesquisa revela como a destruiçãodas tradições indígenas está ligada ao discurso salvacionista e à doutrina Orbis Christianus. Osresultados indicam a necessidade de uma abordagem decolonial para compreender os processosde apagamento e resistência dos povos originários diante do discurso cristianizador. A análise,fundamentada em pesquisa bibliográfica e na observação do filme, utiliza autores como Casetti& Di Chio (2007), Fanon (2020), Lugones (2007), Orlandi (2009), Martins de Souza (2005),Quijano (2005) e Pêcheux (1997), entre outros.
Este artigo objetiva analisar o debate em torno da presença de humoristas nas propagandas eleitorais dos candidatos a prefeito de Teresina nas eleições municipais de 2012. As campanhas de Firmino Filho (PSDB) e Elmano Férrer (PTB) contrataram humoristas consagrados no estado do Piauí, o que gerou discussões entre opositores e parte da imprensa, sobretudo acerca de questões como: o humor foi utilizado para mascarar a falta de ideias e propostas ou foi apenas uma estratégia para atrair a atenção do público? Com esse fim, dialoga-se com fontes hemerográficas como os jornais O Dia e Meio Norte, disponíveis no Arquivo Público do Piauí. Para a fundamentação teórica e metodológica, recorremos a autores como Bernard Manin e Antônio Rubim para discutir as transformações no processo eleitoral na chamada "democracia do público", com ênfase no papel da mídia. Através da análise dessa experiência, visa-se contribuir para o estudo das eleições e do processo democrático brasileiro.