
A obra de Balzac traz a representação da vida humana sob a perspectiva de diversas forças ocultas, ela é a expressão viva da força criadora de Balzac. Este artigo se propõe a tecer algumas considerações a respeito da relação entre a construção literária e o misticismo na produção do romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850), especialmente nos Estudos filosóficos, que compõem a Comédia humana. Serão exploradas a recepção crítica de seus contemporâneos, elementos da correspondência do autor e as obras A pele de onagro (1830), Louis Lambert (1832) e Seráfita (1833-1835), que oferecem ao leitor um privilegiado espaço de reflexão sobre as influências que o romancista sofreu e as suas transposições para a escrita ficcional.
Lançado em 2025 pela editora Nemo, do Grupo Autêntica, Doce amargo: um relato em quadrinhos do maior desastre ambiental do Brasil, de João Marcos Mendonça, trata do rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro de Fundão, localizada na cidade mineira de Mariana, ocorrido em 2015. Destinada não só ao público infantojuvenil, mas também ao adulto, a obra discorre sobre os efeitos da lama tóxica que atingiu o Rio Doce e alcançou 38 municípios, entre eles, Governador Valadares, cidade onde residem João Marcos e sua família. A ruptura de uma estrutura que armazenava 55 milhões de metros cúbicos de resíduos – o que corresponde a 21.000 piscinas olímpicas – levou a mudanças significativas na vida de milhares de pessoas.
The aim of this article is discussing how crime fiction, considered as a minor form of literature until the 20th century, could acquire a certain canonical status. Perrone-Moisés (1998) describes the variation of literary canon according to time, space, culture. Albuquerque (1979) and Priestman (2003) delineate a history of crime fiction, while Marcus (2003) indicates how this genre has been classified and interpreted in academic studies. Miller (1956) summarizes the production of paradoxical encomiums in England. This outlook will allow us to examine four essays by Chesterton (1901, 1920, 1925, 1930) on crime fiction and to discuss epideictic aspects of the articles collected in The Defendant (1901). Our aim is showing how the defense of crime fiction by Chesterton has contributed with literary criticism focused on this genre, at the same time it opens perspectives to comprehend principal aspects of his fictional and nonfictional work.
O presente artigo é uma reflexão acerca das relações afetivas e de cuidado que crianças demonstram para com animais não humanos na coletânea Contos de cães e maus lobos (2019), de Valter Hugo Mãe. Buscando suporte teórico nos estudos interdisciplinares acerca da criança e da infância, contempla-se que o autor desenvolve as suas narrativas nesta coletânea a partir de uma estética da sensibilidade infantil que é reveladora de certos aspectos distintivos do seu projeto literário. De um lado, as narrativas da coletânea desestabilizam concepções tradicionais acerca da criança, o que sugere uma visão particularmente auspiciosa do autor em relação à infância; de outro, esses contos inserem a obra de Mãe em textualidades emergentes outras-mais-que-humanas, posto que põem em questão o pensamento antropocêntrico.
Este artigo propõe uma análise de fragmentos de Finnegans Wake, tendo em vista a tradução brasileira realizada por Augusto e Haroldo de Campos, além de tomar o texto original como referência para a observação de certos termos cuja estrutura sonora e semântica se revela particularmente significativa. O estudo investiga como a subversão formal e temática empreendida por James Joyce representa e tensiona elementos do contexto sociocultural das primeiras décadas do século XX. Busca-se examinar de que modo as transformações perceptivas de uma época informam a tessitura visual, sonora e verbal da escrita joyciana. A análise fundamenta-se no conceito de “estrutura de sentimento”, de Raymond Williams, entendido como uma categoria crítica capaz de captar as mediações simbólicas emergentes na experiência histórica. Argumenta-se que recursos como a simultaneidade, a palavras-valise, o tempo cíclico e a imbricação entre visualidade e sonoridade operam como sintomas de uma reconfiguração profunda das formas de percepção – atravessados pelas transformações tecnológicas e pelos traumas dos conflitos bélicos, – inscrevendo-se, portanto, como gesto estético e político de expressão e resistência às formas hegemônicas de narrar a história.
A resenha analisa Huysmans entre naturalismos (2025), de Pedro Paulo Catharina, obra que propõe uma leitura não redutora da trajetória de Joris-Karl Huysmans, afastando-se da oposição simplista entre naturalismo e decadentismo. Ao examinar a relação ambivalente de Huysmans com o naturalismo, especialmente em diálogo com Émile Zola, Catharina evidencia a singularidade do projeto estético daquele naturalista heterodoxo. A análise do romance À Rebours ocupa lugar central, compreendido como ponto de inflexão que revela os limites do naturalismo e antecipa poéticas modernas do fin de siècle, sem romper inteiramente com seus métodos de escrita. O livro constitui um olhar renovado sobre as tomadas de posição de Huysmans no campo literário francês, assim como sobre seus posicionamentos no campo discursivo.
Há duas décadas a história da literatura brasileira investiga os jornais do século XIX ao mesmo tempo como objeto e fonte de pesquisa, graças aos pressupostos da História Cultural que compreendem a circulação da escrita literária a partir das práticas das comunidades de leitores (Chartier, 1998). Nessa perspectiva, Thérenty e Vaillant (2011 apud Granja, 2018) nomeiam como “era midiática” a transformação que se teria iniciado a partir de 1836, com a expansão comercial do jornal La Presse, comparando aquele momento com a revolução nas práticas de escrita desencadeada pela internet. Esta revolução, contudo, foi construída desde o século XVIII, a partir das mudanças implementadas pelo periódico inglês The Spectator (1711-1712), que introduziu práticas de escrita muito semelhantes às utilizadas atualmente no espaço virtual, perduradas por todo o século XVIII, e cujo ápice se deu no século XIX, tanto na França como em vários países da Europa e da América, incluindo o Brasil.
Este artigo analisa a presença do labirinto na construção do espaço em narrativas de três autores de distintas nacionalidades: A biblioteca de Babel, do escritor argentino Jorge Luis Borges; Todos os nomes, do português José Saramago; e Vidas secas, do brasileiro Graciliano Ramos. A imagem do labirinto que, no imaginário popular, remete ao mito do Minotauro, transformou-se, ao longo do tempo, em tema e forma de muitos textos literários, incorporando, segundo Mello (2007), duas principais tendências: errância e desorientação sem sentido ou enfrentamento de um percurso cheio de obstáculos, que provoca transformações nos indivíduos em busca de um centro ou saída. A análise apresentada comenta a construção dos espaços das três narrativas, demonstra a configuração labiríntica, destaca a qual dessas perspectivas do sentido do labirinto se filia cada um dos autores e como a utilização desse símbolo denota uma visão de mundo e da existência humana.
O objetivo do presente estudo foi investigar, sob uma perspectiva descritivista, como uma ferramenta de inteligência artificial generativa traduziria um trecho de uma obra de literatura de massa, pressupondo que este tipo de literatura seria menos desafiadora e complexa e, teoricamente, produziria resultados satisfatórios. Para este fim, um excerto do primeiro capítulo de The Murder of Roger Ackroyd, de Agatha Christie, foi traduzido pelo ChatGPT. Os achados da pesquisa indicam que o ChatGPT tem potencial para produzir traduções suficientemente coerentes; entretanto, também deixam claro o papel indispensável do tradutor humano, particularmente no desenvolvimento de prompts eficientes e no desempenho de um trabalho essencial de pós-edição.
Partindo de um experimento autoaplicado que compara cinco diferentes traduções inglês-português brasileiro de um microconto, discutimos a (in)visibilidade do trabalho do tradutor literário humano em tempos de IA. Mais especificamente, tivemos por objetivo investigar as interferências, se alguma, de significados produzidas pelas máquinas e o impacto destas no processo e produto tradutório (sobretudo em termos de multiplicidade de significados literários, adequação, fluência e esforço de pós-edição). O mesmo texto-fonte foi traduzido por dois humanos, dois serviços online de tradução automática e dois chatbots de IA gerativa. Os outputs foram analisados quanto às semelhanças e diferenças relativas a determinados traços linguísticos e às marcas autorais. A despeito de variações nas métricas padrão BLEU e TER, ambos os chatbots forneceram um resultado próximo ao do humano, exceto por intervenções cruciais que podem prejudicar o entendimento e a fruição do texto, bem como invisibilizar o papel do tradutor literário como administrador dos prompts e pós-editor. Os pontos problemáticos incluem a administração dos pronomes possessivos dêiticos por ambos os serviços de tradução automática, a adição de um travessão indesejável e a fabricação de um título por um dos chatbots. Nossos resultados sugerem uma nova possível invisibilização do tradutor, cujo grau de participação na tarefa é colocado em dúvida.
Helena Neves Abrahamsson é guineense, nascida em 1962, em Bissau, capital do país situado na costa ocidental do continente africano. Pela Faculdade de Direito de Lisboa graduou-se em Direito, exercendo essa profissão, notadamente se dedicando à área de Direitos Humanos, gênero, mulher e crianças, em diferentes países da África e Suécia. Fora di nos é seu livro inaugural, publicado em 2021. Abrahamsson integra antologia de poemas e dedica-se, há muitos anos, a trabalhos no campo das Artes. A partilha de aspectos de sua vida e obra ofertam significativa contribuição para os estudos que tomam como foco de análise integrantes do sistema literário da Guiné-Bissau. Esta entrevista foi concedida ao pesquisador de literaturas africanas de língua portuguesa Wellington Marçal de Carvalho, bem como às professoras Eni Alves Rodrigues e Lílian Paula Serra e Deus, que também se dedicam a reflexões sobre essa literatura.
Abrigado na prateleira “parentalidade”, O novo agora apresenta reflexões de um autor maduro. O estilo direto e sincero de Marcelo Rubens Paiva faz de seu mais recente livro um diário aberto e, como em todo bom diário, suas páginas revelam ao leitor muito mais do que uma vivência singular, apontando simultaneamente para certos modos de pensar e existir comuns à sua época e recorte social.
Este ensayo examina los efectos de la personalización algorítmica en la traducción automática de textos literarios realizada por IA generativas, con foco en ChatGPT. A partir de un experimento comparativo con dos cuentas de perfiles ideológicos contrastantes, se analiza de qué manera el sistema ajusta las traducciones de tres relatos cortos en función de las preferencias inferidas durante la interacción o explícitamente configuradas. Se argumenta que esta dinámica produce un sesgo de anclaje deseado, una forma específica de sesgo interpretativo configurada por mecanismos de perfilado y validada por la propia persona usuaria. Retomando debates sobre neutralidad tecnológica (Winner, Feenberg), psicopolítica (Han) y coautoría algorítmica (Novaes), el ensayo propone que este sesgo revela una nueva mediación discursiva, marcada por la adhesión afectiva. Al discutir sus impactos sobre la construcción de sentido, el estudio busca contribuir a una revisión crítica de la traducción automática como práctica situada e ideológicamente moldeada.
Este texto pretende examinar as afinidades entre a poesia de Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar a partir da noção poética de destinação. Em um segundo momento, iremos interpor entre os dois poetas a imagem de João Cabral de Melo Neto, o que permitirá observar também em que ponto os projetos poéticos de Ana Cristina e Marcos Siscar se afastam. Se para a poeta carioca a dicção cabralina da frase de pedras configura um impedimento para a sedução, é essa dicção pedregosa que, muitas vezes, é apropriada pelos poemas de Marcos Siscar.
Este artigo analisa o efeito de estranhamento no conto “O mar mais longe que vejo”, de Caio Fernando Abreu, articulando-o ao contexto da ditadura militar brasileira. A investigação, de caráter qualitativo, fundamenta-se nas teorias do fantástico (Todorov; Roas; Ceserani) e em estudos sobre literatura e memória (Dalcastagnè; Figueiredo), discutindo como a oscilação entre real e delírio conforma uma linguagem do trauma. A fragmentação da voz narrativa, a ausência de espelhos e a recorrência da imagem do mar são examinadas como símbolos que traduzem tanto a repressão quanto a subjetividade exilada. Dessa forma, percebe-se que o insólito não configura evasão, mas gesto político de resistência e denúncia velada, reativando pela via literária debates sobre memória histórica e permanências do autoritarismo.
Norma Jeane Baker of Troy é um texto dramatúrgico de Anne Carson que revisita a versão de Eurípides para a história de Helena. Estruturado como um monólogo que mescla poesia, drama e ensaio, o texto sobrepõe as figuras de Norma Jeane (nome de batismo da atriz Marilyn Monroe) e Helena de Troia. Inspirando-se no artifício do duplo presente em Eurípides, Carson examina como ambas, ainda que reduzidas a imagens moldadas por narrativas masculinas (tornando-se objetos de desejo e projeção), têm força de subverter a própria imagem. O artigo reflete como o trabalho de Carson olha melancolicamente para essa história, refletindo criticamente sobre o lugar da perda, da fragmentação e da ambiguidade como motores de uma história à contrapelo. Além de sua importância dramatúrgica, contribuindo para os estudos de gênero, a obra dialoga com a tradição clássica, propondo uma releitura crítica no presente que desafia convenções históricas e artísticas.
Este trabalho apresenta o relato de uma experiência exploratória de uso da Inteligência Artificial, mais especificamente dos Large Language Models – ou Modelos de linguagem de grande escala – para realizar traduções entre o par linguístico inglês/português numa disciplina de prática de tradução em nível de graduação. Foram propostas tarefas diferentes a cada semana, explorando diversos gêneros textuais e interagindo com esses modelos, para conhecer melhor suas capacidades e limitações. Paralelamente à disciplina de graduação, foi ministrada também uma disciplina de pós-graduação, na qual se realizou uma ampla discussão sobre as novas tecnologias e suas consequências para os Estudos da Tradução. Os cursos paralelos se influenciaram mutuamente e dialogaram em grande medida, gerando resultados inusitados e surpreendentes, que são aqui partilhados com o intuito de incrementar a discussão sobre este momento crucial em que o avanço tecnológico nos convoca a moldar nossas práticas didáticas e profissionais na área da tradução.
Este artigo realiza um estudo comparativo das traduções do poema “O infinito”, de Giacomo Leopardi, geradas por inteligências artificiais (ChatGPT versões paga 5.0 e gratuita 4.0 e Gemini versões paga e gratuita 2,5 pro), com foco nas colocações morfológicas. A pesquisa parte da crescente presença de IAs na tradução literária e da escassez de estudos empíricos sobre a qualidade dessas traduções. A metodologia combina três procedimentos: criação de um agente orientador para auxiliar na elaboração dos prompts, etiquetagem morfológica com o software Stanza e análise de n-gramas via técnica ROUGE. A hipótese é que traduções por IA podem apresentar variações significativas nas estruturas morfológicas. Os resultados indicam que, quantitativamente, as IAs mantêm boa parte das colocações do texto-fonte nas traduções, e que muitos problemas decorrem da formulação inadequada dos prompts. Qualitativamente, observou-se que as IAs conseguiram preservar o estilo leopardiano, especialmente na colocação dos vocábulos.
Transmediality refers to the potential of concepts to "travel" across arts or media and is thus related to intermediality, although not all scholars consider it a variant of intermediality. This contributionargues that it makes sense to do so. Some of the benefits of this classification will be illustrated with respect to repetition in literature and music. Transmedial comparisons often show that some media or media-specific genres can realize a transmedial phenomenon better than others. This is also the case with repetition. It will be pointed out that, owing to the incompatibility between narrativity and large-scale, merely form-motivated repetition, the latter is more frequent in tendentially non-narrative media or genres and that the tendency towards, or avoidance of, such repetition can indicate the narrative potential of a given medium or genre. Besides being a contribution to inter- or transmediality studies, the essay is thus relevant to narratology.
The main scope of this article is to present a critical analysis of the work of the Argentine writer María Negroni, with an emphasis on her book Pequeño mundo ilustrado (2011, 2021). As an organizing background for the analysis, I seek to reflect on how Negroni’s production is inseparable from a critical-theoretical consideration about the possible connections between transparency and opacity. The article is organized into three movements: the first of them aims to contextualize the author, directing the discussion towards the book Pequeño mundo ilustrado; the second movement reiterates the fundamental presence of Joseph Cornell in Negroni’s poetics, both with regard to the themes of their works and with regard to the narrative techniques elaborated by Negroni based on Cornell; the third movement summarizes the axes presented through an analysis of Negroni’s book entitled Cartas extraordinárias.